1 – Introdução – Rudolf Steiner e a Antroposofia

A educação para enfrentar os desafios do futuro

por Rubens Salles

Para conhecer a base filosófica e conceitual que sustenta a Pedagogia Waldorf, assim como aspectos pedagógicos propriamente ditos, sugerimos que leia os posts desta seção seguindo a sequência numérica, como se fossem os capítulos de um livro. O texto não esgota o assunto, mas irá lhe apresentar o alicerce que sustenta o rico universo desta pedagogia, que está em pleno desenvolvimento no Brasil e no mundo, completando 100 anos em 2019. O curso de especialização em Pedagogia Waldorf no Brasil demanda 1.600 horas-aula e 300 horas de estágio.

A Pedagogia Waldorf faz parte de um grupo de atividades humanas que se desenvolveram a partir da Antroposofia (do grego “anthropos”, homem, e “sophia”, sabedoria), uma linha filosófica espiritualista concebida pelo filósofo austríaco Rudolf Steiner, e nasceu no meio do caos social e econômico que se seguiu à primeira guerra mundial.

Após a derrubada dos velhos modelos sociais, pessoas que se esforçavam por construir a Europa do futuro procuravam novas orientações. Um desses homens foi Emil Molt, diretor da fábrica de cigarros Waldorf-Astória, de Stuttgart, na Alemanha. Ele procurou Rudolf Steiner, o fundador do movimento antroposófico, que naquela época era um dos líderes do movimento por uma renovação social, e pediu-lhe que o ajudasse a formar uma escola para os filhos dos trabalhadores da fábrica, e assumisse sua organização pedagógica. Seis meses mais tarde, em 7 de Setembro de 1919, abriram-se as portas da primeira escola baseada na pedagogia criada por Rudolf Steiner, a Escola Waldorf, com 12 professores e 256 alunos distribuídos por 8 classes.Assim, foi uma escola criada para o povo, sendo revolucionária desde sua criação, pois não havia notas nem repetição de ano, e não separava meninos e meninas, o que era comum naquela época. Enquanto o materialismo era a base dos conceitos naquele tempo, assim como é até hoje, Steiner propôs uma educação baseada numa visão espiritualista e na liberdade/autonomia. As escolas Waldorf foram perseguidas por todas as formas de ditadura e autoritarismo, tendo sido proibidas pelo nazismo e pelo comunismo.

Desde a fundação da primeira escola Waldorf, este movimento vem se expandindo. Hoje são mais de 1.200 escolas, 2.000 jardins de infância, 108 centros de treinamento de professores, em mais de 80 países dos 5 continentes, segundo a Waldorf World List, da organização Freunde der Erziehungskunst Steiners. Embora tenha nascido na Europa, hoje há escolas Waldorf tanto na Rússia como em Manhattan, em favelas da América do Sul, em Helsinque, na Tanzânia, no Brasil, nas novas democracias da Europa Oriental, no Nepal, na Índia, no Japão e em muitas outras regiões, o que demonstra ser uma pedagogia que pode adaptar-se a qualquer cultura. Isso ocorre porque ela se baseia em um profundo conhecimento do ser humano, e procura oferecer o que a criança precisa em cada etapa do seu desenvolvimento, respeitando sempre sua maturidade. São escolas para onde as crianças gostam de ir.

Sobre este aspecto houve um fato que me marcou muito quando estava visitando a Escola Waldorf Aitiara, em Botucatu – SP, filmando atividades escolares e entrevistando professores. Durante um intervalo para o recreio, notei que algumas crianças do primeiro ano tinham ficado na sala de aula, enquanto a maioria brincava ao ar livre. Então me dirigi a elas e perguntei o que estavam fazendo. A resposta foi que estavam “brincando de escola”! Convenhamos, é preciso realmente gostar da escola para no horário do recreio ficar na classe brincando de escola.

Geralmente cada país tem sua federação de escolas Waldorf, criada e mantida pelo conjunto das escolas, e que tem o objetivo de zelar pela Pedagogia no país, orientar as escolas, promover eventos, promover e orientar cursos para formação de professores, representar as escolas perante os órgãos governamentais etc. No Brasil temos a Federação da Escolas Waldorf do Brasil. Veja em www.federacaoescolaswaldorf.org.br.

