Conto de Natal

conto de Charles Dickens

Adaptação para teatro de Ruth Salles

NOTAS

Esta peça baseia-se no conto homônimo do célebre escritor inglês Charles Dickens (1812-1870), que influenciou profundamente sua época lutando pelo humanitarismo e contra a indiferença e a crueldade do comercialismo e do sistema industrial, chamando a atenção para o indivíduo em si. Charles Dickens escreveu este Conto de Natal aos 28 anos de idade, entre um e outro capítulo de uma novela maior. Foi assim que ele criou vários contos natalinos pequenos, afirmando que sua finalidade principal era despertar pensamentos de amor e de perdão, de acordo com a época de Natal num país cristão. Quanto à peça, adaptei as cenas dividindo-as segundo os capítulos da história e, como se tratava de um trabalho para alunos de 14 a 15 anos de idade, aumentei o conto incluindo uma Introdução, que consta do canto de Natal dos cantores de rua. Esse canto justifica o título do conto, que é “A Christmas Carol”, sendo “carol”, na verdade, o canto feito de porta em porta nas noites de Natal daquele tempo na Europa. Procurei transmitir o melhor possível o estilo de Dickens nos trechos falados pelos narradores.

Como a história se passa na Inglaterra do século XIX, sugeri para a peça três canções inglesas antigas, a fim de que os alunos vivenciem o ambiente da Inglaterra na época: “Greensleeves” (do século XVI, mas usada desde o século XVII como canção de Natal), para ser tocada em mudanças de cena, e (ou) para ser tocada no início e cantada no fim da peça; “Deck the Halls” (alegre e antiquíssima canção de Natal do País de Gales), para ser cantada pelos cantores de rua; “God rest you merry” (canção de Natal do século XVI) para ser talvez cantada no fim da peça. Para as três adaptei letras em português. No entanto, deixo a questão da escolha das canções aos professores de música. Há também uma dança, no capítulo do Espírito do Natal Passado. Talvez fosse interessante uma dança da época.

 

PERSONAGENS

REAIS:
Narrador Principal (representa o autor; traz bengala e chapéu ou cartola)
Narradores
Scrooge (usa óculos na ponta do nariz quando está no escritório)
Sobrinho de Scrooge
Mulher do sobrinho
Cunhada
Namorado da cunhada
Empregadinha do sobrinho
Secretário de Scrooge
Mulher do Secretário
Marta, filha do Secretário
Pedro, filho do Secretário
Timmy, filho do Secretário (usa muletas)
Menino que canta na porta sozinho (faz parte dos Cantores de Rua)
Dois Senhores Caridosos
Menino que compra o peru (pode fazer parte dos cantores de rua)

SOMBRAS:
Fantasma de Marley
Espírito do Natal Passado
Espírito do Natal Futuro
Espírito do Natal Presente
Scrooge quando menino
Irmãzinha de Scrooge-menino
Dick
Amiga de Dick
Velho patrão de Scrooge-menino
Mulher do velho patrão
Cozinheiro do patrão
Copeira do patrão
Dois Comerciantes
Velho João
Duas Ladras
Moça
Rapaz
Ignorância
Miséria

 

INTRODUÇÃO

Scrooge e seu Secretário; Cantores de rua, Narrador principal e Narradores (dependendo do número de alunos, os cantores podem ser a mulher do secretário, seus filhos Marta, Pedro, Timmy, e o menino que depois canta à porta de Scrooge; e os narradores podem ser a empregadinha do sobrinho, os dois comerciantes, o velho João, as duas ladras, a moça e o rapaz).

No centro da cena, um pouco para a esquerda, fica o escritório de Scrooge, com mesa e cadeira (sobre a mesa, o livrão de contas e a régua), e mais uma mesinha com banqueta para o secretário (sobre a mesinha, papel, tinteiro e pena). À direita, no fundo e no alto, é a casa de Scrooge, sua cama com dossel e cortinado, um cabide com o roupão e o gorro, os chinelos no chão e uma mesinha; sofá e lareira podem fazer parte do cenário pintado, ou ser imaginários. À esquerda, no fundo, também há um lugar alto, onde Scrooge irá subir com os Espíritos. Só está iluminado o proscênio. Scrooge e seu secretário estão sentados no escritório, porém imóveis.

