6 – Pensar, Sentir, Querer

As capacidades anímicas do ser humano

Um dos piores erros consiste em acreditar
que a pedagogia é a ciência da criança,
e não do ser humano. Janusz Korczak

Todas as atitudes que tomamos em nosso cotidiano, durante a vida inteira, passam por três estágios: Pensar, Sentir e Querer/Agir. A cada decisão que a vida nos impõe, das mais simples, como ir ou não ao cinema, até as mais graves, como cometer ou não um delito, nós pensamos logicamente sobre o fato, avaliamos as sensações que ele nos causa, como: entusiasmo, desânimo, desconforto, determinação, medo, raiva, carinho, vergonha etc. Após este filtro emocional, nós decidimos que atitude tomar sobre o fato.

A arte de educar deve proporcionar ao ser humano um desenvolvimento completo e equilibrado, incluindo o Pensar, o Sentir e o Querer, para que ele possa ter um pensamento claro, um sentimento capaz de estabelecer relações de forma saudável, e para que consiga realizar coisas boas no mundo. Segundo Marta Veiga “estas três capacidades devem estar interligadas, integradas, e sempre conversando e harmoniosamente se estabelecendo.”(1)

Cada uma destas capacidades anímicas, olhada separadamente, tem características que lhe são preponderantes:

• O Pensar (cognição, intelecto, memória) se relaciona principalmente com o sistema neuro sensorial, e se realiza num estado de consciência que podemos chamar de vigília plena. Do ponto de vista temporal, relaciona-se mais com o passado, onde reside o que já existe como conhecimento.

• O Sentir (sensações, emoções, vida sensível) situa-se entre o Pensar e o Querer. Relaciona-se com os sistemas rítmicos respiratório e circulatório, e se realiza num estado de semiconsciência, ou consciência onírica. Sabemos que nossas emoções têm efeito direto sobre nosso ritmo respiratório, nossa frequência cardíaca e até sobre nossa pressão sanguínea. Do ponto de vista temporal relaciona-se mais com o presente, representando o reflexo emocional do que acontece a cada momento vivido.

• O Querer (agir, vontade, ação volitiva) se relaciona com os sistemas metabólico e motor, e se realiza num estado de inconsciência, ou vigília dormente. Isso porque não temos consciência alguma sobre o funcionamento de nosso metabolismo e de nossos movimentos, necessários para realizar nossas ações. Do ponto de vista temporal, relaciona-se com o futuro, o que queremos vir a realizar.

Quadro 2 – As capacidades anímicas do ser humano

 Capacidades anímicas do ser humano Pensar / cognição / intelecto / memória Sentir / sensações / vida sensível Querer / vontade / agir / ação volitiva

Características preponderantes

Sistema relacionado e
ponto de concentração
neuro sensorial – cabeça rítmico respiratório e
circulatório – tórax
metabólico e motor
abdome e membros
Em que estado de
consciência se realiza
vigília plena / consciência vigília onírica /
semiconsciência
vigília dormente /
inconsciência
 Relação temporal  mais forte com o passado  mais forte com o presente mais forte com o futuro

Fonte: Lanz (1990, pg. 28) – Organização nossa

Estas três capacidades anímicas se desenvolvem e se relacionam de forma diferente a cada período da vida. Uma criança pequena, por exemplo, tem o Querer muito forte e intimamente ligado ao Sentir. Quando ela se agita pedindo alguma coisa é porque cada movimento dela está ligado à sua vontade. Já com o idoso acontece o contrário, o Querer tornou-se independente do Sentir, que passou a ligar-se mais ao Pensar.

“É pertinente à vida humana o fato de se percorrer um caminho das capacidades anímicas humanas à medida que o querer cheio de sentimentos da criança evolui para o pensar cheio de sentimentos do ancião. Entre ambos se situa a vida humana, e só educaremos bem para essa vida humana se pudermos enfocar psicologicamente tal fato[…] É justamente com isso que temos que lidar de várias formas na educação: com o desligamento do sentir em relação ao querer e com sua posterior ligação com o pensar cognitivo. Isso concerne então à idade madura. Só prepararemos corretamente a criança para a idade posterior fazendo com que o sentir possa desprender-se tranquilamente do querer; então mais tarde, como homem ou mulher, ela poderá ligar o sentir liberto ao pensar cognitivo, tornando-se adulta para a vida”.(2) Rudolf Steiner

Quadro 3 – Os polos opostos na natureza do ser humano

 Natureza Corporal Anímica Mental sensível
Criança Irrequieta e
inconscientemente ativa
Estreita conexão entre
o Sentir e o Querer
Caráter volitivo
Idoso Tranquila e contemplativa Estreita conexão entre
o Sentir e o Pensar
Caráter mais racional
e intelectual

Fonte: Steiner (2007a, pg. 88) – Organização nossa

Desenvolvendo as capacidades anímicas – exemplos

O Pensar educa-se, basicamente, exercitando-se o raciocínio lógico (matemática, álgebra, geometria etc.), vivenciando-se experimentos científicos (biologia, astrologia, botânica etc.), estudando a história, interpretando textos etc. Estudos recentes, como veremos adiante, comprovam também que tocar um instrumento musical tem um forte impacto do desenvolvimento cognitivo.
O Sentir desenvolve-se através das experiências emocionais. Estas podem ser proporcionadas pela vivência das relações humanas, pelo contar histórias (contos de fadas, lendas, fábulas, mitos, biografias etc), e pela interpretação de músicas, canções, poemas, pela dança, pelo teatro etc. No teatro, interpretando personagens, heróis, vilões, sábios, aventureiros, idealistas, mesquinhos, nobres, plebeus, deuses etc, a criança e o adolescente vivenciam coragem e medo, solidariedade e avareza, alegria e tristeza, humor e amargura, lealdade e traição, amor e ódio etc, e essa vivência lúdica ensina a apreciar o que é bom e repugnar o que é ruim, ajudando assim a fortalecer o seu caráter.

O Querer, a capacidade de agir, de decidir e atuar, desenvolve-se através de atividades que exigem criar ou realizar algo absolutamente individual. Para isso, são indicadas as atividades que exigem uma ação manual transformadora, como criar um texto, um desenho, uma escultura, um trabalho em madeira etc. Para desenvolver a vontade, exercendo uma influência positiva sobre a natureza sentimental da criança, também devemos promover a repetição das ações, dia após dia.

Como vimos, do ponto de vista da Pedagogia Waldorf, as atividades artísticas, muito mais do que simples prazer ou entretenimento, são essenciais para a formação equilibrada do ser humano, e precisam acontecer durante a infância e a adolescência, no período do ensino fundamental. O educador precisa conhecer como se desenvolvem, no decorrer da vida, as capacidades anímicas humanas – pensar, sentir e querer – e saber quando e como estimular seu desenvolvimento em cada criança.

Bibliografia

  1. VEIGA, Marta A. Aula do projeto Dom da Palavra (gravada em vídeo). 2008.
  2. STEINER, Rudolf. A Arte da Educação I. 2007, p. 88.

 

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