Histórias

Imagens, inspiração e transformação

Todos os dias a aula principal termina com o professor contando uma história, que é escolhida de acordo com a idade das crianças da classe e com o que é importante para seu desenvolvimento na época. Estas histórias também são usadas como motivo e inspiração para as crianças desenharem ou pintarem. Os tipos de histórias usadas são:

Contos de fadas para crianças de 6 a 7 anos, especialmente os da coletânea dos irmãos Grimm – Para esta criança que ainda se sente una com o mundo, os contos de fada são indicados porque representam imagens universais amplas, sem espaço ou tempo definidos. São considerados um tesouro espiritual da humanidade, fruto de vivências primordiais da existência humana. Produzem um efeito inconsciente na alma ao resgatar, por meio de imagens significativas, todo o longo percurso do amadurecimento humano na terra. Por isso, pessoas de todas as épocas – principalmente crianças – sempre reconheceram neles, embora de modo inconsciente, algo afim com sua própria alma. Reis, princesas, anões, gigantes – todas estas imagens – correspondem a profundas realidades interiores do homem.(1)

Os contos de fadas representam um verdadeiro “alimento” para a alma das crianças. Nunca devemos tentar interpretar, ou achar alguma “moral da história”, para as crianças. As imagens vivenciadas por elas irão amadurecer aos poucos, no inconsciente de cada uma. No jardim de infância as histórias devem ser contadas inteiras, de uma vez, e devem ser repetidas em outros dias, estimulando o desenvolvimento da memória. Para as crianças de 6 a 7 anos, no ensino fundamental, elas já podem ser contadas em partes, e não costumam ser repetidas. Cada dia, antes de continuar a história, o professor estimula os alunos a contarem, de forma livre, o que eles lembram do que foi contado no dia anterior.

São Francisco – desenho de lousa da professora Beatriz Retz, da Escola Waldorf Aitiara

Fábulas e lendas de santos para as crianças de 8 anos – Nesta idade a criança já começa a perceber que ela e o mundo não são unos, percepção esta que culmina por volta dos 9 anos. A polaridade é uma questão fundamental nesta idade, portanto são contadas fábulas, que permitem às crianças perceberem as falhas humanas reveladas pelas características do animal, intercalando com histórias de santos, que revelam nosso lado mais humano, o domínio sobre nossos instintos. Passerini afirma que “a ideia educativa que orienta essas narrações de fábulas e lendas é mostrar que em verdade os instintos existem, e que através de modelos ideais os instintos são transformados”.(2)

Histórias do Antigo Testamento para as crianças de 9 anos – O objetivo não é religioso. Ocorre que esta criança sente-se mais infeliz e solitária, pois já se percebe “fora” do mundo e sente que aquele tempo de magia em que ela vivia não existe mais. Em Salles et al os autores sustentam que “aos 9 anos, a criança, anteriormente identificada com o mundo ao redor, agora passa por um momento muito especial, afastando-se cada vez mais da fantasia e do sentimento de unidade e integração com a natureza e com seu ambiente. A criança sente-se só pela primeira vez, sente-se como indivíduo, separada, criando um espaço interno. A tarefa pedagógica é construir uma ponte entre o espaço interno da criança de 9 anos e o mundo do qual ela está se afastando.”(3)

Para isso os autores indicam que é importante trazer para as crianças imagens que incentivem a vontade de crescer e de atuar no mundo como indivíduo. Assim, as histórias do Antigo Testamento são contadas com o objetivo de lhes dar segurança e destacar a importância da autoridade – representada por Deus, Abraão, Moisés, pelos mandamentos – e da coragem e perseverança, a partir de imagens do caminho que o povo hebreu teve de seguir para conseguir superar suas dificuldades. Também Passerini esclarece que “esses conteúdos trazem aos alunos a coragem de enfrentar seus problemas, ao identificar-se com o sofrimento de algumas das figuras por meio de seus atos de coragem e persistência”.(4)

Odin – desenho de lousa da professora Beatriz Retz, da Escola Waldorf Aitiara

Histórias da mitologia nórdica e de heróis arquetípicos para crianças de 10 anos – Esta criança já superou a crise dos 9 anos, e agora se percebe mais como indivíduo, e busca conquistar seu espaço no mundo medindo forças com os colegas. Estas histórias trazem imagens fortes que traduzem essa mudança de consciência pela qual a criança está passando, pois falam de honra, coragem, luta e outros valores fundamentais. Em Salles et al os autores nos explicam que “na história de Siegfried, o herói deve forjar a própria espada, vencer o dragão e libertar a jovem aprisionada pelo fogo: são belas imagens que já apareceram, de forma simplificada, em contos de fada, mas que agora, com nova roupagem, falam da luta interior que cada criança trava nesta idade, afastando-se da infância em direção ao seu caminho individual, tentando superar os impulsos e conquistar uma postura amorosa e equilibrada diante do mundo.”(5)

Segundo os autores, estas histórias foram transmitidas oralmente até o século XI, quando foram escritas pela primeira vez, em versos, na coleção chamada Antiga Edda. Por volta de 1200 d.c. o islandês Snorre Sturlason escreveu a Nova Edda, em prosa.

“Cada mitologia expressa uma conquista anímica pela qual a humanidade passou, e todas foram muito importantes para sua evolução. Os nórdicos vivenciaram intensamente aquilo que possibilita nos enxergarmos como seres individualizados, identificados enquanto seres que pensam, sentem e agem, que têm livre arbítrio. […] Mesmo como figuras arquetípicas, os heróis revelam uma vida, uma biografia, ao serem narrados os aspectos de seu nascimento e de seus feitos. Na verdade os heróis lendários fazem a ponte para o grande recurso que se tem depois que termina a consciência mitológica: as biografias propriamente ditas”.(6) Sueli Passerini

Histórias da mitologia desde Atlântida até Grécia são contadas para classes de 11 anos, as histórias de Roma para classes de 12 anos, e biografias para classes dos 12 aos 14 anos.

No vídeo abaixo a professora Marisa Cristina dos Santos, da Escola Waldorf Aitiara, ensina como contar contos de fadas.

Bibliografia

1) STEINER, Rudolf. Os Contos de Fadas. 2002, p.div.
2) PASSERINI, Sueli Pecci. O Fio de Ariadne: Um Caminho para a Narração de Histórias. 2004, p. 123.
3) SALLES, Ruth. Teatro na Escola – vol.2. Orientações pedagógicas de Cristina M. B. Ábalos, Dora R. Zorsetto Garcia e Vilma L. Furtado Paschoa. 2007, p. 15.
4) Idem PASSERINI, op. cit., p.124.
5) SALLES, Ruth. Teatro na Escola – vol.3. Orientações pedagógicas de Cristina M. B. Ábalos, Dora R. Zorsetto Garcia e Vilma L. Furtado Paschoa. 2007, p. 16.
6) PASSERINI, Sueli Pecci. O Fio de Ariadne: Um Caminho para a Narração de Histórias. 2004, p. 129.

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