Entram os Cantores, que podem vir pela plateia, se possível, cantando a primeira parte da canção. Um traz uma lanterna antiga fechada, outros trazem partituras onde leem a canção. Atraídos pelo canto, o Narrador principal e os Narradores chegam ao proscênio iluminado (o centro da cena está escuro) e cantam também a segunda parte da canção, todos voltados para a plateia, como se nessa direção estivessem as portas das casas. Narradores e cantores, se forem personagens de outras cenas, devem estar vestidos com as roupas com que vão aparecer depois.

 

CANTORES (cantam):
“O Natal já vem chegando: Fa-la-la-la-la-la-la-la-lá!
Para todos vou cantando: Fa-la-la-la-la-la-la-la-lá!
Abra a porta ou a janela: Fa-la-lá, fa-la-la-la-la-lá!
Vim cantar debaixo dela: Fa-la-la-la-la-la-la-la-lá!”

CANTORES e NARRADORES:
“Dê um pouco do seu pão: Fa-la-la-la-la-la-la-la-lá!
e com ele o coração: Fa-la-la-la-la-la-la-la-lá!
A estrela se acendeu: Fa-la-lá, fa-la-la-la-la-lá!
É porque Jesus nasceu: Fa-la-la-la-la-la-la-la-lá!”

(Os cantores saem. Os narradores se acomodam no proscênio, como se fossem ouvir ou tomar parte na narrativa.)

 

 

Cena do Capítulo 1
“O Fantasma de Marley”

 

Narrador principal, Narradores; Scrooge e seu secretário; o sobrinho de Scrooge; os dois senhores caridosos; o menino que canta na porta; o fantasma de Marley.

 

(O Narrador principal anda de um lado para o outro movimentando sua bengala e dirigindo-se ao público; os outros narradores aparteiam, ora dirigindo-se uns aos outros, ora ao narrador principal, ora ao público.)

 

NARRADOR PRINCIPAL: – Para começar,… Marley estava morto. Sobre isto não resta a menor dúvida. O registro de óbito fora assinado pelo clérigo, pelo escrivão e pelo agente funerário.

1º COMERCIANTE: – Scrooge também assinara, com sua assinatura tão digna de crédito na praça!

NARRADOR PRINCIPAL: – Marley estava morto. Mais morto que uma porta.

MENINO QUE CANTA NA PORTA: – Se bem que uma porta, que se mexe tanto com o vento, será que está bem morta?

1ª LADRA: – Sabe-se lá! … Quem vai saber?

NARRADOR PRINCIPAL: – Mas enfim… O velho Marley estava morto…

TODOS OS NARRADORES: – … e Scrooge bem o sabia!

1º COMERCIANTE: – Scrooge fora seu único sócio,

2º COMERCIANTE: – seu único testamenteiro,

1º COMERCIANTE: – o único administrador de seus bens,

2º COMERCIANTE: – seu único herdeiro…

NARRADOR PRINCIPAL (sempre andando): – …e seu único amigo; embora tenha comemorado solenemente seu funeral realizando, no mesmo dia, ainda um bom negócio. Marley estava morto…

TODOS OS NARRADORES: – E bem morto!

NARRADOR PRINCIPAL: – E agora, na firma, Scrooge respondia pelos dois.

TODOS OS NARRADORES: – Scrooooooge! O avarento! O ganancioso pecador!

1ª LADRA: – Um mão-fechada.

2ª LADRA: – Mais duro e mais agudo que uma pedra de sílex, da qual nem uma lâmina de aço arranca faíscas generosas.

VELHO JOÃO: – Fechado e solitário como uma ostra.

TODOS OS NARRADORES (com ritmo):
– Havia um frio dentro dele
que gelava seus traços,
franzia seu rosto,
endurecia seus passos,
tornava cortante sua voz áspera.
(com um lento e soturno balanço na voz):
– Uma névoa gelada o envolvia,
e ele a levava aonde ia.

2º COMERCIANTE: – O gelo em seu escritório durava o ano inteiro e não se derretia nem mesmo no Natal!

