Um Gato vê os Homens


(sem querer imitar o Drummond em “Um Boi vê os Homens”)

Parece que nunca estão onde estão, irrequietos,
porque não se deitam e se espreguiçam numa ideia só.
Os olhos focam de leve, parece que focam ninguém,
estão se procurando por todo lado.
Não têm nossos bigodes longos
indispensáveis ao equilíbrio,
por isso é que, tontos, passeiam daqui pra ali.
Precisam de muita coisa, muita coisa,
tablados para se sentar, se encostar, comer, deitar.
Que difícil!
Não sabem se haver no chão nem nas beiradas das janelas.
As pernas e os braços são muito longos,
demoram a receber a própria vontade que têm.
E, quando alcançam, já é um pouco tarde, parece que não sabem o que buscavam.
Seu afago em nós faz bem quando vem,
e é, para eles, como um consolo que os surpreende.
Seu riso é bom. Diz alguma coisa, não sei se deles.
As vassouras do seu pensamento não sabem varrer nada,
a não ser o pó da irrealidade.
Por isso, nosso campo de força além do pelo
importa que seja usado e importa que carregue e leve embora
o que está no ar em volta deles.

 

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