III – Escola Municipal Cecília Meireles

A Pedagogia Waldorf
na escola pública

histórico – desafios – perspectivas
por Rubens Salles e Rosineia Fonseca

Nova Friburgo RJ

No dia 16 de abril de 2019 visitamos a Escola Municipal Cecília Meireles em Nova Friburgo e conversamos com 9 representantes da escola, membros da APCM – Associação Pedagógica Cecília Meireles, todas com outras funções também.

 

Destaques

1 – Como já vimos no caso da Escola Comunitária Municipal do Vale de Luz, a Escola Cecília Meireles também enfrenta dificuldades para contratação de professores especializados na Pedagogia Waldorf, para a formação e atualização de seus professores, para administrar a falta de materiais adequados e de professores de matérias que a prefeitura não disponibiliza (como trabalhos manuais, música, euritmia etc), mas a escola tem uma equipe muito dedicada a enfrentar e superar essas adversidades de forma muito positiva e inspiradora.

2 – Importância da organização – Chamou atenção a dedicação do grupo gestor, que se organiza para cumprir todas as demandas decorrentes da gestão da escola, com participação de mães e professoras nesse trabalho assumindo as diversas funções necessárias na Associação Pedagógica Cecília Meireles, no Conselho Escolar, na Associação de Pais e Funcionários e na gestão da escola.

3 – Engajamento da comunidade – Vimos também como é importante a escola ter uma comunidade de pais engajada em lutar junto à prefeitura pelas melhorias que querem na escola. Além de beneficiar a escola, essa atitude também acaba beneficiando o restante da rede pública. Por estar em um bairro nobre, a Escola Cecília Meireles tem em sua clientela uma maior quantidade de pais que conhecem a Pedagogia Waldorf, ou que até se mudaram para a região por causa da escola, o que ajuda seu fortalecimento.

4 – Aproveitando as competências dos professores – Como a prefeitura não fornece professores para algumas matérias próprias de uma escola Waldorf, procuram aproveitar as competências dos professores disponíveis. Assim, o professor de história, que também tem prática em marcenaria, dá aula de marcenaria e a professora de ciências, que tem mestrado em botânica, dá aulas de jardinagem.

5 – A Pedagogia Waldorf precisa ser mais conhecida – Esse desconhecimento é notório entre os educadores da rede pública em geral, pois essa pedagogia não é estudada nos cursos superiores. Assim, às vezes professores concursados escolhem ir para uma escola Waldorf sem fazer ideia do que se trata. E a cada troca de governo municipal é gerado um problema maior ainda, pois a equipe das escolas Waldorf conveniadas sempre têm que explicar aos novos gestores sobre a pedagogia e mostrar todo o trabalho que já realizaram, e lutar pela renovação do convênio.

 

Alguns dados básicos do município de Nova Friburgo

 

Pessoas entrevistadas

Talita Melone – professora do 6° ano, presidente da APCM, membro do Conselho Escolar e da Associação de Pais e Funcionários
Mirtes Garuba – professora do 1° ano e presidente do Conselho Escolar
Angelita Machado – mãe de aluno e membro da Associação de Pais e Funcionários
Jackeline Rocha – mãe de aluno e conselheira no Conselho Escolar, representando os pais
Natasha Kieds – mãe de aluno e membro da Associação de Pais e Funcionários e do Conselho de Pais
Gabriela Cordoeira – professora do 3° ano da manhã e do Jardim de tarde, membro do Grupo Diretor
Fabiane Moura – mãe de aluno, professora do 4° ano, vice-presidente da APCM, membro do Conselho Escolar e da Associação de Pais e Funcionários
Rosali Rodrigues – diretora adjunta
Karine Guimarães – professora do 2° ano

Endereço – Rua Tohoru Kassuga 218, Cascatinha – Nova Friburgo RJ – CEP 28621-360
ewceciliameireles@hotmail.com – Fone: (22) 2528-3192
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Possui classes do maternal II ao oitavo ano, uma de cada e 3 classes de pré-escola, atendendo 253 alunos em período integral em 2019. Cada classe tem dois professores, um professor no período da manhã e o outro à tarde. Os alunos recebem quatro refeições.