MOÇA: – Ninguém o parava na rua…

RAPAZ: – Nenhum mendigo lhe pedia esmola…

EMPREGADINHA: – Nenhuma mulher lhe indicava o caminho…

MENINO QUE COMPRA O PERU: – Nenhuma criança lhe perguntava as horas…

TODOS OS NARRADORES: – Ninguém dizia: “Como vai, Scrooge?”

NARRADOR PRINCIPAL: – E ele lá se importava? Se o que mais queria era distância…

TODOS OS NARRADORES (com leve balanço na voz):
– Porém uma vez,
na véspera do Natal…
Scrooge e seu secretário
trabalhavam na sala gelada…

(Os narradores se imobilizam no proscênio. Ouve-se a música “Greensleeves”, apenas tocada, enquanto o centro da cena se ilumina. O secretário de Scrooge, sentado em sua banqueta e com o chapéu em cima da mesinha, esfrega as mãos geladas. Scrooge observa o secretário com os óculos na ponta do nariz. O secretário, intimidado, pára de aquecer as mãos, pega a pena, mergulha-a no tinteiro e começa a escrever vagarosamente num bloco. Scrooge, com o sobretudo desabotoado e o chapéu sobre a mesa, passa em revista o livro de contas. Terminada a música, os dois se imobilizam, enquanto os narradores dizem o trecho que se segue.)

TODOS OS NARRADORES (talvez com movimentos de euritmia):
– Lá fora, a névoa obscurecia tudo,
derramando-se nas frestas, nas fechaduras das portas,
confundindo até as casas, meras sombras fantasmagóricas,
como se a Natureza mexesse, sem parar,
um caldeirão de sopa fumegante.
Os candeeiros luziam nas janelas como leves manchas vermelhas.
Rua acima e rua abaixo passavam as pessoas,
ofegantes, batendo as mãos no peito,
sapateando nas pedras da calçada para se aquecerem.

(Terminado este trecho da narrativa de Dickens, os narradores se imobilizam e entra no escritório o alegre sobrinho de Scrooge.)

SOBRINHO (entrando): – Salve, tio! Feliz Natal!

SCROOGE (mal humorado): – Ora, que bobagem!

SOBRINHO: – Tio! O senhor não vai querer dizer que o Natal é uma bobagem!

SCROOGE: – Pois eu digo. Ora essa, feliz Natal… Que razão tem você para estar feliz, você que é tão pobre?

SOBRINHO: – E que razão tem o senhor para não estar feliz? O senhor é tão rico!

SCROOGE: – Ah! Bobagem!

SOBRINHO: – Não se zangue, tio.

SCROOGE: – Que posso fazer? Estou cercado de doidos! “Feliz Natal”… E para você o que é o Natal senão o tempo de saldar contas sem ter dinheiro; o tempo de estar um ano mais velho e nem uma hora mais rico; o tempo de dar balanço nos livros e verificar prejuízo. (diz isso batendo com a mão no livrão de contas aberto à sua frente) Para mim, quem anda por aí dizendo “Boas Festas!” devia ser assado junto com seu próprio bolo de Natal.

SOBRINHO (desanimado): – Tio!…

SCROOGE: – Sobrinho, festeje o Natal a seu modo, que eu o festejo do meu.

SOBRINHO: – Festejar? Mas o tio não festeja coisa alguma!…

SCROOGE: – Deixe-me em paz e faça bom proveito do seu Natal. Que ele lhe dê o lucro de sempre.

SOBRINHO: – Há muitas coisas boas, tio, que não são para dar lucro, e o Natal é uma delas. O Natal é tempo sagrado, de bondade, de perdão, de alegria. E embora ele nunca me tenha posto uma moeda de prata no bolso, acho que sempre saí lucrando. Deus abençoe o Natal!

SECRETÁRIO (entusiasmado): – Sim, Deus abençoe o Natal! (tapa a boca assustado, arregalando os olhos)

SCROOGE (zangado, esmurra a mesa, dirigindo-se ao secretário): – Mais uma palavra, e você festeja seu Natal perdendo o emprego! (dirige-se ao sobrinho): – E você, que belo orador me saiu. Não sei como ainda não entrou para o Parlamento!

