O Corvo, a Gazela, a Tartaruga e o Rato

peça de Ruth Salles

Jean de La Fontaine, fabulista francês do século XVII, pôs em belos versos muitas das fábulas contadas pelo famoso e semi-lendário escravo grego Esopo, que consta ter vivido no século VI antes de Cristo. Esta peça baseou-se na fábula tal como foi traduzida do francês pelo escritor português Francisco Manoel do Nascimento, conhecido pelo pseudônimo de Filinto Elísio (século XVIII). Por ser sua linguagem bastante rebuscada, recriei os versos em linguagem brasileira e apropriada para as crianças, a fim de montar a peça.

PERSONAGENS:
Coro, Corvo, Gazela,Tartaruga, Rato, Caçador.

TODOS (cantam):
“Voa o Corvo sempre alto,
e a Gazela dá um salto,
e a Tartaruga vai,
a pisar
devagar,
com a casa Cai-não-cai.
E por tudo corre o Rato
sem fazer espalhafato.
É preciso ter cuidado.
Mora o Caçador ao lado!”

CORO:
– Estes quatro,
o Corvo e a Gazela,
a Tartaruga e o Rato,
fizeram um contrato
de morar juntos na mesma toca,
um ajudando o outro em troca.

CORVO:
– Eu vou voar e esvoaçar.

GAZELA:
– E eu vou correr e vou saltar.

RATO:
– E eu vou depressa procurar
alguma coisa para o jantar.

TARTARUGA:
– Você, Gazela, tenha cuidado,
que o Caçador mora aí ao lado.

CORO:
– Saem os três a passear.
A Tartaruga quis ficar
pondo a mesa para o jantar. (estende uma toalha no chão)
Lá vem o Corvo esvoaçando
e em volta da mesa vai sentando. (o Rato vem atrás)

TARTARUGA:
– Venha logo, Rato, você também.

RATO:
– E onde está a Gazela que não vem?

CORVO:
– Vi o Caçador pelas redondezas.
Ela foi presa com certeza.

TARTARUGA:
– Então é preciso cumprir o contrato!
O Corvo a procura e depois o Rato.
Eu guardo a toca, por segurança,
porque a casa nas costas me cansa.

CORO:
– Voa o Corvo na disparada
e avista a Gazela bem amarrada.
Ele chama o Rato, que rói, rói, rói
e a grossa corda assim destrói.

TARTARUGA (saindo da toca):
– Eu ando muito devagar,
mas fiz um contrato e vou ajudar.

CAÇADOR (chegando):
– Quem soltou minha presa tão bela?

CORO:
– Mas já vão longe o Rato e a Gazela.

CAÇADOR (vendo a Tartaruga chegando):
– Uma Tartaruga! Opa, opa!
Vai servir para minha sopa! (enfia a Tartaruga no saco e amarra a abertura)

CORO:
– Pobre Tartaruga! Está presa no saco
só porque quis cumprir o contrato.

CORVO (esvoaçando):
– Gazela! Gazela! Salve a Tartaruga!
Engane o caçador, mas corra na fuga! (a Gazela passa pelo Caçador)

CAÇADOR:
– Será possível? Lá está a Gazela!

CORO:
– O Caçador…
larga o saco e vai atrás dela.
A Gazela…
se esconde na toca, e o Rato vem
e rói a corda do saco também. (os quatro se escondem na toca; a Tartaruga pode ir nas costas do Rato)

CAÇADOR (voltando):
– Onde está minha sopa? Fui enganado!

CORO:
– E os quatro juntos já estão jantando
em sua toca bem sossegados.

 

 

Fim