A história de Tobias

peça de Georg Starke extraída do Livro de Tobias – Antigo Testamento
versão para o português de Ruth Salles

Tobias, da tribo de Neftali (da Galileia), foi levado cativo, com muitos dos seus, para a cidade de Nínive, na Assíria, cujo rei era Salamanasar. Com ele foi também sua mulher, Ana, e seu filho, também chamado Tobias. O velho Tobias, cumpria seriamente, desde a infância, as leis dos israelitas, distribuindo dízimos e primícias. Dividia tudo o que possuía com os irmãos, alimentava e vestia os pobres, consolava os desolados e enterrava os mortos. O rei o estimava; nesse tempo, ele foi a Rages, onde emprestou prata a seu amigo Gabael, em troca de um recibo do próprio punho. Depois da morte do rei Salamanasar, reinou Sanherit, que perseguia e mandava matar os israelitas. O velho Tobias, às escondidas, enterrava os mortos. Um dia, ao voltar para casa cansado, recostou-se no muro, e uma andorinha deixou cair esterco quente em seus olhos. Tobias ficou cego. Ana, sua mulher, trabalhava fiando e tecendo. Tobias, desolado, ora a Deus, rogando pela morte. Ao mesmo tempo, em Ecbatana, Sara, filha de Ramuel, orava também a Deus por ter sido casada sete vezes e, nas sete vezes, quando o marido se aproximava, era morto pelo demônio Asmodeu. As orações de ambos foram ouvidas, e Deus mandou o arcanjo Rafael ajudá-los. O velho Tobias, achando que logo ia morrer, chama seu filho e o manda buscar a prata emprestada a Gabael, e diz que arranje um companheiro para a viagem. Rafael aparece como um belo jovem, mas não se dá a conhecer, e promete acompanhar o jovem Tobias. Eles partem. À beira do rio Tigre, Tobias se assusta com um enorme peixe. Rafael ordena que ele o pegue pelas guelras, que lhe tire a vesícula, o coração e o fígado, que vão servir de remédio. Depois, comem um pouco da carne e salgam o resto para a viagem. Parando em casa de Raguel, parente do velho Tobias, Rafael ordena a Tobias que peça sua filha Sara em casamento. Tobias, que sabe de sua história, assusta-se, mas Rafael inspira-lhe confiança e diz que Sara está destinada a ele. Jogam o coração e o fígado nas brasas, e a fumaça espanta o demônio. Sara e Tobias ficam três dias em oração, antes de se unirem. Festeja-se o casamento e Raguel reparte seus bens. Rafael ainda vai buscar a prata com Gabael e depois os três regressam. Enquanto isso, todos os dias Ana sobe a montanha esperando ver os viajantes. Tobias vêm na frente, depois Sara com seu séquito. No caminho, Rafael dá instruções a Tobias. Ao chegar em casa, ele deve rezar e untar os olhos do velho Tobias com a bile do peixe. Assim é feito, e é grande a alegria. Depois, chega Rafael trazendo Sara com a prata de Gabael e suas posses. Pai e filho querem recompensar o companheiro de viagem, e então este se dá a conhecer como sendo o arcanjo Rafael. Nisto, ele desaparece. Todos se prostram ao chão, orando em agradecimento.

Geog Starke era médico antroposofista de Bingenheim, na Alemanha

 

PERSONAGENS

Coro (falado)
Coro (cantado)
3 homens
3 mulheres
garoto
2 soldados
Velho Tobias
Ana
Jovem Tobias
O arcanjo Rafael
Seres do fogo, da água e da luz
Voz
Sara
Raguel, pai de Sara
A mãe de Sara (personagem muda)

…………………………………………………………………………………

ENTRADA

CORO (canta):
“Tobias por nós será cantado,
ele, que, pelo arcanjo Rafael,
às terras do Oriente foi guiado.
Eis que está cego o Velho Tobias.
Perdida está sua visão
que veio das forças antigas.
E eis que no coração de Sara
o violento fogo não se apaga,
pois não pode ser consumido assim
o que provém do fogo de Caim.
Então o arcanjo Rafael, disfarçado,
trouxe a cura da dor e do pecado.
Pelo jovem Tobias foi mostrado
a pura luz, o fogo libertado.
Louvemos, pois, Rafael e sua cura,
que está à espera de quem a procura.

CORO (fala):
Oh, dor! Oh, luto! Oh, lamento!
Oh, tormento!
Joguemos cinzas na cabeça,
sim, joguemos,
pelo muito que sofremos
Pobre povo escravizado,
que perdeu a liberdade.
Tão longe da pátria estamos,
onde nosso Deus honramos.
Como é pesada e inclemente
a corrente
que impede a volta ao lar.
Só nos resta lamentar!

