Na Praça de Toda Gente

peça de Heloisa Borges da Costa

baseada na peça “O Natal na Praça” de Henri Guéon
revisão e colaboração de Ruth Salles

NOTA

Esta peça resultou de uma transformação feita, pela professora Heloisa Borges da Costa, na peça “O Natal na praça” do autor francês Henri Ghéon.

Henri Guéon foi poeta, dramaturgo e crítico literário francês, amigo de André Gide e outros escritores. Sendo também médico, foi para o front na primeira Guerra Mundial, quando então se tornou fervorosamente religioso, converteu-se ao catolicismo e passou a escrever principalmente peças sobre histórias sacras. Morreu em Paris, ainda durante a ocupação nazista da Segunda Guerra Mundial, e não se tornou muito conhecido, dizem que devido ao aspecto religioso dado à sua obra literária.

A professora Heloísa contou com minha colaboração, e as mudanças feitas por ela, na peça de Henri Guéon, tinham como intenção servir, pedagogicamente, às necessidades de sua classe. Também contamos com as preciosas sugestões da diretora da peça, Claudia Apostolo e do artista Adriano Raphaelli.

Procuramos obter músicas ciganas, já que a peça trata de um grupo de ciganos que resolve representar o Natal na praça de um vilarejo.

Ruth Salles

 

PERSONAGENS

Uma Companhia de atores ambulantes, de origem cigana, da qual fazem parte:

O velho MELQUIOR, que será o narrador.
A velha MOADEL, sua esposa, que será a Voz do anjo.
YORSCA, filho do casal e chefe da Companhia.
MENA, sua esposa, que será MARIA.
JOSAFÁ que será JOSÉ e par romântico de ADELAIDE.
JESABEL, mãe de Josafá, que será ISABEL, prima de Maria.
PEPE, neto de Melquior e Moadel, que será o ANJO.
ADA, que será TERESINHA, a vizinha, e uma das ciganas que leem as mãos.
ADINA, irmã de Ada, outra cigana a ler mãos.
NÁDIA, irmã de Ada e Adina, e que também lê mãos.
A MULHER PROMETIDA que fica escondida.ARGUS, menino cigano que será o PASTOR.

Habitantes do vilarejo onde os ciganos acamparam:

ADELAIDE, jovem que será par do cigano Josafá.
MÃE DE ADELAIDE que coloca a mantilha no coreto.
TRÊS CRIANÇAS: ANA, que será a PASTORA.
ARABELA, que será PASTORA.
GADIEL, que será PASTOR.
DODÓ, o maluquinho, que interfere no teatro e fala tudo rimado.
PASSARINHO, GORRIÓN, seu amigo inseparável, que carregará a
ESTRELA.

DELEGADO.
GUARDAS TONHO e NELO, admiradores de Adelaide.
O PÁROCO, que será o rei mago Gaspar.
O RABINO judeu que será o rei mago Melquior.
IBRAHIM, o ulemá muçulmano que será o rei mago Baltazar.
FIGURANTES: HABITANTES do vilarejo.
2 SEGURADORES do letreiro, que anunciam cada Ato.
BAILADORES

LOCAL: Praça de um vilarejo.

 

Passam os 2 carregadores do letreiro anunciando o

 

PRIMEIRO ATO

Cena 1

A PRAÇA É ENFEITADA

É noite. Na praça estão os ciganos e os habitantes do vilarejo. Veem-se o coreto e, a um canto, a carroça dos ciganos. A praça está sendo enfeitada para os festejos do NATAL.

(Adelaide e sua mãe se destacam dos que enfeitam a praça. A mãe raspa as mãos uma na outra, como quem termina uma tarefa.)

MÃE DE ADELAIDE: – Agora, sim! A praça está uma beleza, toda enfeitada para esperar o Natal! (dá uma reviravolta e põe a mantilha sobre o coreto, como a cobrir o lugar sagrado.)

ADELAIDE (está do outro lado ajeitando flores no coreto): – A praça está linda!

GUARDA TONHO: – Mais linda que a praça está você, minha flor! (dá uma flor pra ela.)

ADELAIDE (pimposa): – Grata, seu Tonho, é sempre bom um agrado… Eu fico até sem graça.

GUARDA NELO: – Ora essa, Adelaide! Sem graça por que?

GUARDA TONHO: – Ficou sem jeito por causa da flor que eu lhe dei!

