A História do Mago Merlin

peça de Ruth Salles

Esta peça, para alunos de 12 a 13 anos, foi escrita baseada na narrativa de Maria Christiane Benning¹, no livro König Artus und Merlin, que conta o nascimento e as peripécias da infância de Mérlin, o lendário mago conhecido como conselheiro do rei Artur.

PERSONAGENS:
Coro de personagens
Coro de demônios
Mérlin
O Maligno
Demônio 1
Demônio 2
Demônio 3, que se faz de rei
A jovem mãe de Mérlin
O eremita Blasius
Chefe dos guardas (guarda 1)
Guardas (2 e 3)
Anjos
Coro da voz de Mérlin
Vórtigen
Construtores
Astrólogos (7)
Crianças (um é o menino que fala)
Dois dragões
Uther
Pendragon
Artur

 

CENA 1
Local onde vivem os demônios

 

CORO DOS DEMÔNIOS (canta, enquanto o Maligno anda desesperado de um lado para o outro, cantando também):
”Quem é esse homem?
Quem é esse homem,
que põe abaixo as portas do inferno?
Eu sinto arder em mim o fogo interno!
Quem é esse homem?
Quem é esse homem,
que veio meus cativos redimir?
A seu poder não posso resistir!”

CORO DAS OUTRAS PERSONAGENS (fala):
– O Maligno rugia, enfurecido,
por ter Cristo Jesus
aos infernos descido,
salvando as almas com sua grande luz.

MALIGNO:
– Eu sempre acreditei tanto
que todos os seres nascidos de mulher eram meus…!

DEMÔNIO 1:
– Mas esse foi concebido pelo Espírito Santo
no corpo de uma virgem, pela vontade de Deus!

CORO DOS DEMÔNIOS:
– Temos de recuperar nosso poder!!

DEMÔNIO 2:
– Tratemos de encontrar
um meio de gerar
no corpo de uma virgem outro ser,
concebido por um espirito nosso!

DEMÔNIO 3:
– Eu posso! Eu posso! Eu vou!
Vou tomar a forma de um rei e descer.
Existe uma virgem que não sabe quem sou.
Sei que ela sentirá o meu fascínio.
Ficará sob meu domínio.
Dela há de nascer nosso Servidor,
para vencer o Cristo Redentor.

 

CENA 2
Clareira na mata onde mora a virgem

 

CORO DE PERSONAGENS (canta, enquanto a moça cuida das plantas e o eremita se aproxima):
“Vivia a jovem lá na mata,
cheia de amor e de graça.
Dos sofredores sempre trata
e não há bem que não faça.
Um bom eremita, em sua montanha,
desce lá das alturas.
Conhece o Maligno e sua sanha
contra as almas puras.”

EREMITA:
– Boa menina, ao se deitar,
nunca se esqueça de rezar.
É assim que Deus dá proteção
à pureza de um coração.
Quem é de Deus não desespera,
nem tem ódio no pensamento.
Pois o Maligno se apodera
de quem tem esses sentimentos.

(O eremita abençoa a jovem e sai; a jovem se recolhe. Demônios tiram suas capas vermelhas e lhe aparecem sob a forma de moças e rapazes.)

DEMÔNIOS RAPAZES:
– Venha logo! Que moleza é esta?
Deixe essa vida sem graça!
O nosso vinho é uma festa!
Vamos comer uma boa caça!

DEMÔNIOS MOÇAS (enquanto a jovem luta por escapar):
– Olhe os moços espiando…
Faça o mais louco penteado!
Venha logo se mostrando!
Saia desse lugar sossegado!

JOVEM (lutando e depois falando sozinha):
– Larguem-me! Deixem-me! Saiam daqui!
(Eles saem)
– Eu já começo a me desesperar…
Todas as noites vem alguém me atrair,
e eu não consigo nem mesmo rezar!

JOVEM (recostada, sonhando, canta junto com o coro de personagens, enquanto o demônio-rei anda ao seu redor):
“Sonho que estou cansada, tão triste, sozinha.
Moro num lindo reino e sou a rainha.
Sonho que vem um rei e que vamos casar.
Todos na grande festa estão a dançar…”

(Nesse ponto, a jovem e todos dançam. Depois, eles vão cercando a jovem, formando a torre, que gira.)

