A Sombra do Rei

peça de Bernt Von Heiseler

prólogo e adaptação geral de Helmut Von Kügelgen

tradução: Maria Bárbara Trommer

revisão, versificação e nova adaptação: Ruth Salles

PERSONAGENS

AGRESTUS, um camponês
ANIELA, sua mulher

FLORINDA,
MARINA e
CÁRPIO, seus filhos

ALBIDA, a avó

LANISTO e
PATRANHO, jovens camponeses

REI SEVERENO

CONVÊNIO, nobre tesoureiro

MURMURILHA e
ZANGUETA, cortesãs

MAIS CORTESÃOS à vontade

TUNANTE, general

REVERENZA e
SONSUS, cortesãos

MARTINHO e
FELIPE, alabardeiros

BOBO da corte, velho

GISMONDE

ANABELA, sua aia

SERVO MOURO

GUARDAS de Gismonde

CORNETEIROS do rei

AJUDANTES de palco,

dançarinos

CORO que canta

 

 

LOCAL – em qualquer lugar
ÉPOCA – sempre

PRÓLOGO

 

A cena se passa em frente de uma casa de camponeses. O ambiente é de calma após um dia de trabalho. A avó Albida tricota numa cadeira de balanço, e é a única que fala em verso e balançando; Agrestus fuma seu cachimbo; Aniela prepara verduras com ajuda da filha Marina; os filhos Florinda e Cárpio estão sentados sem ter o que fazer. Mais tarde, juntam-se a eles Lanisto e Patranho, correndo intempestivamente.

 

AGRESTUS: – O tempo parece firme, Aniela. Nosso feno vai ficar perfumado.

ANIELA: – É verdade, Agrestus. Faltam só dois dias para o domingo. Graças a Deus vamos poder descansar!

CÁRPIO: – Pai, posso levar as carroças ao celeiro?

AGRESTUS: – Pode, Cárpio. Desde que Marina não as carregue devagar demais, e nem Florinda depressa demais.

MARINA: – Ah, Pai, então tenho que ser igual à Florinda que sai galopando num cavalo feito doida, ou pula pelas escarpas atrás das camurças?

FLORINDA: – Não exagere, senhorita Moleza!

ANIELA: – Essa velha briguinha… Parem com isso!

FLORINDA: – Olhem Lanisto e Patranho como vêm correndo! Com certeza trazem notícias novas. Será que é o rei que vem aqui de novo para caçar?

CÁRPIO: – Isso Florinda não esquece nunca. Até contou para os gatos, só porque eu não quis mais ouvi-la. (imita o rei e Florinda, fazendo graça) “Oh, menina querida, eu lhe agradeço!” disse o rei Severeno, pegando o caneco que ela lhe estendia.

FLORINDA: – Foi isso mesmo. E ele olhou para mim com um olhar tão sério e triste…

LANISTO (chegando intempestivamente junto com Patrânio): – Já souberam da última?

AGRESTUS: – Que foi, Lanisto? Onde é que pegou fogo?

PATRANHO: – A velha Vulpa chegou na aldeia puxando pela mão o velho Macesto e mais seus dois filhos!

LANISTO: – Macesto não dizia uma palavra, e todos estavam mais brancos que um queijo.

ALBIDA:

– Macesto sem falar? A coisa é grave!

MARINA: – Conta isso direito, Patranho!

LANISTO: – Eu conto. Macesto e os filhos já iam sair para pastorear o rebanho no alto da montanha, quando apareceu a Vulpa em sua porta.

PATRANHO: – E ela fincou a bengala no chão e gritou: “Venham! A montanha vai cair.” E agarrou o pulso de Macesto e o arrastou depressa, com os filhos dele atrás!

LANISTO: – E aí a montanha rugiu, a terra tremeu, e aquele lado que chamamos Muralha do Diabo se fendeu de cima abaixo. Foi um horror! Cercas, cabanas, gado, tudo sumiu num turbilhão!

PATRANHO: – Foi por poucos segundos que a avalanche não alcançou os quatro que fugiam.

ALBIDA:

– Foi Deus quem avisou a velha Vulpa!

PATRANHO: – Que nada! Foi coincidência, ou então um conto de fadas fantástico!

MARINA: – Ora, Patranho, conto de fadas… Que bobagem!

ALBIDA:

– Patranho tem razão. Conto de fadas

acontece quando é chegada a hora.

Quem tem coragem pode até vivê-lo!

CÁRPIO: – E como se sabe a hora?

