Calendário do Advento em contos – 2ª semana

7 contos de Georg Dreissig

1. PORQUE AS MAÇÃS SÃO VERMELHAS

No Jardim do Paraíso, havia uma árvore que pertencia só a Deus. Nela cresciam as maçãs vermelhas mais belas que possamos imaginar. Se um animalzinho passava por ali ou se um passarinho voasse por cima, sempre olhavam extasiados para aquela árvore maravilhosa com maçãs vermelhas. Inclusive Adão e Eva, que viviam no Jardim do Paraíso, ficavam muitas vezes admirados com aquela árvore, cujos frutos só pertenciam a Deus. Um dia, porém, Eva foi seduzida pela serpente, pegou a maçã, provou-a e deu também a Adão para comer. Então, de repente, a beleza da árvore foi liquidada. E, quando Adão e Eva foram expulsos do Paraíso, o Paraíso também perdeu sua mais bela árvore. A macieira levou tamanho susto que suas maçãs ficaram totalmente sem cor e duras. Se alguém as provasse, não as acharia mais doces e suculentas, mas sim muito amargas.

Contudo, a macieira deveria recuperar sua beleza, mas só muitas centenas de anos depois.  Havia uma remanescente da árvore do Paraíso no jardim de Maria e José, em Nazaré. Ela crescera atrofiada e dava, anualmente, pequenas maçãs duras e amargas. Ninguém queria comê-las, nem mesmo o burrinho. Mas, quando o anjo foi à casa de Maria anunciar que ela seria a Mãe do Filho de Deus, ele foi também até a macieira do jardim e sussurrou-lhe uma mensagem: “Prepare-se, macieira, pois seu tempo de penúria acabou. Na noite de Natal vai nascer uma Criança, e ela será o próprio Filho de Deus. Lembre-se de que você é a árvore que carrega os frutos de Deus.”

Isto se deu na primavera. Qual não foi o espanto de Maria e José ao perceberem, nas semanas seguintes, que aquela arvorezinha começou a se esticar e depois floresceu lindamente. Logo se ouviu na ramagem um zunir e um zumbir, pois vieram abelhas petiscar nas flores.

Quando, no outono, amadureceram as frutas, elas não eram pequenas e duras como antes, mas sim redondas, grandes e vermelhas. Vocês bem podem imaginar porque. É que elas estavam felizes por serem novamente as frutas de Deus, que ia mandar seu Filho à Terra. Chegando a época da colheita, Maria juntou as maçãs numa cesta e disse a José: “Vamos guardá-las para nosso Filhinho.” Por isso, quando tiveram de viajar para Belém, o burrinho carregava nas costas um saco de maçãs vermelhas, que eles não comeram nem nas horas de muita fome.

Assim acabou a maldição da macieira.  Dali por diante, ela pôde novamente dar seus frutos aos homens; mas todo ano algumas ficam reservadas para o Menino Jesus: as mais vermelhinhas. Elas nos lembram como a macieira se alegra com a vinda do Filho de Deus á Terra, e por isso devem ser guardadas para enfeitar nossa mesa de Natal.

 

2. O CARDO PRATEADO

Quando Deus, o Senhor, fez as plantas, perguntou a cada uma como ela gostaria de ser. Uma gostaria de ser grande e poderosa, a outra gostaria de ter um perfume adorável, uma desejava ter flores vermelhas, outra as queria azuis, e outra, brancas. Todos os seus desejos Deus, o Senhor, satisfazia com prazer. Assim, Ele perguntou a uma plantinha: “Então, querida criatura, qual é o seu desejo mais íntimo? Você quer ser grande ou pequena, ter flores amarelas, vermelhas ou azuis?” A plantinha respondeu: “Está tudo bem para mim. Com prazer ficarei presa ao solo e também terei espinhos, mas se você puder satisfazer meu único desejo, é que minhas flores se mantenham até o nascimento do Menino Jesus.” Aí, Deus, o Senhor, sorriu amavelmente e deu à plantinha a sua forma. Ela cresce bem discretamente rente ao solo, e suas folhas são cobertas de espinhos. A flor, porém, brilha como uma linda estrela prateada e, mesmo florescendo e sendo colhida no verão, continua viva até que venha a época do Natal, para alegrar o Menino Jesus.

