Minha experiência como aluna numa escola Waldorf

LUÍSA MÜLLER NEVES integrou a turma pioneira da Escola Waldorf Querência, (em 2005, com a professora Ana Beatriz Weber) em Porto Alegre RS, e foi a primeira aluna a cursar o Ensino Fundamental completo (até o 9º ano, concluído em 2013). No Ensino Médio, estudou no Colégio João XXIII e atualmente está matriculada para cursar Psicologia na Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre.

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Eu acho que uma das perguntas que mais me fazem é: qual é a diferença entre uma escola Waldorf e uma “tradicional”?

Bom, podemos começar falando sobre os objetivos das escolas: numa instituição tradicional, a principal meta é formar um aluno capaz de passar no vestibular, ou seja, capaz de decorar nomes, datas e fórmulas. Numa escola Waldorf, além de ensinar nomes, datas e fórmulas, os professores se preocupam em formar um indivíduo com pensamentos próprios, com senso crítico, com consciência do seu lugar no mundo, da importância da educação, da ética, do respeito ao próximo e com uma voz poderosa dentro de si.

Depois, podemos falar sobre o método de ensino: o que diferencia uma escola Waldorf é a maneira com que os professores se conectam com os alunos, como seus amigos, confidentes e ajudantes, basicamente como uma família. O fato de um professor acompanhar seus alunos desde o primeiro ano até o final do ensino fundamental proporciona um vínculo único, e podemos perceber que tanto os alunos quanto o professor crescem como indivíduos durante o passar desse tempo.

Além disso, as aulas são preenchidas de histórias, músicas, poesias e peças de teatro, que deixam os estudos muito mais concretos, mais divertidos e que geram uma curiosidade para aprender cada vez mais. Até o ensino médio todas as matérias pareciam fazer sentido na minha cabeça pois elas eram ensinadas de uma maneira que não precisávamos decorar, era simplesmente aprender. As histórias, os desenhos e as vivências tornavam os conteúdos mais simples e fáceis de entender e não distantes como no ensino tradicional, onde cada aluno é visto como uma série de números e notas, ou seja, a Luísa Müller Neves significava 8 em artes, 7,5 em matemática e 6 em história. Numa escola Waldorf, essa mesma Luísa significava uma menina que gostava de música, de desenhar, não gostava muito de ler, e muitas vezes era cobrada por isso pela professora, mas que tinha suas qualidades e defeitos que eram levados em conta: todo o esforço é levado em conta. Resumir um ano inteiro em uma série de notas é superficial, é limitar todo o conhecimento de uma criança a um dia de prova, é como resumir o mar inteiro em uma gota.

Eu acho que ganhar um caderno totalmente em branco no início do ano e ver ele se transformar em páginas de contos, pinturas, matérias e exercícios é como ver uma lagarta virar uma borboleta, pois é isso que acontece numa escola Waldorf: as crianças que entram ainda tão puras e ingênuas, saem como adolescentes maduros, responsáveis e preparados para enfrentar o mundo.

Uma outra pergunta frequente é: como foi a transição no final do ensino fundamental para uma escola “tradicional”? Para situar vocês vamos fazer uma pequena comparação: eu estava saindo de uma escola onde tinha 2 colegas e indo para uma onde teria 30, além disso, o número de todos os alunos da Querência não superava o número de alunos em 3 turmas do João XXIII. Mas, por maior que fosse a diferença, (pela quantidade de colegas, pelo tamanho do colégio, pela quantidade de provas e pelo método de ensino), eu me adaptei incrivelmente bem, até me surpreendi, para ser sincera. Acho que levei um trimestre para me acostumar totalmente com as provas parciais, com as trimestrais, para entender o que as provas exigiam e como faziam isso, mas depois que eu peguei o jeitinho ficou fácil.

Bom, depois do ensino médio vem o tão temido vestibular, uma prova que decide uma grande parte do teu futuro. No ano de 2017, entrei no cursinho e estudei para passar no curso de psicologia, tanto na UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul) quanto na UFCSPA (Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre, também conhecida como Fundação). Estudar para o vestibular, principalmente para o da UFRGS, foi como ir contra o que eu acreditava: eu precisava decorar fórmulas, nomes e datas e não tinha outra opção. Por isso, a minha saída foi estudar para o ENEM e passar na Fundação pelo SISU. A prova do ENEM é muito mais baseada em interpretação de texto e lógica do que em “decoreba”. O que importa é saber pensar e se colocar em “situações-problema”, o que eu aprendi a fazer na escola Waldorf. Achar o ENEM foi como achar a minha salvação e enquanto eu escrevo esse texto estou esperando as inscrições do SISU e torcendo para que seja aprovada. Só para deixar claro, eu não estou dizendo que não poderia ter estudado para a UFRGS e ter passado, mas foi uma escolha que eu fiz, de não ir contra os meus princípios, e eu não me arrependo.

Por fim, queria acabar esse texto dizendo qual é o diferencial da escola Waldorf na minha formação, como eu acho que isso afetou meus estudos e minha vida. Eu, com certeza, não posso resumir todas as minhas vivências em apenas aprendizado em termos de matérias. A Escola Querência me fez crescer como pessoa e me ensinou muito mais do que matemática e português, ela me deu uma base para eu amadurecer e me encontrar, me deu a oportunidade de falar e de ser ouvida, de ser eu mesma e de ser respeitada como eu sou. Enfim, eu só tenho a agradecer a essa escola, aos professores e colegas que eu tive e aos meus pais, que fizeram uma decisão há 13 anos que me transformou na pessoa que eu sou hoje. Eu sempre levo um pedacinho da Querência no meu coração e fico muito feliz em ver ela crescendo. Eu posso ter saído da Escola Waldorf Querência, mas ela não saiu de mim e esse é o diferencial na minha formação.

Depois de reler esse texto algumas vezes achei importante ressaltar que a Escola Waldorf, por mais que tenha um grande papel na formação educacional de uma criança, não pode trabalhar sozinha, ou seja, é fundamental que os pais se envolvam com a criação e aprendizado de seu filho. É muito importante levar o que se aprendeu na escola para o ambiente familiar para que a criança tenha coesão na sua educação e para que não tenha conflito entre os valores ensinados pelos professores e pelos pais. A proposta das Escolas Waldorf conta com a inclusão dos familiares nas atividades curriculares e esse envolvimento só traz benefícios tanto para os alunos quanto para os pais e professores. A escolha de colocar seu filho em uma Escola Waldorf não é fácil, mas essa decisão vai afetar o resto da vida dele e da sua também e como disse Rudolf Steiner, “não posso esperar que algo mude lá fora na vida social se eu mesmo não me puser em movimento”.

 

 

Créditos

Este texto foi escrito espontaneamente por Luísa Müller Neves, em janeiro de 2018, com o intuito de relatar sua experiência pessoal às famílias interessadas em conhecer a Escola Waldorf. Foi originalmente publicado pela Escola Waldorf Querência, de Porto Alegre RS, em comemoração aos 13 anos de fundação da escola.

 

 

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