Guilherme Tell

peça de Friedrich Von Schiller

adaptação de Ruth Salles

NOTA

Friedrich von Schiller, escritor, poeta trágico e historiador alemão do século XVIII, foi o autor de várias peças de teatro notáveis, como “A Donzela de Orleans”, “Maria Stuart” e outras. Amigo e admirador de Goethe, Schiller foi um dos maiores escritores românticos da Alemanha. “Guilherme Tell”, escrita em 1804, conta a história do grande herói suíço, e foi considerada por muitos como a melhor obra dramática de Schiller.

Esta peça foi adaptada a partir do original alemão em versos e da tradução em prosa de Sílvio Meira para o português. Por ser excessivamente longa, condensei-a um pouco. A canção existente no meio na cena 1 do terceiro ato é original da peça, e o nome do autor na melodia não consta do texto. A canção do início da peça, não foi encontrada, por isso tive de compor outra, o mais possível à maneira suíça.

Ruth Salles

 

PERSONAGENS

Hermann Gessler, alcáide imperial dos cantões de Schwiz e Uri
Rodolfo, seu escudeiro
Barão de Attinghausen;
Rudenz, seu sobrinho;
Berta, uma rica herdeira

Camponeses de Schwiz:
Werner
Gertrudes, sua esposa
Conrado
Itel
Hans
Jorge
Hugo
Jost

Camponeses de Uri:
Guilherme Tell
Hedwig, sua esposa
Walter e
Willi, seus filhos
Fúlvio, velho, pai de Hedwig
Rössel, o pároco
Peter, o sacristão
Kuoni, o pastor
Valdo, o caçador
Ruodi, o pescador
Jenni, menino pescador, filho de Ruodi
Seppi, menino pastor

Camponeses de Unterwalden:
Arnoldo
Baumann
Meier
Truda
Klaus
Bernardo
Sérvio

Curt

Camponesas:
Hermengarda
Matilda
Elisa
Hilda

Fritz e Lepoldo, dois mercenários
João, o Parricida, duque da Suábia
Túlio, guarda das searas
Feitor
Mestre pedreiro
Operários
Arauto
Irmãos de caridade
Três cavalarianos de Gessler e de Landenberg, e um servo de Gessler
Outros camponeses e camponesas dos cantões, 3 crianças.
Servos do barão de Attinghausen

 

 

PRIMEIRO ATO

Cena 1

Em frente a Schwiz, na margem rochosa do lago dos quatro cantões.
Jenni, Seppi, Kuoni, Ruodi, Valdo; Baumann; Tell; os cavalarianos.

O lago forma ali uma enseada. Há uma cabana perto da margem, um jovem pescador passa com seu barco. Além do lago, vêem-se campinas verdes e as casas de Schwiz ao sol. À esquerda, os cumes do monte Haken envoltos por nuvens; à direita, ao longe, montanhas cobertas de neve. Ouvem-se os sons dos chocalhos do rebanho e os cantos do menino pescador, do pastor e do caçador.

JENNI, o menino pescador (canta em seu barco, com coro de ajuda):
“O lago sorri, convida ao descanso,
e o jovem dormiu no verde remanso.
Úli úliri, úli úliri, úli úli úli uliri…

KUONI, o pastor (com a vasilha de leite ao ombro, canta uma variante):
“Termina o calor. Adeus, belo prado
pelo sol inundado, é o adeus do pastor.
Dos montes cheguei, só volto porém
quando as flores brotam e as fontes também.”

VALDO, o caçador dos Alpes (canta outra variante no alto de um rochedo):
“Trovões lá nos cumes, na ponte um tremor,
mas nada perturba o audaz caçador.
Úli úliri, úli úliri, úli úli úli uliri…

(Ouve-se um ruído surdo na montanha, nuvens sombreiam a região. Valdo, o caçador, desce do rochedo; Kuoni o pastor se aproxima com a vasilha de leite ao ombro. Jenni, o menino pescador, atraca o barco.)

RUODI, o pescador (saindo da cabana):
– Anda, Jenni, recolhe logo esse barco! O céu está cor de chumbo! O vendaval já vem vindo!

KUONI, o pastor (descendo a vasilha no chão):
– Minhas ovelhas estão pastando qualquer grama. Isso é sinal de chuva! (grita para seu ajudante Seppi) – Seppi, cuidado para as vacas não se perderem! (para os amigos): – Nos Alpes não há mais pasto. Estou voltando para casa.

VALDO, o caçador:
– Tens um belo gado, Kuoni. Ele é teu?

