Chapeuzinho Vermelho

Conto dos irmãos Grimm

tradução de Alda Volkmann
revisão de Ruth Salles

Era uma vez uma menina tão encantadora que todos gostavam dela só de olhá-la. Quem mais gostava dela era sua avó, que não sabia mais o que dar à neta. Uma vez, deu-lhe de presente um capuz de veludo vermelho. Ele ficou tão bem na menina que ela não queria mais usar outro. Por isso, todos passaram a chamá-la Chapeuzinho Vermelho.

Um dia, sua mãe lhe disse:

– Chapeuzinho Vermelho, tenho aqui um pedaço de bolo e uma garrafa de vinho que deves levar para tua avó. Ela está doente e fraca e vai reanimar-se com isso. Vai logo, antes que o calor aumente, e comporta-te bem. Não saias do caminho, porque podes cair e quebrar a garrafa, e a Vovó fica sem nada. Quando entrares em seu quarto, não te esqueças de dar bom-dia e não fiques bisbilhotando por todo lado.

– Vou fazer tudo direitinho – disse Chapeuzinho Vermelho, e se despediu da mãe.

A avó, porém, morava lá na floresta, a uma meia hora da aldeia. Quando Chapeuzinho Vermelho entrou na floresta, encontrou-se com o lobo. Mas não teve medo algum, porque não sabia como ele era malvado.

– Bom dia, Chapeuzinho Vermelho – disse o lobo.

– Muito obrigada, Lobo.

– Aonde vais tão cedo, Chapeuzinho Vermelho?

– Vou à casa da Vovó.

– E o que levas debaixo do avental?

– Vinho e bolo. Assamos ontem. Isso vai fazer bem à Vovó, e ela ficará mais forte, pois está doente e fraca.

– Chapeuzinho Vermelho, onde mora tua avó?

– Sua casa fica a uns quinze minutos daqui, na floresta, debaixo de três grandes carvalhos; ela é cercada de nogueiras, deves saber disso – respondeu Chapeuzinho Vermelho.

O lobo pensou consigo mesmo: “Essa menina pequena e delicada deve ser um ótimo petisco, e mais gostosa que a velha; precisas usar de esperteza para pegar as duas.” E andou um pouco ao lado de Chapeuzinho Vermelho, depois disse:

– Chapeuzinho Vermelho, vê só que lindas flores em volta do caminho! Por que não olhas ao redor? Acho que nem ouves o doce canto dos passarinhos. Tu andas tão compenetrada como se fosses para a escola, e é tão divertido vaguear pela floresta!

Chapeuzinho Vermelho ergueu os olhos e, quando viu como os raios do sol dançavam pelo meio das árvores e como tudo estava cheio de lindas flores, pensou: “Se eu levar para a Vovó um ramo de flores fresquinhas, ela vai ficar contente; e é tão cedo que ainda chegarei a tempo.” E saiu do caminho e embrenhou-se na floresta catando flores. Quando colhia uma, achava que mais adiante havia outra mais linda, corria para lá e penetrava na floresta cada vez mais.

O lobo, porém, foi diretamente para a casa da avó e bateu na porta.

– Quem está aí?

– É Chapeuzinho Vermelho trazendo vinho e bolo. Abre!

– É só girar a maçaneta – exclamou a avó – Estou muito fraca e não posso me levantar.

O lobo girou a maçaneta, a porta se abriu, e ele entrou. Sem dizer uma palavra, foi direto à cama da avó e a engoliu. Depois, vestiu sua roupa e pôs sua touca, deitou-se e fechou o cortinado.

Enquanto isso, Chapeuzinho Vermelho corria por ali em busca de flores e, quando juntou tantas que não podia carregar mais nenhuma, lembrou-se de novo da avó e pôs-se a caminho de sua casa. Ficou admirada de encontrar a porta aberta e, ao entrar no quarto, teve uma impressão estranha e pensou: “Oh, meu Deus, que medo estou sentindo hoje, eu que sempre gostei tanto de vir à casa da Vovó…” Então exclamou:

– Bom dia! – mas não obteve resposta.