 

3. NA FLORESTA DE ESPINHOS

Em seu caminho para Belém, Maria e José tinham de atravessar uma floresta. Secos e lenhosos erguiam-se os troncos áridos, e no meio deles cresciam arbustos, duros e nodosos, ostentando em vez de folhas, espinhos pontiagudos. Estes atingiam os viajantes, rasgando suas vestes. E o burrinho, então, que não se podia desviar como os homens, levava a pior; os espinhos continuamente entravam em seu pobre pelo, até que ele, por fim, não queria mais andar. Não adiantava pedir nem ralhar. O burrinho empacava e gritava um lastimoso “Hin-hon”, todas as vezes que José, com seu cajado, queria forçá-lo a andar. Aí José ralhou com os arbustos espinhentos, que lhes dificultavam tanto a viagem. Maria, porém, a querida Mãe Divina, pôs suavemente a mão sobre o ombro do marido e disse: “Querido José, não reclame tanto dos arbustos de espinhos. Eles não podem produzir outra coisa além de espinhos, pois o clima é muito seco nesta região. Se eles tivessem mais água – eu lhe dou minha palavra – dariam rosas perfumadas para nós e para nosso querido filho.” Depois, ela elevou os olhos ao céu e pediu: “Meu Deus amado, faça com que sua bondade desça como orvalho vivificante, a fim de que estes pobres arbustos de espinhos se possam transformar como desejam.”

Assim que Maria pronunciou essa oração, caiu do céu um suave orvalho sobre os arbustos espinhosos. Estes absorveram a água com toda a alegria e, enquanto o faziam, todos os seus espinhos caíram. No lugar deles, porém, floresceram rosas maravilhosas; elas brilhavam nas mais lindas cores e pareciam apostar, umas com as outras, qual delas daria o perfume mais agradável. Maria e José agradeceram pelo milagre. O burrinho por sua vez, ficou de novo muito alegre e, esticava o nariz para o ar perfumado, trotando com prazer na frente, rumo a Belém.

 

4. OS TUBÉRCULOS MODESTOS

Um negociante fez uma viagem a terras distantes e, ao voltar, trouxe consigo muitos presentes maravilhosos: tecidos e utensílios, joias e especiarias. Para cada pessoa de sua família, ele trouxe um presente especial. Para sua esposa, porém, deu um saquinho de aparência muito simples, mas que continha o que ele havia adquirido de mais caro. “Cuide bem dele” – disse o negociante à sua mulher – “pois ouvi dizer que este saquinho possui o dom da profecia. Ele nos anunciará quando o Rei do Mundo virá até nós.” A mulher se admirou com aquilo; pôs o ouvido sobre o tecido rústico do saquinho, mas não percebeu som algum. De vez em quando pegava o saquinho, observava-o atentamente, mas não conseguia descobrir nele nada que fosse excepcional. Quando finalmente o marido saiu outra vez de viagem, ela pegou o saquinho, entrou furtivamente na floresta e, tendo a certeza de não ser vista por ninguém, abriu-o e olhou dentro. E o que ela viu? Alguns tubérculos comuns, pequenos e pouco vistosos. “É este todo o seu segredo?” – exclamou a mulher decepcionada.

E espalhou os tubérculos pelo caminho, enquanto voltava para casa.Os tubérculos modestos foram deixados no caminho da floresta, expostos ao tempo e ao vento, até que a terra e o pó vagarosamente os cobriram.

Mais tarde, em seu caminho para Belém, Maria e José passaram justamente por aquela floresta. Foi então que se viu que o negociante dissera a verdade: Sob os pés da querida Mãe Divina, os tubérculos brotaram, e deles cresceram pequenas flores branco- prateadas, que brilhavam como se o caminho estivesse semeado de estrelas. Eles anunciam também hoje a vinda do Rei do Mundo. Por isso, as rosas-de-natal (que é o nome dessas flores) desabrocham na época do Natal.

 

5. OS PINHEIROS

Quando Deus, o Senhor, criou as árvores, deu-lhes raízes para que se firmassem bem na terra e também galhos que se pudessem direcionar para o alto, para o céu. Pois foi do céu que elas vieram, e disso elas não se deviam esquecer. Desde então, as árvores, numa saudosa lembrança, estendem seus galhos para o alto, como que em silenciosa e constante oração. Assim também fez o pinheiro, e como seus ramos erguidos para o alto eram muito amplos e compridos, ele sobrepujava as outras árvores. Hoje ele é muito diferente, e a razão é a seguinte.

