Deméter e Perséfone

Mitologia grega

peça de Ruth Salles

A peça representada pelo 6° ano da Escola Municipal Araucária.

Este é um coro grego, com bastante movimentação e leveza, que escrevi em versos hexâmetros. Ele fala do mito de Deméter, a mãe-terra que cuida das plantas quando tem sua filha Perséfone a seu lado, mas que descuida delas quando Perséfone é raptada pelo deus Hades e se vê obrigada a passar metade do ano no reino das sombras. Assim a mitologia grega nos fala da mudança das estações. Os versos da primeira estrofe do poema “Eu cantarei a Terra”, atribuído a Homero, e outros do trecho de uma ode de Horácio são cantados.

Sugerida para crianças de 11 anos.
PERSONAGENS

Coro de ninfas – túnica azul claro.
Coro de plantas – túnica verde e um véu marrom leve.
Coro de deuses:
Zeus – túnica laranja.
Febo – túnica branca ou amarelo-ouro.
Íris – túnica de três cores.
Hermes – túnica amarelo-claro.
Hécate – túnica cinza.
Hades – túnica violeta.
Deméter – túnica verde-maçã ou branca e manto leve azul-marinho; grinalda de
de papoula e trigo.
Perséfone – túnica rosa; grinalda de florinhas do campo.
Servo de Hades.
(No caso de outros deuses tomarem parte no coro: Ártemis – violeta / Ares – vermelho / Afrodite – verde.)

OBSERVAÇÃO: Os desenhos foram feitos por Beatriz Cavalcante Stein, que representou a peça quando cursava o 5º ano na Escola Waldorf Rudolf Steiner,

DISPOSIÇÃO
(sugestões)

Ninfas                                                                     Coro de deuses
Febo
Plantas                                                                                              Hécate
Deméter e Perséfone                                           Hades
Reino de Hades

INTRODUÇÃO

TODOS (cantam os versos de Homero):
“Eu cantarei a terra,
mãe de todas as coisas,
ancestral do mundo.
Origem
de tudo que se arrasta sobre o solo,
nada no mar,
voa no ar.”

HADES  LEVA  PERSÉFONE

CORO DE NINFAS, PLANTAS e DEUSES:
– Salve Deméter, mãe-terra que cuida de todas as plantas;
mostra aos mortais como devem arar com cuidado seus campos,
e semear as sementes, colhendo depois todo o trigo,
e debulhar as espigas, guardando os grãos recolhidos,
e, dos grãozinhos moídos, juntar a farinha, fazendo o pão.

DEMÉTER (para Perséfone):
– Filha Perséfone muito querida, preciso sair.
Devo cuidar das searas, fazer toda planta surgir.
Tenho a meu cargo o centeio, o trigo, o milho, a cevada
e, em geral, todo grão que tem sido na terra plantado.

PERSÉFONE:
– Mãe, poderiam as ninfas do mar me fazer companhia?

DEMÉTER:
– Sim, mas não vá para longe, nem saia nos campos sozinha!
Longe das mães, as meninas se perdem nas matas sombrias.

PERSÉFONE:
– Ó mãe Deméter, serei bem prudente.

DEMÉTER:                – Adeus, minha filha!   (afasta-se)

CORO DE DEUSES (narrando, com movimento de ninfas e de Perséfone):
– Surgem as ninfas no alto das ondas. Perséfone chama-as.
Trazem a ela, das águas, colar de belíssimas conchas.
Plantas se agitam ao vento. Perséfone ouve seu nome.

CORO DE PLANTAS:
– Venha, Perséfone! Venha colher nossas flores tão lindas.
Faça grinaldas com elas e dê de presente às amigas.

PERSÉFONE (às ninfas):
– Vamos ao campo comigo?

CORO DE NINFAS: – Oh, não! Para nós é um perigo!
Nós poderíamos logo secar desmaiadas e pálidas.