JOVEM (recostada, torna a cantar junto com o coro; o demônio-rei sumiu):
“Sonho que estava triste, cansada, sozinha.
Apareceu um reino, e eu era a rainha.
Sonho que veio um rei e que fomos casar…
Desce uma nuvem densa, já vou acordar…”

JOVEM (despertando, assustada):
– Ó meu Deus, que torre é essa
que me prende, que me cerca?
Quem me ergueu a esta altura?
Tudo gira! Que tontura…
Eremita! Santo mestre!
Ó Deus, que tormento é este?

EREMITA (chegando):
– Minha filha, aqui estou!
Foi o Maligno que a encarcerou.
Mas, como conseguiu não sei…

JOVEM:
– Meu santo mestre, eu lhe direi.
No desespero do meu coração,
esqueci totalmente da oração.
Quando dormi, sonhei que veio um rei,
e na festa com ele me casei.
Todos dançavam, em meu sonho.
Mas sinto agora um terror medonho,
pois prevejo que vai nascer
de mim mesma um estranho ser.
Perdão, meu pai! É de joelhos
que suplico seu bom conselho!

EREMITA:
– Deus perdoa sua alma pura,
mas não mergulhe na amargura.
Nós venceremos afinal,
livrando seu filho do mal.
Eu lhe dou minha bênção, e a torre se desfaz.
(some a torre)
Venha para a montanha viver em santa paz.

(Os dois vão andando para a montanha; pode ser tocado um dos temas musicais.)

 

 

CENA 3
Montanha onde mora o eremita

 

EREMITA:
– Agora, ouça: tenha cuidado
com o que for comer, minha filha.
O diabo pode ter mudado
um bom prato numa armadilha.
Coma pão preto e beba água,
e não terá razão de mágoa.
Reze bastante e pense nisto:
seu filho vai servir a Cristo.
E vai ajudar muito os homens.
Mérlin deve ser seu nome.
Deve ser Mérlin, não se esqueça!
Agora fique em paz e me obedeça!

JOVEM (com espanto):
– Mérlin?

CORO DOS PERSONAGENS (com alegria):
– Mérlin!

CORO DOS DEMÔNIOS (com dúvidas):
– Mérlin…

(Passam as bandejas com pratos apetitosos. A jovem fica tentada a comer, mas sempre se volta para seu pão preto com água. Ela se põe em oração. Esse movimento todo pode ser acompanhado da música da canção. No fim da música, passam pela estrada homens armados. O eremita vai ao seu encontro.)

EREMITA:
– Que procuram os senhores guardas,
armados dessa maneira?

CHEFE DOS GUARDAS:
– Procuramos na mata uma torre mágica
onde mora uma jovem e terrível feiticeira.
Hoje mesmo ela deve ser queimada viva.
O juiz ordenou que a levemos cativa.

EREMITA:
– Digam ao juiz que ele está enganado
e que o eremita Blasius
mandou-lhe este recado.
A jovem é uma santa que vive em oração,
guardando a pureza de seu coração.

GUARDAS (rindo e avançando para o eremita):
– Velho mentiroso! Afaste-se da estrada!

CHEFE DOS GUARDAS:
– Parem! O eremita é uma pessoa honrada.
É sempre verdade tudo o que ele diz.
Vamos levar seu recado ao juiz.

(Eles saem)

JOVEM (canta junto com o coro de personagens):
“Sei que meu filhinho
sente meu carinho…
Vai nascer agora.
Já chegou a hora.
Anjos vão passando,
vêm me confortar,
todos preparando
quem já vai chegar…”

(Passam anjos. A jovem faz um gesto de que já está com a criança no colo.)

CORO DE DEMÔNIOS (aproximando-se e observando a criança):
– Mérlin nasceu grande, feio e cabeludo!
Ele puxou ao pai em tudo!
É um mago! Sabe ler o passado,
o presente e o futuro!
Ele pertence mesmo
ao nosso mundo escuro!

(giram com alegria)

JOVEM (olhando o filho):
– Meu pobre filhinho, como é esquisito…
Meu coração já está ficando aflito… (Ela chora)
Será ao demônio que sua alma pertence?

EREMITA (chegando):
– Minha filha, não fique preocupada.
A criança vai ser batizada.
(Batiza em silêncio e termina)
Em nome do Pai, do Filho
e do Espírito Santo.
Seque as lágrimas de seu pranto.

CORO DE DEMÔNIOS (todos agitados):
– Chamemos o Maligno!
– Está tudo acabado!
– Perdemos o poder!
– Ele foi batizado!
– O amor e a pureza formaram um escudo!
(lutam contra o escudo)
– Ele vai seguir Jesus Cristo em tudo!
(saem rodopiando)

CORO DE PERSONAGENS (representando a voz de Mérlin):
– Minha mãe, não se aflija tanto.
Eu já fui lindo como a rosa do campo.
Mas a flor precisa morrer
para o fruto amadurecer.
Amadureceu em mim, bem no fundo,
a sabedoria do mundo.