Mais uma vez, Maria, a querida Mãe Divina, e seu marido José não tinham achado nenhum abrigo à noite e estavam longe de qualquer moradia. Assim, tiveram que se abrigar no meio da floresta, junto ao tronco de um delgado pinheiro. Ali eles tentaram dormir. Mas o vento soprava muito gelado, e começou a nevar, primeiro de leve depois mais forte. Eles se espremiam junto ao tronco da árvore, que era alta mas lhes dava pouco abrigo. Maria, então, passou carinhosamente suas mãos delicadas no tronco do pinheiro e pediu: “Sinto interromper a silenciosa oração que você envia para o alto, para o Pai de todos nós. Mas veja, o próprio Deus se inclinou para a Terra, pois é seu Filho que carrego em meu ventre, e ele precisa de sua ajuda.” Assim que a Mãe Divina disse essas palavras, um tremor percorreu toda a árvore e, vagarosamente, seus galhos se foram abaixando, abaixando até tomarem a forma de um largo telhado. Até então, os galhos do pinheiro também perdiam suas folhas no outono como as outras árvores, mas a partir desse instante elas espetaram de novo suas agulhas verdes e assim ficaram para sempre. Foi desse modo que Maria e José encontraram, sob os galhos do pinheiro, um abrigo seguro para a noite.

Desde então, por haver interrompido sua oração silenciosa em favor da sagrada família, o pinheirinho foi honrado especialmente. Ele pode, no Natal, portar velas brilhantes em seus compassivos galhos abaixados e, mais que todas as outras árvores, irradiar uma linda luz diante dos homens e diante de Deus.

 

6. COMO O ABRUNHEIRO FOI HONRADO

Fazia tempo que a colheita havia sido feita, pois o outono já passara e começava o frio rigoroso do inverno. Arbustos e árvores estavam sem folhas e sem frutos e alimentavam o sonho de uma primavera luminosa, do esplendor das flores e do zumbir das abelhas. Também o abrunheiro perdera as folhas. Mas seus frutos ainda se penduravam nos galhos secos. Ninguém os quisera. Quando as mulheres tinham vindo no outono em busca de bagas, colhiam as de amora, olhando o abrunheiro só de relance e continuando a andar. “Olhem só o abrunheiro! Que sujeitinho desagradável com seus espinhos pontudos!” – disseram umas às outras – “Ele defende suas bagas, que aliás ninguém quer. Pode bem guardá-las, pois são acres e não têm sabor.” Por isso as bagas azul-escuras ficavam penduradas entre os espinhos no arbusto, que já havia sofrido a primeira geada. O que o arbusto não daria para se carregar de bagas doces, de que as pessoas tanto gostavam, como as da framboesa. Ele até renunciaria às suas lindas flores brancas. Mas todos os desejos não mudavam o fato de que ele era um pé de abrunho e não de framboesa.

E tudo estava certo assim. Pois um dia, Maria e José, em seu caminho para Belém, vinham passando pela floresta. Estavam cansados e com fome. Sem querer, seu olhar caiu nas bagas escuras do arbusto cheio de espinhos. “Olhe só, José!” – exclamou Maria – “O querido arbusto guardou seus frutos para nós!” E, sem se importar com os espinhos pontudos, a Mãe Divina começou a colher os abrunhos. José, porém, respondeu: “Evite esse arbusto. Seus frutos são intragáveis. Veja, ninguém os quis.” Mas Maria não se deixou enganar. “Como podem ser saborosos, se eles têm de aguentar todo esse tempo um frio tão forte? Até nós, seres humanos, ficaríamos amargos. Quem sabe ficam mais agradáveis, se os colocarmos no calor.”

À noite, conseguiram hospedagem na casa de camponeses amáveis. Estes também se admiraram muito com os frutos que Maria trazia. “Vocês conseguiram tirá-los do abrunheiro? E ele o deixou de boa vontade?” A querida Mãe Divina confirmou: “Sim, de boa vontade. Ele não é tão mau quanto seus espinhos parecem ser!” Então, ela pediu um pouco de água quente, e dentro dela colocou os frutos; e assim toda a geada, todo o frio foi tirado deles. No dia seguinte, ela ofereceu a José e aos camponeses um suco vermelho, maravilhosamente brilhante, do qual eles gostaram tanto, que com prazer tomariam mais. “Ele faz um bem!” – disse José. – “Não sinto mais o frio e o corpo enregelado. Maria, como você fabricou isso sozinha?” Então a Mãe Divina sorriu alegremente e respondeu: “Eu não fabriquei nada. Foi o abrunheiro. Ele guardou esta bebida gostosa para nós em suas bagas, para que possamos, tal como ele, enfrentar o frio do inverno.”