Conheça o Projeto Pedagógico pdf

Segundo relato de Mara Rúbia, a Escola Municipal Cecília Meireles teve origem a partir do interesse de um grupo de antropósofos, pais e educadores, que criaram a Associação Pedagógica Nascente, e a primeira sala de aula foi a garagem da casa de Lúcia Casoy, em 1988. Após os primeiros 6 meses de atividade, o casal Gorsky ofereceu uma casa que abrigou a iniciativa com mais espaço. O grupo trabalhou intensamente para manter o projeto, realizando encontros de estudo, buscando recursos e promovendo bazares, palestras, exposições e outros eventos, e a associação recebeu de Maria Hegerkamp uma herança, com a qual foi adquirido o terreno onde hoje é a sede da escola.

Em 1999, o terreno da Associação Pedagógica Nascente foi doado para a Associação Crianças do Vale de Luz, para que a Escola Nascente se tornasse pública. Esta passa a chamar-se então Escola Municipal Cecília Meireles, e começa no ano 2.000 como uma creche, atendendo em período integral e passa a oferecer o Ensino Fundamental a partir de 2003, já conveniada com a Prefeitura Municipal de Nova Friburgo. Nesse período a associação teve um projeto de construção aprovado pela Fundação Software AG, da Alemanha, que doou o valor para construção do prédio que hoje abriga todo o ensino infantil, a secretaria, sala de atendimento, cozinha e o pátio interno da escola.

Recentemente foi criada a Associação Pedagógica Cecília Meireles, composta por membros da comunidade escolar e colaboradores, com a finalidade de apoiar e assegurar a prática da Pedagogia Waldorf dentro da Escola Waldorf Municipal Cecília Meireles. Através de convênio com a Prefeitura Municipal de Nova Friburgo, que se responsabiliza pela manutenção da equipe de funcionários, alimentação e materiais básicos inerentes a toda e qualquer escola pública municipal. No entanto, há materiais inerentes à Pedagogia Waldorf que a prefeitura não fornece, assim como professores para matérias como música, marcenaria, trabalhos manuais, euritmia etc. Buscar recursos para atender a estas demandas pedagógicas é um dos objetivos da associação.

Veja as fotos em slideshow abaixo

 

As relações com a Secretaria de Educação

O convênio que e a Escola Cecília Meireles tem com a prefeitura, através da Associação Pedagógica do Vale de Luz, precisa ser renovado periodicamente, e esse é sempre um momento de tensão. A cada nova gestão municipal, a escola precisa novamente se apresentar aos novos gestores, explicar o que é a Pedagogia Waldorf, contar todo o seu histórico, e esperar que o convênio seja renovado outra vez.

Regimento municipal para a educação pdf

Uma demanda muito importante que a equipe da escola tem é que a Pedagogia Waldorf se faça mais conhecida no âmbito acadêmico e nas secretarias de educação, pois a grande maioria dos formados em Pedagogia, assim como dos professores com licenciatura não a conhece, e nem mesmo aqueles que trabalham na gestão da educação pública.

 

O público da escola

A escola está localizada em um bairro nobre da cidade e recebe alunos de famílias que moram nesta região, filhos de profissionais liberais, advogados, médicos, dentistas, funcionários públicos e também filhos de pessoas que trabalham no bairro, como jardineiros, empregadas domésticas e zeladores. A maior parte das classes está no seu número limite de alunos, que é de 25, exceto o 8° ano, que tem 12 alunos. Segundo Talita Melone, a escola atrai novos moradores para o bairro e recebe também alunos de outros distritos de Nova Friburgo. Há inclusive, famílias oriundas de outras cidades que se mudam para nova Friburgo em busca não só da qualidade de vida, mas também da Pedagogia Waldorf na escola pública. “Então, pra gente isso já é um indício de um reconhecimento amplo de um trabalho que a gente realiza há cerca de dezoito anos como escola pública”.