JOVEM:
– Oh, que susto! Meu filhinho falou!
Porém minha alma se acalmou…
É tudo tão vazio e pobre aqui,
nesta cabana onde eu o recebi.
Ah, se eu tivesse ainda,
um pouco da riqueza de meus pais,
meu filho estaria cercado de coisas lindas!

CORO DE MÉRLIN:
– Os que ficaram pobres
pela vontade do Senhor,
não procuram mais a riqueza
e encontram uma riqueza maior.

(Música de flauta para mudança de cena.)

 

CENA 4
Castelo do rei

 

CORO DOS PERSONAGENS:
– Quando o rei Constantino morreu,
três filhos ele deixou.
Moines, o mais velho, então reinou.
Mas, para seu mal,
sendo ainda uma criança,
nomeou Vórtigen seu senescal.

CORO DOS DEMÔNIOS (contentes):
– Vórtigen
era um déspota,
tirânico,
maléfico!

MALIGNO (torcendo as mãos, de alegria):
– Eu só sei
que Moines, o pequeno rei,
em pouco tempo ele mandou matar
e reinou em seu lugar.

CORO DOS PERSONAGENS:
– Os dois irmãos de Moines
foram escondidos bem longe.
e Vórtigen por muito tempo já reinava,
e todo o povo o odiava.

VÓRTIGEN:
– Um grande medo cresce
em meu coração…
Pois o rei Moines tinha dois irmãos
que agora são homens, e logo voltarão:
Um chama-se Uther, o outro Pendragon,
que quer dizer “cabeça de dragão”.
E, se vierem, logo me esmagam!
Meus construtores, venham cá!
(entram os construtores)
Quero que construam já
uma torre bastante alta,
onde eu possa ficar abrigado
se for atacado.

CONSTRUTORES (cantam com bastante ritmo e movimento):
“– Temos o melhor material
para unir areia a pedra e cal.
Metros de muro se elevaram.
Já todas as pedras se firmaram
O rei não terá o que temer…”

VÓRTIGEN (espantado)
– Que barulho é esse?

CONSTRUTOR 1:
– É a torre a estremecer!

CONSTRUTOR 2:
– Balança… balança…

CONSTRUTOR 3:
– Desmoronou…

VÓRTIGEN (horrorizado):
– Caiu!!

CONSTRUTOR 1:
– Os alicerces não estavam bem fortalecidos!

CONSTRUTOR 2:
– É por isso que a torre deve ter caído!

CONSTRUTORES (cantam trabalhando):
“– Temos o melhor material
para unir areia a pedra e cal.
Metros de muro se elevaram.
Já todas as pedras se firmaram
O rei não terá o que temer…”

VÓRTIGEN (assustado):
– Que barulho é esse?

CONSTRUTOR 1:
– É a torre a estremecer!

CONSTRUTOR 2:
– Balança… balança…

CONSTRUTOR 3:
– Desmoronou…

VÓRTIGEN (apavorado):
– Caiu!!

CONSTRUTOR 1:
– Os alicerces devem ficar mais fundo!

CONSTRUTOR 3:
– Será a torre mais firme do mundo!

CONSTRUTORES (cantam de novo trabalhando):
“– Temos o melhor material
para unir areia a pedra e cal.
Metros de muro se elevaram.
Já todas as pedras se firmaram
O rei não terá o que temer…”

VÓRTIGEN (desesperado):
– Que barulho é esse?

CONSTRUTOR 1:
– É a torre a estremecer!

CONSTRUTOR 2:
– Balança… balança…

CONSTRUTOR 3:
– Desmoronou…

VÓRTIGEN (furioso):
– Caiu!!!
Mas, que fatalidade é essa?
Tragam meus sete astrólogos aqui depressa!

(Entram os sete astrólogos e se curvam diante do rei)

VÓRTIGEN:
– Ordeno que procurem descobrir
o que faz minha torre cair!

(Os astrólogos olham para o céu, fazem cálculos, depois se juntam, voltados para a plateia, para o rei não ouvir.)

