2005 – I Congresso Brasil de Pedagogia Waldorf

Participação de Ruth Salles

No mês de julho de 2005 aconteceu o “I Congresso Brasil de Pedagogia Waldorf” no Bairro Demétria, em Botucatu, organizado pela Federação das Escolas Waldorf do Brasil e pela Escola Aitiara do Campo. O tema abordado nesse importante encontro da Pedagogia Waldorf em nosso país foi a “Língua Materna”. Durante seis dias estivemos imersos no universo da linguagem, e a apresentação da poetisa Ruth Salles nos levou ao cerne de todo o congresso.

Para tal empreitada, muitos palestrantes ofereceram seus conhecimentos para um público de aproximadamente 400 pessoas.

A riqueza da Língua Portuguesa nos foi desvendada através de inúmeras vivências, trazendo-nos assim uma profunda reflexão sobre a expressão da alma do povo brasileiro.

Às tardes, tínhamos o prazer de conhecer um novo aspecto de conceituados escritores que voltaram suas vidas para a busca da expressão de seus sentimentos. Machado de Assis, João Guimarães Rosa, Cecília Meireles e Sophia de Mello estiveram presentes nessas palestras, e de forma magistral pudemos nos aproximar um pouco mais da essência de cada autor.

Na última tarde, no dia 29 de julho, recebemos um quinto e precioso presente. A querida poetisa, compositora e autora Ruth Sylvia de Miranda Salles compareceu ao congresso para nos falar um pouco de sua obra.

Desde muito menina, Ruth Salles se aproximara da poesia. Antes mesmo de escolher a Escola Waldorf Rudolf Steiner (antiga Escola Higienópolis) como a escola para seus filhos, ela já havia sido premiada por sua obra. Quando os professores souberam de tal habilidade, começaram a lhe pedir ajuda, e assim a talentosa poetisa passou a receber novas e importantes “tarefas”.

Há 39 anos, Ruth Salles faz parte da história da Pedagogia Waldorf no Brasil. Nesse encontro tão especial, ela nos contou um pouco de sua trajetória familiar, há muito envolvida no mundo da linguagem escrita e musical. Toda a sua formação lhe deu um lastro significativo para que pudesse, um dia, contribuir para o aprendizado de tantas gerações das escolas Waldorf por todo o país.

Com simpatia contagiante e muito bom humor, ela nos trouxe algumas lembranças de seus momentos de criação, fosse por um pedido de professores da escola ou mesmo por situações vividas por ela em sua atribulada vida de mãe e esposa.

Para muitos, naquela tarde, esse foi o primeiro contato com a autora Ruth Salles. Embora já houvessem trabalhado com alguns de seus textos em classe, entre as centenas de versos e poemas que escreveu, não tinham ainda a dimensão de sua importância no contexto da história da Pedagogia Waldorf Brasileira. Em seus textos, Ruth Salles esteve empenhada em propiciar aos alunos vivências de acontecimentos históricos e aspectos geográficos, textos que auxiliassem a compreensão da gramática, da matemática, de ciências (astronomia e mineralogia), versos para as aulas de euritmia, versos rítmicos para o momento inicial da aula e para o aprimoramento da “fala” e da dicção.

Ruth Salles voltou seu olhar também para as peças de teatro encenadas da 1ª à 8ª série do Ensino Fundamental. São inúmeras as peças de sua autoria e de outros autores que puderam ser trabalhadas por ela através de traduções e adaptações dos textos originais. Este esforço tornou possível aos professores contar com textos de autores europeus como William Shakespeare, Friedrich von Schiller, Helmut von Kügelgen e Calderón de La Barca, entre outros. Escreveu lindas peças baseadas em textos de Charles Dickens e Mark Twain.

Ruth Salles descreveu com entusiasmo seu processo de criação. Cada obra é escrita a partir de um profundo estudo. Presenteou-nos com o exemplo da peça para o 4º ano do Ensino Fundamental “A Viagem de Martim Afonso”. Para contar esta passagem de nossa história, Ruth Salles inteirou-se das particularidades de uma caravela, sua tripulação e sua linguagem, nomes de instrumentos náuticos e orientação cartográfica.

Todo este conteúdo, profundamente elaborado, transportava e ainda transporta o aluno para um ambiente mágico. Esta vivência (posso confirmar por ter sido aluna dessa pedagogia e hoje por ser também uma de suas professoras) vale muito mais que qualquer exposição de fatos históricos ou de inúmeros questionários que lidem com o assunto.

No início, crianças disseram seus versos rítmicos sobre o Pica-pau, que ilustraram o quanto suas criações e traduções atuam através de palavras cuidadosamente escolhidas. Durante sua fala, também houve interlúdios. Um grupo de crianças e jovens da 3ª e da 7ª série da Escola Aitiara representou sua tradução de versos de Kopisch (ditos pela euritmista Suzana), que tratam da ajuda de duendes às pessoas de diferentes profissões. E pudemos contar com a professora Denise, de Euritmia, que nos convidou para recitarmos euritmicamente o verso “À Beira da Baía”.

Para todos, essa tarde pôde coroar com grandiosidade o tema abordado, “A Língua Materna”. A apresentação da poetisa Ruth Salles nos levou ao cerne de todo o congresso. A língua de um povo traz dentro de suas palavras, de seus fonemas, a expressão de sua individualidade.

Ninguém mais que nossa querida Ruth Salles sabe e conhece o “Espírito da Língua Portuguesa” e através de seu talento nos presenteia com sua criação.

No fim de sua explanação, o auditório, com a ajuda de gongos simulando o som de relógios, ofereceu a linda música composta por Luiz Roberto Oliveira (seu primo) com letra de sua autoria, “Carrilhão da Noite”. Professores de muitas gerações se emocionaram com essa homenagem àquela que, com generosidade e amor, dedicou sua vida à educação.

Sem Ruth Sylvia de Miranda Salles nosso caminho teria sido inúmeras vezes mais difícil. Muito obrigada!

Escrito por Cecília de Camargo Bittencourt Rinaldi.