Parte das famílias optam por matricular seus filhos nessa escola por ser pública e em período integral, o que é um diferencial em relação a outras escolas da região, outras pelo fato de ser uma escola Waldorf. Há um grupo de pais que ajudam mais diretamente nas demandas da escola, participam da Associação e do Conselho de Pais, e até de mutirões para manutenção do imóvel, e um outro grupo maior que colabora por ocasião das festas escolares.

Talita contou-nos também que houve apoio decisivo dos pais em união aos professores para que a escola conseguisse implantar o segundo segmento do ensino fundamental, do 6° até o 8° ano, e também tiveram apoio de professores de outras escolas públicas – que também são pais da escola – professores universitários da cidade e empresários, em reconhecimento ao trabalho da escola.

 

A participação dos pais

A Escola Cecília Meireles tem muitos alunos que são filhos de pais que até poderiam mantê-los em uma escola privada, o que torna a clientela da escola diferente das demais escolas públicas do município. Esses pais costumam ser mais participativos e até mais conscientes dos seus direitos e do que uma escola pública deveria prover para os alunos. Várias professoras e funcionários também têm seus filhos na escola.

TalitaA escola tem muita participação dos pais. Os pais vão muito à secretaria municipal de educação, fazem piquete, vão pra porta, fazem abaixo-assinado, enquanto não chega professor, enquanto não chega merendeira. Questionam a qualidade dos alimentos que vem, querem o melhor para os seus filhos. São pais muito atuantes. Não querem uma escola de nível médio. Querem uma boa escola para os seus filhos.

Se todas as escolas tivessem pais participantes assim com certeza a educação no Brasil seria de muito melhor qualidade.

Para proporcionar aos pais um maior conhecimento sobre a Pedagogia Waldorf, a Associação Pedagógica Cecília Meireles promove seminários bimestrais com duração de um dia e meio cada encontro. É o projeto Paidagógico. Este ano esse projeto está sendo financiado pelo Instituto Mahle. A participação dos pais é importante na captação de recursos para a escola através da organização de eventos como festas e jantares, e há uma boa quantidade de pais trabalhando, tanto no pré-evento, durante e no pós-evento, o que ajuda muito os professores.

Há na escola um grupo de trabalhos manuais que se reúne todas as quintas-feiras das oito ao meio dia. Já teve patchwork, boneca Waldorf. Atualmente estão trabalhando com feltragem seca com a Natali, que é uma mãe da escola. Uma outra mãe ajuda com o crochê. A Rosali, diretora adjunta, já fez boneco bebê estrela com o grupo e iniciou o crochê. A Mirtes também fez parte deste trabalho com o grupo. Os trabalhos dependem da época. A cada ano o grupo vai se modelando, aproveitando as competências de cada uma.

Tem também o grupo dos “Pais transformando a Escola”. Esse foi o grupo de pais que fez o emboço ecológico em um dos prédios da escola. Tudo foi organizado por eles. É um grupo que faz pequenos reparos na escola quando pode ser feito. Capinaram uma área, fizeram reparos na sala de aula. Antes de começarem as aulas, vários grupos de pais pintam, arrumam, fazem a faxina e entregam a sala pronta para o professor. A parte estrutural, o patrimônio da escola não é da prefeitura, é da Associação, mas quando solicitada, a prefeitura envia materiais para a manutenção.

Dá para perceber de forma nítida que o conceito de escola pública comunitária está se realizando com sucesso na Escola Municipal Cecília Meireles. Aqui boa parte dos pais assume realmente a escola como sua.

