Mora Morotim

lenda indígena contada pelo professor Henrique José de Souza

Desenho de Pedro Paulo Salles

O lugar hoje conhecido por Baixada Fluminense e toda a região que, na mesma latitude, compreende a serra onde fica a formosa Teresópolis, em direção a Magé, era o reduto de duas poderosas tribos: a que vivia na planície, muito maior, era formada pelos terríveis Caacupês, enquanto a da montanha, pelos Gurupiras ou Grupiaras.

Os Gurupiras eram cruelmente perseguidos pelos Caacupês, cujo empenho era aniquilar seus bondosos vizinhos até o último rebento e apoderar-se da jovem Abayú, filha de Guarantã, cacique da tribo dos Gurupiras. Abayú vivia em “tabu” (*). O pajé da tribo inimiga, chamado Bagé-Baguá, famoso evocador de Anhã e Anhangá, sabia dos privilégios espirituais de Abayú e sugerira a Cabuna, cacique dos Caacupês, o casamento de seu filho Apiamira com a formosa jovem, para que, dessa união, nascesse o futuro chefe da tribo dos Caacupês.

Entretanto, do outro lado, havia alguém que vigiava muito de perto a “virgem do tabu”. Era Açocê-Bu, seu amigo, protetor e mestre, pajé dos Gurupiras. Nem podia deixar de ser assim, pois nesse tabu se conservava a antiga tradição de que um enviado do céu, o grande “Cabaru-Tupã”, devia desposar a formosa Abayú, de “cuja união nasceria o futuro chefe da tribo, que conduziria seu povo à região da fartura, da paz e da felicidade”.

O nascimento da própria Abayú já fora anunciado “por um ser de grande esplendor” à sua mãe Morira, de quem a filha herdara a beleza e outros predicados, além dos espirituais, que lhe davam o direito, portanto, de ser a “esposa do enviado do céu” e, consequentemente, a mãe do futuro chefe da tribo dos Gurupiras.

Logo que a virgem completou 16 anos, viram-se sinais celestes, relacionados com o primeiro dia de lua nova e com Júpiter e Saturno em conjunção. E, tal como sua falecida mãe, Abayú recebeu o aviso, feito por um ser esplendente, de que seu bem-amado estava prestes a chegar para tomá-la por esposa, depois de derrotar os ferozes inimigos dos Gurupiras.

Ciente de tudo, Açocê-Bu comunicou a notícia ao pai de Abayú, dizendo-lhe também que prevenisse todos os filhos da tribo que se aproximava o momento da grande batalha com a chegada do enviado dos céus, filho de Tupã, que tomaria por esposa a virgem do tabu, querida e respeitada por todos.

Durante os três dias que antecederam o primeiro da lua nova de maio, o ritual foi mantido com todo o rigor e as armas foram preparadas para a grande luta.

Na planície, os caacupês previam alguma coisa inesperada, pois além de acenderem fogueiras, que se repetiam em grande extensão, conclamando os filhos da tribo, eles dançavam e cantavam, fazendo rufar os guararás, soprando ao catapuçus e os borés de modo verdadeiramente ensurdecedor…

O céu, até então crivado de estrelas, começou a tomar um aspecto sombrio: as nuvens, encaracolando-se, mais pareciam serpentes aladas querendo despenhar-se sobre o local onde se daria um grande e novo acontecimento no mundo dos mortais.

Os filhos da tribo dos Gurupiras, com seu chefe à frente, ladeado por sua filha Abayú e o pajé Açocê-Bu, estavam formados em três círculos concêntricos. O mesmo se dava no céu: as nuvens, comprimindo-se umas às outras, deixavam no centro um grande rombo, como se houvesse ali três arco-íris ligados nas pontas, tendo por baixo as estrelas do Cruzeiro.

De dentro da terra começaram a se erguer línguas de fogo, como se fossem verdadeiras fogueiras, e bolas de fogo amarelas, azuis e vermelhas saltavam de um serro a outro.

Em baixo, ouvia-se o clamor terrível dos Caacupês que, com os punhos voltados para o alto da montanha, gritavam, lançando as primeiras flechas, como desafio à tribo privilegiada dos Gurupiras.

Uma chuva de estrelas riscou o céu em todos os sentidos, prenunciando a vinda do “Cavaleiro das Idades”, o enviado dos céus, o filho de Tupã há tanto tempo esperado pelos Gurupiras.

– Iaguabebê! Iaguabebê! Cabaru-pararanga! Cabaru-pararanga! – exclamavam, numa alegria indescritível, os filhos da tribo dos Gurupiras.

Então apareceu, bem no centro dos três círculos, bem diante do “tabu”, o cavaleiro celeste. Saudando a jovem e abençoando a tribo, o grande Cabaru-Tupã dirigiu-se ao pajé e ao chefe Guarantã, saudando a este como “aquele a quem coube a graça de ser pai da divina Abayú, filha de Morira, hoje no reino celeste”.

– Tu és o tronco de onde vai surgir a nova raça – disse ele – da qual meu filho Mora-Morotim será o guia.

E o cavaleiro celeste, tomando de sua espada flamejante, lançou o grito de guerra, que foi ecoando pelas quebradas da serra, pela floresta adentro…

Nesse interim, os mais afoitos da tribo inimiga alcançavam os altos penhascos, enquanto os que se achavam apenas nos contrafortes enviavam já para o alto as aguçadas e venenosas flechas, preparadas para aniquilar “até o último rebento da tribo dos Gurupiras”. Havendo presenciado o milagre no céu, sua fúria aumentara.

Entretanto, um ruído estranho se fizera ouvir partindo de dentro da terra, abalando a própria montanha. E uma chuva de pedras começou a desabar sobre os Caacupês. E, às rochas maiores, sucederam-se outras menores. O Cavaleiro Celeste, seguido por seu exército, despenhou-se pela montanha abaixo, como se todos tivessem asas nos pés. Vencendo sempre, eles encontraram na planície um número muito maior de Caacupês, e foi então que teve lugar a batalha mais terrível. Mesmo assim, dentro em pouco a tribo inimiga estava vencida, e os que restaram foram-se retirando para as bandas do norte.

O povo privilegiado, seguindo seu guia, começou a galgar o espinhaço da serra e, chegando ao alto, foram recebidos por Guarantã, Abayú e Açocê-Bu, além dos doze guerreiros escolhidos, que de modo algum deviam abandonar o “tabu”. E o ritual do casamento teve lugar.

Meses depois, nascia Mora-Morotim, futuro chefe dos Gurupiras. Ao completar 21 anos de idade, na época em que o Cavaleiro Celeste já havia desaparecido do mesmo modo como chegara, Mora-Morotim guiou a tribo até o lugar apontado pela secular tradição, o qual se chama ainda hoje AIURUOCA. E, tal como acontecia com Tamandaré, de dia Mora Morotim ensinava aos filhos da tribo o que durante a noite aprendia dos céus…

(*) – tabu: pessoa ou lugar inviolável, por ser considerado sagrado.

 

FIM