A Menina Joana

peça de Helmuth von Kügelgen

Tradução de Maria Barbara Trommer
Adaptação de Ruth Salles

PALAVRAS DE APRESENTAÇÃO
“Neste trabalho, pretendemos mostrar quadros da vida de Joana d’Arc, a jovem que, com a idade de 17 anos, manteve praticamente em suas mãos o poder absoluto sobre as forças armadas de uma nação. Com isso, a França encontrou-se a si própria, o mapa da Europa transformou-se, e a Inglaterra se voltou para sua própria missão no mundo. Joana sentia-se apenas um instrumento e agiu de conformidade com sua direção espiritual. Ela lutou só, contra os grandes e poderosos de seu tempo. Quando com ela somos confrontados, sentimos um impacto, como o do encontro do destino: um ser humano puro, que se entrega a uma meta espiritual e a uma missão histórica que aponta para o futuro; um ser humano que, esmagado pela missão à qual se mantém fiel, alcança, na verdade, a vitória. Joana nos mostra, de forma comovedora, como se vive a palavra vitoriosa do espírito, que é a fonte da vida do homem atual e do homem do futuro.”


Estas palavras são um extrato, bem reduzido, do texto introdutório de Helmut von Kügelgen para sua peça “A Menina Joana”. Segundo palavras ainda do próprio autor sobre esta peça, “grupos teatrais deveriam adaptá-la e fazer os cortes de acordo com suas necessidades” e “o texto deve ser usado como base para uma adaptação livre.” Tomamos então a liberdade de obedecer à sua sugestão, seguindo nosso próprio e falível critério. Por todas as possíveis imperfeições pedimos sinceras desculpas. Assim, as palavras prévias explicativas uniram-se à Introdução (que necessitaria de narradores), e a peça inicia-se já no Prólogo, que se passa no Portal do Nascimento. Para compor esta peça, o autor baseou-se em fontes históricas e lendárias, em citações originais de respostas e ditos de Joana, e ainda em trechos da peça “Santa Joana”, de Bernard Shaw. Fora o Prólogo e o Epílogo, a peça se divide em duas partes, cada uma com três quadros; os seis quadros têm os nomes dos locais onde se deram os acontecimentos: Domrémy, Vaucouleurs, Chinon, Orléans, Reims e Rouen. Esta peça já foi apresentada mais de uma vez, tendo sido a primeira em 1981. Para a apresentação em 2008, fiz uma ligeira condensação, para torná-la menos longa. As personagens são mais de 40, mas um aluno, como personagem de pouca ou quase nenhuma fala, pode representar mais de um papel. O Prólogo pede que as falas dos arcanjos sejam em recitativo cantado.

Ruth Salles

 

PERSONAGENS

Arcanjo Miguel
Arcanjo Gabriel
Anjo da Guarda de Joana
Joana d’Arc
Jacques, seu irmão
Senhor d’Arc, seu pai
Senhora d’Arc, sua mãe
Haumette, amiga de Joana
Senhor Morel, camponês
Senhora Morel, sua mulher
Senhora Rose, camponesa
Raymond, apaixonado por Joana
Padre Guilherme
Bertrand, camponês
Roberto de Baudricourt, capitão de Vaucouleurs
Administrador de Roberto
Joãozinho (Jean de Metz)
Polly (Bertrand de Poulengey)
Pajem da corte em Chinon
René, pajem de Dunois, o Bastardo
D’Aulon, pajem de Joana
Basque, outro pajem
Carlos, o Delfim
A Rainha
A duquesa de La Trémouille
Aninha, dama da corte
Maria
Verônica
Lídia
O Arcebispo Reginaldo
Marechal La Trémouille
Gilles de Rais, seu sobrinho
Capitão La Hire
Dunois, o Bastardo de Orléans
Padre Paquerel
Cauchon, bispo de Beauvais
Conde de Warwick
O Conselheiro em Reims
O Capelão inglês John Stogumber
O Inquisidor Jean Lemaître
O Promotor Jean d’Estivet
Irmão Martinho Ladvenu
O Carrasco
Soldado inglês

 

PRÓLOGO

Portal do Nascimento – isolado do restante do palco por uma cortina de um azul claro translúcido, que depois se abre para a cena da dança dos camponeses, em todo o espaço do palco.
Coros; Alma de Joana; Arcanjos Miguel e Gabriel; Anjo da Guarda de Joana; camponeses.