VÍDEO dos pais trabalhando em mutirão

 

A contratação de professores

A Escola Cecília Meireles, como a do Vale de Luz, também enfrenta dificuldades quando precisa de um novo professor, pois não há no município um concurso específico para contratar professor Waldorf. Assim, acontece da escola receber professores que não conhecem a pedagogia. Há casos em que este professor se redescobre ao conhecer a escola, procura aprender com os colegas, começa a estudar e acaba se integrando muito bem, mas também há casos em que isso não acontece e prejudica o trabalho. Em novembro de 2018 foi feito um ofício solicitando à Secretaria de Educação que seja feito um concurso público específico para as escolas que oferecem pedagogias diferenciadas, como a Pedagogia Waldorf. Veja em anexo:

Ofício Secretaria de Educação pdf

Hoje, todos os seus professores do ensino regular são concursados, mas muitos ainda carecem de formação na Pedagogia Waldorf. Este é um dos grandes desafios para a escola.

Talita – Temos professores que chegaram aqui sabendo que estavam vindo para uma escola Waldorf e que precisariam aprender essa nova linguagem. Temos professores que se aproximam bastante da prática pedagógica, até porque é uma necessidade diária, mas não se aproximam das premissas da pedagogia Waldorf e da antroposofia em si. E temos professores que resistem, demoram bastante tempo, e até saem da escola porque não se enquadram. Isso sempre existiu.

Para atender o segundo segmento do ensino fundamental, houve uma parceria com o Poder Público. O atual Secretário de Educação entendeu sobre a importância do professor de classe que acompanhou a turma até o 5° ano pudesse continuar até o 8° ano. Esse tipo de professor não existe na rede pública a partir do 6° ano, apenas os professores de matéria. Foi acertado que os professores de classe, que tivessem formação, uma licenciatura e quisessem seguir com a sua classe, dariam as aulas de épocas em parceria com os professores de matéria. Não faria sentido, sendo uma escola Waldorf, que as aulas a partir do 6° ano fossem ministradas apenas por professores de matéria sem a relação de tutoria que o professor de classe tem com seus alunos e a interdisciplinaridade inerente a uma aula na escola Waldorf.

Talita A gente mantém a figura do professor de classe, que acompanha a turma todos os dias e o professor de matéria enviado pela prefeitura dá aula em conjunto com esse professor de classe quando ele está aqui. É um planejamento em conjunto. Por exemplo, agora eu estou numa época de História. A gente tem um professor de História na escola. Eu conduzo o planejamento nos dias em que ele não está. Eu dou as aulas. No dia em que ele está, eu conduzo a parte Waldorf anímica da aula. A parte rítmica sou eu que faço, porque eu sou a professora Waldorf, a história anímica sou eu que conto, o desenho, enfim, a parte do fazer da aula é planejado em conjunto com esse professor e ele, então, se insere dentro do planejamento da época. Eu brinco que é dar aula a quatro mãos. Não tem o piano a quatro mãos? A gente está aprendendo a dar aula a quatro mãos aqui. E tem experiências muito interessantes.

Para cumprir da melhor maneira o currículo Waldorf, a escola procura aproveitar as competências dos professores disponíveis. Assim, o professor de história, que também tem prática em marcenaria, dá aula de marcenaria em parceria com outro professor de marcenaria formado na Pedagogia Waldorf, e a professora de ciências, que tem mestrado em botânica, dá aulas de jardinagem. Também há aulas de teatro e de circo. As principais carências são um professor de euritmia, que a escola nunca teve, e um professor de música especialista. Embora os professores de classe ensinem flauta e cantem com os alunos, faz falta a leitura de partituras, e eles não têm condições de montar um coral e/ou uma orquestra.

Outra carência importante é um professor de língua estrangeira para as turmas de 1° a 5° ano, por não ser uma disciplina prevista dentro do ensino regular, para estas turmas.

 

Considerações sobre a formação do professor

A formação de professores, pelo que verificamos em praticamente todas as iniciativas Waldorf na rede pública, é um problema a ser resolvido. Como em Nova Friburgo a prefeitura ainda não realizou um edital de concurso específico para professor com formação em Pedagogia Waldorf, em boa parte dos casos, a formação fica por conta da própria escola.

