Dom Gaifeiros

peça de Ruth Salles

Esta peça se baseia em antiquíssima xácara, nome que se dava a uma narrativa popular feita em versos. Essa xácara, de tradição oral, colhida e transcrita por Almeida Garrett¹, poeta português do século XIX, é um romancinho considerado precioso, do tempo do domínio mouro na península ibérica, com personagens da corte do Imperador Carlos Magno (século IX). O nome “Gaifeiros” talvez seja, por isso, um aportuguesamento do francês “Geoffroy”. No livro de Cervantes (século XVI)², Dom Quixote de La Mancha, essa xácara já aparece representada num teatrinho de fantoches. Como nas histórias maravilhosas, a esposa de Gaifeiros fica sete anos cativa dos mouros e só no oitavo ano pode ser salva. E também, quando Gaifeiros foge com a esposa na garupa do cavalo, este só consegue saltar a muralha da cidade mourisca na oitava volta, ou seja, depois de dar sete voltas. Gaifeiros salva a esposa porque luta com a espada encantada do famoso cavaleiro Rolando. Conservei o mais possível a linguagem e o ritmo de Almeida Garrett, assim como o tratamento em tu e vós.

PERSONAGENS:
Coro
Velho diretor da peça
Garoto narrador
Dom Gaifeiros, genro de Carlos Magno e cavaleiro de sua corte
Rolando, seu tio, famoso cavaleiro, um dos doze pares de França
Oliveiros, amigo de ambos e um dos doze pares também
Durandarte, outro dos doze pares
Dom Beltrão, velho cavaleiro
Dom Guarino, almirante, outro dos doze pares
Imperador Carlos Magno
Melisendra, sua filha, e esposa de Dom Gaifeiros
As damas dos pares de França.
Cativo cristão entre os mouros
Cativas cristãs entre os mouros
Rei mouro Almançor e outros mouros e mouras.

OBSERVAÇÃO:
A cena introdutória, do diálogo entre o garoto narrador e o diretor da peça, foi baseada no início da representação no teatrinho de fantoches do “Dom Quixote”, mas pode ser dispensada. Naturalmente, é bom que as crianças saibam que os chamados “doze pares” eram os cavaleiros mais notáveis do
reino e diretamente ligados a Carlos Magno; que o jogo das tábulas era uma espécie de gamão jogado em tabuleiros; e que o nome de “mouro” era dado aos habitantes da península ibérica que descendiam dos árabes. Se a cena introdutória for excluída, também é bom explicar que “Sansonha” era o antigo nome da cidade de Saragoça, na Espanha. Como originalmente são muitas as partes cantadas, fica à vontade do professor diminuir o número delas. Seria bom que fossem cantadas, pelo menos, a cantiga d’amigo, de Dom Dinis (por Melisendra e Gaifeiros ajudados pelo coro) e a canção final, que é uma adaptação, feita por Pedro Paulo Salles e com letra dele mesmo, de uma canção trovadoresca espanhola. A letra se refere ao sol (como símbolo dos cristãos), à lua (o crescente lunar dos mouros) e a Trás-os-Montes, região de Portugal onde esta xácara era mais popular, segundo Almeida Garrett.

 

GAROTO NARRADOR (todo solene):
– Esta história real, que aqui a Vossas Mercês se representa,
é tirada ao pé da letra das crônicas que andam na boca das gentes por estas ruas.
Ela trata da liberdade que o senhor Dom Gaifeiros deu a sua esposa Melisendra,
que estava cativa na Espanha, em poder dos mouros, na cidade de Sansonha,
que hoje se chama Saragoça.

VELHO DIRETOR (de bengala na mão):
– Menino, menino! Segue com tua história
em linha reta e não te metas por transversais
e curvas!

GAROTO NARRADOR (sem dar muita atenção ao velho):
– Vejam Vossas Mercês Dom Gaifeiros jogando as tábulas!
E aquele personagem que ali aparece é o Imperador Carlos Magno,
pai de Melisendra, e que, amofinado por ver o descuido de seu genro,
começa a zangar com ele.