GUARDA NELO (despeitado): – Certamente porque uma moça tão linda merece mais que uma flor… (ele lhe dá uma fita.)

GUARDA TONHO: – Qual dos dois presentes você achou mais bonito?

ADELAIDE (de olho nos ciganos): – Bonito… bonito mesmo é o baralho dos ciganos, isso sim!

DELEGADO: – Baralho dos ciganos? Você anda agora se metendo com os ciganos, é?

ADELAIDE: – Não estou me metendo nada, seu Delegado! Mas tenho dois olhos, e o que os olhos veem o coração sente, sim senhor!

GUARDA NELO: – Hum… essa Adelaide é uma flor…

GUARDA TONHO: – Rara, única e será minha!

(Passam as três crianças do vilarejo, Arabela, Ana e Gadiel.)

ARABELA: – Esta noite está escura demais, não está, Ana?

ANA: – É mesmo, Arabela, será que está para acontecer alguma coisa diferente?

GADIEL: – Se for acontecer não há nada a fazer. Só ficar esperando.

ARABELA: – É, Gadiel, quem sabe aparece um sinal?

ANA: – Quem lê os sinais são os ciganos, já ouvi cada história…

DODÓ (entra com chocalho, uma lanterna acesa e o flautim):
– Sinal?
Você viu, Arabela,
o sinal no céu?
Você viu, Ana?
Você viu, Gadiel?

OS TRÊS: – Não vimos nada, Dodó, tenha dó!

ARABELA: – Dodó, onde você arrumou esse flautim?

DODÓ:
– Caiu do céu,
foi presente de Papai Noel!

PASSARINHO (aparece): – Dodó, você viu meu flautim?

DODÓ (esconde o flautim atrás nas costas e propõe):
– Passarinho, quem sabe brincamos
de achar coisas que procuramos?

(Todos saem e fica só Dodó.)

– A procura, meus amigos
faz parte do caminho humano,
quem sabe o que nos traz esta noite
a visita do povo cigano?

(DODÓ pega a mantilha sorrateiramente.)

DODÓ:
– Vou levar comigo…
Esta noite está estranha,
se houver perigo,
o pano santo fica protegido.

 

Cena 2

OS CIGANOS

(No canto do palco a Companhia de Ciganos está comendo em volta do lampião. Alguns habitantes do vilarejo a observam, Adelaide entre eles. Josafá vem de algum lugar, atravessa a vila e nota Adelaide. Yorsca volta-se na direção deles e da plateia.)

YORSCA: – Que raridade, hein? Gente comendo! Uma coisa realmente extraordinária! Nunca viram gente comendo? Estão com fome? Que vilarejo pra ter gente curiosa! Olhem só, olhem o grandão aí, com certeza come bastante! E a criancinha com os olhos remelentos… e a moça bonita na flor da idade, logo será vovó enrugadinha que só vendo! Todos fazem o quê? Assistem uma família comer. Não sabem como é? Sopa se come assim: primeiro, enfia-se a colher no prato; segundo, assopra-se porque graças a Deus está quente; aí, despeja-se o conteúdo goela abaixo, e então se recomeça o trabalho. Um, dois, três; três tempos, nem mais um só. Pegaram? Então podem ir embora, acabou o teatro. Boa noite!

MOADEL: – Você não muda, Yorsca, não toma jeito, um dia acaba no chão!

YORSCA: – Só por isso? Que nada! (fala com sua mulher): – Mena, querida, amanhã quero uma sopa melhor! Afinal, amanhã é noite de Natal! (passa o braço em volta de seu ombro)

MOADEL: – Você fala demais, meu filho.

MENA: – Não liga, não, dona Moadel. Eu já estou acostumada.

YORSCA: – Bom, é hora de arrumar uma galinha pra sopa de amanhã. O delegado está distraído vendo os guardas jogando cartas. A galinha pertence ao granjeiro, que nesta hora deve estar roncando. (ao público): – Minha boa gente… posso ficar sossegado, não é? Vocês não vão me denunciar… não é, grandão? Afinal estão felizes vendo ciganos comerem. E amanhã, para ter espetáculo, como fazemos todos os anos, é preciso ter sopa (faz como quem toma sopa). Um, dois, três. Um, dois, três e, para terminar, põe-se a tigela na boca (é o que ele faz). Bom, a moça bonita talvez não faça isso, talvez… Pronto, a cena acabou, voltem para suas casas e durmam bem (Vai buscar um banquinho no fundo). Vão de uma vez, acabou por hoje! Além disso, precisamos nos preparar para o Natal. Se pensam que somos pagãos, estão muito enganados. Para nós o Natal é sagrado!