Talita Hoje, o que agrava a nossa situação, é que a gente não tem uma estrutura que proporcione o seminário, a formação em pedagogia Waldorf de forma gratuita para esses professores. Nós somos professores da rede pública, temos rendimentos aquém do que seria o ideal para você pagar um seminário, e hoje, não temos nenhum projeto que nos viabilize, que nos propicie dar bolsas para esses professores.

Hoje a Escola Cecília Meireles, assim como a Vale de Luz, recebem uma subvenção da prefeitura para manter dois professores formados na Pedagogia Waldorf atuando como instrutores de ensino junto aos professores sem a formação. Eles acompanham as aulas destes professores e vão aconselhando e ajudando no planejamento das aulas, mas o tempo que eles têm com esse professor não permite que se aprofunde o conhecimento dos fundamentos da pedagogia. Ajuda a melhorar a prática, mas não substitui uma formação estruturada e completa. A formação destes professores precisaria ser oferecida fora do horário de aula. O que tem acontecido é que a escola pleiteia bolsas para formação junto à FEWB, concorrendo com todas as demais escolas. Há também iniciativas dos pais da escola que bancam o envio de professores para o curso metodológico oferecido durante as férias pelo Instituto de Desenvolvimento Waldorf em São Paulo (IDW).

TalitaEste ano foram três professoras. Agora em junho irão dois ou três professores ao Congresso dos 100 anos da Pedagogia em Piracicaba. Há professores que vão para o curso de Ciências, deste módulo mais curto em junho, em final de semana. O que começamos agora com a associação, é que de todos os eventos da escola que acontecerem pela associação, vinte por cento será destinado para a formação. Mas são mais de vinte professores sem formação, então é um paninho curto pra cobrir tanta gente.

A prefeitura até oferece a formação continuada aos professores para o ensino regular, mas não dá suporte para a formação Waldorf, porque ela entende que isso é responsabilidade da associação. Mas o professor que faz essa formação Waldorf não recebe hora extra pelo tempo despendido, precisa pagar pelo curso e o curso não rende pontuação para sua classificação e evolução na carreira. Essa questão está sendo debatida pela Associação junto à Câmara de vereadores, e foi feito um abaixo-assinado para que no próximo concurso público seja contemplado o cargo de professor Waldorf.

 

A gestão como escola pública

Mirtes e Jackeline nos explicam como a escola associativa, como a Cecília Meireles, teve que se adaptar às normas de funcionamentos das escolas públicas, especialmente sobre o Conselho Escolar, sua estrutura, responsabilidades de funcionamento, e sobre a Associação de Pais e Funcionários, pessoa jurídica necessária para poder receber verbas públicas diretamente do governo federal, através do PDDE – Programa de Dinheiro Direto na Escola. Esta associação não se confunde com a Associação Pedagógica Cecília Meireles, e é a UEX – Unidade Executora financeira dos recursos recebidos pelos programas incluídos no PDDE, dos quais a escola participa.

Explicaram também que o Conselho Escolar, formado por representantes eleitos da direção, dos professores, dos funcionários de apoio, dos alunos, dos pais e da comunidade, decide sobre as questões pedagógicas, administrativas e financeiras da escola como escola pública, e é o legítimo interlocutor dos seus interesses e demandas junto à Secretaria de Educação e demais instâncias públicas.

Angelita nos explica o funcionamento da Unidade Executora, que executa as verbas públicas através da Associação de Pais de Funcionários, da qual ela faz parte. Explica que cada programa precisa ter sua própria conta bancária para receber os recursos.

Notamos que há várias funções para serem ocupadas por relativamente poucas pessoas, pois se acumulam as instâncias próprias de uma escola Waldorf, como o Conselho de Pais, a Conferência Pedagógica, Grupo Diretor e a direção e conselhos da própria APCM, com as instâncias exigidas para a gestão pública, como o Conselho Escolar e a Associação de Pais e Funcionários e respectivas instâncias. Não é uma tarefa fácil, mas parece que a comunidade escolar está conseguindo administrar bem essas várias funções.