No primeiro plano – o portal do nascimento – repousa a alma de Joana, sentada ou de joelhos, sob um véu transparente, dando a impressão do ainda não terrestre. Os arcanjos Miguel (túnica vermelha) e Gabriel (túnica azul) cantam seus recitativos acompanhados por um coro. Se for resolvido que, por trás da cortina transparente, haja um coro para cada arcanjo, cada coro deve usar túnicas azuis ou vermelhas, com roupas de camponeses por baixo, para a dança. Se for um coro só, separado do portal, não é necessário usar túnicas. Depois dos dois primeiros recitativos, os arcanjos falam sozinhos, e o coro, caso esteja em cena, retira-se. O anjo da Guarda de Joana usa túnica de um amarelo claro.

 

CORO e ARCANJO MIGUEL (cantam):
“Eu sou Miguel, que assisto diante do Senhor.
E eis que vos digo: Louvai-o!
Ele é a fonte da vida e o criador dos mundos.
Louvai-o e agradecei por tudo.”

CORO e ARCANJO GABRIEL (cantam):
“ Eu sou Gabriel, que assisto diante do Senhor.
E eis que digo às almas
guardadas pelos astros:
– Ouvi, ouvi o som dessa harmonia,
para seguir o apelo do destino.”

CORO e ARCANJO MIGUEL (cantam):
“O ser se expande quando ama,
e realiza a sua obra,
em amplitude pequena ou vasta.” (fim do recitativo cantado)

ANJO DE JOANA (que está perto dela):
– Joana!
Eu sou o anjo que te guarda e te prepara.
Estás no Portal do Nascimento.
Abre-se teu caminho em direção à Terra.
O Senhor te chama.

ARCANJO GABRIEL (enquanto Joana desperta e se ergue):
– Contempla a terra, a pátria escolhida!
Contempla! É a França esse jardim florido.
O espírito e a cultura desse povo
deverão influir no mundo todo,
porém agora estão amortecidos.
O egoísmo, a ganância, a violência
pisam as plantas do saber humano.
Mas esta é a pátria que te será dada.
Nela se descortina o teu caminho.

JOANA:
– Realizarei o que me foi pedido.

ARCANJO MIGUEL:
– Bendita sejas. Deus está contigo.
Vou enviar-te um elmo e uma espada.

ARCANJO GABRIEL:
– Agora, vai! Lá onde os sinos dobram,
esperam-te teus pais e tua obra.

JOANA (dá um passo à frente):
– A coragem virá. Eu quero. Eu vou.

(Os anjos desaparecem com Joana no fundo do palco, enquanto a cena se abre. É madrugada numa aldeia campestre. Camponeses dançam, depois se retiram.)

 

PRIMEIRA PARTE

PRIMEIRO QUADRO
Domrémy

Cena 1
Madrugada de 6 de janeiro de 1412. Casas de aldeia circundam a praça.

Senhor e senhora Morel; senhora Rose; senhor D’Arc; padre Guilherme.

 

SENHORA MOREL (chamando a vizinha, da praça): – Rose! Ó Rose! (quando a vizinha aparece) Viste a luz?

SENHORA ROSE: – Que foi? Que foi?

SENHORA MOREL: – Vi uma luz na árvore das fadas! (persigna-se) Respeito esses presságios…

SENHORA ROSE: – E eu tive a impressão de ouvir o som de sinos no estábulo! Fui até lá verificar, e que imaginas tu que eu encontrei?

SENHORA MOREL: – Tu encontraste as vacas com as patas dianteiras levantadas em cima da manjedoura; e esticavam as cabeças, como se buscassem algum feno invisível pelo ar.