MOADEL: – Não há dúvida!

MENA: – O Natal é sagrado!

YORSCA: – E há também outro dia do ano que comemoramos e vamos até em procissão! No verão, quando passamos por Santas Marias, em honra a Santa Sarah Kali, a padroeira dos ciganos.

MOADEL:
– Salve mi Santa Sarah, madre de todos los gitanos
de este mundo y de otros.
Yo rezo invocando tu poder,
mi poderosa Santa Sarah Kali,
para que prepares mi corazón
y retires toda la angustia que está en mi.
Santa Sarah, abre mis caminos
por la Fe que yo te tengo,
tu, que venciste el mal,
todas las tempestades
y caminaste junto ao Maestro,
Madre de todos los misterios gitanos.

TODOS OS CIGANOS: – Amém!

YORSCA: – Estão satisfeitos? Assistiram a reza do povo cigano. Não estava no programa. Vão embora agora, pois nossa noite é longa e quente. Se dançarmos e cantarmos, serei obrigado a passar o chapéu, pois espetáculo não é de graça, mesmo sendo na praça.

(Mena passa tirando os pratos e levando para a carroça e cochicha com a mulher prometida.)

MOADEL: – Cante para eles, Yorsca, assim ficam satisfeitos e vão embora.

YORSCA: – Se é preciso só isso para irem… Mas fiquem, talvez com a arrecadação possamos melhorar nossa ceia de Natal já que a galinha nos saiu de graça. Mas não tenho em meu repertório nenhuma canção de Natal. Nessa época não se pode cantar uma coisa qualquer. Vejamos… “A morte do guarda bêbado”… “A bela mulher do Pároco”… é, acho que não iam gostar de ouvir as minhas canções. Como é, meu pai, você canta?

MELQUIOR: – Se eu não tivesse tão pouca voz, bem que cantaria para eles a canção dos reis magos. Eles talvez não saibam que descendo de um dos três reis. Até puseram-me o nome dele, é uma prova! Melquior, sim senhores, Melquior. E, como herança, ganhei um livro deste tamanho (faz um gesto abrangendo o céu) onde meu antepassado previu tudo o que diz respeito à vinda do Messias Salvador. Recebi este legado e dedico todo o meu tempo a decifrar os mistérios do céu, de ontem, hoje e amanhã. Nas noites de serão, conto pra minha gente tudo o que aprendi. Ah, é bonito, é bonito!

MENA: – Cante a canção pra eles, meu sogro!

MOADEL: – Ele? Não vai dar conta!

MENA: – Então cantemos todos!

 

Cena 3

A HISTÓRIA DE SANTA SARAH

(Os ciganos cantam e dançam a Sevillana, e o povoado se agita. Vem mais gente ver o que está acontecendo.)

DELEGADO (irrompe): – Ordem, ordem! Que arruaça é esta!

PÁROCO (interrompe tocando o sino): – Forasteiros, com certeza vocês não sabem o quanto esta noite é sagrada para nós. É de boa educação respeitar os costumes daqueles que lhes permitiram acampar aqui… temporariamente.

JOSAFÁ: – Nossa dança é sagrada, senhor Pároco, e celebramos todas as noites e não uma única apenas!

MELQUIOR (fala para os ciganos): – Calma, Josafá, que eu vou explicar a todos que nos denominam pagãos, que o Cristo deles vive em nossa alma festejado como um Sol nascente, uma verdade que os demais povos talvez desconheçam. Mas a história está escrita nestas páginas (mostra o céu)… e o destino reúne todos ao redor do mesmo acontecimento.

PÁROCO (sossegando o povo, que ficou alvoroçado): – Meus irmãos, somos todos cristãos, vamos ouvir o que essa gente tem a contar… afinal, ninguém deve ter julgamentos precipitados!

MELQUIOR: – Sim, todos se lembram de lá, em Santas Marias, em honra à Santa Sarah?

PÁROCO: – Santa Sarah?

MOADEL: – Sim, senhor Pároco, não conhece a história?

PÁROCO: – A escrava negra que serviu Madalena, quando foram jogados ao mar?!

