História da Fundação de São Paulo

peça de Ruth Salles

Esta peça foi composta com trechos de uma crônica de frei Gaspar da Madre de Deus, de cartas dos jesuítas Nóbrega, Anchieta e Aspicuelta Navarro e de carta do rei Dom João III. As iniciais entre parênteses, do lado de alguns trechos que estão entre aspas, são as dos nomes dos autores citados. A peça mostra como foi escolhido o local para ser fundado o Real Colégio, como os jesuítas aprendiam com os índios a viver do que a terra dava, e o que fazia cada um deles numa vida rude. Foi deixado o tratamento na segunda pessoa, porque é o que consta dos documentos citados. Portanto, é uma peça um pouco mais difícil do que a peça “O Começo de São Paulo”. Termina com o hino de F. de Chiara, “Pelo Sinal da Santa Cruz”, com versos de Anchieta em tupi, representando a missa da fundação do Real Colégio, que depois se transformou na vila de São Paulo do Campo de Piratininga.

PERSONAGENS:
Jesuítas:
Afonso Brás
Aspicuelta Navarro
Diogo Jácome
José de Anchieta
Leonardo Nunes
Manuel Chaves
Manuel da Nóbrega
Manuel de Paiva
Mateus Nogueira (todos de túnica preta, comprida)
João Ramalho e seu filho André (túnicas curtas, nas cores verde ou vermelho)
Cacique Tibiriçá, Cacique Caiubi e seus índios (túnicas curtas de cor marrom; raras penas na cintura; os caciques usam na cabeça tiras e uma pena)
Coros A e B (se os coros forem formados com outros alunos, eles podem usar túnicas azuis e brancas, compridas)

(Os objetos usados no texto são sugestões.)

O Coro A canta baixinho a primeira melodia, em “nan, nan, nan”, enquanto, em fala lenta e solene, o Coro B diz o trecho do cronista frei Gaspar da Madre de Deus e da carta de Nóbrega.

CORO A (canta):
“nan, nan, nan…”

CORO B:
– “Em cima da serra de Paranapiacaba demora um país delicioso a que os portugueses davam o nome de Campo,
por distinção das terras de beira-mar, que acharam cobertas de arvoredo muito alto…
Ali faz confluência um ribeiro a que os índios da terra intitulavam Piratininga…
Em uma das margens do tal ribeiro estava situada uma aldeia, onde residia Tibiriçá, soberano dos guainazes.
Todo o país então se chamou Campos de Piratininga.” (G.M.D.)
“Na borda desse Campo reside um João Ramalho,
o mais antigo homem que está nesta terra. (M.N.)

(Entram Manuel da Nóbrega e Leonardo Nunes, andando e conversando. Nóbrega se apoia em um bordão rústico.)

NÓBREGA:
– Padre Nunes, já que foste o primeiro a subir serra acima para chegar ao Campo de Piratininga, fala-me dessa viagem!

NUNES:
– “São serras tão altas, que dificultosamente podem subir animais,
e os homens sobem com trabalho e às vezes até de gatinhas, por não despenharam-se.” (J.A.)

NÓBREGA:
– Pois é preciso que eu suba, em busca de um novo sítio para iniciar o Real Colégio. Aqui já escasseiam víveres…

(Enquanto Nóbrega sobe com muita dificuldade, guiado pelo rapaz André Ramalho, o Coro fala; no verso “Olha lá se estende…”, quem faz gestos é Nóbrega, mas quem fala é o Coro.)

CORO A:
– De batina preta
vai o jesuíta
por finas veredas
da mata infinita.
Segue com seu guia:
um filho da terra,
que o levaria
ao alto da serra.
No claro planalto
Agora caminha:
– Olha, lá se estende
formosa colina!
Num bordão do mato
Nóbrega se firma:
– Mais uns poucos passos!
E sobe a colina…

CORO B (enquanto Nóbrega aponta a beleza da paisagem):
– No alto da colina levantada como proa de navio, entre o Anhangabaú e o Tamanduateí, Nóbrega antepara.

NÓBREGA:
– “É por aqui a porta e o caminho mais seguro para entrar nas gerações do sertão!” (M.N.)

(Aparece João Ramalho e, aos poucos, os índios com seus caciques.)

ANDRÉ RAMALHO (apontando para o pai):
– Este é meu pai, João Ramalho, guarda-mor do Campo e senhor do Vale do Tietê.

JOÃO RAMALHO:
– Bem-vindo seja quem vem em paz!

