A lenda do dragão

peça de Ruth Salles

Esta peça foi criada a partir de um conto homônimo, baseado na mitologia germânica. Esse conto faz parte do livro de Wilhelm Ruland “Die Schönsten Sagen des Rhein” (“As mais belas Lendas do Reno”). Tomei a liberdade de incluir nela uma melodia composta há muitos anos por minha mãe, Julieta Mello e Souza Miranda, para uma canção de sua antiga escola. A letra, naturalmente, é a que fiz conforme a história da peça. Ruth Salles


PERSONAGENS:

Coro (povos de uma e de outra margem)
Barqueiro
Hosrik, chefe de guerreiros
Guerreiros de Hosrik
Rinbold, chefe de guerreiros
Guerreiros de Rinbold
Sumo-sacerdote
Uma jovem cristã
Anjos
Dragão

CENA 1
(Antes da batalha.)

CORO (canta):
“O barqueiro de um rio distante
vai remando, vogando a cantar.
Conta lenda tão bela e tocante
que o povo das margens vem logo escutar.
Ele fala de um alto rochedo,
que abrigava terrível dragão,
e da jovem tão pura e sem medo
com as luzes de Cristo em seu coração.”

GUERREIRO 1:
– Chefe Hosrik!
Precisamos fazer uma sortida
e saquear o povo do outro lado.

GUERREIRO 2:
– Nossa gente não tem mais comida.
O dragão deixou o campo todo queimado.

GUERREIRO 3:
– Esse dragão terrível, com cauda de serpente,
abre boca e mostra os afiados dentes!

HOSRIK:
– Nossos criminosos foram seu alimento,
e agora ele quer mais, exige seu sustento!
Vamos à guerra, meus valentes guerreiros!
E daremos ao dragão todos os prisioneiros.

RINBOLD:
– Prisioneiros sem culpa no coração
não devem ser comida de dragão.

GUERREIRO DE RINBOLD 1:
– Meu chefe Rinbold, não há mais nada a fazer!
De fome, não queremos morrer.

GUERREIRO DE RINBOLD 2:
– Prisioneiro de guerra, seja mulher ou homem,
serve para o monstro saciar sua fome.

GUERREIRO DE RINBOLD 3:
– A próxima colheita estaria então a salvo…
Vamos à guerra, vamos! O saque é nosso alvo!

HOSRIK:
– O sumo-sacerdote vem vindo.
Será que ele sabe o que nos está consumindo?

SUMO-SACERDOTE:
– Meus filhos, que semblantes abatidos…
Parecem guerreiros vencidos…

HOSRIK:
– É o dragão, senhor. A plantação está queimada,
e toda a nossa gente apavorada.

RINBOLD:
– Senhor! Que mal fizemos nós a Odin?
Será que essa desgraça não tem fim?

SUMO-SACERDOTE:
– Sei que está para se cumprir uma profecia.
São novos tempos o que ela anuncia.
Uma luz clara vem vindo do Oriente.
Ela vai mudar tudo… lentamente…
(o sumo-sacerdote sai)

HOSRIK:
– De qualquer jeito temos de ir à guerra,
senão o dragão devasta toda a terra!

RINBOLD:
– Vamos, então! E que Odin nos proteja!
Quem sabe a solução está nesta peleja?
Avante, guerreiros!

HOSRIK:
– Avante! (Eles saem)

CENA 2
(Depois da batalha. Os chefes guerreiros voltam cansados e conversam)

RINBOLD:
– Os patrícios da margem esquerda, que atacamos,
estão bem mudados, foi o que notamos.
Acreditam num deus único. Isso não foi previsto.
Que será que quer dizer isto?

HOSRIK:
– Eles se defendiam, mas nenhum matou.
Só falavam do amor que seu deus ensinou.
Nossos homens vêm vindo: todos quietos, pensando,
e eu só penso na fome que nos está esperando.

