A Saga da Rosa-de-Natal

peça de Ruth Salles

Esta peça é baseada numa lenda da famosa e querida escritora sueca Selma Lagerlöf¹. Nascida em 1858, foi professora e lutou pela paz mundial e pela emancipação da mulher, e em 1909 recebeu o Prêmio Nobel de Literatura. Suas sagas, lendas cristãs e outras lendas são lindíssimas, cheias de exuberante fantasia e de profundo amor. Na adaptação para peça que fiz desta lenda de Natal, as personagens se destacam do coro sempre que se fazem necessárias no centro da cena. Duas canções escandinavas constam da peça, “Vallvisa” e “Kling klang, klockan Slar” (a segunda é da Finlândia). Nelas foram adaptadas letras em português, que servem ao tema da peça, nada tendo a ver com as letras das canções originais.

PERSONAGENS:
Coro / Salteador, mulher, dois filhos e três filhas / Três monges do mosteiro de Oved
Abade João / Arcebispo Absalão, de Lund / Personagens da aldeia

 

As cenas se passam do lado de fora do mosteiro (à esquerda), na travessia da aldeia (no centro) e na caverna do salteador (à direita).

 

CENA 1
Do lado de fora do mosteiro

CORO (canta):
“Que flor é esta,
numa floresta desfolhada, congelada?
Uma rosa divinal, um milagre sem igual
bem na noite de Natal!” (repete a mesma estrofe)

CORO (fala):
– Numa floresta bem alta,
no fundo de uma caverna,
morava um salteador.
Com mulher e cinco filhos,
ali vivia escondido
de todo o mundo em redor.
Sempre que sua mulher
ia à aldeia mendigar,
qualquer coisa que pedisse,
ninguém ousava negar,
de medo de seu marido
que podia se vingar.

MULHER DO SALTEADOR (com os 5 filhos, grita e bate à porta do mosteiro):
– Neste mosteiro de Nosso Senhor,
dê-me de comer, seja lá quem for!

1º MONGE:
– Que horror! É a mulher do salteador!
E com seus cinco filhos endiabrados!
Que é que eu faço agora? Ai de mim… (dálhes pão e os enxota)
Vão! Vão em paz e levem este pão!

1º FILHO DO SALTEADOR (ao ver o jardim do mosteiro, onde é a plateia):
– Mãe! Ó mãe, venha ver este jardim
cheio de lindas flores de verão!

(a mulher examina o jardim)

2º FILHO:
– Há lírios brancos perfumando tudo!

1ª FILHA:
– Há trepadeiras já galgando o muro!

2º MONGE (chega acompanhado do 3º monge):
– Ó mulher, isto aqui é um mosteiro
de monges reunidos a rezar.
Não foi dado a ninguém consentimento
de passar no portão e aqui entrar.

3º MONGE:
– Tomo conta da entrada e do jardim.
Se alguém entrar, porão a culpa em mim.
Saia daqui, em nome do Senhor!
Eu a conduzirei. (segura-a pelo braço)

MULHER (em tom de desafio):
– Não toque em mim!
Pois eu sou a mulher do salteador!
Monges reclusos neste casarão…
Nós vivemos também em reclusão,
por uns erros passados, sem perdão.
Nosso mosteiro é uma caverna escura.
Ali nos protegemos da friagem
e de algum valentão que nos procure.
E agora toque em mim, se tem coragem!

1º MONGE:
– O velho abade João já vem chegando!
Foi ele quem plantou este jardim.

2ª FILHA DO SALTEADOR (olhando o jardim e saltando):
– As rosas! As madressilvas!

3ª FILHA (olhando o jardim e saltando):
– A hera! A sálvia! O alecrim!

1º MONGE (desanimado):
– Que faço agora com elas?

ABADE JOÃO (aparecendo, perto do 2º e do 3º monge):
– Que algazarra é aquela?

2º MONGE:
– Oh, perdão, abade João.
É a mulher do salteador.

3º MONGE:
– Veio com seus cinco filhos
e entrou aqui sem licença,
invadiu nosso jardim
e examina cada flor.

ABADE JOÃO:
– Deixe que eu falo com ela. (saem o 2º e o 3º monges)
(ao 1º monge):
– Nunca vi mulher assim!
Decerto aprecia flores.
Teimar com nossos três monges
só para ver o jardim! (chega perto dela e toca em seu ombro)

MULHER (volta-se zangada, mas se acalma ao ver abade tão velho):
– Que quer? Oh, perdão, senhor!
Este é um jardim bem bonito.
Conheço todas as plantas,
cada flor que aqui brotou.