SENHORA ROSE: – Foi isso mesmo. Elas estão doidas. Como soubeste?

SENHORA MOREL: – Pois encontrei as nossas do mesmo jeito. Além disso, vi a luz na árvore das fadas. Sinto uma estranha inquietação.

SENHOR MOREL (chegando): – Que gritos são esses? Até pensei que fossem aqueles borgonheses assassinos voltando.

SENHORA ROSE: – Não. Tudo está em paz. Mas é uma paz estranha…

SENHORA MOREL (apontando): – Olhai, olhai! Uma pomba branca no telhado da família d’Arc!… Voou! Para onde irá?

(Todos seguem com os olhos o voo da pomba.)

SENHOR D’ARC (saindo de casa): – Ah, toda a vizinhança reunida. E vem chegando padre Guilherme, como de encomenda! (o padre chega)

BALBÚRDIA DE VOZES: – Que aconteceu? Que foi? Contai! Contai!

SENHOR D’ARC: – Padre, logo teremos um batizado! Minha filhinha Joana acaba de nascer.

PADRE GUILHERME: – Bem no dia do batismo de Cristo no Jordão. E em noite como nunca vi igual.

SENHOR D’ARC: – Vinde ver a criança. Morel, senhora Morel, vós sereis os padrinhos de Joana! (vão todos à casa do senhor d’Arc.)

 

Cena 2

Fim de janeiro de 1429, em pleno dia. A mesma cena 17 anos depois.
Uma das casas está meio em ruínas, incendiada.

Raymond; senhor e senhora d’Arc; Joana, Jacques, Haumette; Padre Guilherme; Bertrand.

 

SENHOR D’ARC (caminha, conversando com Raymond): – Raymond, abriste teu coração para mim, mas que posso fazer? Eu ficaria muito feliz se ela te amasse. Os dois formariam um belo par!

RAYMOND: – Não… Só se eu fosse lutar pela França, na guerra!

SENHOR D’ARC: – Ah, pobre França… Vemos nossos campos pisoteados pelos cavalos do borgonhês traidor e dos ingleses!

RAYMOND: – Vosso clamor é tão veemente quanto o de vossa filha. Mas nada podemos fazer…

SENHOR D’ARC: – E eu tenho receio por minha filha. Ela precisa da proteção da família. É em nossas aldeias que está a cura para a pátria.

RAYMOND: – Joana diz que um homem sozinho também pode realizar grandes coisas. Ela me contou que Santa Catarina tem falado com ela.

HAUMETTE (chega com o senhor Morel): – Senhor d’Arc, Joana está em casa? Seu padrinho recebeu hoje um visitante que chegou de Paris.

SENHOR D’ARC (indignado): – Paris? Essa Paris está homenageando o rei Henrique como rei da França!

HAUMETTE: – Mas Joana está sempre interessada em saber o que anda acontecendo no mundo. (dirige-se à casa dos d’Arc e chama): – Joana!

JACQUES D’ARC (saindo da casa): – Joana não está, Haumette.

SENHOR MOREL (conta aos outros): – Meu amigo fugiu de Paris e me contou das maldades dos nobres que traíram os franceses.

HAUMETTE: – Quando o assunto é o poder ou o dinheiro…

JACQUES: – E o que se pode fazer para dar fim a tudo isso?

(Vão todos se dispersando. Surge Joana.)

JOANA:
– Ah, meu Jesus amado, há quatro anos,
eu ouço as vozes, vejo a luz celeste
por toda parte! – São Miguel Arcanjo,
todas as provas foram realizadas:
as orações, a retidão, a espera;
saí vitoriosa em todas elas.
Tu mostras o caminho, e eu vou, sem medo.
Os pensamentos são tão poderosos
nesta minha cabeça tão pequena…
Se queres protegê-la, São Miguel,
envia hoje o elmo prometido.

(Ela vai para o lado, ajoelha-se para rezar; ninguém a percebe. Bertrand vem-se aproximando com grande sacola de pastor.)

BERTRAND (chama): – Jacques! Raymond! Amigos! Vinde ver o que eu trouxe!