GUERREIROS 1 e 2 (chegando apressados):
– Chefe, nossos homens vêm trazendo uma presa:
– É uma jovem, senhor. Parece uma princesa.

(Os outros guerreiros entram segurando e puxando a jovem)

RINBOLD:
– Como é delicada! Como é bela!
Se foram meus homens que a trouxeram,
tenho o direito de ficar com ela!

GUERREIROS DE RINBOLD 1 e 2:
– Houve uma confusão naquela hora.
– A jovem caiu, e nós corremos sem demora…

GUERREIRO 3:
– Estávamos lá também e ajudamos na captura.

HOSRIK:
– Nada de discussão! É minha a criatura.
Sou o chefe mais forte e mereço esta presa.
É uma presa de guerra.

RINBOLD:
A esse olhar de pureza
você não dá valor. Portanto, ela é minha!
(Eles brigam.)

SUMO-SACERDOTE (entrando):
– Parem com essa briga inútil e mesquinha.
A jovem é cristã, tem outra religião.
Não misturem seu sangue com o sangue cristão!
Em honra de Odin, que ela seja sacrificada
e entregue ao dragão e por ele devorada.
Amanhã, quando o sol nos trouxer a aurora,
será a hora!

(Todos estão de cabeça baixa, menos a jovem, de cabeça erguida)

RINBOLD:
– Quem sabe, ao ver a jovem, Odin nos abençoa
e nos perdoa,
e acaba essa fome, que é nossa agonia,
e começa a fazer valer a nova profecia…

Cena 3
(A jovem enfrenta o dragão. Enquanto todos falam, a cena se passa.)

GUERREIROS:
– O sol vai nascendo
já é madrugada,
e a jovem vai sendo
no tronco amarrada.

HOSRIK:
– Na antiga e sagrada
árvore de Odin,
que está na beirada
do abismo sem fim.

RINBOLD:
– O grão-sacerdote
lhe prende na testa
as mais lindas flores
de toda a floresta.

SUMO-SACERDOTE:
– Que o povo se afaste!
Já se ouve o dragão!

(Som do rugido do dragão. O povo se afasta.)

GUERREIROS:
– Distância não basta.
É grande a aflição!

JOVEM (rezando):
– Se é assim que deve ser realizada
a vontade dos Céus,
que, pelos anjos, minha alma seja levada
para junto de Deus!
(Os anjos passam por ela.)
Não sinto medo em meu coração,
pois com esta sagrada cruz,
feita de luz,
eu enfrento o dragão!

(O dragão avança.)

GUERREIROS:
– Oooh!!! (O dragão recua e cai.)

CORO:
– O dragão, ao ver a cruz,
recuou com pavor,
pois viu que é mais forte a luz
onde brilha o amor.
Ele enrolou-se e desabou
morrendo nas profundezas.
Em altas vozes, o povo saudou
o fim da fome e da incerteza.
A jovem, de olhos fechados,
não viu quem a soltou de novo.
quem a ajudou, com seus braços,
a caminhar até o povo.
Foi Rinbold.
Ele pôs o joelho no chão
e deu um beijo em sua mão.

SUMO-SACERDOTE (aproximando-se da jovem):
– Jovem, agora o que mais importa
é saber como escapou de ser morta.

JOVEM:
– Foi esta luz que me salvou.
Ela nos trouxe um grande bem.

SUMO-SACERDOTE:
– Que essa luz, com a força que tem,
clareie um dia nosso povo.
Rinbold vai levá-la à outra margem,
mas volte um dia aqui de novo.

(Rinbold a conduz, e depois os dois voltam, durante o canto, junto com o povo da margem oposta):

CORO (canta):
“Bem mais cedo que todos pensavam,
nossa jovem decide voltar.
Todo o povo por ela esperava,
com o bravo guerreiro ela vai-se casar.
Sua gente, as mãos estendendo,
vem em busca de paz e união.
Com respeito e amor convivendo,
agora os dois povos unidos estão.”

 

F I M