SOBRINHO: – Ora, vamos, tio! Não se zangue! Venha jantar conosco amanhã.

SCROOGE: – Eu? Ir à sua casa? Nem pense nisso.

SOBRINHO: – Mas por que? Por que?

SCROOGE: – Por que você se casou, ahn?

SOBRINHO: – Porque eu me apaixonei.

SCROOGE: – Ora, se apaixonou. Boa-noite!

SOBRINHO: – Mas, tio, eu nunca lhe peço nada nem quero nada seu; por que não podemos ser amigos?

SCROOGE: – Boa-noite.

SOBRINHO: – Pois eu sinto muito, tio, sinto de coração que o senhor seja tão teimoso. Nós nunca fomos adversários, nunca tivemos uma questão, mas hoje fiz aqui uma defesa em homenagem ao Natal e, dentro do espírito do Natal, hei de conservar meu bom humor. Por isso, tio, feliz Natal!

SCROOGE: – Boa-noite!

SOBRINHO: – E feliz ano novo!

(Sai cumprimentando o secretário, que o acompanha até a porta.)

SECRETÁRIO (efusivamente): – Feliz Natal!

SCROOGE (consigo mesmo): – Hum… Meu secretário, com 15 xelins por semana, mulher e filhos para sustentar, e falando em feliz Natal… Deve estar louco!

(O secretário, ainda na porta, faz entrar dois solenes senhores caridosos que tiram o chapéu para Scrooge.)

1º SENHOR CARIDOSO: – É aqui a firma “Scrooge e Marley”, não? Tenho a honra de estar falando com o senhor Scrooge ou com o senhor Marley?

SCROOGE: – O senhor Marley faleceu há sete anos. Precisamente há sete anos nesta mesma noite.

2º SENHOR CARIDOSO (apresentando credenciais): – Mas acredito que sua generosidade será bem representada pelo seu sócio.

SCROOGE (devolve as credenciais e resmunga): – Hum…

1º SENHOR (pegando um lápis do bolso): – Nesta época festiva, senhor Scrooge, é mais do que desejável que façamos provisões para os pobres e miseráveis. Há milhares passando necessidade.

SCROOGE: – E não há albergues?

2º SENHOR: – Muitos albergues, senhor Scrooge.

SCROOGE: – E não estão abertos?

1º SENHOR: – Estão, sim, senhor Scrooge.

SCROOGE: – E a lei contra a mendicância? Não é aplicada?

2º SENHOR: – É, sim, senhor Scrooge. Está em pleno vigor.

SCROOGE: – Ainda bem, meus senhores, ainda bem.

1º SENHOR: – Mas nós, achando que as instituições mal contribuem para a alegria do Natal dessa pobre gente, tentamos angariar donativos em seu benefício, nesta época em que a necessidade é tão sentida e a abundância alegra tanto.

2º SENHOR: – Qual a quantia que posso anotar em seu nome?

SCROOGE: – Nenhuma.

1º SENHOR: – Quer permanecer no anonimato?

SCROOGE: – Quero que me deixem em paz. Não me alegro no Natal e não posso alegrar vadios. Já contribuo para as instituições existentes, e isso não me custa pouco. Os que são pobres que vão para lá!

1º SENHOR: – Muitos não podem.

2º SENHOR: – Outros prefeririam morrer.

SCROOGE: – Pois fariam muito bem diminuindo a população; mas afinal não tenho nada com isso. Já é bastante, para um homem, cuidar de seus negócios e não se meter na vida dos outros. Boa-noite, senhores!

(Os dois senhores curvam-se ligeiramente e vão saindo. Quando o secretário de Scrooge abre a porta e eles saem, aparece um menino.)

MENINO (canta na porta):
“O Natal já vem chegando: Fa-la-la-la-la-la-la-la-lá!”

SCROOGE (levanta-se e o ameaça com a régua): – Fora! Fora!

(O secretário fecha a porta, volta à sua mesinha e se prepara para sair, enrolando o cachecol no pescoço, pegando o chapéu e indo despedir-se de Scrooge.)

SCROOGE: – Você, com certeza, quer amanhã o dia inteiro de folga.

SECRETÁRIO (tímido, gira o chapéu nas mãos): – Oh, isso seria ótimo, senhor!