VÍDEO com Jackeline explicando as instâncias necessárias para a gestão da escola

 

A transição dos alunos

Diferente da Escola Vale de Luz, que só atende até o 5° ano, a escola Cecília Meireles já está atendendo até o 8° ano. Assim, há menos problemas relacionados à transição dos alunos para escolas com o ensino tradicional. No entanto, Talita relata que eles já estiveram também nesta situação, e que o assunto tinha que ser bem equacionado. No entanto, o que foi percebido nessa época, é que os alunos que tiveram mais dificuldades nessa transição foram os mesmos que já tinham demonstrado dificuldades durante seu período na escola.

TalitaCada professor precisa ter ciência do que está sendo dado na escola regular e fazer uma equiparação com aquilo que é exigido pelo currículo Waldorf. Nós aqui conseguimos manter aquilo que é do currículo Waldorf. Até o momento, nada substancial precisou ser adiantado, substancialmente, como é o exemplo da história local, conteúdo específico de quarto ano, para crianças de dez anos. Quando a gente ia só até o quinto ano, sólidos geométricos, estudo de área e perímetro, ou porcentagem, que são conteúdos do sexto ano escolar Waldorf, até de sétimo, e tinha que introduzir no quinto ano, porque tinham essas avaliações externas, SAERJ, Prova Brasil. Então, a gente tinha que preparar as crianças de alguma forma, a partir da vivência desses conteúdos. Já que tem que aprender perímetro, então, como que a gente vai trazer isso de uma forma que não fira o desenvolvimento da criança naquela idade? Vamos fazer a vivência do perímetro, vamos fazer a vivência do metro quadrado, vamos esculpir em argila os sólidos geométricos. Para que, pelo menos na hora de preencher uma prova, que é de múltipla escolha, eles saibam identificar o que é um cilindro, ou um cubo, não porque a gente apontou na lousa, ou no livro, mas eles moldaram o próprio sólido, apesar deste ser um conteúdo do oitavo ano na escola Waldorf, onde a gente tem uma época de geometria, onde se aprofunda o estudo dos sólidos platônicos […] Mas nesse sentido, até agora eu não vi no quinto e agora no oitavo, uma defasagem que justificasse trazer livro didático para a sala de aula, ou aplicar provas para ficar medindo o tempo todo para ver como é que eles estão se saindo. Eu ainda não observei isso como uma necessidade.

 

As avaliações

Os parâmetros adotados para avaliação são:

• Os conteúdos mínimos que as crianças precisam ao sair de nossa Escola;
• Os conteúdos de cada série sugeridos pela Secretaria de Educação
• A observação individual de cada criança como um indivíduo dentro destas perspectivas.
• As provas federais e municipais (provinha Brasil, Saerginho);
• A cada dia o professor avalia a progressão individual das crianças na realização de seus cadernos que são seu material de estudo;
• A participação ativa dos trabalhos em grupo;
• A metodologia de memorização dos conteúdos apresentados;
• A elaboração prática dos mesmos;
• A observação do aspecto socioafetivo e do interesse ativo dos alunos nas diversas atividades, além do conteúdo cognitivo.

A partir do 6° ano os pais recebem os boletins em casa.

A escola participa de todas as avaliações externas realizadas na rede de ensino, tendo um bom nível de rendimento. Segundo notícias da Secretaria Municipal de Ensino, as notas do Saerjinho, provas recém-implantadas na rede de ensino, apresentaram um ótimo nível de aprovação.

