Cinderela

Conto dos irmãos Grimm

tradução de Alda Volkmann
revisão de Ruth Salles

A esposa de um homem rico adoeceu e, sentindo que seu fim estava próximo, chamou a filhinha única para junto de sua cama e disse: – – Querida filha, conserva-te piedosa e boa, pois assim Deus te ajudará sempre, e eu ficarei a teu lado e olharei por ti lá do céu.

Em seguida, fechou os olhos e morreu.
Todos os dias, a menina ia chorar na sepultura de sua mãe e continuava piedosa e boa. Ao chegar o inverno, a neve cobriu a sepultura com um manto branco. E, quando o sol da primavera o derreteu, o homem tornou a se casar. A nova mulher trouxe com ela duas filhas de rosto bonito e claro, mas de coração feio e escuro. Começaram então dias bem ruins para a pobre enteadinha.

– Essa palerma – diziam elas – vai ficar na sala conosco? Quem come o pão tem que ganhá-lo! Fora daqui, cozinheira!

E tomaram seus belos vestidos, deram-lhe um avental pardo para vestir e tamancos para calçar.

– Olha só a orgulhosa princesinha como está enfeitada! – gritaram elas, levando-a para a cozinha.

E a menina teve de fazer trabalho pesado da manhã à noite, levantar-se de madrugada, carregar a água, acender o fogo, cozinhar e lavar. Além disso, as duas irmãs lhe faziam toda sorte de maldades, caçoavam dela, derrubavam ervilhas e lentilhas na cinza para que ela tivesse de catá-las de novo. À noite, quando estava exausta de trabalhar, ela não tinha mais cama e se deitava perto do fogão em cima das cinzas. Ficava sempre tão empoeirada e suja que a chamavam de Cinderela.

Uma vez, o pai ia ao mercado e perguntou às duas enteadas o que desejavam que ele trouxesse.

– Lindos vestidos – disse uma.

– Pérolas e pedras preciosas – disse a outra.

– E tu, Cinderela – perguntou ele – que queres?

– Pai, quebra e traz para mim o primeiro rebento que esbarrar em teu chapéu quando voltares para casa.

O homem comprou lindos vestidos, pérolas e pedras preciosas para as duas enteadas e, no caminho de volta, ao cavalgar por entre algumas moitas, um rebento de aveleira esbarrou nele e lhe derrubou o chapéu. Então ele o quebrou e o trouxe consigo. Chegando em casa, deu às enteadas o que elas haviam desejado e deu a Cinderela o rebento de aveleira. Cinderela agradeceu, foi à sepultura de sua mãe, plantou nela o rebento e chorou tanto, que as lágrimas caíram sobre ele e o regaram. Ele cresceu e se tornou uma linda árvore. Cinderela ia três vezes por dia à sepultura, chorava e rezava, e todas as vezes um passarinho branco pousava na árvore. Se ela expressava algum desejo, o passarinho logo lhe jogava o que fora pedido.
Ora, aconteceu que o rei ia dar uma festa, que deveria durar três dias, e para a qual seriam convidadas todas as lindas donzelas do reino, a fim de que seu filho escolhesse dentre elas uma noiva. As duas irmãs, sabendo que também iriam, ficaram muito esperançosas e chamaram Cinderela, dizendo-lhe:

– Penteia nossos cabelos, escova nossos sapatos e prende bem as fivelas, pois vamos às bodas no castelo do rei. Cinderela obedeceu, mas com lágrimas nos olhos, porque também gostaria muito de ir ao baile. Então, pediu à madrasta permissão para ir, e esta replicou:

– Tu, Cinderela, que estás sempre empoeirada e suja, queres ir à festa das bodas? Tu, que não tens roupa nem sapatos, queres dançar?

E, como Cinderela pedisse mais uma vez, ela retrucou:

– Despejei um prato de lentilhas nas cinzas. Se em duas horas conseguires catá-las, poderás ir conosco.

A menina saiu pela porta de trás, foi até a horta e chamou:

– Meigas pombinhas, rolinhas, e todos vós, passarinhos que voais no céu, vinde ajudar-me a catar as lentilhas,

as boas no pratinho,
as ruins no papinho.

Logo entraram pela janela da cozinha duas pombinhas brancas, depois rolinhas e, por fim, vieram esvoaçando e volteando todos os passarinhos que voavam no céu, e pousaram ao redor das cinzas. As pombinhas disseram que sim abanando as cabecinhas e começaram, pic, pic, pic, a catar, e os outros passarinhos também começaram, pic, pic, pic, e puseram no prato todos os grãozinhos bons. Mal se passou uma hora e já estava tudo pronto, e eles saíram voando de novo. Então a menina, cheia de alegria, levou o prato para a madrasta, pensando que podia ir à festa das bodas.
Mas a madrasta disse:

– Não, Cinderela, tu não tens vestido e não sabes dançar; as pessoas vão caçoar de ti.