KUONI, o pastor:
– Não, Valdo, que esperança! Não sou tão rico assim. Ele pertence ao barão de Attinghausen, aliás um bom patrão.

RUODI, o pescador (ouve-se o som do chocalho):
– Estou ouvindo o som do chocalho.

KUONI, o pastor:
– É da Castanha, ela conduz o gado, Ruodi. Se lhe tiro o chocalho, ela não pasta.

RUODI, o pescador:
– Impossível. Um animal não pensa.

VALDO, o caçador:
– Pois eu te digo que, quando vou caçar camurças, já percebi que enquanto umas pastam outra fica de guarda, e assobia fino quando eu chego perto.

RUODI, o pescador: – Quem vem ali correndo?

VALDO, o caçador: – É Baumann, de Alzell. Eu o conheço.

BAUMANN (chega quase sem fôlego):
– Por Deus, barqueiro, desatraca o barco!

RUODI, o pescador: – Ora, por que essa pressa?

BAUMANN:
– Teu barco, solta-o! Salva-me da morte!
Cruza o lago! Leva-me à outra margem!

KUONI, o pastor: – Alguém te persegue?

BAUMANN:
– Os cavalarianos me perseguem.
E se me alcançam sou um homem morto.

VALDO, o caçador: – Estás sujo de sangue. Que foi que houve?

BAUMANN:
– Foi o alcaide do forte de Rossberg.

KUONI, o pastor (assustado): – Aquele?! Foi ele que te mandou perseguir?

BAUMANN:
– Não incomoda mais. Já o matei.

TODOS (recuando): – Valha-nos Deus! Que foi que fizeste?

BAUMANN:
– Fui obrigado a defender meu lar.
Eu estava no bosque a cortar lenha,
quando minha mulher apareceu
correndo muito e morta de pavor.
Pois o alcaide passou em nossa casa,
pedindo que lhe preparasse um banho,
e exigiu dela algo que não devia.
E eu fui, armado com o meu machado,
dar ao alcaide o banho desejado.
Ó Deus! Nós conversando, e o tempo voa! (começa a trovejar)

KUONI, o pastor: – Vamos, barqueiro, embarca esse homem depressa!

RUODI, o pescador: – Impossível! Vem vindo uma tormenta. Temos de esperar.

BAUMANN:
– Santo Deus! O menor atraso é a morte!

RUODI, o pescador: – A morte nos espera também no lago. As ondas sobem. Impossível ir.

BAUMANN (de joelhos):
– Ah, barqueiro, eu imploro teu socorro!

KUONI, o pastor: – Vem vindo alguém!

VALDO, o caçador: – É Guilherme Tell, de Bürglein.

TELL (entrando, com sua besta):
– Quem é esse que implora de joelhos?

KUONI: – É Baumann, de Alzell; para defender sua honra, matou o alcaide de Rossberg. Agora os cavalarianos o perseguem.

RUODI: – Ele quer que eu o atravesse, mas com a tempestade que vem… Tu que manejas bem o barco e conheces este lago, achas que ele nos poupa?

TELL:
– O lago poupa, mas o alcaide, não!
Eu vou tentar, barqueiro. Dá-me o barco!

KUONI: – É valente, esse Tell!

BAUMANN:
– Meu salvador! Meu anjo protetor! (Baumann entra no barco)

TELL: – Eu te protejo dos perseguidores,
mas contra a tempestade… o protetor
tem de ser outro. Enfim, é bem melhor
cair nas mãos de Deus que nas dos homens.
(ao pastor Kuoni): – Kuoni, vai confortar minha mulher,
se algo me acontecer. (Tell entra no barco e se põe a remar)

RUODI: – Deus não permita! Além do mais, és mestre em pilotar!

KUONI: – Nesta montanha não há dois como o Tell. (todos acenam dando adeus)

VALDO (subindo a um rochedo): – Já partiu. (grita para Tell): – Deus te ajude, Tell!
(para os outros): – Como o barco balança nas águas! As ondas sobem!

SEPPI (exclama, avisando): – Os cavalarianos vêm chegando!

KUONI (vendo chegar o destacamento de cavalarianos): – Santo Deus!

1º CHEFE CAVALARIANO: – Entregai o assassino! Sabemos que veio por aqui!

2º CHEFE CAVALARIANO (avista o barco): – Lá vai ele! Já nos escapou!

1º CHEFE CAVALARIANO (a Ruodi, Kuoni e Valdo): – E vós o ajudastes! Pagareis caro! (aos outros cavalarianos): – Destruí as casas! Incendiai! Matai seus rebanhos! (sai com seus homens)

SEPPI (precipitando-se atrás deles): – Meus cordeirinhos!

