A Megera Domada

peça de William Shakespeare

Adaptação de Ruth Salles, a partir do original em inglês e da tradução para o português de Carlos Alberto Nunes

NOTA
Esta peça de Shakespeare consta ter sido escrita em 1594. É a história de duas irmãs lindas, a mais velha com um gênio terrível, a mais moça gentil e doce. Esta tem dois pretendentes, mas o pai só casa a mais moça depois de casar a mais velha, e é daí que parte a trama da comédia. A peça precisou ser um tanto condensada, para que o tempo de duração ficasse mais de acordo com a idade dos alunos. Por isso, peço que Shakespeare me releve esta liberdade, assim como outras duas: a de ter criado algumas personagens femininas – já que, originalmente há na peça apenas três – e a de ter mudado o discurso final da ex-megera, tirando um pouco o espírito de extrema submissão ao marido e chamando mais a atenção para o bem que provém da alegria e da calma. À professora de música deixo o encargo de escolher a música da peça. Só na cantiga final é que escolhi a música da 2ª opção, que é uma melodia inglesa antiga de autor desconhecido; a da 1ª opção é uma melodia que fiz à maneira inglesa antiga. O professor escolhe, mas acho que a melhor é a da 2ª opção, também por causa da letra.

 

PERSONAGENS

Batista, cavalheiro rico, de Pádua
Bianca e
Catarina, filhas de Batista
Gina, criada de Batista
Carmela, criada de Batista
Nicoletta, criada de Batista
Margueritta, dama de companhia de Catarina
Giovanna, dama de companhia de Bianca

Vicenzo, velho cavalheiro de Pisa
Lúcio, seu filho (que se apaixona por Bianca)
Trânio e
Biondello, criados de Lúcio

Breno (homem de meia idade) e
Hortênsio, pretendentes de Bianca
Balbina, velha criada de Hortênsio
Maria, jovem criada de Hortênsio

Petrucchio, cavalheiro de Verona, pretendente de Catarina
Grúmio e Cúrtis, criados de Petrucchio
Nataniel, Giuseppe e Filipe, criados de Petrucchio

Viúva
Professor
Costureira
Chapeleira

Cena: Pádua e casa de campo de Petrucchio.

 

PRIMEIRO ATO

 

Cena 1
Praça de Pádua.
Lúcio, Trânio; Batista, Catarina, Margueritta, Bianca, Giovanna, Breno, Hortênsio; Biondello.

 

LÚCIO (aparece com Trânio):
– Trânio, enfim chegamos à cidade
de Pádua, que eu sonhava conhecer.
Meu pai Vicenzo ficou lá em Pisa,
onde nasci. Por ser comerciante,
agora seu desejo é que eu empregue
meu tempo em estudar filosofia.
Qual a sua opinião, meu caro Trânio?

TRÂNIO: – Mi perdonate, meu amo Lúcio. Estou de acordo com a filosofia, a virtude, a moral. Mas, nada de exagerar. Nada de ser estóico, ou seja, estaca. A música e a poesia são prazeres que trazem grande benefício. Em suma, estude o que é de seu agrado.

LÚCIO:
– Trânio, muito obrigado. Bom conselho.
Se Biondello me aparecesse aqui,
já alugaríamos alguma casa,
a fim de receber novos amigos…
Mas, espere, quem vem chegando agora?

(Entram Batista, Catarina, Margueritta, Bianca, Giovanna, Breno e Hortênsio. Lúcio e Trânio se mantêm de um lado, meio ocultos.)

BATISTA:
– Cavalheiros, eu peço: não insistam!
Todos conhecem minha decisão:
Bianca, a filha mais nova, só se casa,
depois que Catarina se casar.
Se algum dos dois prefere Catarina,
eu dou licença para cortejá-la.

BRENO (à parte):
– Cortejá-la ou cortá-la? Ou lixá-la?
Para mim, ela é um bocado áspera.

CATARINA (a Batista):
– Meu pai, não me agrada nada ouvir
o que dizem uns tolos pretendentes.

HORTÊNSIO:
– Você nos considera pretendentes?
Ah, isso, Catarina, só depois
que você se tornar gentil e meiga.

CATARINA:
– O caminho para o meu coração
você não encontrou. Mas, se encontrar,
vou pentear seu cabelo com um banco,
e essa cara de bobo eu vou pintar!