Cinderela se pôs a chorar, e a madrasta então retrucou:

– Se conseguires, em uma hora, catar das cinzas dois pratos de lentilha para mim, irás conosco. – E pensou: “Isso ela não vai conseguir!”

Depois que a madrasta despejou nas cinzas dois pratos de lentilha, a menina saiu pela porta de trás, foi até a horta e chamou:

– Meigas pombinhas, rolinhas, e todos vós, passarinhos que voais no céu, vinde ajudar-me a catar as lentilhas,

as boas no pratinho,
as ruins no papinho.

Logo entraram pela janela da cozinha duas pombinhas brancas, depois rolinhas e, por fim, vieram esvoaçando e volteando todos os passarinhos que voavam no céu, e pousaram ao redor das cinzas. E as pombinhas disseram que sim abanando as cabecinhas e começaram, pic, pic, pic, a catar, e os outros passarinhos também começaram, pic, pic, pic, e puseram nos pratos todos os grãozinhos bons. E, assim que se passou uma hora, já estava tudo pronto, e eles saíram voando de novo. Então a menina, cheia de alegria, levou os pratos para a madrasta, pensando que podia ir à festa das bodas. Mas a madrasta disse:

– Não adianta, Cinderela. Tu não tens vestido e não sabes dançar; Passaríamos vergonha por causa de ti.

E, dando as costas, saiu apressada com suas orgulhosas filhas.

Como não havia mais ninguém em casa, Cinderela foi à sepultura de sua mãe, debaixo da aveleira, e pediu:

– Arvorezinha, sacode-te bem,

joga ouro em mim e prata também!

O passarinho branco então fez cair sobre ela um vestido de ouro e prata e sapatinhos bordados em seda e prata. Mais que depressa, Cinderela se vestiu e foi para a festa. Suas irmãs e a madrasta, porém, não a reconheceram. Devia ser uma filha de rei desconhecida, de tão linda que chegou em seu vestido dourado. Em Cinderela nem pensaram, achando que ela estava em casa, no meio da sujeira e catando lentilhas das cinzas. O filho do rei foi ao seu encontro, pegou-a pela mão, dançou com ela e não quis mais dançar com nenhuma outra, por isso não soltava sua mão. E se alguém vinha convidá-la, ele dizia:

– Esta só dança comigo.

Cinderela dançou até tarde, depois quis voltar para casa. Mas o filho do rei disse:

– Eu te acompanho. – Pois queria saber de onde era a linda jovem.

Ela, porém, desvencilhou-se dele e, de um salto, subiu no pombal. O filho do rei esperou o pai aparecer e lhe disse que a jovem desconhecida tinha subido no pombal. O velho pensou: “Será que é Cinderela?”

Trouxeram-lhe então machado e picareta para derrubar o pombal, mas não havia ninguém lá dentro.

Quando as outras chegaram em casa, viram Cinderela no meio das cinzas com seu vestido sujo, e uma fraca lamparina de azeite ardia em cima da lareira. Pois ela saíra depressa pelos fundos do pombal, indo até a aveleira. Ali, tirou seu lindo traje, deixando-o sobre a sepultura, onde o passarinho branco o foi buscar. Depois, vestiu seu aventalzinho pardo e foi sentar-se nas cinzas da cozinha.

No dia seguinte, a festa recomeçou. Como os pais e as irmãs tinham saído de novo para lá, Cinderela correu até a aveleira e disse:

– Arvorezinha, sacode-te bem,
joga ouro em mim e prata também!

O passarinho, então, fez cair sobre ela um vestido ainda mais suntuoso que o do primeiro dia. E, quando Cinderela apareceu na festa com aquele vestido, todo mundo se admirava de sua beleza. O filho do rei, que esperava por sua chegada, tomou-a pela mão e só dançou com ela. E, se vinha alguém convidá-la, ele dizia:

– Esta só dança comigo.

Quando anoiteceu, ela quis ir embora, e o filho do rei foi atrás, querendo ver em que casa morava. Ela, porém, escapou pelo jardim de trás. Nele havia uma árvore linda e alta de onde pendiam magníficas peras. Cinderela subiu nos galhos com a agilidade de um esquilo, e o filho do rei não conseguiu ver para onde ela fora. Ele esperou o pai chegar e lhe disse:

– A jovem desconhecida me escapou e acho que ela subiu no alto da pereira.

O pai pensou: “Será que é Cinderela?” Mandou que lhe trouxessem o machado e derrubou a árvore, mas não havia ninguém lá.

E, quando Cinderela chegou à cozinha, deitou-se nas cinzas como sempre; pois havia pulado da árvore pelo outro lado, depois devolveu ao passarinho da aveleira o lindo traje e vestiu seu aventalzinho pardo.

No terceiro dia, tendo os pais e as irmãs saído, Cinderela foi de novo à sepultura de sua mãe e disse à arvorezinha:

– Arvorezinha, sacode-te bem,
joga ouro em mim e prata também!