KUONI (seguindo-o): – Ai, o meu rebanho!

VALDO: – Esses tiranos!

RUODI (torcendo as mãos): – Deus, quando há de vir um salvador para esta terra?

 

 

Cena 2

Em Schwiz, diante da casa de Werner, à beira da estrada, perto da ponte.
Werner, Gertrudes; Tell, Baumann.

Werner está sentado num banco, sob uma tília. Gertrudes sua mulher aparece e senta-se a seu lado.

GERTRUDES:
– Estás tão sério… Nem te reconheço.
A tristeza faz rugas em teu rosto.
Pesa em teu coração algum tormento.
Fala comigo! Sou a tua esposa.
Não estás contente com a nossa casa?
É tão bonita, e é bem construída…

WERNER:
– Mas, Gertrudes, a base já vacila.

GERTRUDES:
– Meu Werner, que tens tu no pensamento?

WERNER:
– Dias atrás, eu estava aqui sentado,
quando vi que chegava o alcaide Gessler
com cavalarianos bem armados.
Parou em frente à casa e perguntou:
“De quem é esta casa?” Eu levantei-me
e respondi: “Pertence ao Imperador,
e é meu feudo.” E ele me disse então:
“Não quero camponeses tendo casas,
como donos de terra. Vou tratar
de impedir tudo isso.” Assim falando,
partiu com expressão feroz no olhar,
e eu fiquei cismando, atormentado
com tudo o que me disse esse malvado.

GERTRUDES:
– Este alcaide te odeia só porque
és leal ao Império, e assim impedes
que Schwyz se submeta a novo Príncipe.

WERNER:
– Esse Gessler me odeia. Tens razão.

GERTRUDES:
– Vais esperar que esse homem te derrote?
O inteligente toma a dianteira!

WERNER:
– Mas, que fazer?

GERTRUDES: – Escuta o que te digo.
Pelos quatro cantões, todos se queixam.
Ninguém agüenta mais tanta opressão.
Não se passa semana sem que um barco
venha trazer notícia de desgraça
que os alcaides violentos provocaram.
Por isso é bom que, de locais diversos,
se reúna um Conselho que liberte
a todos da opressão. Não tens em Uri
alguém a quem abrir teu coração?

WERNER:
– Conheço lá alguns homens valentes…
Mulher, tens pensamentos perigosos!

GERTRUDES:
– Vós homens manejais bem o machado…

WERNER:
– Mas a guerra, Gertrudes, traz horrores.
Destrói rebanhos junto com pastores.
E esta casa, que te agrada tanto,
pode ser incendiada e destruída.

GERTRUDES:
– Eu não me apego a coisas transitórias.
O que o céu enviar aceitaremos.

WERNER (abraça-a):
– Ah, quem aperta um coração como este
defende o lar e vai lutar contente!
Vou partir hoje mesmo para Uri.
O Fúlvio mora lá e é meu amigo,
e pensa o mesmo sobre o que se passa.
E o nobre senhor de Attinghausen
– que embora nobre tem amor ao povo –
está lá. Com os dois terei Conselho
para estudar como nos defendermos
dos inimigos desta boa terra.
Adeus, Gertrudes! Cuida desta casa.
Ao peregrino e ao monge que passarem,
dá um bom tratamento e boa esmola.
Que meu lar seja sempre um teto amigo
ao viajante que passar na estrada.

(Enquanto eles se encaminham para a casa, Tell e Baumann entram pela frente.)

TELL (a Baumann):
– Agora não precisas mais de mim.
Vamos àquela casa onde reside
o bom Werner, um pai dos oprimidos.
Olha, lá está ele. Vem comigo! (vão em direção a Werner)

 

 

Cena 3

Praça pública em Altdorf.
Feitor, mestre pedreiro, dois operários, velho ajudante; Tell, Werner; arauto.

Ao fundo, uma fortaleza em construção, vendo-se os andaimes, nos quais um operário sobe e desce. Na parte alta do telhado está outro operário. Tudo está em movimento e atividade.

FEITOR (estimula os operários com um bastão): – Mais depressa com isso, vamos! A obra tem de estar pronta quando o alcaide chegar. Pareceis um bando de lesmas!

1o OPERÁRIO (à parte, para o outro operário): – É muito duro ter de carregar pedras para nosso próprio cárcere…

FEITOR: – Que estás murmurando aí? Povo ruim. Só serve mesmo para vagar pelas montanhas e ordenhar vacas.

VELHO AJUDANTE (cansado): – Não agüento mais.

FEITOR: – Depressa, velho! Vamos!