SCROOGE: – Não seria nada ótimo. Ter de lhe pagar por um dia em que não trabalha!

SECRETÁRIO: – Mas é só uma vez no ano…

SCROOGE: – Bela desculpa para se meter a mão no bolso alheio no dia 25 de dezembro de todos os anos. (abotoa o sobretudo) Está bem. Fique em casa amanhã, mas no dia seguinte esteja aqui bem cedo!

SECRETÁRIO: – Decerto! Decerto, senhor Scrooge! (pondo e tirando o chapéu duas vezes) Boa-noite! Boa-noite!

(O secretário sai, e em seguida sai Scrooge. Os narradores tornam a se espalhar pelo proscênio.)

NARRADOR PRINCIPAL (anda de um lado para o outro, girando a
bengala):
– Enquanto isso…
as sombras se adensavam tanto,
que algumas pessoas corriam pelas ruas empunhando lanternas,
guiando as carruagens pela névoa espessa.
A velha torre da igreja próxima, (alegremente)
cujo sino estava sempre espiando Scrooge por uma janela gótica,
tornou-se invisível
e dava as horas nas nuvens,
com vibrações trêmulas.
como se tiritasse de frio e batesse os dentes
lá no alto de sua cabeça enregelada.
Quanto a Scrooge…
jantou melancolicamente, na taverna melancólica de sempre.
E depois…

(Aparece Scrooge, que pára diante da imaginária porta de sua casa. À medida que os narradores contam o que se passa, ele mostra espanto diante do que vê e dá passos para trás cada vez que os narradores pronunciam o nome de Marley.)

TODOS OS NARRADORES (lentamente e com ritmo):
– … quando foi de volta à casa,
já na porta da entrada,
bem no trinco se mostrava
uma face muito pálida
que de perto o encarava.
Era Marley! Era Marley!
Era Marley que lá estava!

SCROOGE (procurando se acalmar): – Ora, isso é bobagem!

TODOS OS NARRADORES (várias vezes, como um eco): – Ora, isso é bobagem! Bobagem… bobagem… bobagem… bobagem…

(Scrooge olha em volta, assustado com o eco, e se põe a revistar a casa.)

TODOS OS NARRADORES (lentamente, seguindo os movimentos de Scrooge):
– Nada havia sob a mesa…
nem debaixo do sofá.
Nada havia sob a cama…
nem por dentro do roupão. (acelerando um pouco)
Mas, no fundo da lareira,
cada um dos azulejos
fez surgir a face pálida
que decerto o encarava!
Era Marley! Era Marley!
Era Marley que lá estava!

SCROOGE (procurando se acalmar): – Ora, isso é bobagem!

(Uma sineta começa a soar, e em seguida várias sinetas soam estridentemente. Param de repente, todas juntas. Os narradores somem. Ouvem-se passos pesados e um arrastar de correntes. Scrooge arregala os olhos e recua.)

SCROOGE: – Dizem que nas casas mal-assombradas os fantasmas arrastam correntes… Mas eu não acredito. É pura bobagem.

(Surge o fantasma de Marley, vestido como costumava, mas coberto de correntes e de molhos de chaves.)

SCROOGE (espantadíssimo): – É Marley! Será que é mesmo Marley?…

(Scrooge faz gesto de quem duvida e vira as costas. O fantasma dá mais um passo com barulho de correntes. Scrooge torna a virar de frente para ele e começa a observá-lo, admiradíssimo.)

SCROOGE: – Ele é transparente… É todo transparente… Bem que diziam que Marley era um homem sem entranhas… (lutando com os sentidos) Mas ainda assim não acredito. (resolvendo-se, fala com Marley): – Que é… que é que você quer de mim?

MARLEY (voz fantasmagórica): – Muuuito…

SCROOGE: – Quem é você?

MARLEY: – Pergunte queeem eu eeera…

SCROOGE: – Quem era você, então?

MARLEY: – Em vida fui seu sóóócio Maaarley.

SCROOGE: – Ora essa!

MARLEY: – Não acrediiita em miiim?

SCROOGE: – Não!

MARLEY: – Você duviiida dos seus sentiiidos?