(Aparecem logo Jacques, Raymond, o casal d’Arc, o casal Morel, a senhora Rose, Haumette e Padre Guilherme.)

SENHORA D’ARC: – Ah, é Bertrand! Chegas de Vaucouleurs, Bertrand? Não viste Joana no caminho, junto à árvore das fadas? Hoje, não sei porque, isso me aflige.

JACQUES (sossega-a): – Ela gosta de lá, Mãe. E sabe o caminho de volta.

HAUMETTE: – Bertrand? Que tens aí nessa sacola? (bate nela) O som é de panela.

BERTRAND: – És bem esperta, Haumette. Mas não é panela. Aconteceu que, na cidade, a praça estava cheia de gente chegando de Orléans com péssimas notícias.

SENHOR MOREL: – Não pode ser! Ah, se Orléans cair, os inimigos não serão mais detidos.

(Joana se levanta. Fica ouvindo sem ser notada.)

BERTRAND: – Enquanto eu passava no meio do povo, uma cigana me segurou pelo braço e disse: “Amigo, aqui está o elmo que procuras, e bem barato.” Eu respondi: “Estás enganada. Camponês não usa elmo.” Ela porém insistiu e eu o peguei. Era tão belo… E quando ergui os olhos, a cigana tinha sumido. (tira o elmo da sacola e o levanta, mostrando-o)

JOANA (se adianta impetuosamente e tira-lhe o elmo das mãos): – É meu este elmo. Muito obrigada, Bertrand.

SENHOR D’ARC: – Como te atreves, filha? Devolve o elmo!

SENHORA D’ARC (ao marido): – Deixa-a, deixa-a!

JOANA (volta-se para Bertrand): – Ouviste más notícias?
O valente Bastardo de Orléans
não mantém a defesa da cidade?

BERTRAND: – O cerco se fecha em torno de Orléans. Não vencemos batalha alguma. Só resiste uma praça forte: o monte Saint Michel.

JOANA:
– Isso não pode acontecer. Orléans
tem de ser libertada desse cerco.

SENHOR D’ARC: – Joana! Não fica bem para uma donzela falar do que não entende.

JOANA (para Bertrand, e sem reparar nas palavras do pai):
– E onde se encontra Carlos, o Delfim?

BERTRAND: – Mantém a corte em Chinon. Mas não tem coragem nem dinheiro. A própria mãe diz que não é mãe dele.

JOANA:
– Não! Ele é o verdadeiro rei!
E trará liberdade para todos.
Eis que o céu já chamou pela Donzela.
Orléans será salva. E o Delfim
será ungido rei de toda a França.

SENHOR MOREL: – Tais milagres já não existem…

JOANA:
– Existem, sim, onde o amor existe. (põe o elmo)
Jamais será a França derrotada!
Deus, através de uma donzela frágil,
há de salvar a terra que Ele ama.

RAYMOND: – Seu olhar lança chispas!

BERTRAND: – Sua fala é ardente como fogo. (ao senhor d’Arc) Deus te deu
uma filha incomum, amigo.

SENHOR D’ARC: – Ah… Que Deus proteja a França e o rei. Quanto a nós, empunhamos o arado e não a espada. A nós foi dado cuidar da terra. A destruição se afasta de quem cuida dela. (saem ou escurece a cena)

 

SEGUNDO QUADRO
Vaucouleurs

Cena única

Dia 12 de fevereiro de 1429. No castelo de Roberto de Baudricourt. Paredes de pedra. À direita, uma sólida mesa. Mais à direita, trecho com janela ou barras de ferro do século XIII, e uma torre, mais para o canto ainda, com porta ou saída arqueada, que dá numa escada que sai no pátio. Na sala, duas cadeiras para visitas e um tamborete para Joana.

Roberto de Baudricourt; seu Administrador; Joana; Jean de Metz, Bertrand de Poulengey.

 

ADMINISTRADOR (entra afobado e aflito): – Não temos ovos, senhor! Não temos mais ovos!