FLORINDA: – Acho que só o coração sabe. Por falar nisso, Marina, cante para nós aquela canção sobre um conto de fadas, que você aprendeu naquela festa!

MARINA: – Agora?!!!

FLORINDA: – Ah, por favor! Comece, que depois entramos e ajudamos.

MARINA (canta meio que balançando, ajudada pelo coro):

“Menina vestida com roupa de pajem,

assim disfarçada ao rei se chegou.

Será que o fará feliz nesses trajes?

Em sua estrela porém confiou.

O rei, procurando por uma rainha,

quer uma que saiba pensar só por si.

E escolhe a dama que mora sozinha.

Altiva ao luar essa dama eu vi.

Um bando de espectros à noite zunia.

A escura verdade esconde seu mal.

E só se revela aos outros de dia.

O sol mostra logo o que é real.

Perucas rodeiam, rodeiam o rei.

Que baile de máscaras! Dançam tão bem!

Da corja se salva um só homem que eu sei:

coroa de Bobo no entanto ele tem.

Menina do campo tão triste desceu

por ordem real para a fria prisão.

Porém as correntes e o medo venceu

com a força do amor em seu coração.”

AGRESTUS: – Muito bem! Mas agora, filhos, vamos ao estábulo, que é hora de ordenhar as vacas!

ANIELA: – Ande, Florinda! Temos de levar o leite até o castelo do rei!

(Vão saindo, menos Florinda e Albida, num canto ainda tricotando.)

FLORINDA (consigo mesma, olhando para o alto): – Contos de fadas podem ser vividos por quem tiver coragem. Pois eu tenho. E vou viver um. Se vou! (Florinda sai)

ALBIDA:

– Que foi que aconteceu com essa menina? (levanta-se devagar e sai.)

PRIMEIRO ATO

Na penumbra, entram os ajudantes de palco e mudam a cena: à direita o salão do Rei, com um trono; no meio, uma porta que dá para os interiores do palácio. À esquerda, uma porta em forma de arco, que dá para fora, e por onde, mais tarde, entrará forte luz do sol no salão. Felipe e Martinho, dois alabardeiros vestido de preto, com uma gargantilha plissada branca, deitam-se sob o arco da porta e adormecem. Os ajudantes de cena verificam a montagem. Som de gongo.

Dois ajudantes de cena; Florinda e Cárpio, Felipe e Martinho; dois corneteiros, Convênio, Tunante, Reverenza, Murmurilha, Zangueta, Sonsus, e demais cortesãos; o rei Severeno (tudo que é escrito e dito pelo rei é em versos), Bobo da corte.

1º AJUDANTE: – A peça pode começar! (luz colorida vem de cima) Por aqui todos estão ocupados demais consigo mesmos.

2º AJUDANTE: – Nem sequer suspeitam da magia que passa por tudo!

(Suavemente, o coro canta a primeira estrofe da canção de Marina. Os ajudantes de palco dançam, com piruetas e cambalhotas. A música para. Os ajudantes somem. Pelo arco da porta, bate a luz do sol no salão vazio. Florinda, disfarçada de homem, vestida de pajem, e Cárpio, em trajes de camponês, esgueiram-se para dentro do salão passando pelos guardas adormecidos.)

CÁRPIO: – Vamos embora, Florinda!

FLORINDA: – Você já disse isso cinco vezes! Não vou voltar. Vou oferecer meus serviços de pajem ao rei.

CÁRPIO: – Mas dizem que o rei Severeno é severo e até bate nos pajens que não fazem as coisas direito.

FLORINDA: – Em mim ele não vai bater. Não vou fazer nada errado. E eu gosto dele.

CÁRPIO: – Mas, que é que você quer com ele?

FLORINDA: – Ele parece um homem muito solitário, e precisa de um pajem só para ele. Adeus, meu Cárpio. Dê lembranças por mim aos pais e a todos, inclusive aos gatos!

CÁRPIO: – Adeus! Adeus! (passa pelo arco do portão, Felipe acorda)

FELIPE (apoia-se na alabarda, ainda com sono): – Quem é você?

FLORINDA: – É meu irmão Cárpio, senhor. Ele me acompanhou aqui. Eu vim oferecer meus serviços ao rei. Cárpio já está indo embora.

FELIPE: – Então pode ir! (deixa-o ir)

FLORINDA (exclama na direção de Cárpio, que está saindo): – Não se esqueça de dar leite aos gatos de manhã!

CÁRPIO: – Está bem!