MARGUERITTA (a Catarina): – Catarina! Até parece que você quer ficar solteira! Eu, como sua dama de companhia…

CATARINA:
– Margueritta, não se meta em meus assuntos!

BRENO (consigo mesmo):
– Ela se mete porque tem bom senso.

HORTÊNSIO:
– Deus me livre de uma demônia assim!

BRENO:
– E a mim também!

TRÂNIO (à parte, para Lúcio): – Meu amo, que megera!

LÚCIO (para Trânio, fazendo sinal de silêncio):
– Veja a modéstia e a mansidão da outra…

BATISTA:
– Querida Bianca, volte para casa.

CATARINA (ameaçando Bianca):
– A queridinha do Papai… Por mim,
eu já metia os dedos nos seus olhos!

MARGUERITTA: – Catarina, contente-se com o descontentamento de sua irmã.

BRENO (consigo mesmo):
– Dama de companhia tão paciente
eu nunca vi…

BIANCA (a Batista): – Meu pai, eu lhe obedeço.
(a Giovanna) – Vamos, Giovanna, à música e aos livros. (as duas saem)

HORTÊNSIO:
– Bianca vai presa só por nossa causa?

BRENO:
– Senhor Batista, Bianca vai pagar
pelos pecados da endemoninhada?

BATISTA:
– Calma, calma, eu conheço minha filha.
Seu prazer é a música, a poesia.
Se um de vocês souber de um professor
bem bom para dar aula às minhas filhas
pode mandá-lo. E agora, adeus aos dois.
Fique aqui, Catarina. Pois preciso
conversar em particular com Bianca. (ele sai)

CATARINA:
– O quê? Não há ninguém que mande em mim,
que me diga que fique ou que não fique,
e ninguém me diz hora nem lugar! (sai batendo os pés, com Margueritta)

BRENO: – Pois vá! E para bem longe! Quanto mais longe melhor. Hortênsio, nosso amor não está assim tão esfomeado que não possa jejuar. Mas, pela doce Bianca, vamos procurar um professor que lhe ensine o que ela prefere.

HORTÊNSIO: – De acordo. Só que, apesar de sermos rivais no amor por Bianca, podemos fazer mais alguma coisa.

BRENO: – E que alguma coisa é essa?

HORTÊNSIO: – Ora, Breno! Arranjar um marido para Catarina.

BRENO: – Mas, apesar da riqueza do senhor Batista, você acredita que algum louco vai querer casar-se com o inferno?

HORTÊNSIO: – Há sempre alguém para suportar muitos defeitos junto com muito dinheiro. E o primeiro de nós que conseguir achar esse alguém ganha Bianca.

BRENO: – Combinado! Vamos! (saem Breno e Hortênsio)

TRÂNIO: – Será que o amor pode dominar um homem com tanta força?

LÚCIO:
– Eu mesmo não julgava isso possível
enquanto não vi Bianca. Mas agora,
morro de amor, definho, ardo em chamas.
Preciso já de um bom conselho, Trânio!

TRÂNIO: – Meu amo, acorde e pense na maneira de conseguir o amor de Bianca. O caso é este: enquanto o pai não casa a filha mais velha, não adianta. A mais nova fica solteira.

LÚCIO:
– Que pai cruel! Porém, ele se ocupa
em achar professores para ela.

TRÂNIO: – É mesmo! Pronto. Já tramei um plano. Meu amo se disfarça de mestre e se apresenta ao pai de Bianca.

LÚCIO:
– O mesmo pensei eu, mas é possível?

TRÂNIO: – É… nem tanto. Quem vai fazer o seu papel? O de Lúcio, filho de Vicenzo, que veio a Pádua e que vai receber em sua casa conterrâneos de Pisa?

LÚCIO (pensando):
– Aqui… ninguém ainda nos conhece…
Já sei! Você fará o papel de Lúcio;
e Biondello, ao chegar, será seu servo.
E eu vou falar com esse tagarela,
a fim de que ele não revele a história.
Vamos trocar de roupa. O tempo é curto.
Vista meu manto e ponha meu chapéu.

TRÂNIO: – Bem, sou obrigado a obedecer. Mas, quando partimos, seu pai disse: “Sirva meu filho sempre!” Ah, se não há outro jeito, sirvo meu amo sendo ele mesmo.

(Trânio veste o manto e põe o chapéu de Lúcio; Lúcio veste o casaco e põe o gorro de Trânio. Biondello aparece.)

LÚCIO:
– Biondello! Onde é que andava esse patife?