ROBERTO (sentado atrás da mesa, homem rude e enérgico): – Com mil raios, homem! Que queres dizer com esse “Não temos ovos”?

ADMINISTRADOR: – Não é minha culpa, senhor. É a vontade de Deus.

ROBERTO: – Tu mentes para mim, seu atrevido, e o Criador é quem leva a culpa!

ADMINISTRADOR: – Mas, senhor, que hei de fazer? Não posso botar ovos.

ROBERTO: – Ah! E ainda por cima, gracejas!

ADMINISTRADOR: – Oh, não, senhor, Deus bem sabe que não… Todos teremos de passar sem ovos, assim como vós, senhor de Baudricourt. As galinhas simplesmente não botam!

ROBERTO: – Estúpido imbecil, estás querendo dizer que minhas galinhas da Berbéria, as melhores poedeiras da Champanha, não botam? Ladrão!

ADMINISTRADOR: – Não, não, senhor! Também não há mais leite. Rogaram-nos uma praga. Estamos enfeitiçados!

ROBERTO: – Ora, cala-te! Roberto de Baudricourt, cavaleiro e senhor do castelo de Vaucouleurs, queima feiticeiras e enforca ladrões, lembra-te disso! Por Deus! Até amanhã ao meio-dia quero os ovos aqui! Quatro dúzias e dois latões de leite. Aqui! (bate na mesa com o punho)

ADMINISTRADOR: – Podeis matar-me de pancada, mas nada disso teremos enquanto a menina estiver à porta.

ROBERTO: – Menina? Qual menina?

ADMINISTRADOR: – De Domrémy.

ROBERTO: – Raios! Porcaria! Então aquela guria, que foi tão sem vergonha de querer falar comigo, ainda está aí? Deverias tê-la mandado de volta para casa.

ADMINISTRADOR: – Eu tentei. Ela não quer. É tão persistente… (decisivo)

ROBERTO: – Para isso, tens uma dúzia de criados e cinquenta homens armados. Que diabo! Minhas ordens terão de ser executadas.

ADMINISTRADOR: – Mas, senhor, é por causa de sua vontade forte. Não conseguimos mandá-la embora. Pelo contrário!

ROBERTO (arremedando): – “Pelo contrário”. Então todos vós tendes medo dela?

ADMINISTRADOR: – Não, senhor. Medo nós temos é de vós. Ela nos dá coragem! Especialmente aos soldados; é na companhia deles que ela prefere estar, quando não está rezando.

ROBERTO (arremedando): – “Quando não está rezando”. Rezando… Conheço essa espécie de moça que gosta tanto de conversar com soldados. Onde está essa coisa? Quero ensiná-la a rezar!

ADMINISTRADOR (respira aliviado): – Está lá embaixo, no pátio.

ROBERTO (vai à janela): – Olá, tu aí!

JOANA (do lado de fora): – É comigo, senhor?

ROBERTO: – Sobe aqui!

JOANA: – És o capitão deste lugar?

ROBERTO: – Sim, sua descarada. (volta a sentar-se atrás da mesa)

ADMINISTRADOR: – Ela quer de vós roupas de soldado, armadura e cavalo. Ela quer… (ouve Roberto dar outro soco na mesa)

JOANA (entra): – Bom-dia, prezado cavaleiro de Baudricourt! Deves dar-me um cavalo, uma armadura, alguns soldados e me enviarás ao Delfim. São estas as ordens de meu Senhor para ti.

ROBERTO (meio divertido, meio indignado): – Ordens de teu senhor? Mas, que diabo, quem é o teu senhor? Eu não recebo ordens senão do rei!

JOANA: – O Rei dos céus é o meu Senhor.

ROBERTO: – Meu Deus, ela é apenas louca (ao administrador): – Idiota, por que não me disseste?

JOANA: – Muitos dizem que sou louca, enquanto não me ouvem. É vontade de Deus que faças o que Ele, por meu intermédio, quer que seja feito.

ROBERTO: – A vontade de Deus é que eu te envie de volta para casa e que mande teu pai te dar uma surra até tirar esses disparates da tua cabeça. E agora, que tens a dizer?