 

CENA 1

1°. HOMEM:
– Deve morar aqui, como disseram.
(Passam duas mulheres.)
– Parem, parem, mulheres! Sou amigo.
Não tenham medo. Aqui mora Tobias?

1a. MULHER:
– Desculpe-nos, senhor, termos passado.
Suas roupas estranhas nos assustam.

2a. MULHER:
– Como tomá-lo, assim, por nosso irmão?
Vem de tão longe? Nem conhece a casa
tão procurada pelos que padecem?

1°. HOMEM:
– Precisamos de ajuda, pois a morte
levou alguns de nós. Triste doença!
Como em todo lugar, a nós impedem
sepultá-los segundo os velhos usos,
com as orações que nossos pais diziam,
pelas bênçãos de Deus acompanhados.
Devemos nos voltar aos deuses deles
para que assim termine tal miséria.
A aldeia está cheia de soldados.
Temos de sepultar às escondidas
e imploramos a ajuda de Tobias.

3a. MULHER:
– Os apelos de todos são os mesmos:
cura aos doentes e consolo aos fracos;
aos mortos a certeza dos caminhos
que os levem à ressurreição um dia.
Tobias não se importa com o perigo
nem de ser vigiado em seus misteres.

1a. MULHER:
– Ele sabe o caminho, pois a tantos
já socorreu na derradeira hora…
(Chegam o 2o. e o 3o. Homens)

1°. HOMEM:
– Já nos ameaçam com cruéis castigos.

2a. MULHER:
– Se forem descobertos, serão todos
exilados pra terras mais distantes.

2°. HOMEM:
– Quem dera aos diabos sua recompensa!
Seria bem melhor morrermos logo.
Suas ações, assim, os perderiam.

3°. HOMEM:
– Silêncio! Alguém nos ouve. Dispersemo-nos!
(passam dois soldados babilônios)
Agora, foram-se. Depressa, amigo,
de onde são vocês e que desejam?
Os guardas voltarão. Somos suspeitos
por estarmos aqui assim parados.

1°. HOMEM:
– Perguntei-lhes Tobias onde mora.

3a. MULHER:
– Ele tem lá uns mortos e doentes.
Vai prepará-los piedosamente
para o caminho ao nosso Lar eterno,
segundo os usos dos antepassados.

1a. MULHER:
– Aqui roubaram-nos o nosso lar.
Suas crenças nos forçam a adotar.

2a. MULHER:
– Contudo, suportemos nosso exílio.
Há sempre uma esperança de voltar.

3°. HOMEM:
– Deixemos de conversa. Precisamos
ajudar os amigos, pois têm pressa.
Ali está a cabana de Tobias.
Está decerto em casa. Esta é a hora
em que tanto se arrisca no preparo
cuidadoso do santo sacrifício
que toda noite leva a seus irmãos.

GAROTO (sai correndo da cabana de Tobias):
– Ó amigos, escutem! Que tristeza!
Eu mal tenho coragem de contar
qual a desgraça que atingiu Tobias.
Ele estava deitado, descansando,
quando, de um inocente passarinho,
resvala do telhado o leve esterco
e cai justo nos olhos de Tobias.

3a. Mulher:
– E ele está cego?

GAROTO:
– Ainda não sabemos.
Por enquanto ele tem a vista turva
e sofre muitas dores.

3°. HOMEM:
– Como sabe?

GAROTO:
– Eu sou amigo do jovem Tobias,
e brincávamos lá atrás da casa,
quando Ana, sua mãe, chamou por ele,
e foi dos lábios dela que ouvi tudo.

CORO (falado e em surdina):
– Oh, destino amargo!
Sempre atinge os bons!
Quem o vai mudar?
Como terminar?
Oh, que triste dor!
Piedade, Senhor!

2°. HOMEM:
– Nada de queixas, nada de rancores.
O melhor é ajudar.

2a. MULHER:
– E nós podemos
retribuir amor ao bom Tobias.

3°. HOMEM:
– Um bom serviço a ele prestaremos
seguindo fielmente seu exemplo.
(Os dois soldados babilônios voltam)

1°. SOLDADO:
Que fazem aqui todos? Vocês sabem
que é proibido!