1º MONGE:
– Ora, eu não acredito!
Sabemos que em toda a Escânia
não há estas flores raras
que o abade João plantou.

MULHER:
– Pois eu não estou mentindo!
Se lhes fosse permitido
ver o jardim que conheço,
estas flores eram tidas
por coisa de pouco preço.

1º MONGE:
– Mulher, que barbaridade!
Menosprezar todo o esforço
do nosso querido abade!

ABADE JOÃO:
– Deixe-a falar! Talvez diga a verdade.

MULHER:
– Vocês, sendo homens santos, afinal
deveriam saber que todo ano,
na floresta de Göinge, acontece
um milagre na noite de Natal.
Mesmo estando forrada pela neve,
a floresta transforma-se em jardim
de flores tão brilhantes e tão belas,
que ninguém tem coragem de colhê-las!

1º MONGE:
– Ora, mulher!

ABADE JOÃO:
– Silêncio!
Ouvi falar do jardim de Natal…
Desde criança que sonho em vê-lo…
(à mulher):
– E agora então lhe peço, mulher,
que no Natal possa hospedar-me na caverna.
Mande um de seus meninos ensinar-me o caminho.

1º MONGE:
– Abade João, não faça isso, é muito perigoso!

MULHER (zangada):
– É perigoso para o meu marido!

ABADE JOÃO (insistindo):
– Por favor!

MULHER:
– Eu permito se levar
só um monge que o possa acompanhar.

1º MONGE (preocupado):
– Eu vou com ele!

MULHER:
– Muito bem. Contanto que contra nós não armem emboscadas.

1º MONGE:
– Não fale assim com nosso abade santo.

MULHER (como que se desculpando):
– Por ser santo o abade é que o recebo.
Mas devo proteger o meu marido.

ABADE JOÃO:
– Fique tranquila. Ninguém vai traí-la.

MULHER:
– Então, adeus! Eu mando o meu menino.

ABADE JOÃO:
– Adeus, e vá em paz, mulher! (ela sai com os filhos)
(ao 1º monge):
– Irmão,
o que hoje entre nós foi combinado
ordeno que não seja revelado
aos nossos outros monges.

1º MONGE:
– Sim, meu pai. (ele sai)

2º MONGE (entrando):
– Abade, abade João!

ABADE JOÃO:
– Que foi, irmão?

2º MONGE:
– O arcebispo Absalão está chegando.
Veio passar a noite. (ele sai após fazer entrar o arcebispo)

ABADE JOÃO (ao arcebispo):
– Meu amigo!

ARCEBISPO:
– Quero ver seu jardim como vai indo!
Está lindo!

ABADE JOÃO:
– Porém não é tão lindo
quanto aquele que brota em pleno inverno
na floresta de Göinge, no Natal,
como conta a mulher do salteador.

ARCEBISPO (espantado):
– Do salteador?

ABADE JOÃO:
– Imploro ao arcebispo
que me dê uma carta absolutória em favor do proscrito.
Que ele possa viver de novo com seus semelhantes com um trabalho honesto.

ARCEBISPO (espantado):
– Um salteador?!

ABADE JOÃO:
– Se Deus permite a ele e sua família
apreciar aquela maravilha
na floresta de Göinge, no Natal,
não é assim tão mau que não mereça
a graça de um perdão.

ARCEBISPO:
– Boa razão.
Porém só isto posso prometer:
no dia em que eu vier a receber
uma flor milagrosa do jardim
da floresta de Göinge, no Natal,
então eu mando a carta absolutória
em favor do proscrito.

ABADE JOÃO:
– Oh, obrigado!
Eu a trarei sem falta ao arcebispo! (os dois saem juntos)

 

CENA 2
O abade João e o 1º monge passam pela aldeia

CORO (fala, enquanto as cenas se passam):
– O Natal se aproximava,
e o abade já partia.
Um monge o acompanhava,
e um menino era seu guia.
Iam eles rumo ao norte,
na direção da floresta;
e viam por toda parte
preparativos de festa.
Nas casas se assava o pão,
nas granjas o fogo ardia,
na igreja o sacristão
deitava a tapeçaria.
Toda gente que passava
compridas velas levava,
para acender uma luz
no presépio de Jesus.