JOANA: – Que isso tu não farás, senhor cavaleiro. Também disseste que não me receberias. E estou aqui.

ADMINISTRADOR: – Estais vendo?

ROBERTO: – Cala o bico, seu estúpido! (tenta manter sua postura de superioridade) – Eu te recebi…

JOANA (interrompe): – Sim, meu cavaleiro! Eu agradeço. O mais dispendioso é o cavalo, e esse, Joãozinho vai-me dar. E o escudeiro de Polly me dará seus trajes. Preciso apenas de três homens de confiança durante a ida para Chinon. O mais que for necessário me será dado pelo Delfim, para que eu levante o cerco de Orléans.

ROBERTO (que tentou falar várias vezes sem conseguir): – Levantar o cerco de Orléans?!

JOANA: – Sim, prezado cavaleiro. Assim me disse São Miguel Arcanjo.

ROBERTO: – E Joãozinho e Polly… É assim que chamas os senhores Jean de Metz e Bertrand de Poulengey?

JOANA: – Entre amigos, diz-se Joãozinho e Polly. Ambos vão comigo, se tu o ordenas, naturalmente. Já tenho tudo preparado. Esperamos pela tua palavra.

(Roberto, impressionado contra a vontade, levanta-se e olha pela janela.)

ROBERTO: – Ei, Joãozinho! Ei, Polly! Vinde até cá! (volta-se para Joana e o administrador) – Para fora os dois! (a Joana) – Eu te mandarei chamar depois.

JOANA: – Alegro-me com isso, meu cavaleiro.

ADMINISTRADOR: – Por Deus! Vou ver o que fazem as galinhas! (apressa-se e sai atrás de Joana)

ROBERTO (fala sozinho, põe as mãos na cabeça): – Ela é persistente mesmo… Joãozinho e Polly, dois bons rapazes, de tipos tão diversos, mas ambos sensatos… E ela chamou-me por tu, a danada! Só agora é que me dá raiva.

(Joãozinho e Polly entram, cumprimentam militarmente seu capitão. Joãozinho, alegre; Polly, reservado.)

ROBERTO (senta-se na beirada da mesa): – Cá entre nós, amigos, estivemos lado a lado muitas vezes, vendo a morte de perto. Que quereis com a menina? Conheço o pai dela, um homem direito, que vale mais que o burgomestre. Já vou avisando que não quero saber de aborrecimentos. Não toqueis nessa menina, de uma beleza tão singular.

JOÃOZINHO: – Ela fez voto de não pertencer a um homem. E o que ela promete ela cumpre.

POLLY: – Penso nela como se ela fosse a própria Santa Virgem. Há algum mistério com ela. Na sala da guarda, lá embaixo, há homens rudes, tu conheces seu palavreado sujo. Pois não disseram ainda nenhum palavrão. Em sua presença não se pragueja. Não sei, há algum mistério com ela.

ROBERTO: – Com isso quereis dizer que ambos levais a sério essa idéia louca de ir até o Delfim? Não estais tendo muito bom senso.

JOÃOZINHO (veemente): – E até onde o bom senso nos levou? Sabes a quem pertence o país até o Loire, e também este castelo? À Borgonha e ao duque de Bedford! Logo o tomarão de ti. O Delfim diverte-se em Chinon e não quer lutar. O Bastardo não resistirá por muito tempo. E estando Orléans perdida, então… boas-noites!

POLLY: – Só um milagre nos salvará.

ROBERTO: – E vós pensais que essa menina é capaz de fazer milagres?

POLLY: – Ela em si já é um milagre. Sua palavra, sua ardente confiança em Deus… Acho que vale a pena acreditar nela. É a última saída do atoleiro em que estamos metidos.

JOÃOZINHO (confiante): – Pergunta a ela mesma! Posso chamá-la?

ROBERTO: – Vós me deixais numa situação embaraçosa. Chamai-a, então!

POLLY: – E é melhor que a examines sozinho.