O passarinho jogou sobre ela um traje como jamais alguém vestira, de tão suntuoso e reluzente que era, e os sapatinhos eram todos de ouro. Quando Cinderela chegou na festa com aquela roupa, ninguém sabia o que dizer diante de tanta maravilha. O filho do rei só dançou com ela o tempo todo. E, se alguém vinha convidá-la, ele dizia:

– Esta só dança comigo.

Quando anoiteceu, ela já ia embora e o filho do rei quis acompanhá-la. Cinderela, porém, escapou tão depressa, que ele não conseguiu segui-la. Mas, astuciosamente, ele havia untado com betume toda a escadaria; e, quando ela foi descer, ficou preso ali o pé esquerdo de seu sapatinho. O filho do rei pegou-o, e ele era pequeno, delicado e todo de ouro. No dia seguinte, ele o levou à casa do pai das jovens e lhe disse:

– Só me casarei com aquela em quem este sapato servir.

As duas irmãs ficaram muito contentes, pois tinham belos pés. A mais velha foi para o quarto com a mãe e tentou calçar o sapato. Mas o dedo grande do pé não cabia dentro, o sapatinho era pequeno demais. A mãe entregou-lhe uma faca e disse:

– Corta fora esse dedo; quando fores rainha não precisarás andar a pé.

A moça cortou o dedo fora, forçou o pé para dentro do sapato, disfarçou a dor e foi até o filho do rei. Este, tomando-a como noiva, montou-a em seu cavalo e saiu cavalgando. Mas o caminho passava pela sepultura; as duas pombinhas estavam pousadas na aveleira e exclamaram:

– Olha bem que sangueira
do sapatinho vaza!
A noiva verdadeira
ainda está dentro de casa.

O filho do rei olhou então para o pé da noiva e viu o sangue escorrendo. Ele virou o cavalo, levou a falsa noiva de volta para casa e disse que aquela não era a noiva verdadeira; a outra irmã deveria experimentar o sapato. Esta foi para o quarto e, por sorte, os dedos couberam, mas o calcanhar era grande demais. Então a mãe lhe entregou uma faca e disse:

– Corta um pedaço do calcanhar; quando fores rainha não precisarás andar a pé.

A moça cortou um pedaço do calcanhar, forçou o pé para dentro do sapato, disfarçou a dor e foi até o filho do rei. Este, tomando-a como noiva, montou-a em seu cavalo e saiu cavalgando. Quando passaram pela aveleira, as duas pombinhas estavam lá pousadas e exclamaram:

– Olha bem que sangueira
do sapatinho vaza!
A noiva verdadeira
ainda está dentro de casa.

O filho do rei baixou os olhos para o pé da noiva e viu o sangue escorrendo e tornando a meia branca toda vermelha. Ele virou o cavalo, levou a falsa noiva de volta para casa e disse:

– Esta não é a noiva verdadeira; vocês não têm nenhuma outra filha?

O homem respondeu:

– Não. Só a filha de minha falecida esposa, mas é uma Cinderela pequena e franzina. É impossível que ela seja a noiva.

O filho do rei disse que deviam buscá-la, mas a mãe respondeu:

– Ah, não, ela está suja demais, não pode ser vista.

O filho do rei, porém, insistiu que queria vê-la, e Cinderela foi chamada. Ela, primeiro, lavou as mãos e o rosto, depois foi até o filho do rei, inclinou-se diante dele, e ele lhe entregou o sapatinho de ouro. Cinderela, então, sentou-se num banquinho, tirou o pé do pesado tamanco e calçou o sapatinho, que serviu como uma luva. E, quando ela se levantou, o filho do rei olhou-a no rosto, reconheceu a linda jovem com quem havia dançado e disse:

– Esta é a noiva verdadeira!

A madrasta e as duas irmãs empalideceram de espanto e raiva. Ele, porém, montou Cinderela no cavalo e saiu cavalgando. Ao passarem pela aveleira, as duas pombinhas brancas exclamaram:

– Olha bem que noiva brejeira.
Sua alegria se extravasa.
Esta é a noiva verdadeira,
com quem o filho do rei se casa.

E, assim exclamando, as duas levantaram voo, pousaram nos ombros de Cinderela – uma à direita, outra à esquerda – e lá ficaram.

No dia da festa de casamento do filho do rei, as duas irmãs fingidas compareceram, querendo atrair sua simpatia e compartilhar de sua sorte. Quando os noivos chegaram na igreja, a mais velha ficou à sua direita e a mais moça à sua esquerda. Então, as pombas picaram um olho de cada uma. Na saída, a mais velha estava à esquerda e a mais moça à direita. De novo as pombas picaram o outro olho de cada uma. E assim, por causa de sua maldade e falsidade, elas foram castigadas, ficando cegas para toda a vida.

 

 

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