2°. SOLDADO:
– Então! Vão trabalhar!
Dispersem-se daqui ou serão presos
e logo aprenderão a obedecer.
(As mulheres e os homens abandonam o local e se unem ao coro)

1°. SOLDADO:
– Não se pode entender bem esse povo.
Ora estão no limiar do desespero,
ora orgulhosos erguem a cabeça.
Sabe quem é Tobias?

2°. SOLDADO:
– Sim, o velho
que mora na cabana arruinada?
Parece para mim ser ele o centro
de um culto executado às escondidas.

1°. SOLDADO:
– O velho deve ser um homem bom,
pois olhos tão brilhantes nunca vi.

CORO:
– Oh, dor! Oh, luto! Oh, lamento!
Oh, tormento!
Joguemos cinzas na cabeça!
Sim, joguemos,
pelo muito que sofremos!
Quem aqui na terra estranha
nos deu ânimo e esperança,
como cego foi deixado,
da luz dos olhos privado!

(Música leve como na entrada. Dois assentos são postos à esquerda para Ana e Tobias. Uma roca para Ana. Tobias e Ana ocupam seus assentos.)

CORO:
– Onde há uma boa ação ligada à provação,
o lema é vigiar e amar o seu destino.

VELHO TOBIAS:
– É uma bênção divina poder dar,
com um gesto amigo, alívio ao desespero.
Como era bom poder andar na noite
para levar a luz a todo irmão
que já tinha seu corpo enfraquecido,
ainda com fé numa libertação.
Eu pude conduzi-los consolados
ao limiar da vida, dando à terra
a sua vestimenta corporal.
Mas o destino me cegou os olhos.
Ah, se eu achasse, em vez da luz terrestre,
o sol eterno, o resplendor celeste.
Para os dois lados, fecham-se os caminhos,
até que a morte me abra o escuro pórtico.

ANA:
– Temos em nosso filho o alívio às dores.
Ele olha para o mundo alegremente
e ampara o pai, sentindo-se tão grato…

VELHO TOBIAS:
– O amor que vocês julgam dar agora
para mim sempre foi fonte de forças.
Mas se Tobias fica aqui conosco
muitas coisas entravam seu caminho,
e é tempo de sair e ver o mundo.

JOVEM TOBIAS (entra corremdo):
– Olhe pai, olhe aqui o que lhe trago!
Assim como aprendi, fiz o trabalho.
E os bons vizinhos deram muita coisa
daquilo que colheram. Vim correndo
para entregar tudo isto em suas mãos.

VELHO TOBIAS:
– Eu agradeço, mas… tão grande oferta…
Não nos devemos logo acomodar
àquilo que não vem do próprio esforço.

JOVEM TOBIAS:
– Ó pai querido, por favor, aceite!
Quem deu tanto aos amigos vai magoá-los?

ANA:
– É a simples gratidão dos bons vizinhos.
E agora, filho, escute o que pretende
seu dedicado pai do seu futuro.

VELHO TOBIAS:
– Filho, você é moço, e o tempo é curto.
Você deve sair, ver outras terras.
O coração se amplia na jornada.
Pensei mandá-lo a Rages, onde mora
Gabael, meu amigo. Eu lhe emprestei
um dia alguma prata como auxílio.
Ele está pronto a devolver tal soma
que nos aliviará tanta pobreza.
Ah, se eu pudesse acompanhá-lo, filho.
Que a sorte lhe consiga um bom amigo
que faça com você essa viagem!

JOVEM TOBIAS:
– Querido pai, dói-me a separação,
mas o desconhecido já me atrai.
Farei sua vontade. Quem me dera
restituir-lhe a saúde em meu regresso!
Não me aflige pensar num companheiro.
Sei como ter confiança no destino.

RAFAEL (com vestimenta de viagem):
– Nada receiem. Eu estou aqui.
Perdoem-me escutar toda a conversa (para Tobias)
Confie em mim. Sou eu que vou guiá-lo.

VELHO TOBIAS:
– Não o conheço e nem posso enxergá-lo,
mas pelo tom de voz sinto confiança.
Leve Tobias. Seja seu amigo.
O amigo que a ele foi mandado
por Deus.

RAFAEL:
– Venha, Tobias, dê-me a mão.

ANA (pendura uma sacola no ombro de Tobias):
– Que o amor divino o siga em seu caminho.

VELHO TOBIAS:
– Eu lhe agradeço, amigo. Deus os guarde!

CORO:
A boa ação de amor,
com ela os anjos tecem
as tramas do destino.