1o OPERÁRIO: – Ele é um ancião. Tu não tens piedade? Ele mal se arrasta e nem recebe salário.

MESTRE PEDREIRO: – Ah, isto brada aos céus!

FEITOR: – Eu apenas cumpro ordens. Fazei vosso trabalho!

2o OPERÁRIO: – Qual vai ser o nome da fortaleza que estamos construindo?

FEITOR: – Baluarte de Uri. Pois tereis de vos curvar sob seu jugo.

2o OPERÁRIO (rindo): – Baluarte de Uri?

FEITOR: – E é para rir? (vai-se afastando para o fundo da cena)

2o OPERÁRIO: – Dominar Uri com esta casinha de cupim? Nem sei quantas destas amontoadas alcançariam a altura da menor montanha de Uri.

WERNER (chegando com Tell):
– Eu quisera não ter vivido tanto
para ver o que vejo…

TELL: – E esta era a terra
da liberdade, o bom cantão de Uri.

MESTRE PEDREIRO: – Já viste as celas debaixo das torres? Quem for morar nelas nunca mais vai ouvir o galo cantar.

TELL:
– O que mãos fazem… mãos também desfazem. (aponta para as montanhas)
Foi Deus quem construiu as nossas casas
da liberdade nas montanhas altas.

(Ouve-se o som de tambor; chegam camponeses e camponesas barulhentos; alguém traz uma lança com um chapéu pendurado no alto; vem um arauto junto.)

1o OPERÁRIO: – Som de tambor? Que barulheira é essa?

2o OPERÁRIO: – E esse chapéu? Para que serve?

ARAUTO: – Em nome do Imperador, peço vossa atenção!

MESTRE PEDREIRO: – Silêncio, camaradas, silêncio…

ARAUTO: – Habitantes de Uri, olhai bem para este chapéu, que vai ficar no alto da coluna no centro da praça. (transfere o chapéu da lança para a coluna) O alcaide ordena o seguinte: Deveis homenagear este chapéu como se ele fosse o próprio alcaide. Ajoelhai e tirai vosso chapéu, para que se saiba quais são os súditos fiéis. Quem desprezar a nova ordem perderá seus bens e a liberdade.

(Ouve-se o tambor. O povo ri alto e se retira atrás do arauto.)

1o OPERÁRIO: – Mas que homenagem absurda o que esse alcaide inventou! Já se viu coisa igual? Saudarmos um chapéu!

2o OPERÁRIO: – E de joelhos! Será que ele pretende humilhar assim gente séria e digna? Se ainda fosse a coroa imperial…

VELHO AJUDANTE: – Nenhum homem de bem aceita uma ofensa dessas.

FEITOR (com disfarçado desprezo): – Hum… (sai, seguido da turma de trabalho)

WERNER (para Tell):
– Meu coração está muito pesado…
Preciso conversar contigo, Tell.

TELL:
– Um coração pesado não se torna
mais leve com palavras.

WERNER: – Mas palavras
podem levar os homens a agir.
Nós, unidos, podemos fazer muito.

TELL:
– Agora só podemos ter paciência.
Agora somos fracos.

WERNER: – Mas os fracos
se unindo ficam fortes.

TELL: – Num naufrágio,
cada um conta só consigo mesmo.

WERNER:
– Queres dizer que a pátria em desespero
não conta mais contigo?

TELL (estende-lhe a mão): – Pois o Tell,
que vai buscar no fundo de um abismo
um cordeiro perdido, poderia
falhar então com os próprios companheiros?
Para agires, não peças meu conselho.
Mas, se algo definido se resolve,
é só chamar o Tell que ele não falha! (saem cada um por um lado)

 

 

Cena 4

Casa de Fúlvio, em Uri.
Fúlvio e Arnoldo; Werner.

Fúlvio está na casa; Arnoldo entra.

ARNOLDO: – Boa tarde, senhor Fúlvio!

FÚLVIO: – Arnoldo! Se nos pegam… Fala mais baixo. Há muitos espiões.

ARNOLDO: – Tens notícias de Unterwalden? De meu pai? E que crime cometi para ficar aqui à toa, escondido como um delinqüente? Só porque meu bastão quebrou o dedo do lacaio do alcaide? Pois se este mandou que ele roubasse minha melhor junta de bois!…

FÚLVIO: – Foste precipitado. Agora agüenta as conseqüências. Afinal, obedecia as ordens do alcaide, o pobre lacaio.