SCROOGE: – É, é isso mesmo. Qualquer coisa afeta os sentidos. Um mal-estar do estômago, por exemplo. Você pode ser um pedaço de carne que eu não digeri bem, ou alguma batata mal cozida, ou algum molho com mostarda… É. Acho mesmo que existe mais molho em você do que molhos de chaves em sua corrente, seja lá você quem for (aparentando caçoar, mas com medo).

MARLEY (sacudindo as correntes): – Aaaahhhnnn!!!

SCROOGE (ajoelha-se de mãos postas): – Tenha pena de mim, terrível aparição! Por que veio me perturbar?

MARLEY: – Homem de alma terrena, acredita em mim ou não?

SCROOGE: – Sim, sim. Mas por que andam as almas pela terra e por que vêm a mim?

MARLEY: – É exigido de todo homem que ele se aproxime dos outros homens seus irmãos e ande no meio deles. Se não faz isso em vida, tem de fazê-lo depois da morte. É condenado a vagar pelo mundo – ó infeliz de mim – e ver aquilo que não partilhou, e que podia ter partilhado na terra, tornando-se feliz. Aaahhhnnn… (sacode as correntes)

SCROOGE (tremendo): – Por que você carrega essa corrente?

MARLEY: – Eu uso a corrente que forjei em vida. Eu mesmo a fiz, elo por elo, jarda por jarda. Seu modelo lhe parece estranho? Ou você sabe o peso e a medida da corrente que você mesmo carrega? Você tem trabalhado beeem nela. É uma corrente pesaaada!

(Scrooge olha em volta de si mesmo, procurando sua própria corrente.)

SCROOGE (aflito): – Oh, meu velho Marley, diga alguma coisa que me sirva de consolo!

MARLEY: – Scroooooge! O consolo vem de outras regiões, por outros mensageiros e para outros homens. Pouco tempo me resta, e não posso parar, nem descansar. Em vida, minha alma nunca ultrapassou os limites do nosso antro de negócios. E ainda tenho pela frente muitas jornadas.

SCROOGE: – Você deve ter andado bem devagar com isso, Marley.

MARLEY: – Beeem devagaaar…

SCROOGE: – Há sete anos e sempre vagando…

MARLEY: – Sempre vagando, preso, acorrentado, perseguido pelo remorso. Ai de mim! Ter ignorado que qualquer espírito cristão, agindo com bondade, acha até a vida curta para espalhar o bem! Por que, no Natal, por entre a multidão feliz, eu andava de olhos baixos, sem levantá-los em busca da abençoada estrela que levou os três reis magos até a manjedoura onde Jesus nasceu? Ouça-me. Meu tempo está terminando.

SCROOGE: – Fale, mas por favor não me aflija mais!

MARLEY: – Esta noite vim aqui avisá-lo de que ainda lhe resta uma esperança de escapar de um destino igual ao meu.

SCROOGE: – Ah, você sempre foi um bom amigo para mim, Marley.

MARLEY: – Três Espíritos virão visitá-lo, Scrooge.

SCROOGE (desapontado): – Oh… Essa é a esperança de que você me falava? Eu… eu preferia que não fosse.

MARLEY: – Sem eles você não pode escapar. Quando o relógio bater 1 hora, espere pelo primeiro.

SCROOGE: – Não podem vir todos de uma vez, para liquidar o assunto?

MARLEY: – Não. Adeus! Olhe bem para mim e lembre-se do que se passou entre nós.

(O fantasma de Marley se retira. Scrooge fica parado, espantado, mas em seguida se recupera. Tenta até duvidar mais uma vez, mas o medo o faz calar a boca.)

SCROOGE: – Ora, isso é bobag… (tampa a boca com a mão)

(Scrooge, já mais humilde, prepara-se para se deitar. Tira os sapatos, põe o roupão por cima da roupa, barrete ou gorro. Depois deita-se e dorme.)

 

FIM DO CAPÍTULO 1

 

(continua)

 

Havendo interesse em representar a peça, enviaremos o texto completo em PDF. A escola deve solicitar pelo email: institutoruthsalles@gmail.com
Favor informar no pedido o nome da instituição, endereço completo, dados para contato e nome do responsável pelo trabalho.