MOADEL: – Sim, essa mesma escrava, negra, Sarah, e mais Maria Madalena, discípula do Senhor, Maria Jacobé, irmã da Virgem, e Maria Salomé, juntamente com José de Arimateia e Trofino, todos eles foram jogados ao mar, numa barca sem remos e sem provisões. Desesperadas, as três Marias puseram-se a chorar e a rezar. Sarah, a escrava negra, clamou ao Senhor, tirou o lenço da cabeça, chamou por Cristo Salvador e prometeu ali que, se todos se salvassem, ela se tornaria cristã e jamais andaria sem um lenço na cabeça em sinal de respeito. Milagrosamente, a barca sem rumo aportou em Petit-Rône, hoje Lei Santei-Marias-de-la-Mar, no sul da França.

PÁROCO: – É uma bela história!

MENA: – Que continua assim: foram todos acolhidos pelos cristãos do lugar, menos Sarah. Eles a abandonaram por ser escrava e negra. Um grupo de ciganos que ali acampava, penalizado, acolheu Sarah, que cumpriu sua promessa até o fim de seus dias.

JESABEL: – Contam ainda que ela operou milagres entre o povo romani, e por isso é cultuada como Santa e padroeira do povo cigano! E, para nunca ser esquecida, toda mulher cigana casada usa um lenço na cabeça, seu adorno mais precioso!

PÁROCO: – Bom, e o espetáculo, é para quando?

YORSCA: – Mais tarde, aqui em frente, na praça de toda gente!

(A maioria se afasta. Adelaide e Josafá se despedem com um aceno que é notado por Jesabel, que puxa Josafá com um safanão, e pela mãe de Adelaide, que dá as costas como que rejeitando os ciganos. Os ciganos se acomodam e se movimentam em seu canto.)

 

 

Cena 4

A MULHER PROMETIDA

JOSAFÁ (encantado com Adelaide): – Minha mãe, olhe ali aquela moça do vilarejo, que bonita ela é!

JESABEL: – Ora, fique quieto, JOSAFÁ, venga, temos muito que fazer. Vamos, concentre-se, além do mais, ela não é uma cigana. Ela é uma gadja!

JOSAFÁ: – Minha mãe, ela não é cigana no sangue, mas sua alma certamente é!

JESABEL: – Meu filho, afaste-se dela antes que seu coração se enrede e a trama do destino não se possa cumprir! (a mulher prometida espia entreabrindo a cortina da carroça)

JOSAFÁ: – Ah, mas que coisa! Estou cansado dessa história de destino. Quando poderei escolher… quando é que essa vida termina?

JESABEL: – Quando a gente morrer, Josafá.

JOSAFÁ: – Não é isso que eu quis dizer, minha mãe. Eu quis dizer quando a vida vai acabar sem acabar, quando os povos vão se encontrar sem que um ache o outro um estranho?

JESABEL: – Chega de devaneios. Você é um cigano, e seu lugar é junto ao seu povo.

JOSAFÁ: – Eu sei, eu sei. Nós somos ciganos e continuamos ciganos, mas quando lembraremos que, antes disso, somos todos humanos?

JESABEL: – Os antigos disseram…

JOSAFÁ: – Não me importa.

JESABEL (inspirada): – A loba uivou três vezes, a coruja piou três vezes, a cobra silvou três vezes…

(As crianças se assustam.)

JOSAFÁ: – Chega, chega. (Faz menção de sair, mas ainda sussurra): – Mas, eu quero viver o que sinto. E esperar que ela me aceite, que ela esteja em meu destino.

JESABEL: – Seu destino está ali (aponta a mulher prometida). Vamos, os outros nos esperam. Temos muito que fazer, ocupe sua mente e suas mãos e aquiete seu coração. (juntam-se aos outros)

 

Cena 5

A ENCENAÇÃO

(Ciganos na praça se arrumando.)

YORSCA: – Então, atenção! Todos tratem de falar do jeito que eu já ensinei da outra vez, com naturalidade, sendo temperados nos gestos. Nada de exagerar sua personagem. Evitem isso. Também não é preciso ser mole demais; acomodem o gesto às palavras e as palavras ao gesto, pois a finalidade da representação é espelhar, é refletir a verdadeira natureza da personagem. Não se pode imitar a humanidade rugindo, se pavoneando e cortando o ar com espadas imaginárias!

