5 – A concepção do ser humano segundo a Antroposofia

 A ciência do ser humano

por Rubens Salles

A Pedagogia Waldorf se desenvolveu e se realiza levando em consideração que o ser humano é formado por um conjunto de forças que vai além do seu corpo físico, e que precisam ser compreendidas e consideradas para que a educação não seja apenas para ensinar matérias à crianças, mas sim uma ciência para o desenvolvimento humano.

O corpo físico e as forças vitais

Embora os seres orgânicos – vegetal, animal e homem – sejam constituídos fisicamente pelas mesmas substâncias que também fazem parte do reino mineral, como oxigênio, carbono, cálcio, ferro etc, sua formação e seu desenvolvimento estão sujeitos a diferentes leis naturais. Enquanto os minerais não sofrem alterações em sua estrutura física, a não ser por forças externas, os seres orgânicos têm uma existência limitada no tempo. Eles nascem, desenvolvem-se e depois morrem. Os serem orgânicos possuem, além do seu corpo mineral ou físico, um conjunto de forças vitais, individualizado e delimitado, que não é físico. Este conjunto de forças vitais é que dá vida aos seres e impede que sua matéria siga as leis normais da química e da física, o que permite, por exemplo, que a planta cresça para cima, em sentido contrário à força da gravidade. São forças que não atuam nos minerais, os quais existem apenas no espaço, pois, por si só, não se desenvolvem com o tempo.

Quando um ser orgânico morre, seu corpo físico se decompõe e sua substância volta ao reino mineral, e passa a obedecer novamente às leis do mundo inorgânico, o que demonstra que o estado puramente mineral é o oposto da vida. Podemos reconhecer essas forças atuando quando, na proximidade da morte ocorrem os processos de desvitalização, depósitos de cristais, cálculos. Sueli Passerini afirma que “é o eterno jogo de vida e morte, entendido como o jogo entre as forças modeladoras, portadoras da vida, e as forças mineralizantes, portadoras da morte”.(1)

Assim, podemos afirmar que o que diferencia os seres dos reinos orgânicos vegetal e animal, inclusive o homem, do reino mineral e inorgânico, é o que chamamos de vida, onde há nascimento, respiração, metabolismo, crescimento, regeneração, reprodução e morte. Estas forças vitais também são chamadas por Steiner de corpo vital ou corpo etérico.(2)

 

O corpo astral e as forças anímicas

A vida de todos os seres orgânicos depende das influências do meio ambiente, da luz solar, da água, do ar. Homens, animais e plantas vivem, mas de formas muito diferentes:

1) Enquanto as partes da planta desenvolvem-se uma a uma com o correr do tempo, os homens e os animais, com exceção dos casos de metamorfose, já nascem com seus corpos completos.

2) Enquanto as plantas vivem à mercê de todas as intempéries e influências do meio ambiente, o homem e os animais se locomovem no meio ambiente e podem procurar os lugares mais adequados para a realização de seus instintos e necessidades.

3) Enquanto as plantas vivem num estado de constante “dormência”, sem expressar nenhum tipo de sensação, os homens e os animais passam por estados alternados de sono e de vigília, e possuem a característica de sentir e expressar sensações e instintos, sendo que os animais superiores o fazem também com o uso da voz.

Assim, verificamos que tanto o homem como os animais possuem um conjunto de forças anímicas que as plantas não possuem. No caso dos animais estas forças adquirem características específicas para cada espécie. Conhecendo os hábitos de uma espécie selvagem, podemos saber exatamente qual será o padrão de comportamento de um filhote mesmo antes de seu nascimento. No caso do homem isso já não é possível, pois nossas forças anímicas são individuais, e cada ser humano tem diferentes simpatias, antipatias, ideais, desejos, paixões etc. Estas forças anímicas também são chamadas por Steiner de corpo das sensações ou corpo astral.(3)

 

O Eu – o espírito humano

Além de uma identidade anímica individual, só o homem tem consciência de si mesmo como indivíduo, e outras faculdades que não encontramos nos animais. Lanz destaca cinco faculdades exclusivas do homem:

1) Só o homem pode pensar, opor-se ao mundo numa relação sujeito-objeto. Ele pode representar de maneira abstrata as suas vivências sensoriais e elevar-se a conceitos e ideias;

2) O homem possui a durabilidade dos sentimentos, além da presença da causa. Mais ainda, pode provocar um sentimento por pura representação mental. O animal está entregue às suas sensações e sentimentos. Cessando a causa que lhe provoca uma sensação ou um sentimento, acaba também o estado anímico;

3) Só o homem pode representar, sob a forma de imagens, um ser ou uma situação da qual não há mais vestígio. A memória, como faculdade de “chamar de volta” qualquer situação vivida anteriormente, é uma faculdade exclusivamente humana;

4) O homem pode dominar-se, renunciar a um prazer ou à satisfação de um desejo. Ele pode ponderar vários motivos, refletir sobre as consequências de um ato passado. Tudo isso é impossível ao animal. Nenhum animal pode dominar seus instintos por uma decisão autônoma.

5) Só o homem pode ter a liberdade de agir, e escolher conscientemente entre vários atos possíveis. Somente ele pode agir moral ou imoralmente; o animal segue trilhas fixas e pré-determinadas pelas características de sua espécie. Ele é irresponsável.(4)

O Eu, este elemento que determina a autonomia da personalidade do homem, sua consciência individual, e que representa o seu espírito, é o que o distingue do animal. Por meio dele, o homem pode controlar seus sentimentos, instintos e paixões. O controle do espírito sobre nossos impulsos anímicos vai determinar nossa ética. Para Steiner, ao designar-se como “eu” o homem dá, em seu íntimo, um nome a si próprio. Um ente capaz de dizer “eu” a si próprio constitui um mundo por si.(5)

Esta concepção sobre a constituição do ser humano não é uma exclusividade da Antroposofia. Embora seja quase completamente ignorada no mundo ocidental, as escolas filosóficas do oriente já a conheciam há muitos milênios. Tanto hindus, como chineses, caldeus, egípcios e hebreus, referem-na em suas obras e textos, quer profanos quer esotéricos.(6)

No quadro abaixo, podemos perceber como culturas muito diferentes entre si, e orientadas por diferentes correntes filosóficas, desenvolveram conceitos semelhantes quanto à constituição do ser humano.

Bibliografia

  1. PASSERINI, Sueli. O Fio de Ariadne, 1998, p. 33.
  2. STEINER, Rudolf. A Educação da Criança segundo a Ciência Espiritual, 1984, p. 11.
  3. STEINER, Rudolf. A Educação da Criança segundo a Ciência Espiritual, 1984, p. 13.
  4. LANZ, Rudolf. Pedagogia Waldorf, 1990, p. 20-21
  5. STEINER, Rudolf. A Educação da Criança segundo a Ciência Espiritual, 1984, p. 14
  6. MIRANDA, Caio. A Libertação pelo Yoga, 1960, p. 147

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