Então, ela foi até a cama e puxou o cortinado. Ali estava a avó deitada, com a touca bem enfiada e cobrindo um pouco o rosto, e estava tão esquisita…

– Ah, Vovó, tuas orelhas como são grandes!

– São para te ouvir melhor.

– Ah, Vovó, teus olhos como são grandes!

– São para te ver melhor.

– Ah, Vovó, tuas mãos como são grandes!

– São para te pegar melhor.

– Ah, Vovó tua boca é tão grande e tão horrível!

– É para te devorar melhor.

Assim que o lobo disse isso, pulou da cama e engoliu a pobre Chapeuzinho Vermelho.

Tendo saciado seu apetite, deitou-se de novo, dormiu e começou a roncar muito alto.

O caçador estava passando pela casa e pensou: “Como a velha senhora ronca, é melhor veres se ela não está se sentindo mal.” Então, ele entrou no
quarto e, chegando diante da cama, viu o lobo lá deitado.

– É aqui que eu te encontro, velho pecador – disse ele – eu, que te procurei por tanto tempo.

O caçador ia usar a carabina, mas pensou que o lobo talvez tivesse devorado a avó e que ele ainda podia salvá-la. Então pegou uma tesoura e começou a cortar a barriga do lobo adormecido. Depois de dar alguns cortes, viu o brilho vermelho do chapeuzinho e, com mais uns cortes, a menina pulou para fora e exclamou:

– Ah, como eu estava assustada, e como é escura a barriga do lobo!

Então, saiu também a velha avó ainda viva e mal podendo respirar. Chapeuzinho, porém, foi depressa buscar pedras grandes e encheram com elas a barriga do lobo. Quando ele acordou, quis sair correndo, mas as pedras eram tão pesadas que, na mesma hora, ele caiu e morreu.

Os três ficaram muito contentes; o caçador tirou a pele do lobo e levou-a para casa. A avó comeu o bolo e tomou o vinho que Chapeuzinho Vermelho tinha trazido e ficou reanimada. Chapeuzinho Vermelho, porém, pensou: “Nunca mais sairás do caminho para correr pela floresta quando tua mãe te proibir.”

Também dizem que, uma outra vez, quando Chapeuzinho Vermelho foi levar pastéis para a velha avó, outro lobo falou com ela e quis desviá-la do caminho. Mas Chapeuzinho Vermelho tomou cuidado, continuou seguindo seu caminho e contou para a avó que se encontrara com o lobo, que este lhe dera bom-dia, olhando-a com olhos muito maus.

– Se eu não estivesse na estrada pública, ele me teria devorado.

– Vem – disse a Vovó – vamos fechar a porta para que ele não entre.

Logo depois, o lobo bateu na porta e chamou:

– Abre a porta, Vovó. Eu sou Chapeuzinho Vermelho e trago pastéis.

Mas as duas ficaram bem quietas e não abriram a porta. O velho lobo rodeou a casa algumas vezes e, por fim, subiu no telhado e esperou que Chapeuzinho Vermelho saísse na hora de voltar para casa; ele então a seguiria para devorá-la no escuro. Mas a avó percebeu o que ele pretendia. Ora, na frente da casa havia uma grande gamela de pedra, e ela disse para a menina:

– Chapeuzinho Vermelho, vai pegar o balde onde ontem eu cozinhei salsichas e despeja na gamela a água onde elas foram cozinhadas.

Chapeuzinho Vermelho despejou bastante água até que a grande gamela ficou cheia. Então o cheiro das salsichas chegou até o nariz do lobo, que começou a farejar e espichou tanto o pescoço que não pôde mais se segurar nas patas e começou a escorregar do telhado. Foi cair diretamente dentro da grande gamela e se afogou.

Assim, Chapeuzinho Vermelho voltou para casa muito contente, e ninguém lhe fez mal pelo caminho.

 

 

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