Desde então, os homens olham o abrunheiro espinhoso com mais amor e sabem valorizar seus frutos, que só amadurecem com a geada. E o abrunheiro ficou feliz por ser um pé de abrunho e não um pé de framboesa. Pois só assim ele pôde dar seus frutos para a querida Mãe Divina, em seu caminho para Belém.

 

7. O SEGREDO DAS ROSAS

Como ficou feliz a Mãe Divina por causa das rosas que de repente floresceram nos arbustos espinhosos! Ela colheu um ramalhete e, daí por diante, seu braço o carregava enrolado sob o manto. E as rosas continuavam frescas e mantinham seu perfume adorável para Maria.

Nisso, quando Maria e José chegaram perto de Jerusalém, aproximaram-se deles três soldados romanos. Estes se comportavam como grandes senhores, e já de longe gritavam: “Abram caminho para o exército romano!” O pobre burrinho, que vinha trotando sem saber de nada, levou do mais forte dos três uma tal pancada no flanco, que pulou assustado para o lado. Maria e José ficaram parados à beira do caminho; na verdade havia ali lugar para todos, mas eles não queriam dar motivo para brigas. E era justamente isso que o soldado grosseiro estava procurando. Quando ele viu Maria tão humildemente com o manto envolvendo as rosas, acercou-se dela e, rindo sarcasticamente junto a seu rosto, gritou: “Ei passarinho, que está você escondendo de nós? Vamos ver se não precisamos disso!” Mas, assim que ele agarrou as rosas, puxou a mão criminosa, praguejando e insultando. Ela estava toda arranhada e sangrando. “Que você carrega aí?” – perguntou a Maria. Ela então abriu o manto e mostrou só um ramo com espinhos. Antes que o soldado se refizesse do assombro, seus companheiros se aproximaram, e um deles disse: “Deixe-a, Varus. Quem sabe qual é a dor que esta mulher terá que suportar, para precisar enfeitar-se com espinhos?” Já arrependido, o outro, que havia começado a briga com aquelas pessoas pobres, seguiu em silêncio seus companheiros.

Maria, porém, olhava para os ramos de espinhos em seus braços. O orvalho abençoado de Deus não os havia deixado florescer? Onde estavam agora as rosas? Tudo se acabara? José, que percebeu sua tristeza, pôs suavemente a mão sobre seus ombros e falou consoladoramente: “Elas floresceram por tanto tempo para você, Maria. Dê-se por satisfeita e jogue fora os ramos secos.” Maria, porém, sacudiu a cabeça e respondeu: “Eu conheço o segredo dos ramos de rosas. Como poderia então deixá-los de lado?” E, com cuidado, envolveu novamente no manto os pobres ramos, que na verdade pareciam não precisar mais de proteção alguma. Mas, em seu coração, continuavam soando as palavras daquele soldado romano: “Quem sabe qual é a dor que esta mulher terá de suportar, para que tenha de se enfeitar com espinhos?” Que as pessoas pensassem o que quisessem; os espinhos antes haviam florescido. Deveria ela desprezá-los agora em sua miséria? De repente, Maria sentiu novamente o adorável perfume que as rosas por tanto tempo haviam exalado para ela. E, quando ela olhou com cuidado debaixo de seu manto, os ramos floresciam novamente mais lindos ainda. Essas rosas se mantiveram vivas para Maria, até que ela deu à luz ao Menino Jesus, no estábulo de Belém.

 

Créditos

Realização da Escola Waldorf Rudolf Steiner
Título Original: Das Licht in der Laterne – Adventskalender in Geschichten
Autor: Georg Dreissig
Título em Português: A LUZ NA LANTERNA – Um Calendário do Advento em Histórias
Tradutoras: Ione Rosa Matera Veras, Mariliza Platzer e Edith Asbeck
Digitação de Vanessa V. B. Mendes e Walkiria P. Cavalcanti – Março de 2013.
Revisão de Ruth Salles – Setembro de 2017.

 

 

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