É importante ressaltar que as Escolas Waldorf, com exceção de alguns pequenos Jardins de Infância, são associações comunitárias sem fins lucrativos, criadas para este fim por grupos de pais e professores interessados. Não se trata de uma franquia comercial. O fato de pais e mães dedicarem seu tempo e energia ao esforço necessário para se criar uma escola nova, e uma escola que demanda muita participação dos pais, é um parâmetro importante para avaliarmos o quanto a Pedagogia Waldorf vem se colocando como um caminho reconhecido e desejado para a educação.

No Brasil a primeira escola Waldorf foi fundada em 1956, com o nome de Escola Higienópolis, e depois de alguns anos passou a se chamar Escola Waldorf Rudolf Steiner. Hoje temos cerca de 82 escolas que integram a Federação das Escolas Waldorf no Brasil, que existe há 11 anos. A Pedagogia Waldorf também é aplicada em creches e organizações sociais, como na Associação Monte Azul, em São Paulo SP, por exemplo.

Realizam-se frequentemente congressos nacionais e internacionais, e durante este século que se passou desde que a primeira escola Waldorf foi criada, centenas de educadores vêm contribuindo para seu desenvolvimento em todo o mundo, inclusive no Brasil. Vários deles, além de Steiner, serão citados neste livro. Este constante impulso de renovação segue a orientação de Steiner no sentido de que no mundo moderno não devemos nos basear em crenças, mas sempre procurar analisar os conceitos propostos e verificar sua coerência de acordo com nossos próprios parâmetros. Steiner disse que sua visão de mundo era adequada à sua época, e que tudo o que ele havia transmitido teria que ser mudado no futuro. A exceção era sua teoria da cognição, como expressa em seu livro A Filosofia da Liberdade: segundo ele, essa era a única coisa que sobraria intacta da Antroposofia.(1)

 

Rudolf Steiner e a Antroposofia

Rudolf Steiner nasceu em 27 de fevereiro de 1861 em Kraljevec e realizou em Viena seus estudos superiores de ciências exatas. Em 1883 foi convidado a trabalhar no Arquivo Goethe-Schiller, em Weimar, na Alemanha, para dedicar-se à edição dos escritos científicos de Johann Wolfgang von Goethe – que se tornou uma importante influência em sua obra – desenvolvendo a partir daí um grande interesse cognitivo e uma consequente atividade literário filosófica. Como resultado deste trabalho, escreveu em 1886 Linhas Básicas de uma Teoria do Conhecimento da Concepção Goetheanística do Mundo, com Referência Especial a Schiller. Em 1891 publicou sua tese de doutorado, intitulada Verdade e Ciência, e em 1894 publicou sua obra básica: A Filosofia da Liberdade. Após alguns anos trabalhando como redator literário em Berlim, passou a se dedicar a uma intensa atividade como escritor e conferencista, com o objetivo de expor e divulgar os resultados de suas ideias e pesquisas filosófico espirituais, inicialmente no âmbito da Sociedade Teosófica e mais tarde no da Sociedade Antroposófica, por ele fundada. Segundo Waldemar Setzer, Steiner usava como meio de pesquisa o pensamento treinado pela meditação, que lhe permitia observar objetiva e conscientemente os mundos espirituais. Assim, tendo baseado suas pesquisas na compreensão, e não nos sentimentos, elaborou uma visão de mundo que lhe é própria, tendo dado contribuições filosóficas e práticas absolutamente originais, que não remontam a ninguém.(2)

O termo Antroposofia foi usado por Steiner pela primeira vez quando proferiu a palestra “De Zaratustra a Nietzche – História da evolução da humanidade com base nas cosmovisões desde os tempos primordiais até a atualidade, ou Antroposofia”. Ele escreveu 28 livros e ministrou centenas de ciclos de palestras e conferências, publicadas em mais de 300 volumes, realizando grandes contribuições para os campos das artes, da organização social, da pedagogia, da psicologia, da medicina, da farmacologia, da agricultura, da arquitetura, do tratamento de crianças excepcionais etc, sendo os princípios da Antroposofia adotados em instituições de todo o mundo. Faleceu em Dornach, na Suíça, em 1925.

“Nossa mais elevada tarefa deve ser a de formar seres humanos livres, que sejam capazes de, por si mesmos, encontrar propósito e direção para suas vidas.”  Rudolf Steiner

Bibliografia

  1. SETZER, Waldemar. Comentários sobre o capítulo “Rudolf Steiner” do livro 50 Grandes Educadores, 2008
  2. SETZER, Waldemar. Comentários sobre o capítulo “Rudolf Steiner” do livro 50 Grandes Educadores, 2008

 

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