ARNOLDO: – Pobre, mas desaforado. Quando desatrelou meus bois, foi logo dizendo: “O camponês que puxe o arado se quiser comer seu pão.” E agora tive de deixar meu pai sozinho. Isso me preocupa…

FÚLVIO (ouvindo baterem à porta): – Estão batendo. Será que é gente do alcaide?
Olha, entra naquele quarto. (Arnoldo entra) – Coitado. Não são nada bons os meus pressentimentos. (abre a porta e recua, surpreso)
– Quem estou vendo aqui? Bem-vindo, Werner!
Por que motivo tu vieste a Uri?

WERNER (entrando):
– Lembranças boas de uma antiga Suíça.

FÚLVIO:
– Senta-te, Werner. (eles se sentam) Ouve, não notaste
nada de estranho perto lá da praça?

WERNER:
– Sim, vi uma terrível construção.
Parece um túmulo.

FÚLVIO: – É o nome certo.
É o túmulo de nossa liberdade.

WERNER:
– Já que tocas no assunto, eu vim aqui
me aconselhar contigo. Antigamente
o suíço era livre, mas agora…
é terrível tudo o que nós sofremos.

FÚLVIO:
– É verdade. O barão de Attinghausen
falou dessa opressão insuportável.

WERNER:
– E é grave a situação em Unterwalden.
O alcaide de Rossberg pretendeu
levar a uma conduta desonesta
a esposa de Baumann, em Alzell.
E Baumann o matou com seu machado.

FÚLVIO:
– E está a salvo esse honrado Baumann?

WERNER:
– Teu genro Tell cruzou com ele o lago,
e eu o escondi em minha casa.
E Baumann me contou coisas tão tristes
ocorridas em Sarnen…

FÚLVIO: – E o que foi?

WERNER:
– O filho de Henrique é perseguido
por Landenberg, que lhe tomou os bois.
O rapaz agrediu o seu lacaio.
O alcaide tomou então os bens
do velho e bom Henrique e o pôs na rua;
deixou-lhe apenas seu bastão de cego.
E assim ele vagueia mendigando.

FÚLVIO:
– Fala mais baixo, Werner…

ARNOLDO (sai do quarto): – Ai, meu Deus!

WERNER:
– Quem é este?

FÚLVIO: – É o filho.

ARNOLDO: – Que horror!
É minha culpa. Abandonei meu pai
nas mãos do miserável! Vou voltar!

FÚLVIO:
– Domina-te, rapaz e fica aqui.
Que podes contra o alcaide?

ARNOLDO: – Mas por que
não aprendemos a entesar o arco
e a brandir o machado?

FÚLVIO: – Se os outros
dos três cantões pensassem como nós,
podíamos fazer alguma coisa.

WERNER:
– Se Unterwalden ajuda, se Uri chama,
Schwyz honrará seus velhos compromissos.

ARNOLDO:
– Em Unterwalden tenho bons amigos,
que arriscariam o seu próprio sangue.
Posso contar com eles. Não será
porque sou jovem que desprezareis
minha palavra e ajuda. O sofrimento
me dá forças. E a espada do tirano
também está suspensa sobre vós.
Defendestes a pátria contra a Áustria;
também foi esse o crime de meu pai.
Portanto, todos vós sois condenados.

WERNER (a Fúlvio):
– Estou pronto. E tu?

FÚLVIO: – Vamos com Deus!
Ele há de dar força aos nossos braços!
Sonda os homens em Schwiz, e eu, em Uri,
alistarei amigos. Mas, agora,
enviaremos quem a Unterwalden?

ARNOLDO:
– Eu vou. Conheço as trilhas escondidas
entre os rochedos. E acharei amigos
que me darão abrigo e proteção.

FÚLVIO:
– Não, Arnoldo! Estás sendo perseguido!

WERNER:
– Deixa que Arnoldo vá! Marcai encontro
no prado que os pastores chamam Rütli.

FÚLVIO:
– Que assim seja! E agora, Arnoldo e Werner
ponham as mãos honradas sobre a minha,
a fim de que firmemos a aliança
de vida e morte!

ARNOLDO e WERNER: – Sim, de vida e morte!

(Eles permanecem um instante em silêncio e de mãos unidas.)

ARNOLDO:
– Ah, meu pai, os castelos dos tiranos
vão ruir, e ouvirás a boa nova.
E em tua noite há de surgir a aurora!

FIM DO PRIMEIRO ATO

 

(continua)

 

Havendo interesse em representar a peça, enviaremos o texto completo em PDF. A escola deve solicitar pelo email: institutoruthsalles@gmail.com
Favor informar no pedido o nome da instituição, endereço completo, dados para contato e nome do responsável pelo trabalho.