VELHO DIRETOR (já zangado):
– Ora, rapaz, deixa-te de contrapontos e vamos logo ao cantochão!

GAROTO NARRADOR (afobado):
– Sim… sim… E ali está Dom Rolando, dono de Durindana, a espada mágica.
Ele é tio de Dom Gaifeiros e…

VELHO DIRETOR (corre atrás do garoto, ameaçando-o com a bengala):
– Ora, chega, chega, menino impossível! Passa já daqui!… (saem os dois)

CORO (canta, enquanto a cena se passa na frente):
“Eis sentado Dom Gaifeiros,
no palácio a descansar.
Bem defronte ao tabuleiro,
já os dados vai lançar.
Mas seu sogro e Dom Rolando,
cavaleiros sem igual,
vendo o moço ali jogando,
já se põem a zangar:
– Oh, não, não, senhor!”

CARLOS MAGNO:
– Dom Gaifeiros, Dom Gaifeiros!
Só para isso é que serves? Para ficar a jogar?
Contra os mouros não te atreves
a ir então batalhar?
Tua esposa lá, cativa, nem pensas em ir salvar?
Fosse outro seu marido, já a tinha ido buscar!

GAIFEIROS:
– Oh, Majestade, oh, meu sogro,
por que me vindes ralhar?

ROLANDO:
– Sete anos se passaram,
sabes muito bem contar.
E Melisendra, cativa,
passa os dias a chorar.

GAIFEIROS (levanta-se, ofendido; entram Oliveiros e Beltrão):
– Não digas isso, meu tio,
que me estás a insultar.
Por sete anos busquei-a,
sem conseguir encontrar.
Não é verdade, Oliveiros?
Não o podes confirmar?

OLIVEIROS:
– Sim! Quatro anos por terra
e três por águas do mar.
Andou por montes e vales,
sem dormir, sem descansar.

GAIFEIROS:
– E que dizes, Dom Beltrão?

BELTRÃO (a Rolando):
– É em Sansonha que ela está.
E ele sem arma ou cavalo,
porque os teve que emprestar.

GAIFEIROS (a Rolando):
– Favor te peço, meu tio:
que me possas emprestar
tuas armas e um cavalo.

ROLANDO (admirado):
– Só agora a vais buscar?
Depois destes sete anos
que ela passou a chorar?
Em São João de Latrão, fiz juramento no altar
de nunca emprestar as armas
para quem se acovardar!

(Rolando e Gaifeiros se atracam e lutam, porque Gaifeiros se ofende.)

OLIVEIROS (chamando outros):
– Durandarte! Dom Guarino!

BELTRÃO (chamando também):
– Vinde todos ajudar! (entram os dois)

Pois Gaifeiros e Rolando estão aqui a lutar!
(Os dois são apartados pelos quatro.)

ROLANDO (a Gaifeiros):
– Não te ofendas, meu sobrinho!
Pára, pára de brigar!
Aquele que te quer bem é que precisou falar.
Porque sei que és bem valente
é que te vim provocar.
Minhas armas, meu cavalo,
eu já posso te emprestar.

GAIFEIROS:
– Pois entrega-me depressa,
que já me ponho a marchar.

ROLANDO (puxa da espada, olha-a e diz um trecho da “Canção de Rolando”):
– Minha bela Durindana,
tão clara ao sol a brilhar,
há em teu punho relíquias
que te vêm santificar.
Um anjo, com esta espada,
quis ao rei presentear,
e o rei me cingiu com ela
para as terras conquistar.
(De repente, brinca de lutar com Oliveiros, depois a entrega a Gaifeiros):
– Espada com tal magia
na luta te há de ajudar!

CORO (canta com a mesma música anterior, enquanto a cena se passa):
“Dom Gaifeiros se aprontando
já se põe a cavalgar.
Estas terras são cristãs,
em terras mouras vai chegar.
Chega à porta de Sansonha,
mas como é que vai entrar?
De repente vê a porta
se abrir de par em par.
Bom Deus, vai passar!”
(O rei mouro Almançor vem saindo da cidade com outros mouros.)