CORO DE DEUSES (narrando, enquanto Perséfone se movimenta):
– Busca Perséfone as flores, sozinha no campo florido.
Colhe violetas, jacintos e vai-se afastando das ninfas.
Súbito enxerga mais longe uma flor que jamais tinha visto.
É a mais bela de todas, e como na luz ela brilha!

CORO DE NINFAS (avisando Perséfone):
– São venenosas as folhas, talvez. É melhor ter cuidado!

PERSÉFONE:
– Sim. Sem tocá-las, por suas raízes eu vou arrancá-la.

CORO DE NINFAS (assustadas):
– Oh, as raízes são fundas… A terra começa a mexer-se…
Ouve-se um surdo rumor… Ó Perséfone, deixe essa flor!   (Hades sai do coro.)

PERSÉFONE (tira a planta e vê Hades surgir com seu servo e puxá-la pela mão):
– Pronto! Arranquei-a.  – Oh, não! Para onde me leva o senhor?

HADES:
– Venha comigo. Sou Hades, o rei lá do fundo da terra.
Vou coroá-la rainha de todas as minhas riquezas.
Tenho palácio de ouro, e são de cristal as janelas,
e diamantes cintilam, clareiam o reino das sombras.

PERSÉFONE (tenta escapar, não consegue e é levada por Hades):
– Não! Eu prefiro voltar e rever minha mãe e meu lar.
– Ó mãe Deméter! Venha buscar-me!

DEMÉTER:                   – Eu escuto um chamado!…

DEMÉTER PROCURA PERSÉFONE

CORO DE PLANTAS (narrando, enquanto Deméter se movimenta):
– Corre Deméter, procura Perséfone em todos os lados.

DEMÉTER:
– Oh, onde está minha filha? Respondam-me, ninfas do mar!

CORO DE NINFAS (apontando para longe):
– Foi procurar lindas flores, e nós não a vimos voltar.

DEMÉTER (voltando-se para o lado do público, de cá para lá):
– Digam-me, náiades, sátiros, faunos! – Respondam, mortais!
Onde está ela? Não sabem? – Nem mesmo o deus Pã saberá?

CORO DE NINFAS (narrando, enquanto Deméter vai ao encontro de Hécate, que sai do coro; as plantas caem):
– Deixa Deméter os campos, e as plantas ressecam e caem.
Vai ao encontro de Hécate, triste mulher tão soturna…
Ela só ouve lamentos, suspiros, gemidos do mundo.

HÉCATE:
– Venha chorar junto a mim…

DEMÉTER (para ali, triste, mas logo se reanima):
– Mas devemos buscar minha filha!
Febo, o deus lá do sol, ele avista de cima o que quer.

HÉCATE:
– Não, os meus olhos só sabem chorar e não vão aguentar
todo esse brilho de Febo. Não ouça seus cantos alegres!
Fique chorando comigo!…

DEMÉTER (afasta-se de Hécate, que volta ao coro):
– Vou procurar minha filha!
(indo até Febo, que já saiu do coro):
– Diga-me, Febo, onde foi, onde está minha filha Perséfone?

FEBO:
– Hades levou-a. Está no esplendor do seu reino de sombras.
Zeus deu Perséfone a Hades. Será sua esposa e rainha.

DEMÉTER e NINFAS:
– Oh-oh-oh-oh!……………

DEMÉTER (a Febo):
– Venha comigo buscá-la!

FEBO: – Não posso. Ainda não posso,
com este feixe de raios de sol, ir ao fundo da terra. (ele volta ao coro)

DEMÉTER:
– Ah, se foi Zeus quem deixou que assim me roubassem Perséfone,
nada consigo, e não a terei novamente comigo.
Eu ficarei entre os homens. Jamais voltarei ao Olimpo;
nem cuidarei mais dos campos, nem destes jardins ressequidos.

OS DEUSES DELIBERAM

CORO DE DEUSES (menos Zeus):
– Duro é o destino da terra. Parece uma areia deserta.
Vemos o gado faminto e os homens em triste miséria.
– Zeus, que fazer nesta hora? Devemos chamar por Deméter!