ROBERTO: – Não! Ficai! E ajudai-me a manter a lucidez.

(Joãozinho acena a Joana animadamente pela janela, e ela entra.)

ROBERTO (fala com Joana, apontando para o tamborete): – Senta-te! Quantos anos tens?

JOANA: – Dezessete. Por que?

ROBERTO: – Não perguntes! Responde! Tu dizes que São Miguel Arcanjo, Santa Catarina e assim por diante falam contigo?

JOANA: – Sim, eles falam.

ROBERTO: – E eles conversam assim como eu?

JOANA: – Não. É bem diferente. Mas, sobre minhas vozes, quero ficar calada.

ROBERTO: – E Deus disse que deves ir a Orléans levantar o cerco?

JOANA: – E coroar o Delfim na Catedral, em Reims.

ROBERTO: – No caminho para lá tens de passar por território inglês. Pensas que ser soldado é pastorear ovelhas, é tanger uma vaca para fora do pasto? Já viste alguma vez os ingleses lutando?

JOANA: – Depois que Domrémy foi devastada, cuidei uma vez de três feridos. Seres humanos como tu e eu. Em sua terra, que Deus lhes deu, eles são bons. Lá todos falam inglês. E o Rei dos Céus deu para nós a França. Se não, seria assassinato matar ingleses na luta. Roberto, não tenhas medo. Deves servir a Deus, não aos homens.

ROBERTO (encolerizado): – Eu não tenho medo! E quem te deu licença de chamares a mim, um cavaleiro, de Roberto?

JOANA: – Esse é teu nome divino. Os nomes de capitão, cavaleiro e Baudricourt recebeste do pai, do rei, dos homens. O de Roberto recebeste pelo sacramento do batismo.

POLLY: – Estás vendo? Nenhuma pergunta ela deixa sem resposta.

JOANA: – Cem como eu, sim, dez são suficientes, quando Deus está do nosso lado! Ainda não compreendes? Enquanto os nossos lutarem apenas pela própria pele e não pela França, salvam a pele da melhor maneira.

JOÃOZINHO: – E nossos duques e cavaleiros só pensam no dinheiro do resgate. Para eles não se trata de matar ou morrer, mas de pagar ou receber.

ROBERTO: – Polly, Joãozinho, talvez tudo isso seja um absurdo, mas pode entusiasmar o povo, as tropas. E, se ela conseguir entusiasmar o Delfim, então arrastará consigo todo o exército.

POLLY: – Devia-se tentar. Eu não disse que há mesmo algum mistério com ela?

ROBERTO (a Joana, que se havia levantado): – Senta-te e escuta!

JOANA (senta, humilde e atenta): – Sim, senhor.

ROBERTO: – Tua ordem de serviço é a seguinte: vais a Chinon, com estes dois cavaleiros.

JOANA: – Sim, senhor.

JOÃOZINHO: – E se o Delfim não a receber, que se faz então?

ROBERTO: – Ela deve dizer que eu a enviei. Além disso, meu caro Joãozinho, se o Delfim conseguir não falar com ela, então ele tem mais tenacidade e mais coragem do que eu julgava. É tudo.

JOANA (levanta-se, quieta e simples): – Eu te agradeço, senhor cavaleiro Roberto de Baudricourt. O sol nascente nos verá a caminho do rei! (Ela sai com Joãozinho e Polly.)

ADMINISTRADOR (entra afobado): – Senhor de Baudricourt! Senhor de…

ROBERTO: – Que aconteceu? Sinal de alarme? Os borgonheses atacam?

ADMINISTRADOR: – Não, meu senhor! As galinhas! As galinhas da Berbéria! Estão botando ovos como loucas!

ROBERTO: – Senhor Jesus Cristo! Foste tu que a enviaste para nós!

 

(continua)

 

Havendo interesse em representar a peça, enviaremos o texto completo em PDF. A escola deve solicitar pelo email: institutoruthsalles@gmail.com
Favor informar no pedido o nome da instituição, endereço completo, dados para contato e nome do responsável pelo trabalho.

 

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