 

CENA 2

JOVEM TOBIAS:
– Não conheço você. Nunca o vi antes,
mas a mim não parece ser estranho;
como se do meu lado sempre andasse.
Você traz alegria, e eu não quero
perguntar de onde veio e quem o envia.
Meu coração só segue, nestes dias,
o impulso que a felicidade trouxe.
Sei que é amigo e que será meu guia.

RAFAEL:
– Você faz bem em não tecer perguntas
e em ter tanta confiança no destino,
pois sabe que o destino é seu amigo.
Não vou desiludir sua confiança.

JOVEM TOBIAS:
– Mas, quando olho admirado para o mundo,
sempre relembro o pobre pai, coitado.
Quisera devolver-lhe a luz dos olhos.

RAFAEL:
– Compreendo seu anseio, Em mim confie!
O caminho que juntos seguiremos
dará também resposta a esse enigma.
Mas já é tarde. O corpo quer descanso,
e a alma quer estar contemplativa.
Na margem deste rio repousemos,
e o que traz de milagres observemos.
(Ele leva Tobias para a água; pode transformar sua vestimenta de tal maneira, que aparece como anjo e fala com voz modificada.)
Você pode prender com os pés o que é sólido
e captar com a mente tudo o que tem forma.
As ondas das águas desejam mostrar-lhe
a vida formando-se em quadros, em cores.
Desate as sandálias
e lave seus pés
e pise com ânimo!
(Seres do fogo, da água e da luz aparecem. Euritmia e talvez música.)

SERES:
– Ondas tecendo, vida formando-se,
som ondulante fortalecendo-se
dentro da água em correntes constantes.
Cores refulgem,
ora desmancham-se, ora condensam-se.
Vida em substância
gera-se n’água em correntes constantes.

JOVEM TOBIAS:
– A mente guia-me! A terra firma-me!
O firme apoio dá-me o que é sólido.
Preso das ondas, ei-lo roubado.
Some nas águas meu firme apoio…

VOZ:
– Gerada pelas chamas lampejantes do fogo,
iluminada pela irradiação aclarante da luz,
permeada pelo poder vivo da água,
une-se a força curativa
à vida em substância
na forma do PEIXE.

JOVEM TOBIAS:
– Em que me apoio? Estou afundando!
O monstruoso peixe quer devorar-me!

RAFAEL:
– Pegue-o com ânimo, com mão bem firme!
Traga-o à terra, que ele se acalma!
(Tobias o pega. Os três seres desaparecem.)

RAFAEL:
– Gerado pelas chamas lampejantes do fogo,
iluminado pela irradiação aclarante da luz,
permeado pelo poder vivo da água,
o PEIXE
traz a força curativa
à vida em substância.
(A visão terminou. Rafael de novo como companheiro de viagem.)

JOVEM TOBIAS:
– Presenciei uma visão curiosa.
Quando perdi a confiança, conquistei-a.

RAFAEL:
– Tire a vesícula e o coração
e o fígado do peixe. Deles querem
as forças libertar-se. Vão cumprir
com o desejo que seu coração guarda.
Vamos à casa de Raguel. Sua filha
a sorte vai-lhe dar por boa esposa.
De terrível doença a curaremos,
e assim tudo se torna um bom destino.

VOZ:
– Se, corajosamente, você aprisionar
as forças primitivas,
terá em suas mãos por fim capturadas
as forças curativas.

(Música. Os dois saem. Os atores da cena 3 vão para seus lugares.)

 

CENA 3

(Casa de Raguel. Pequeno altar com incenso. Sara, Raguel. A mãe como personagem muda.)

SARA:
– Dois homens vêm chegando à nossa casa.
Oh, céus, que sofrimento! Com certeza
vêm de novo pedir-me em casamento,
o que levou à morte os outros sete,
pela doença maléfica que tenho.

RAFAEL (entrando com o jovem Tobias):
– Nós saudamos a todos. Não nos temam!
Essas forças do mal nós conhecemos,
e desse mal viemos libertá-la.
Este é Tobias. O destino o trouxe
para ser seu marido. Em suas mãos
ele tem a substância curativa.
Siga a vontade de sua alma pura.

RAGUEL (para Tobias):
– E a força maléfica do fogo,
que produz o desejo e gera a morte,
você também conhece?

RAFAEL:
– Eu devolvo ao fogo o que dele veio:
coração e fígado do peixe sagrado.
Depurado n’água, ele solta os vínculos.
Onde a luz o gerou, transforma a dor.

JOVEM TOBIAS (jogando no fogo do altar o coração e o fígado):
– Eu devolvo ao fogo o que dele veio:
coração e fígado do peixe sagrado.
Depurado n’água, ele solta os vínculos
e, gerando luz, transforma a dor.