ALMANÇOR (canta, ajudado pelo coro):
“Sou o rei, o rei dos mouros.
Sábio é Alá, que me deu tantos tesouros.
Tenho a mais bela prenda viva:
a jovem Melisendra é minha cativa.
Mesmo após sete anos inteiros,
vive a chorar por um nobre cavaleiro,
hum, hum, hum, hum, hum,
vive a chorar pelo infante Dom Gaifeiros.”

(Eles saem. Gaifeiros, escondido, espera a oportunidade de entrar na cidade.)

CORO (fala, enquanto a cena se passa):
– É o rei, com seus cavaleiros,
que saiu a passear.
Furtivamente, Gaifeiros
pé ante pé pôde entrar.
Encontra um cristão cativo
num jardim a trabalhar.

GAIFEIROS (ao cativo):
– Cativo, por Deus te peço
– e Ele te venha salvar! –
que digas se um dia ouviste
nesta terra alguém falar
de uma dama cristã
que os mouros foram roubar.

CATIVO:
– Cavaleiro, Deus te salve
– e Ele te venha ajudar! –
A dama que andas buscando
no palácio deve estar.
Toma essa rua direita, que ao palácio vai levar,
e verás numa janela quem estás a procurar,
olhando as outras cativas
pelo jardim a dançar.

CORO (fala, enquanto a cena se passa):
– Rua abaixo, rua acima, Gaifeiros a caminhar.
Vê a esposa na janela e as cativas a bailar.

(As cativas param de dançar ao verem Gaifeiros.)

CATIVA 1:
– Um cavaleiro cristão
sem medo de aqui entrar!

CATIVA 2:
– Quem será esse valente?
Vamos já nos afastar! (Saem)

MELISENDRA (canta ajudada pelo coro):
“Ai flores, ai flores do verde pinho,
que novas trazeis do meu amigo?
Ai, Deus, onde está?
Ai flores, ai flores do verde prado,
que novas do meu amado?
Ai, Deus, onde está?
Que novas trazeis do meu amigo,
o que mentiu ao jurar comigo?
Ai, Deus, onde está?
Que novas trazeis do meu amado,
o que mentiu ao me haver jurado?
Ai, Deus, onde está?”

GAIFEIROS (canta em resposta, embuçado em sua capa e ajudado pelo coro):
“Se tu me perguntas por teu amigo,
eu digo que ele é são e vivo.”
(Vozes femininas): “Ai, Deus, onde está?”
“Se tu me perguntas por teu amado,
eu digo: é são e salvo.”
(Vozes femininas): “Ai, Deus, onde está?”
“Eu digo que ele é são e vivo,
no justo prazo será contigo.”
(Vozes femininas): “Ai, Deus, onde está?”
“Eu digo que ele é são e salvo,
será contigo no justo prazo.”
(Vozes femininas): “Ai, Deus, onde está?”

MELISENDRA (fala consigo mesma, observando o embuçado):
– Deve ser algum cristão, se está a se disfarçar.
Pelo andar, é cavaleiro. Ele me faz recordar
os Doze Pares de França,
daquela terra sem par,
e meu marido Gaifeiros,
que não me vem libertar. (Chama por ele):
– Cavaleiro, se és cristão,
meu recado vais levar:
que digas a Dom Gaifeiros
por que não me vem buscar.
Se não é medo de mouros,
de com eles pelejar,
então são outros amores
que o fizeram lá ficar…
enquanto eu, presa e cativa,
a vida levo a chorar.
E se ele este recado não quiser nem aceitar,
podes dá-lo a Oliveiros,
a Dom Beltrão podes dar.
Que meu pai, o Imperador,
logo me mande buscar,
pois me querem fazer moura
e de Cristo renegar.
Com um rei mouro me casam,
de além das bandas do mar!

GAIFEIROS (tirando a capa):
– Esse recado, senhora,
tu mesma haverás de dar.
Pois aqui tens Dom Gaifeiros,
que te veio libertar.

(Tira-a da janela, dá-lhe a mão, e os dois correm.)

MOURO (que vem chegando, grita):
– Acudam a Melisendra,
que um cristão a vem roubar!