ZEUS (a Íris):
– Íris, ó deusa dos ares, que desce dos deuses aos homens,
vá convencê-la a voltar para nós e a vencer esta fome.

CORO DE NINFAS (narrando, enquanto a cena se passa):
– Íris encontra Deméter, transmite o pedido de Zeus.
Faz tentativas inúteis. Deméter só quer sua filha.

DEMÉTER:
– Só cuidarei deste chão com Perséfone aqui do meu lado.

ÍRIS (voltando aos deuses):
– Só voltará todo o verde, ó Zeus, se Perséfone volta!

CORO DE DEUSES (menos Zeus):
– Oh, que fazer? Que desgraça se as plantas não nascem, ó Zeus!

ZEUS (a Hermes):
– Hermes, fiel mensageiro! Vá, Hermes, ao reino das sombras!
Fale com Hades, convença-o a liberar sua esposa!

(Enquanto Hermes vai até Hades e fala com ele, os coros e Deméter cantam o trecho da ode de Horácio.)

CORO DE DEUSES e NINFAS; DEMÉTER:
“Ó Hermes, eloquente neto de Atlas,
quero cantar-te
como mensageiro do grande Zeus,
do grande Zeus e dos deuses!”

PERSÉFONE E AS SEMENTES DE ROMÃ

PERSÉFONE (vaga pelo reino de Hades e olha tudo em volta; Hermes espera):
– Nem toda a luz destas pedras compara-se aos raios do sol.
Ah, minhas flores são muito mais belas que todo este ouro.

CORO DE NINFAS E DEUSES (narrando, enquanto a cena se passa):
– Hades consente na volta da esposa, mas trama um ardil:
traz para ela a fruta da planta que mais resistiu.

PERSÉFONE:
– Uma romã! Sinto fome…

CORO DE NINFAS (assustadas): – Não sabe o perigo que corre!
Oh, já mordeu seis sementes!

HADES (a Perséfone): –  Você está livre, Perséfone!
Hermes irá conduzi-la, a fim de que a fome termine.

(Hermes leva Perséfone até os deuses.)

A VOLTA DE PERSÉFONE

DEMÉTER (vendo as plantas se agitando ao vento):
– Oh, que é isto? O campo já não me obedece? Está verde
antes que volte Perséfone?

PERSÉFONE (aparecendo): – Mãe, aqui estou! Estou bem! (abraçam-se)

DEMÉTER:
– Ah!… Minha filha!… Mas, diga: o rei Hades chegou a lhe dar
algum alimento?

PERSÉFONE: – Provei seis sementes de linda romã…

CORO DE DEUSES:
– Ora, Deméter bem sabe que cada semente daquelas
prende Perséfone um mês cada ano no fundo da terra.

DEMÉTER:
– Ah, minha filha… seis meses rainha de Hades…

PERSÉFONE:
– Mãe, mas os outros seis meses aqui estarei do seu lado.

CORO DE PLANTAS (enquanto a cena se passa):
– Voltam as duas aos deuses, que logo as recebem tão bem…
Todos os campos já mostram o verde das plantas que crescem.
Abrem-se as flores, os frutos se soltam, acaba-se a fome.

CORO DE DEUSES (enquanto a cena se passa):
– Ah, mas depois de seis meses, Perséfone volta a seu reino.
Pobre Deméter, tão triste, de novo se esquece das plantas.    (as plantas caem)
Folhas ressecam e caem… As flores não mais desabrocham…

(As plantas vão-se erguendo de novo.)

CORO DE NINFAS e DEUSES (enquanto a cena se passa):
– Quando Perséfone volta, Deméter se alegra de novo.
Todas as plantas já crescem nos campos. Retornam as flores.

(Se quiserem, a peça pode terminar com todos cantando de novo os versos de Homero, do início.)

***