CORO E POVO (cantam):
“Blim-blim, don-don-don!
Sininhos vão tocando.
É Natal! Que lindo som
na noite ressoando!
Antoninho e Manuela,
todos trabalhando!
Lá no alto, a estrela
já está brilhando.”

(O abade e o monge vão conversando, enquanto o menino vai saltando na frente.)

1º MONGE:
– Quanta festa no arredor
por onde fomos passando…

ABADE JOÃO:
– Penso na festa maior
que nos está esperando.

1º MONGE:
– Que festa? A de se entregar
nas mãos do salteador?

ABADE JOÃO:
– Não.A noite a clarear
um jardim cheio de flor…

MENINO (apontando a gruta):
– É aqui, neste rochedo.

1º MONGE:
– Bom abade, estou com medo…
A gruta é fria… sem luz…

MENINO:
– É o covil onde vivemos.
Na gruta nasceu Jesus.
Não foi isso que aprendemos?

ABADE JOÃO (exclama em saudação):
– Que a paz esteja na casa!

MULHER:
– Vão entrando!

ABADE JOÃO:
– Pois entremos!

1º MONGE (olhando o caldeirão, a jarra e o prato sobre um caixote):
– Esta sopa… é pura água.
Não há vinho… Não há pão…

MULHER:
– Ah, quem vem às nossas plagas
tem de trazer provisão.
Meu marido cochilou.
O cansaço o derrubou.
Sentem-se ao pé deste fogo
e depois descansem logo,
que eu ficarei de vigília,
para acordá-los na hora
de verem a maravilha
que se passará lá fora.

1º MONGE (senta-se ao lado do abade e depois deita-se; fala consigo mesmo):
– Meus olhos vão-se fechar,
e eu preciso vigiar…
O abade corre perigo,
mas não aguento… comigo… (adormece)

 

CENA 3
A visão do jardim na entrada da gruta

 

(Soa na flauta o tema musical anterior, da festa na aldeia. O monge vai acordando e vê que o abade conversa com o salteador.)

ABADE JOÃO:
– Vejo aqui os seus filhos, ah… coitados…
Não poderem correr fantasiados
com os amigos nas ruas lá da aldeia…

SALTEADOR:
– Não sabe então que sou um fugitivo,
que não posso sair deste “mosteiro”?

ABADE JOÃO:
– Pois pretendo obter, com o arcebispo,
a carta que concede o livramento.

SALTEADOR (rindo junto com a mulher):
– Para um salteador, mulher e filhos?
Acho difícil… Mas garanto isto:
Se eu receber a carta prometida,
saio da gruta e deste triste mato;
vou trabalhar e não vou mais roubar
nem sequer o valor de um simples pato!

1º MONGE (observando-os, fala consigo mesmo):
– Nosso abade conversa, carinhoso,
com esse salteador facinoroso.
Péssima gente. Não suporto isto.

SALTEADOR:
– O som dos sinos já se ouve ao longe.
O vento sul o trouxe. Escutem, monges!

1º MONGE (descrente):
– Eu só vejo uma noite escura e fria…

ABADE JOÃO:
– Será que o som dos sinos poderia
despertar a floresta enregelada? (com espanto)
Uma súbita luz vem… e se apaga!
Ah, será dado a mim, homem idoso,
contemplar esse encanto milagroso?

(Os filhos do salteador correm em direção à beira da plateia, os outros vão atrás.)

1º FILHO:
– A neve desaparece
como um tapete enrolado!

2º FILHO:
– Toda a terra reverdece,
e há brotinhos enroscados!

1ª FILHA:
– Rebentam botões de flores
e se abrem em mil cores!

1º MONGE:
– Voltou a escuridão. E agora é densa.

ABADE JOÃO:
– Nova onda de luz! E mais intensa!

2ª FILHA:
– Murmuram regatos
e estalam cascatas!
Martela num tronco
o audaz pica-pau!

3ª FILHA (aponta para cima):
– Lá vão estorninhos
no rumo do norte;
as penas vermelhas
parecem centelhas!

1º MONGE:
– Voltou a escuridão.

ABADE JOÃO:
– E nova luz.
É meia-noite. Já nasceu Jesus.

CORO (fala):
– Esquilos, patos selvagens
passam por entre a folhagem.
Raposas deixam as tocas,
corujas vão para a caça,
e o cuco põe-se a cantar.
Como são grandes as flores
de todo tipo e lugar!
E o abade se lembrou
da flor que ia levar.
Mas ainda vacilou…
Não sabia qual pegar.