FLORINDA (a Felipe): – Se não repito umas dez vezes, ele esquece.

FELIPE: – Mas que serviço você quer oferecer ao rei, meu rapaz?

FLORINDA: – Serviços de pajem.

FELIPE: – Não há necessidade de pajem aqui.

FLORINDA: – Ah, mas eu me tornarei um pajem altamente necessário!

MARTINHO (acordando): – Eh, rapaz, de que castelo vens? És filho de algum nobre?

FLORINDA (rindo): – Não venho de nenhum castelo. Meu pai é camponês de umas terras junto ao rio. É de lá que vêm o leite e o queijo que alimentam o rei.

FELIPE: – Pois então é melhor dizer a seu pai que esse leite não faz bem ao rei, e o queijo tira o faro dos cachorros. Nem percebem o lobo a poucos passos. Trate de ir embora, vamos!

MARTINHO: – Calma, Felipe!

FLORINDA: Mas que culpa eu tenho de darem queijo aos cachorros? Qualquer criança sabe que queijo tira o faro deles.

MARTINHO: – Você não poderá ser pajem porque não tem sangue nobre, é isso.

FELIPE (grita): – É, seu patife! Vão pendurar você lá no catavento se não sumir daqui imediatamente!

FLORINDA (a Martinho): – Mas por que ele grita? Até que a voz dele é bem sonora! (Felipe fica mudo de raiva e Martinho acha graça) Quer dizer que só posso ser pajem se for filha de algum nobre?

MARTINHO: – Filha???

FLORINDA (assustada): – Não, não! Eu disse filho! E quem disse que só nobres podem ser pajens?

MARTINHO: – Quem disse foi o nobre tesoureiro do reino.

FLORINDA: – Ah, é? Então vou dizer que sou de origem nobre. Vocês não vão me trair, não é?

FELIPE: – O quê???

MARTINHO: – Quieto, Felipe! Eles vêm vindo!

FLORINDA: – Vocês se calaram de medo de quem?

FELIPE (quase explodindo): – Medo?

MARTINHO: – Não! É que vem vindo o nobre tesoureiro Convênio.

FLORINDA: – Convênio? Hum… conveniente esse nome!

FELIPE: – Sim, rapazola! E mais o general Tunante e o cortesão Reverenza, etc. etc… Fique quieto!

FLORINDA: Eu fico quieta, seu resmungão, mais quieta que você.

(Felipe quer retrucar, mas só faz uma ameaça com o punho, porque a corte está entrando em cortejo; na frente Convênio, acompanhado de dois corneteiros; em seguida Tunante, Reverenza, cavalheiros e damas da corte cheios de pompa.)

CONVÊNIO (dirigindo-se a todos): – Em nome do rei! (toque de corneta; todos se inclinam) Convoquei a todos, senhores e senhoras, para que ouçam a nova ordem do rei. Sua Majestade é tão único, que não suporta ter muito perto os menos nobres que ele. Assim, compete a nós, com todo o respeito, manter alguma distância do rei. Ouçam a nova lei!

(Novo toque de corneta e reverências. Convênio desenrola um cilindro de papel.)

FLORINDA (a Martinho): – Por que tanta clarinada? E por que se curvam quando o rei nem está presente?

MARTINHO: – Chiu… Fique quieto, garoto!

CONVÊNIO (lê):
-“Eu, Severeno, coroado rei
pela graça de Deus, venho ordenar
que, de hoje em diante, minha nobre sombra
seja considerada tão sagrada
quanto a minha pessoa sempre foi.
Quem ousar pisar nela com seu pé
perderá os seus bens e a sua vida.
Aqui fica assentada a nova lei.
Rei Severeno!”

FLORINDA (cai na risada em meio ao respeitoso silêncio): – Ha-ha-ha! Que disparate!

FELIPE: – Moleque danado! Que atrevimento!

FLORINDA (ainda rindo): – Não pisar no pé do rei, ainda vá, mas na sombra?

CONVÊNIO: – Quem é esse que zomba do rei?

REVERENZA: – É revoltante!

CORTESÃO: – Blasfêmia! Não é mesmo, Murmurilha?

MURMURILHA: – Inacreditável! No meu tempo…

(Todos começam a rodear Florinda. Martinho tenta puxá-la para fora.)

MARTINHO: – Menino, saia depressa! Isto aqui está ficando perigoso!

FLORINDA: – Mas, que foi que eu fiz? Que querem os senhores?

TUNANTE (general dominador): – Fora com esse rapaz!