BIONDELLO: – Eu é que pergunto onde andava o meu amo Lúcio! Mas… Trânio roubou suas roupas? Ou o senhor roubou as roupas dele?

LÚCIO:
– Cale a boca, Biondello, e ouça bem.
Vou fazer o papel de um professor
e dar aulas à moça que eu adoro.
Trânio tem de fazer papel de Lúcio
e você vai servi-lo. Entendeu tudo?

BIONDELLO: – Não entendi nada de nada!

LÚCIO:
– Bico fechado! Trânio agora é Lúcio.

BIONDELLO: – Sorte dele. Que bom se fosse eu.

TRÂNIO: – Maroto! Eu faço isso pelo amo. Quando eu estiver sozinho com você, sou Trânio, mas no meio de outros sou Lúcio. Como disse o nosso amo, ele está apaixonado e quer casar com Bianca, a filha de Batista…

BIONDELLO: – Ahn… sei… sei…

LÚCIO:
– Mas ouça, Trânio, só falta uma coisa:
você deve também se apresentar
como outro pretendente à mão de Bianca.
Eu tenho um bom motivo para isso. (os três saem)

 

Cena 2
À porta da casa de Hortênsio.
Petrucchio, Grúmio; Hortênsio; Balbina, Maria; Breno, Lúcio; Trânio, Biondello.

 

PETRUCCHIO (entra e fala com Grúmio):
– E chegamos a Pádua! Vim aqui
ver amigos, principalmente Hortênsio.
Acho que a casa dele é esta, Grúmio.
Vamos, malandro, bata! Estou mandando!

GRÚMIO: – Bater, meu amo? Bater em quem? Alguém injuriou Vossa Senhoria?

PETRUCCHIO:
– Ora, malandro, bata-me com força!

GRÚMIO: – Bater no senhor? Quem sou eu para bater em meu amo?

PETRUCCHIO:
– Bata na porta, estúpido! Na porta! (Grúmio fica indeciso)
Não? Pois então eu puxo sua orelha! (puxa sua orelha)

GRÚMIO: – Ai, socorro! Meu amo enlouqueceu!

HORTÊNSIO (sai pela porta): – Ei! Que está acontecendo aqui? Grúmio, velho amigo, e meu caro Petrucchio!

PETRUCCHIO: – Você veio nos separar, Hortênsio?

HORTÊNSIO: – Alla nostra casa bienvenuto, Petrucchio! Vamos, Grúmio, levante-se!

GRÚMIO: – Ora veja, senhor, meu amo ordenou que eu batesse nele e batesse com força!
Tivesse eu batido pra valer,
queria ver o que ele ia fazer…

PETRUCCHIO:
– Estúpido rapaz… – Meu caro Hortênsio,
mandei que ele batesse em sua porta!

GRÚMIO: – Bater na porta? Não foi isso que entendi.

HORTÊNSIO:
– Acalmem-se vocês. Mas, caro amigo,
que bons ventos trouxeram os dois a Pádua?

PETRUCCHIO:
– O caso é este. O meu pai morreu.
Em casa tenho bens, e ouro na bolsa.
Pretendo ver o mundo e me casar.

(Os dois amigos dão alguns passos pela rua, enquanto Grúmio fica num canto esfregando a orelha puxada. Aparece na porta da casa de Hortênsio a sua velha criada Balbina, apoiada em bengala e falando com a jovem criada Maria, que espana a porta, ambas curiosas por ouvir a conversa.)

HORTÊNSIO:
– Hum…
Conheço um pai que quer casar a filha.
Riquíssima. Porém… é uma megera!
Ninguém aguenta. E eu digo como amigo:
não convém que você case com a moça.

PETRUCCHIO:
– Se ela é tão rica assim, caso com ela,
seja ela megera ou não megera.

BALBINA (a Maria): – Está vendo, Maria? O homem é um bicho ruim. É só mostrar ouro, que um farol acende, e ele se casa até com uma boneca ou com uma figura de papel. Para o homem, o dinheiro é tudo. Não se case!

MARIA: – Não seja rabugenta, dona Balbina. Os homens não são todos iguais. Ainda espero conhecer um que goste de mim com minha vassoura e meu espanador. A senhora vai ver.

BALBINA: – Hum… (as duas continuam discretamente na porta da casa)

HORTÊNSIO:
– Então, Petrucchio, vou apresentá-lo
a essa jovem, que é bonita e rica
e educada a modo de fidalga.
O seu defeito é ser desaforada
e tão teimosa que ninguém suporta.
Seu nome é Catarina.