ASTRÓLOGOS:
1 – As estrelas estão caladas.
2 – Elas não nos dizem nada.
3 – Mas mostram que uma criança vai aparecer,
4 – E quando ela vier, o rei vai morrer!
5 – Ela tem agora sete anos, e é filha de uma virgem
e de um pai que não é humano.
6 – Todos estamos em perigo. Que diremos ao rei?
7 – Eu sei o que dizer. E eu mesmo direi.

(voltam-se para o rei)

SÉTIMO ASTRÓLOGO:
– Senhor rei, com o que nosso saber alcança,
descobrimos que existe uma criança,
filha de uma virgem
e de um pai que não é humano.
É um menino. Ele está com sete anos.
Mande o rei agora
muitos homens pelo mundo afora,
a fim de encontrá-lo e matá-lo.
Seu sangue deve ser derramado, então,
na pedra fundamental da construção.
Assim, a torre nunca mais cairá.

VÓRTIGEN:
– Pois que assim seja, e assim será!

 

CENA 5
Local onde crianças estão brincando com Mérlin

 

(Três guardas do rei chegam e veem as crianças brincando; de um lado estão Blasius e a jovem mãe de Mérlin. Este vê os dois guardas e então bate de propósito num menino, que lhe diz desaforos.)

MENINO:
– Você não presta, garoto imundo!
Seu pai nem é gente deste mundo!

(saem as crianças, menos Mérlin)

GUARDA 1:
– Você ouviu? Só pode ser esse o tal menino.

GUARDA 2:
– É mesmo. Chegamos ao nosso destino.

GUARDA 1:
– Menino, temos de levá-lo à presença do rei.

MÉRLIN:
– Por causa da torre que cai, eu sei.

GUARDA 2:
– Como é que ele sabe de todo o caso?
Será um feiticeiro, por acaso?

MÉRLIN:
– Vou com vocês de boa vontade.
O rei vai saber toda a verdade.
– Adeus, mestre Blasius! – Adeus, minha mãe!

EREMITA:
– Siga em paz seu destino.

JOVEM:
– Vá com Deus, meu menino!

CENA 6
Castelo do rei

GUARDA 1:
– Trouxemos o menino. Acho que é feiticeiro,
pois sabe os mistérios do mundo inteiro.

MÉRLIN (fala com voz forte):
– Vórtigen!
Derramar o meu sangue não vai adiantar
para a torre não desmoronar.
Os astrólogos mentiram de tanto medo.
Mas eu vou revelar o segredo.
Debaixo da construção há um rio passando,
onde dois dragões cegos estão morando.
O peso da torre é demais para os dois.
A terra estremece e cai tudo depois.
O chão você deve cavar, e o rio deve secar.
Logo veremos os dragões, e os dois irão lutar.
Um é branco, o outro é vermelho.
Mãos à obra, é o que aconselho.

(A obra é feita e surgem os dragões, que lutam um com o outro.)

VÓRTIGEN (aflito):
– Mérlin, você não vai dizer
qual dos dragões irá vencer?

MÉRLIN:
– O branco vai vencer. E mais nada direi.
O sentido de tudo no fim revelarei.

(A luta continua, e o dragão branco vence, morrendo também, depois)

MÉRLIN:
– Agora a torre pode ser construída,
onde o senhor rei quer ficar escondido.

VÓRTIGEN:
– Você sabe de tudo. Mas, em suas visões,
que foi que descobriu sobre os dois dragões?

MÉRLIN:
– Saiba, senhor rei, que o dragão branco
representa os filhos do rei Constantino.
O dragão vermelho representa o senhor
e seu reinado de força e terror.
Uther e Pendragon logo vão chegar
e a coroa real vão reconquistar.
A torre tão segura será incendiada,
e lá,Vórtigen,
sua vida estará terminada.

(Uma grande confusão afasta os demônios, e Vórtigen e seus homens caem.)

 

 

CENA FINAL
Com a bandeira do dragão, vão entrando Uther e Pendragon e, atrás, Artur; a um lado, o santo eremita escreve com uma pena

 

MÉRLIN:
– Os vitoriosos estão chegando.
É o futuro se aproximando.
E tudo o que vou dizendo
o santo eremita está escrevendo.
É um grande livro sobre esses heróis,
Uther, Pendragon e Artur logo após .
Na távola redonda estão os cavaleiros,
e todos eles, afinal,
sairão em demanda do Santo Graal.
E como encontrá-lo? Como conseguir?
Só aos mais puros Deus vai permitir.

(A peça pode terminar com um dos temas musicais da peça ou alguma outra canção.)

*1: BENNING, Maria Christiane. König Artus und Merlin. Editora J. Ch. Melling, 1991.

 

 

 

***