JOSAFÁ: – Pode deixar, senhor. Nossos ensaios não foram em vão. Cada um vai se concentrar em ser sua personagem, e hoje nesta praça, todos verão a força e a magia do povo cigano!

YORSCA: – Venham, aproximem-se, o espetáculo vai começar!

(Entram as quiromantes e dançam; o povo se aproxima. ADA, ADINA, NÁDIA, MOADEL, JESABEL simulam leitura enquanto pessoas sentam. Em seguida elas saem.)

YORSCA: – Pois bem, vamos lá, todos em cena! Quem vai representar Maria?

MENA (sonhadora): – Ah… eu gostaria tanto de ser Maria…

YORSCA (ao povo do vilarejo e à plateia): – Calma aí! Não gritem todos ao mesmo tempo, vou ficar surdo! Todos poderão participar! Pepe, meu filho! Acorde e acenda os candeeiros! O espetáculo vai começar! Vamos à coleta!! Abram as carteiras, desatem as sacolas, virem os bolsos! Estão acostumados a contribuir, não? Vou começar pela coleta!

MOADEL: – Yorsca, Yorsca, deixe a coleta para depois! Quem quiser dar, dará depois o que puder. Se você faz isso pelo lucro, meu filho, a galinha não será perdoada e teremos que devolvê-la.

YORSCA: – Devolvê-la? Isso nunca! Quem já viu sopa de Natal sem galinha! Vamos lá, minha gente, pela glória! Mãe, abençoe a todos nós!

MOADEL: – Pela glória de Deus, meu filho! (murmura sua prece)
Que Santa Sarah nos abençoe! (sinal de abençoar com as mãos)

MELQUIOR: – Argus, toque el cajón! Já que temos que representar, mais vale que todos aproveitem! (Argus toca o cajón.)

YORSCA: – Que devo anunciar?

MELQUIOR: – “A Vinda do Messias”.

YORSCA (para todos): – Silêncio, minha boa gente, ainda há pouco vocês eram dez, agora já são vinte, trinta. Daqui a pouco serão cem! A lua brilha, faz um calor desgraçado e os nossos corações estão quentes, e os seus também logo estarão. A chama do fogo celeste irá descer… a chama do amor vai nos aquecer. Vamos representar diante de vocês, de modo tão claro quanto possível, “A Vinda do Messias”, uma das obras primas do rei mago Melquior, que veio a nós graças ao seu tataraneto, meu pai! Vamos começar logo, é só acender os candeeiros!

(Josafá se destaca acendendo os candeeiros junto a Pepe, aproxima-se de Adelaide que está encantada. Começam os preparativos… A Companhia se veste na frente do público.)

PÁROCO (vendo o Rabino, que aparece, fala com ele): – Ai, senhor Rabino, que será que esses ciganos vão aprontar?

RABINO: – Ouvir dizer que vão encenar alguma coisa.

PÁROCO: – Tenha piedade deles, Senhor! (ergue as mãos juntas como se implorasse) Ai!… Crendospadre!! Um teatro de ciganos, na véspera de Natal!

RABINO (puxa Gadiel): – Que está acontecendo, menino?

GADIEL: – Eles vão representar! E disseram que podemos participar!

ANA: – Eu também quero! Eu também quero!

ARABELA: – Quieta, Ana! Se alguém pedir, você vai. Espere um pouco.

ADELAIDE: – Ai que coisa maravilhosa, não posso perder isso por nada!

(Enquanto é tocada uma música alegre no fundo, no palco trazem um banco para Melquior e um para Moadel. Mena põe o manto de Maria, e cada um se fantasia de seu personagem. Yorsca faz sinal para a música parar.)

MELQUIOR (levanta-se e lê no céu): – Naquele tempo, os povos viviam esperando o milagre. Desde séculos e séculos, os profetas haviam anunciado que um rei todo poderoso seria mandado por Deus para salvá-los, aliviar seu fardo, enxugar suas lágrimas.

DODÓ (se levanta):
– O milagre veio, foi confirmado,
mesmo que muitos não tenham acreditado!

TODOS: – Quieto Dodó, tenha dó!

O RABINO (sonhador): – Os profetas anunciavam o Messias…

FIM DO PRIMEIRO ATO

 

(continua)

 

Havendo interesse em representar a peça, enviaremos o texto completo em PDF. A escola deve solicitar pelo email: institutoruthsalles@gmail.com