Dedalzinho

poema de Conrad Ferdinand Meyer traduzido e recriado por Ruth Salles

Desenho de lousa da professora Juliana Nogueira.

Quem souber me diga, onde
Dedalzinho mora?
Lá no vale, longe, longe,
onde um rio aflora.
Desde que era criancinha,
já trazia a corcundinha.
A seu passo balançado
nada se assemelha,
e seu queixo, ao estar sentado,
bate nos joelhos.

Trança o junco e tece os cestos.
Passa assim o dia.
Quando prontos, vai vendê-los
para a freguesia.
E ele fica bem contente,
mas só diz toda essa gente
que ele é bruxo e entende a fundo
de esquisitas ervas,
e que as almas do outro mundo
são as suas servas.

Nada disso é verdadeiro.
Tudo é mal contado.
Mas o povo, perto dele,
fica arrepiado.
Nem os velhos, nem os moços
querem ver seu desengonço.
Mas, assim como eu e tu,
sobe e desce o morro
nosso Dedalzinho azul,
balançando o gorro.

Certa vez, quando voltava
do trabalho duro,
bem em meio à caminhada
já estava escuro.
Ele ali quis descansar
sob o lume do luar.
Dedalzinho não tem medo,
o escuro esquece.
Não chegar em casa cedo
é que o aborrece.

E, de súbito, admirado,
vozes ele ouvia!
Vem de lá do verde prado
leve melodia.
“Voga a barca prateada…”
E depois não cantam nada.
Dedalzinho espia atento,
mas só percebeu
que a canção que voa ao vento
susto não lhe deu.

Novamente a cantiguinha
soa até ali,
mas a rima que teria
não se faz ouvir.
“Voga a barca prateada…”
E outra vez não cantam nada.
É dos elfos a cantiga.
Ela nunca muda?
Dedalzinho, decidido,
quer lhes dar ajuda.

As palavras vêm chegando,
e ele ouve atento.
Mal, porém, vão terminando,
dá-lhes seguimento.
“Voga a barca prateada…”
“… sem ter remos, ser ter nada!”
“Que alegria!” – estão gritando.
“Ele conseguiu!”
E um povinho, saltitando,
logo ali surgiu.

E os elfos, em ciranda,
chamam Dedalzinho:
“Tem coragem, anda, anda!
Canta teu versinho!”
“Voga a barca prateada
sem ter remos, sem ter nada…”
“Aprendei, meus cantorinhos
o que foi ouvido.
Oh, que verso bonitinho,
muito mais comprido!

Homenzinho, uma vez mais
deixa que te olhemos!
Pela frente e por detrás
te examinaremos.
Oh, estamos espantados!
Que é que tens em teu costado?
Triste carga tu carregas…
Isso nos intriga.
Num bom corpo é que se expressa
uma alma digna.

Pensamentos de alegria
tens na cabecinha,
mas não gosto quando oscilas
sob a corcundinha.
Esses membros, que se estiquem!
Que bem reto o corpo fique!
A corcunda, onde está ela?
Não se pode ver!
Viva a nova espinha reta!
Viva o novo ser!”

De repente a ronda alegre
volta ao verde prado,
mas de longe se percebe
o refrão rimado:
“Voga a barca prateada,
sem ter remos, sem ter nada.”
Bem cansado, Dedalzinho
sonha com seu lar,
mas escuta a cantiguinha,
põe-se a cochilar.

Toda a noite se passou,
e ele ali dormia.
Dorme até que o claro sol
no horizonte espia.
Pastam vacas e ovelhinhas
lá no prado dos elfinhos.
Dedalzinho levantou,
firme já se mostra,
e de leve a mão passou
pelas suas costas.

“Terá sido um sonho incerto,
ou estou curado?
E, se a cura vem dos elfos,
dura ao sol dourado?”
E apalpa, apalpa, apalpa,
mas a espinha é reta e alta!
“Sou um homem aprumado!” –
canta Dedalzinho.
Salta alegre pelo prado
como um veadinho.

De repente, para e toca
– treme sua mão –
“Ah, será que ela não volta?
Ah, não volta, não!
Louvo o dia em que, cantando,
fui com os elfos cirandando.”
Dedalzinho anda esbelto,
vai como quem voa,
desde a ronda com os elfos.
Que noitada boa!

 

 

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