(Rafael sai sem que os outros percebam.)

SARA:
– Sinto que as forças do mal me deixaram.
Quanto estou grata por tal benefício!

RAGUEL:
– Sinais milagrosos nos trouxe o destino,
e uniu-os por meio de forças profundas.
Destino sábio reina nas águas,
sujeita o fogo ao poder de cura.

RAFAEL (voltando despercebido):
– Outras notícias boas trago agora.
Não precisamos ir a Gabael,
pois ele já me deu de volta a prata
e deseja a seu pai que ela lhe sirva
de ajuda em sua vida benfazeja.

JOVEM TOBIAS:
– Podemos, pois, voltar à nossa casa.
Que bom ver o meu pai ainda vivo!
Voltar agradecido e de mãos cheias!
Devem sumir misérias e cegueira.

VOZ:
– Confiando no destino,
seguindo sua vontade,
assim a liberdade
nos vem, e se dissipam
os males e a miséria.

(Música. Todos saem. Preparar para a cena 4.)

 

CENA 4

(O velho Tobias e Ana esperam a chegada do filho.)

VELHO TOBIAS:
– Todos os dias esperando em vão…
Nosso filho demora e eu me aflijo.
Minhas forças se abatem. Quem me dera
ter Tobias conosco antes da morte.

ANA:
– Por mais que eu olhe ao longe, nada vejo.
Oh! Vejo agora nuvens de poeira!
Mas vejo que não podem ser só dois.
Quem poderia vir também agora?

JOVEM TOBIAS (correndo à frente):
– Ah, meus queridos, meus queridos pais!
Que alegria encontrá-los finalmente!
Ouçam as maravilhas desta viagem!
A mais bela, que o amigo me mostrou,
vai fazer-se sentir em você mesmo.
(Ele vai passando a bile do peixe nos olhos do pai.)
– Englobando a luz
n’água vivificada,
a bile do peixe
abriga a cura,
liberta do escuro
e devolve a luz
aos olhos cegos.

VELHO TOBIAS (enxergando de novo):
– Oh, que felicidade ver de novo
as torrentes de luz com os próprios olhos.
Eu consigo enxergar todos vocês!
A mãe, Tobias e este mundo em cores!
E o amigo, onde está? Sou-lhe tão grato!
(Rafael vem entrando com Sara)

JOVEM TOBIAS:
– Lá vem ele chegando e traz consigo
a esposa que o destino me escolheu.

VELHO TOBIAS:
– Dou graças a você, desconhecido.
Deixe-me agradecer ao grande amigo
por tudo que meu filho recebeu.
Fique aqui, benfeitor da minha vida,
e partilhe conosco da alegria!

RAFAEL:
– Bons amigos, devo partir agora,
pois tenho, por dever, outras ações.
Agora posso revelar meu nome:
Sou Rafael, sou um dos sete arcanjos
que assistem diante do trono de Deus!
(tira seu traje de viajante)
Deus mandou-me a vocês para ajudar
e trazer cura a tantos sofrimentos,
conduzir o seu filho até o dia
em que pôde sozinho agir no mundo.
Assim como aprenderam vocês dois,
sempre aceitando e amando seu destino,
que tão estranhamente os tem guiado,
assim a doença abriga a própria cura.
Demos graças a Deus por tudo isso!
O que foi gerado pelas chamas lampejantes do fogo,
o que é iluminado pela irradiação aclarante da luz,
o que é permeado pelo poder vivo da água,
se desintegra em substância de origem divina,
transpassa o próprio destino escuro
como doença.
Cura-se a doença quando,
sacrificando o próprio destino escuro,
a substância revela sua origem divina,
permeada pelo poder vivo da água,
iluminada pela irradiação aclarante da luz,
gerada pelas chamas lampejantes do fogo!

(As últimas palavras de Rafael podem ser euritmizadas pelos três seres, ao fundo. Estes de novo se afastam para trás. Depois, os atores se reúnem e podem cantar o hino de São Rafael.)

HINO DE SÃO RAFAEL

Console os que sofrem
e ajude os doentes,
São Rafael!
Doenças e pragas
leve embora!
Ajude, ajude,
São Rafael!

Faça o melhor,
afaste a peste,
São Rafael!
Febres e dores
que nos atingem
ajude, ajude,
São Rafael!

Quando deitamos,
cuide de nós,
São Rafael!
As dores leve
em seu coração.
Ajude, ajude,
São Rafael!

 

F I M