PETRUCCHIO: – Basta, Hortênsio.
Diga-me o nome de seu pai, e pronto.

HORTÊNSIO:
– É Batista Minola, um cavalheiro.

PETRUCCHIO:
– Ele foi muito amigo de meu pai!
Vá lá comigo agora, caro Hortênsio.
Eu não durmo sem ver a Catarina.

GRÚMIO (à parte):
– Se é megera… coitada dela.
O pior nome para uma donzela.

HORTÊNSIO:
– Pois vamos lá. Seu pai guarda um tesouro:
a jovem por quem estou apaixonado.
Bianca, a filha mais nova. E o pai só casa
essa filha quando casar a outra.

(Aparecem Breno e Lúcio, este disfarçado de professor, segurando livros.)

GRÚMIO: – Olhe, meu amo, vem vindo gente aí!

HORTÊNSIO:
– Petrucchio, aquele é o meu rival.

BRENO (como quem continua uma conversa): – Eu quero
os livros lindamente encadernados,
todos livros de amor, lembre-se disso.
Ah! Os papéis das aulas de latim
devem ser docemente perfumados.
Bianca é mais doce que qualquer perfume… (sonhador)
Que livros você vai ler para ela?

LÚCIO:
– Seja qual for, eu falo do senhor,
de suas qualidades, de seus dons.

BRENO:
– Oh, tais lições serão maravilhosas.

MARIA (para Balbina): – Que esperteza a desses dois…

HORTÊNSIO:
– Salve, signior Breno!

BRENO: – Olá, Hortênsio!
Vou levar a Batista um professor
muito bom para Bianca.

HORTÊNSIO: – Mas, que ótimo!
Eu também conheci um cavalheiro
que vai trazer-me um professor de música.
Cumpro assim o que prometi ao pai
da Bianca tão querida.

BRENO: – Tão querida…
Eu vou provar o meu amor por ela…

BALBINA (para Maria): – Quem vai provar esse amor é a bolsa dele.

HORTÊNSIO (a Breno):
– Deixe de lado essa rivalidade,
pois tenho algo importante para os dois.
Por acaso encontrei este rapaz
que está interessado em Catarina
Casa com ela se for bom o dote.

BRENO:
– E ele se casa com essa gata brava?

PETRUCCHIO (aproxima-se)
– Sei que ela é rabugenta e agressiva.
Se for isso, por mim não há problema.
Ouvi leão rugindo, mar bramindo,
artilharia pipocando alto.
A língua da donzela não me assusta.

BRENO:
– Hortênsio, esse homem decidido
chegou em boa hora para nós!

(Entra Trânio, ricamente vestido, seguido de Biondello)

TRÂNIO: – Cavalheiros, por favor, qual o caminho para a casa do senhor Batista?

BIONDELLO: – Um que tem duas filhas lindas.

BRENO:
– Um momento. O senhor tem a intenção…

PETRUCCHIO:
– Não de casar com a briguenta, espero.

BRENO:
– Tem a intenção de conhecer a outra?

HORTÊNSIO:
– Pretende cortejar a meiga Bianca?

TRÂNIO: – Os senhores não têm nada a ver com isso.

LÚCIO (à parte): – Trânio até que começou bem.

TRÂNIO: – Cavalheiros, eu sou Lúcio, e vejo que aqui Bianca tem dois pretendentes. Pois não há nada de mais em acrescentar mais um. Depois que este outro senhor desposar a mais velha, pois o pai das duas quer assim, segundo soube, então nós três vamos tentar conquistar a mais moça. Quem conseguir não há de ficar aborrecido com os outros dois.

HORTÊNSIO: – Nesse caso, agradeça a este amigo, que se propõe a casar com a mais velha.

TRÂNIO: – Pois não, e para mostrar minhas intenções de uma boa camaradagem, convido-os a passar a tarde em minha casa, onde faremos brindes à nossa amada.

HORTÊNSIO: – É idéia muito boa. Amigos, vamos! (saem todos)

 

 

(continua)

 

Havendo interesse em representar a peça, enviaremos o texto completo em PDF. A escola deve solicitar pelo email: institutoruthsalles@gmail.com
Favor informar no pedido o nome da instituição, endereço completo, dados para contato e nome do responsável pelo trabalho.

 

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