NÓBREGA:
– Salve!
A Divina Providência te conduziu aqui primeiro, para que os filhos da terra nos recebessem como amigos.
“Esta terra é nossa empresa.
Aqui se deve levantar o Real Colégio.” (M.N.)

JOÃO RAMALHO:
– “Senhor, algo me diz que piso o limiar do futuro.” (J. A.)

NÓBREGA:
– “E não temas por estes índios. Porque são ordens do rei que tenham suas vivendas, para que sejam contentes.” (D. João III)

TIBIRIÇÁ:
– Vida nestas paragens ser dura, senhor.

NÓBREGA:
– A vida dura torna a vontade mais forte.

CAIUBI:
– Ter quase nada.Viver em pobreza.

NÓBREGA:
– Viveremos todos.
Não temais. Não cobiçamos o que é vosso.
“Se tudo provém de Deus, se tudo é doação divina, então nada nos pertence.” (M.N.)

CORO B (enquanto os outros jesuítas vão chegando e trabalham junto com os índios.):
– Façamos, amigos,
de caniço e barro,
uma barraquinha
para nós morarmos.
Seja a medida
do seu comprimento
só quatorze pés,
de largura, dez.
Mais do que escola,
nossa barraquinha
seja enfermaria,
despensa e cozinha,
seja refeitório,
seja dormitório,
tudo do tamanho
de uma barraquinha.

JOÃO RAMALHO:
– Como podereis viver, tantos de vós, em tão apertado lugar?

ANCHIETA:
– Não invejamos as mais espaçosas mansões
que nossos irmãos habitam em outras partes,
“pois Nosso Senhor Jesus Cristo ainda em mais apertado lugar se viu,
quando foi de seu agrado nascer numa manjedoura!” (J.A.)

CORO A (enquanto os jesuítas se movimentam no trabalho):
– Em vez de camas, redes;
em vez de portas, esteiras;
em vez de mesas, folhas de bananeira;
por alimento, o que os índios dão de esmola:
farinha de mandioca,
peixes, favas, abóbora,
carne de lagarto, macaco e corça;
e, em vez de vinho,
milho cozido em água a que se juntava sal.

NUNES:
– Lá vem Manuel Chaves!
Nunca se viu tanta coragem.
Está sempre a se embrenhar na selva brava.

CHAVES:
– Irmãos, volto de São Vicente,
aonde chegaram novas naus.
E os navegantes nos deram de esmola
estes farrapos de velas rasgadas pelos ventos.

PAIVA:
– Pois façamos tinta de plantas da terra,
e tingindo estas velas teremos roupa nova!

CHAVES (enquanto Mateus Nogueira martela numa bigorna):
– Então, irmão Mateus? És o primeiro ferreiro da terra!
(a Anchieta, que trança sandálias): – E tu, irmão Anchieta, que fazes?

ANCHIETA:
– Ensino estes irmãozinhos…
e faço alpargatas
com fibras de caraguatás bravos.
São mais rijos que o linho!

CHAVES:
– E que fazes tu, Diogo Jácome?

JÁCOME:
– Faço rosários de madeira com este torno de pé.

CHAVES:
– E tu, Afonso Brás?

BRÁS:
– Trabalho esta madeira.
E vou traçar paredes,
para quando pudermos melhorar nossa cabana.

CHAVES:
– E tu, Aspicuelta Navarro?

NAVARRO (escrevendo com uma pena e lendo em voz alta):
– Escrevo uma carta.
“Encontrei facilidade
em aprender a língua da terra,
por ser esta semelhante ao basco,
língua que conheço tão bem.
Já traduzi a Criação do Mundo, os
Mandamentos e orações.” (A.N.)

(Vai-se formando a cena da missa. Caixote ou cepo como altar, cruz tosca, os coros ao fundo, cada cacique com seus índios dos lados, como em guarda. Nóbrega sustenta a cruz, Manuel de Paiva em posição de abençoar, Anchieta a seu lado, os restantes de joelhos.Terminada a fala, todos se levantam e cantam.)

COROS A E B:
– E assim,
diante de um altar de madeira
e de um cruzeiro tosco,
em meio a trabalho e pobreza,
fundou-se este Colégio,
tendo sido rezada a missa
pelo padre Manuel de Paiva,
auxiliado pelo irmão Anchieta.
E, por ser esse dia
aquele em que se comemora
a conversão de São Paulo,
o Colégio tomou o nome desse apóstolo.

TODOS (cantam):
“Santa Curuçá, raangaba recê,
ore pycy rõiepê.Tupã ore iar,
ore amotareymbára çúi.Tuba, ta´yra.
Espírito Santo rêra pupê.
Amen, amém.”

 

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