 

A carência de materiais adequados à Pedagogia Waldorf

Jackeline comenta que uma grande dificuldade da escola é conseguir materiais adequados para realizar a Pedagogia Waldorf da forma adequada, como aquarelas, papel de pintura, pincéis, flautas, giz de cera de abelha, lã de carneiro, agulhas, brinquedos de madeira etc. A prefeitura não pode fornecer materiais diferenciados para uma ou duas escolas. Todas as escolas da rede devem receber o mesmo material. Para conseguir esses materiais com os pais, também é difícil, pois muito não têm condições de comprar, e às vezes nem compreendem a necessidade. Há o cuidado de que todos os alunos usem o mesmo material, independentemente da classe social de sua família. O mesmo problema acontece com a merenda escolar fornecida pela prefeitura, que nem sempre é variada como deveria ser para as crianças.

Natasha Kieds Tem os anseios dos pais também que vem pela pedagogia Waldorf, vem de lugares diferentes do país para estar dentro da escola pública Waldorf. Esses pais querem que tenha o giz pra todo mundo, e a gente precisa comprar o giz e querem que tenha o arroz integral especial. É muito complicado lidar com essas duas questões. No Conselho de Pais a gente tem tido esse trabalho. Eu também acho um absurdo as crianças comerem biscoito cream cracker com suco de caju, mas eu não posso querer só para o meu filho, eu tenho que querer para o município inteiro. E se não pode ter para o município inteiro, a gente precisa buscar uma outra maneira de conseguir, sem querer exigir de todos os pais, até daqueles que não têm possibilidade.

O grupo considera que boa parte dos pais está se conscientizando dessa visão mais coletiva de que o que ele quer para seu filho, precisa também querer para todos. Esse embate de demandas está ajudando a criar uma consciência comunitária mais forte. Se querem algo para a Escola Cecília Meireles, precisam ir ao Conselho Municipal de Educação e pedir para toda a rede. Essa vivência mostra o quanto uma escola Waldorf também é, na verdade, uma escola para os pais. Segundo Talita, “a gente percebe que é uma escola para que os adultos possam ser melhores para as crianças.”

Hoje, para tentar resolver a demanda por materiais adequados e formação para professores, a APCM lançou uma campanha de financiamento coletivo recorrente, através da qual as pessoas que se sensibilizarem com a causa podem fazer pequenas doações mensais à escola. Está disponível no link: https://benfeitoria.com/apcm

 

Que futuro visualizam para a escola?

GabrielaEu ainda vislumbro muita coisa para essa escola e uma delas é a possibilidade da gente ter todos os nossos professores com a formação Waldorf, todos os nossos professores entregues à escola. Desgasta muito a gente ter uma escola pública em que nós somos obrigados a ficar com quem não quer estar aqui, porque não tem outra pessoa para vir. Isso é uma coisa que o Poder Público faz que desgasta demais a nossa pedagogia, porque eles mandam pra cá quem tem e não quem quer. E a nossa escola, a escola Waldorf é para quem ama o que faz, pra quem se dedica, não é para quem está de passagem.

RosaliEu estou aqui desde o primeiro prédio. E agora a gente está num impasse, que a gente cresceu para atender, mas a nossa mão de obra de recursos humanos Waldorf não cresceu junto. Então a gente está com uma carência de profissionais Waldorf e também de profissionais que amparem a outra parte Waldorf, que são os professores de música, de trabalhos manuais, de marcenaria, de euritmia, essas outras atividades que a própria pedagogia entende que são necessárias para o melhor desenvolvimento da criança.

NataschaEu vislumbro que as pessoas possam chegar até aqui e ver o quanto nossa escola é boa, a qualidade que ela tem, mesmo sendo uma escola pública. Espero que as pessoas venham para cá por querer estar aqui, porque é bom estar aqui. Espero também que possamos expandir o que a gente tem, as práticas artísticas, e trazer coisas como o Extra Lesson, para podermos aproveitar o nosso potencial, porque é um potencial muito grande que temos aqui na escola.

Fabiane – Tudo isso que elas falaram e principalmente mais professores Waldorf na nossa escola, e que tenhamos profissionais na nossa escola que, mesmo não sendo professores Waldorf formados, queiram o melhor para os seus alunos. E que a gente consiga, com a Secretaria de Educação, plantar uma sementinha do que fazemos aqui nas outras escolas, para que todas as outras crianças tenham um pouquinho do que fazemos tem aqui.