TODOS: – Fora com ele!

CONVÊNIO: – Silêncio! O rei vem vindo!

(Ouve-se um toque de corneta. Todos se afastam, abrindo espaço. Florinda fica sozinha no meio do salão e olha atordoada e espantada para o rei, que entra lentamente na companhia do Bobo da corte. Há bastante luz para se ver a sombra do rei. Reverenza, que está mais próximo, deve dar um pulo para não ficar na sombra do rei. O rei olha em volta e para diante de Florinda.)

FLORINDA (com linda reverência): – Deus salve o Rei! (silêncio; o rei a contempla)

REI SEVERENO:
– Quem é, e de onde vem esse rapaz?

CONVÊNIO: – Saiba Vossa Majestade que eu li o novo decreto sobre a sombra. Toda a corte ouviu em silêncio, Menos esse garoto, que deu uma risada, achando a lei absurda!!!

TUNANTE: – Se não fosse o toque da corneta, ele já estaria morto! E merece mesmo ser julgado…

REI SEVERENO (interrompe erguendo a mão e se dirige a Florinda):
– Diga quem é você e de onde vem!

FLORINDA: – Sou Florin… Floriano. Venho de casa muito nobre, que fica do outro lado do rio.

REI SEVERENO:
– E por que você veio até aqui?

FLORINDA: – Vim oferecer-me como seu pajem, para fazer o que for necessário. Levar mensagens, fazer limpezas, e até costuro. Confesso que achei graça na lei, porque onde moro não é costume esse tipo de proibição de pisar na sombra das pessoas. Mas, de hoje em diante, vou tomar cuidado, eu aprendo depressa as coisas. Então, Majestade? Aceita meus serviços de pajem?

REI SEVERENO:
– Pelo menos você é diferente.
Aceito seu serviço. Mas, cuidado!
Aprenda a respeitar os meus desejos,
e obedeça a lei da minha sombra!

(O rei se cala e olha em volta.)

CONVÊNIO: – Salve o Rei!

TODOS: – Salve o generoso Rei!

TUNANTE (aperta a mão de Florinda): – Digno amigo, bem-vindo à corte.

REVERENZA: – O mesmo digo eu.

MURMURILHA: – De todo o coração! (a Zangueta): – Ele é lindo, não é, Zangueta?

ZANGUETA: – Muito lindo! (a Florinda): – Saúdo o filho de uma casa nobre.

FLORINDA: – Vocês são muito engraçados…

BOBO (aproxima-se): – Se você se espanta é porque ainda está verde e tolo. Hoje você teve sorte. Só desejo que depois o vento não lhe sopre ao contrário. Acho que lhe devo dar umas dicas, umas aulas de comportamento na corte. Eu fiquei sábio e curvo na arte de ser Bobo.

FLORINDA: – Quem é o senhor, com essa roupa esquisita?

BOBO: – Sou o Bobo do rei, amigo dele, seu cachorro, seu abrigo no bom e no mau humor. Sou seu tesouro de sabedoria. Eu formo o fundo escuro onde o espírito do rei brilha! Sou sua boca, que tem permissão para dizer o que a dele não diz. Sou também sua sombra, porque quem pisa em mim desgosta o Rei.

FLORINDA: – Gostei de você. Quero ser seu amigo!

REI SEVERENO (que estava olhando pela janela): – Convênio!

CONVÊNIO (corre até ele): – Sim, Majestade?

REI SEVERENO:
– E o mensageiro
que levou a Gismonde meu pedido
de casamento? Por que não voltou?

CONVÊNIO: – Ah, Majestade, a dama é esquisita. Sua casa está sempre com as janelas fechadas. Não é permitido que nenhum raio de sol toque seu rosto. Ela não deixa ninguém entrar e só sai à noite para passear no jardim. Não é fácil conseguir audiência com ela, nem mesmo um mensageiro real.

REI SEVERENO:
– Mensageiro real? Não pode ser!

CONVÊNIO: – Desde que Sua Majestade se interessou por ela, temos vigiado a sua casa.

REI SEVERENO:
– Há barulho de festa ou dança à noite?

CONVÊNIO: – Não, ela não conhece a alegria de viver.

REI SEVERENO:
– Ninguém a entende. É um nobre coração.
Prudente orgulho em digna solidão.
Não acha, Reverenza? (olhando para longe) Alguém vem vindo!

REVERENZA: – É um cavaleiro! (olha de novo) É Sonsus chegando da casa de Gismonde!