GAIFEIROS (na fuga):
– Melisendra, minha esposa,
como havemos de escapar?

MELISENDRA:
– Com Deus e a Virgem Maria,
que nos hão de acompanhar.

GAIFEIROS:
– Melisendra, Melisendra, agora é o esforçar!

(Eles saem.)

CORO (canta):
“Sua esposa na garupa, ele ali a faz montar.
Mas as portas da cidade
vão os mouros já fechar.
Sete vezes deu a volta da muralha
sem poder passar.
Na oitava, porém, já quase a voar,
o nobre cavalo pôde saltar.”

GAIFEIROS (aparecendo de novo em cena com Melisendra):
– Não te assustes, Melisendra,
fica aqui a me esperar.
Ali vem vindo o rei mouro,
que preciso afugentar.

DAMA MOURA (exclama, surgindo atrás de Almançor):
– Que Alá misericordioso
te guie em teu pelejar!

ALMANÇOR (enquanto luta com Gaifeiros):
– Renego de ti, cristão, e mais do teu pelejar!
Não há outro cavaleiro
que a ti se possa igualar.
Serás tu Urgel de Nantes, ou Oliveiros serás?
Ou o infante Dom Guarino,
que é almirante do mar?
Não há nenhum, entre os Doze,
que tão bem saiba lutar!
Só se fosse Dom Rolando,
o encantado sem par!

GAIFEIROS (enquanto luta com Almançor):
– Pois eu não sou nenhum deles,
e me quero nomear:
sou o infante Dom Gaifeiros
aqui contigo a lutar.
Sou sobrinho de Rolando
e de Paris vim buscar
minha esposa Melisendra,
que me foste lá roubar.

ALMANÇOR:
– Pois tu és senhor do campo,
não há como se negar.
Vou voltar para Sansonha.
A dama podes levar. (Sai com a moura)

MELISENDRA:
– Ai, se estás ferido, esposo,
eu mesma te vou tratar…

GAIFEIROS:
– Nada disso, minha infanta.
Já podemos regressar,
pois toda a corte de França
já deve estar a esperar. (Saem.)

CORO (canta, enquanto eles estão fora de cena):
“Todos dois vêm cavalgando,
sem parar de cavalgar,
a falar de seus amores,
sem mais nada que pensar.
E em terras de cristãos finalmente irão entrar.
Faltam só sete léguas para chegar.
A corte do rei os vem esperar.”

(Os dois entram por um lado, e a corte do rei pelo outro.)

CORO (fala):
– O Imperador Carlos Magno
a filha vai abraçar.
Palavras que lhe dizia as pedras fazem chorar.

CARLOS MAGNO (depois de abraçar a filha, canta junto com o coro):
“Ó filha, meu bem maior,
enfim foram te salvar!
Com teu longo cativeiro, eu só vivia a rezar,
tendo a alma em desespero,
o coração a sangrar.
Teu marido foi valente
indo aos mouros enfrentar.
Deus abençoe Gaifeiros,
que te soube resgatar.”

CORO (fala, enquanto a corte do rei se organiza para o canto final):
– Vinde ver a fidalguia, clerezia e secular,
os Doze Pares de França,
com as damas a se ajuntar.
Rolando e a bela Alda
convidam todos a entrar,
e em torno da mesa farta
a honra vão celebrar
do valente Dom Gaifeiros,
que a dama soube salvar.
Tantas festas se fizeram
que nem se podem contar.

TODOS (cantam):
“Trás os montes, o romance
já é tempo de acabar,
pois, da luta, sol e lua
acabaram de chegar.
Brilha o sol resplandecente,
no espírito a morar.
Lua moura em nossa mente
um reflexo vai deixar.”

*1: GARRETT, João Baptista da Silva Leitão de Almeida. Cancioneiros de Romances, Xácaras e Soláus: e outros vestígios da antiga poesia nacional. Lisboa, 1987.
*2: CERVANTES, Miguel de. Dom Quixote de La Mancha. Porto: Porto Artes Gráficas, 1930.

 

 

 

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