Mirtes – Eu vislumbro o dia em que o Poder Público, a nossa Secretaria da Educação e as pessoas que lá estão, não olhem pra gente como se a gente fosse algo completamente estranho. Nós comemoramos no ano passado 30 anos de iniciativa antroposófica em Nova Friburgo. A gente não precisa virar a queridinha da cidade, nem a queridinha da Secretaria da Educação, mas de respeito, pois o que muitas vezes falta é um pouquinho de respeito ao diferente. É esse vislumbre que eu tenho, pois eu acho que a partir do momento que isso chegar, chegam os profissionais, vão querer contratar profissionais Waldorf, vão respeitar o nosso caminho, que é outro caminho, não é diferente, só é outro.

Jackeline Eu tenho amigos que se formaram recentemente, que quando eu falei que vinha para Nova Friburgo por causa de uma pedagogia Waldorf, um falou: Waldorf? O quê? E acabou de sair da faculdade de Pedagogia. Quero que, pelo menos, entendam como essa escola funciona e que ela traz humanidade para a educação, pois isso está faltando. As crianças estão sendo educadas para serem peões e máquinas para repor e manter o sistema rodando, e a Pedagogia Waldorf mostra que primeiro é o ser humano, e que como ser humano ele tem o direito de conseguir escolher o caminho que quiser. Acho que a gente é uma vanguarda e a Escola Cecília Meireles precisa ser muito acolhida. A gente também precisa fazer esse trabalho na secretaria municipal de educação.

Fabiane Eu tenho 20 anos de prefeitura, e trabalhei por dez anos aqui pertinho, e nem sabia que aqui era uma pedagogia diferente. Então, eles não sabem. Se vc fala a outros professores que quer ir para o Cecília Meireles, eles falam: “Vc tem certeza? Lá trabalha muito! Lá é diferente! Você vai ter que saber se você vai se adaptar.” Mas eles não sabem te dizer por que é que é diferente. Eu demorei dez anos para cair de paraquedas aqui. E pra vir com todos os maus conceitos que eu tinha daqui. “Não ensina. São bichos grilos. Você não vai se adaptar.” Então você já vem armado. E eu demorei dez anos para dar uma educação com essência para as minhas crianças. Dez anos que eu fui impossibilitada de passar isso aqui para as minhas crianças que hoje já são professores, advogados, fazendo medicina. Quanto tempo demorei para eu saber sozinha fazendo cursos, fazendo palestras daqui, trazendo vivências. A própria secretaria está perdendo, não só com a gente, mas também com outras escolas, tesouros. Isso aqui é um legado. E eles estão deixando de levar isso pra vida, pra vida dos filhos, dos vizinhos. Que pena que a própria secretaria de educação não tem conhecimento dos seus profissionais.

 

Depoimentos em VÍDEO

Talita Melone

O que eu mais considero como patrimônio, como conquista dentro da minha trajetória na escola, é realmente poder acompanhar a biografia destas crianças, poder estar junto com elas todos os dias, religiosamente, ritmicamente, poder vê-los crescer, acompanhar sua história de vida, pode ver as pequenas e as grandes conquistas, e poder fazer parte de uma estrutura que promove o desenvolvimento integral do ser humano.

Assista o depoimento completo

Karine Guimarães

A dificuldade de um professor que vem de um concurso público para cá é você se despir de tudo que você sabe e se abrir para você conhecer tudo que a Pedagogia Waldorf tem para te apresentar. Você precisa deixar um pouco toda a experiência que você tem, para se preencher de uma experiência nova. Isso para mim foi libertador. […] É realizador está aqui. Eu amo essa escola!

Assista o depoimento completo

 

Rosali Rodrigues, diretora adjunta, nos apresenta alguns espaços da escola

 

 

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