ABADE JOÃO (vendo a rosa-de-natal):
– Olhe aquela linda rosa!
É tão branca e luminosa!
Oh, Deus, que felicidade!
Meu coração quer parar.
Aspiro à eternidade!
Só milagres contemplar!

1º MONGE (sempre negativo):
– Milagre que se apresenta
a um salteador tão vil
não pode provir do bem.
Isso é coisa do Maligno.

ABADE JOÃO:
– Os anjos, que se aproximam,
têm asas cheias de luz!

1º MONGE:
– Asas negras do Inimigo
que depressa nos seduz.

SALTEADOR:
– Quantos pássaros voando!

MULHER:
– Um pombinho vem chegando.
Pousou no ombro do Irmão!

1º MONGE (espantando o pombo):
– É o Tentador atacando!
Volte para a escuridão!

(O jardim desaparece. O coro dá um grito decrescente em vista disso.)

CORO:
– Oh-oh-oh-oh…….
Voltou a noite
escura e fria.
Toda a floresta
enregelou-se.
O som dos sinos…
(devagar) … calou-se…

ABADE JOÃO:
– Não poderei sobreviver a tanto…
Todos os anjos serem repelidos…
E a rosa, que eu queria ter colhido… (procura a rosa e colhe um punhado de terra)
Só uma… A terra esfria… Está murchando…
(o abade cai)

1º MONGE:
– Oh, a culpa foi minha! Apenas minha!
Arrebatei-lhe a taça de alegria
em que devotamente ele bebia!

SALTEADOR:
– A sua mão direita está fechada.
Alguma coisa com certeza guarda.

MULHER (abrindo a mão do abade):
– São raízes, tubérculos branquinhos…

1º MONGE (pegando-os e guardando-os consigo):
– Vou plantá-los com todo o meu carinho.

 

CENA 4
Do lado de fora do mosteiro

 

(O 1º monge, sozinho, anda de um lado para o outro lendo o breviário, e às vezes pára e olha o jardim [plateia]. As outras personagens integraram-se ao Coro.)

CORO (fala):
– E, no jardim do mosteiro,
o monge ficou à espera
de ver uma flor nascendo
ao entrar a primavera.
A primavera passou,
e nenhuma flor brotou.
O verão foi-se passando,
passou o outono dourado,
tudo foi-se enregelando
no inverno recém-chegado.

1º MONGE (ajoelhando-se diante do canteiro):
– É véspera de Natal,
e relembro com saudade
o milagre divinal
que vi com meu santo abade.
Vou olhar o meu canteiro
para ver se há algum sinal.
A esperança me apressa! (vê a rosa-de-natal, que brotou)
– Oh, toque o sino, sineiro!
Convoque os monges depressa!
É a rosa-de-natal!

(O sino soa. Os outros monges aparecem e mais o arcebispo Absalão.)

1º MONGE (dirige-se ao arcebispo e lhe dá as flores):
– Tome, arcebispo Absalão,
as flores que nosso abade
prometeu de coração.
Vêm da floresta de Göinge.
Eu as ponho em sua mão.

ARCEBISPO (entrega-lhe uma carta):
– Foi cumprido o prometido!
Pois vá à floresta, Irmão!
Vá entregar ao bandido
esta carta de perdão.

(O 1º monge dirige-se ao outro extremo da cena, onde é a caverna do salteador.)

SALTEADOR (avança agressivamente para o monge, ao vê-lo):
– Monge, chegou o seu fim!
Deve ser por sua culpa
que neste ano a floresta
não revelou seu jardim.

1º MONGE (humilde):
– Decerto foi minha falta,
e estou pronto para a morte,
mas antes receba a carta
que vai mudar sua sorte.
De hoje em diante, seus filhos
podem brincar, afinal,
lá na aldeia, com os amigos,
nesta noite de Natal.

SALTEADOR (lê a carta com a mulher; os filhos os rodeiam):
– O abade cumpriu com o prometido!
Pois o voto que fez o salteador
hoje mesmo também será cumprido.
Eu deixarei o meu covil sombrio.
Quero que os homens sejam meus irmãos.

1º MONGE:
– Quanto a mim, vou morar neste covil.
Meu desejo é ficar aqui sozinho,
diante da floresta, em oração. (saem todos da gruta e se unem ao povo da aldeia)

TODOS (cantam o tema inicial, da flor):
“Que flor é esta… etc”

*1: LAGERLÖF, Selma. Lendas Cristãs. Rio de Janeiro: Editora A Noite, 1930.

 

 

 

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