REI SEVERENO:
– Pois chame-o! Quero ouvir quais as notícias.

REVERENZA (grita): – Sonsus! Venha cá!

BOBO (ao rei): – Então, primo, se a dama aceita seu pedido, termina a digna solidão e o prudente orgulho de um nobre coração?

REI SEVERENO: – Nada de graças!

BOBO (voltado para o público): – Que graça? Estou falando sério. Se ela for nobre, dirá “Não!”. Se for agradável, dirá “Sim!” Ora, uma rainha agradável sem nobreza, isso seria mau. Pior ainda uma rainha nobre, mas desagradável. Ter rainha agradável sem nobreza seria melhor do que não ter rainha. Mas, chega. Lá vem vindo rolando a bola das notícias.

SONSUS (um cortesão muito gordo aparece bufando): – Deus guarde o rei!

REI SEVERENO:
– Diga, Sonsus, que notícias você traz?

SONSUS (ofegante): – Nada boas, Majestade. Nem sei dizer o que aconteceu; ou melhor, o que não aconteceu. Essa dama, senhor, não tem maneiras.

REI SEVERENO:
– Não se atreva a ofendê-la! E que mais?

SONSUS: – A aia atendeu pela janela e disse que a senhora Gismonde não recebe visitas. Mostrei meu brasão real e expliquei que trazia uma mensagem do rei. A aia sumiu, depois voltou dizendo que a dama não tem nada a tratar com o senhor e pede que não perturbe a calma de sua casa. E a janela se fechou. Então eu vim embora.

REI SEVERENO:
– Você devia ter ficado lá
e sitiado a porta, negligente!
Acha que um rei suporta tanta ofensa?
Pois vou eu mesmo! Ela há de me atender!

(O rei anda agitado, de um lado para o outro, e sua sombra errante obriga ao cortesãos a dar pulos sem que ele nem perceba.)

CONVÊNIO (dando um pulo): – Majestade! Acho melhor mandar um mensageiro nobre com presentes.

REVERENZA (dando um pulo): – Também acho.

REI SEVERENO:
– Que acha dessa ideia o general?

TUNANTE (dando um pulo): – Se Vossa Majestade me cede uma tropa, marcho para lá e ponho abaixo a porta de Gismonde!

MURMURILHA (dando um pulo): – Oh, isso não! Um rei tão bom não trata mulheres com violência, não é mesmo, Zangueta?

ZANGUETA (dando um pulo): – É claro, Murmurilha!

BOBO: – Que senado magnífico! Saltem, senadores, cortesãos! Quem pisar na sombra real perde a cabeça. Só eu posso dançar como quiser!

(Florinda, observa tudo com vontade de rir. Dirige-se ao rei.)

FLORINDA: – Senhor, posso ir até Gismonde?

REI SEVERENO (para de andar):
– Você, garoto? E entraria como?

FLORINDA: – Deixe seu pajem tentar a sorte!

REI SEVERENO:
– Não seria surpresa esse rapaz
ser mais bem recebido do que Sonsus.

CONVÊNIO: – Um menino?

TUNANTE: – Um mensageiro sem força alguma?

REVERENZA: – O rei tem servidores mais dignos.

FLORINDA: – Então, Majestade, posso ir sondar o campo do inimigo?

REI SEVERENO:
– Que assim seja, e que a sorte o acompanhe!
Fale, Floriano, do meu grande amor!
E volte logo e traga uma resposta! (afasta-se com a corte)

BOBO (ao passar por Florinda): – Boa sorte, irmãozinho!

FLORINDA: – Muito obrigada, Bobo!

(O Bobo sai. Ficam só os dois alabardeiros que olham Florinda e conversam em voz baixa. Florinda suspira, canta baixinho a melodia de sua canção, silencia.)

FLORINDA: – Eu gostaria de cantar pelo mundo afora… (de repente, toma a alabarda de Felipe e ameaça os dois): – Vocês nunca me ouviram comentar que sou filho do camponês que manda o leite e o queijo ao palácio do rei!

MARTINHO: – Nunca, meu senhor! Pode deixar!

FELIPE: – Confie em nós!

FLORINDA (devolve a alabarda): – Vou lá ver se Gismonde merece o rei. Senão… Bem, talvez eu passe em minha casa e dê comida aos gatos… (Sai pela porta em arco)

FIM DO PRIMEIRO ATO

 

(continua)

 

Havendo interesse em representar a peça, enviaremos o texto completo em PDF. A escola deve solicitar pelo email: institutoruthsalles@gmail.com
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