Poemas para a Páscoa – traduções

traduções de Ruth Salles

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poema de Conrad Ferdinand Meyer

Dizia o Espírito: “Olhe, foi num sonho.
No claro espaço o olhar erguido eu ponho.
Vejo entre as nuvens o Senhor partindo
para seus doze o pão. Distribuindo
palavras de esperança e amor profundo,
abre os braços e envolve todo o mundo.”

Dizia o Espírito: “Olhe, vi o linho
pairando sob a ceia. E o pão, e o vinho,
e milhares de mãos que se estendiam.
E as pontas da mesa se esvaíam
em névoas. E em degraus, sem ser chamados,
vultos sofridos viam-se sentados.”

Dizia o Espírito: “Olhe! O azul do céu
envolve a ceia imensa com seu véu.
Brota a água da vida em profusão,
e nenhum prato se estendeu em vão.
Todos se deitam no trigal macio.
Não há fome. Não há lugar vazio.”

 

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Sobre a Páscoa

poema de Novalis – Friedrich von Hardenberg

Eu digo que Ele vive, a toda gente,
e que ressuscitou,
e que junto de nós e para sempre
pairando Ele ficou.

Eu digo, e todos vão também dizer
aos companheiros seus
que em breve em toda parte vai nascer
novo reino dos céus.

Perante um novo modo de sentir,
o mundo reaparece;
e a vida nova em nós a ressurgir
da mão dele é que desce.

Vejo o terror da morte mergulhar
no fundo mar escuro
e toda gente agora a contemplar
com calma seu futuro.

A vereda sombria que Ele abriu
para o céu é que vai,
e quem os seus conselhos já ouviu
chega à casa do Pai.

Agora, ao ver morrer alguém querido,
sofremos sem temor.
Saber que o reencontro é concedido
suaviza essa dor.

Com muito mais fervor vamos agir
nos feitos mais singelos,
pois essa sementeira vai florir
em campos bem mais belos.

Ele vive e conosco sempre resta
quando nos falta tudo!
Que este dia nos seja como a festa
do renovar do mundo.

 

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Disse o Senhor a Moisés e a Aarão

poema adaptado do livro do Êxodo, capítulo 12

Sacrificareis um cordeiro,
um cordeiro branco e sem mancha alguma,
e tingireis com seu sangue o umbral de vossas portas.
Vós o comereis com pães sem fermento,
e tendo já os vossos rins cingidos,
sandálias nos pés e cajado na mão.
Comereis o cordeiro a toda a pressa:
é a Páscoa do Senhor.
Assim, nessa noite,
quando eu passar para ferir o Egito,
vendo o sangue em vossas portas não permitirei
que o Destruidor penetre em vossas casas
para vos ferir.
Quando tiverdes chegado à terra que Eu vos darei
como prometi,
observai este rito para sempre.
É o sacrifício da Páscoa,
em honra do Senhor que, ferindo os egípcios,
preservou vossas casas.

 

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Poema de Páscoa

poema de Albert Steffen, do livro “Wegzehrung”

O ar oprime e faz medo, e o frio, e a escuridão;
mal se sente bater o próprio coração…
E assim nenhum consolo encontram os amigos,
e tímidos, então, rodeiam meu jazigo
e sentem, de meu sopro, o ar da morte passar.
– Ó vós, tudo o que tendes, a fala, o olhar,
e que trazeis a mim, o sepulcro devora,
insaciável sugar de meu túmulo agora.

Porém, ante o sepulcro, eis o Cristo postado!
Olhai! De quanta luz Ele está rodeado!
Reparai no calor que se irradia dele,
subi do vosso Nada ao Tudo que está nele,
estendei vossas mãos em sua direção,
cruzai-as junto ao peito e: “Eu sou!”, dizei então.
E o calor e a luz, fluindo em mim, florescem,
e o último inimigo – a morte – se esvanece.

 

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