O guardador de porcos

Conto de Hans Christian Andersen

Tradução de Ruth Salles

Era uma vez um príncipe pobre; ele tinha um reino muito pequeno, mas mesmo assim grande o bastante para que ele se casasse. E casar era o que ele queria, era mesmo seu maior desejo. Mas é claro que ele ia ser muito atrevido se perguntasse logo à filha do Imperador: “Você quer casar comigo?” Pois foi justamente o que ele fez.

Seu nome ilustre era conhecido por toda parte, e havia centenas de princesas que lhe diriam “sim” na mesma hora, felizes da vida de ir morar com ele em seu pequeno reino.

E a filha do Imperador? Que será que ela respondeu? Pois é o que vamos ver agora.

Sobre o túmulo do pai do príncipe, crescia uma roseira, uma roseira maravilhosa. Só florescia de cinco em cinco anos, e ainda assim dava apenas uma rosa de cada vez. Mas não era uma rosa como as outras; tinha um perfume tão doce, que fazia as pessoas esquecerem todos os desgostos e preocupações.

Além da rosa, o príncipe tinha um rouxinol; um rouxinol que cantava tão bem, que era como se as mais lindas melodias morassem em sua pequena e delicada garganta.

Essa rosa e esse rouxinol o príncipe quis dar de presente à princesa; para isso, foram enviados a ela dentro de duas caixas de prata. O Imperador ordenou que as caixas fossem levadas ao grande salão, onde a princesa brincava com suas damas de honra. Quando ela viu aquelas caixas com os presentes, bateu palmas de alegria.

– Ah, que bom se eu ganhasse um gatinho! – disse ela.

Mas o que saiu da primeira caixa foi uma rosa lindíssima e perfumada.

– Oh, que coisinha mais bem feita! – exclamaram todas as damas de honra.

– Ela é mais do que bem feita. É fascinante! – disse o Imperador.

A princesa, porém, tocou na rosa e logo começou a chorar:

– Que coisa horrível, Papai! Não é uma rosa artificial, é de verdade! – reclamou ela, aborrecida, jogando a rosa no chão.

– Que coisa horrível! É uma rosa de verdade! – disseram também todas as damas de honra. É que elas achavam uma rosa de verdade muito pouco elegante e nobre, pois se encontra por toda parte. Ninguém reparou em seu doce perfume, ninguém se abaixou para pegá-la do chão, e logo ela foi esquecida. Mais tarde, uma serva do palácio jogou-a no lixo.

– Antes de ficarmos zangados, vamos primeiro verificar o que veio na outra caixa – disse então o Imperador. Com todo o cuidado, a caixa foi aberta, e o que apareceu foi o rouxinol. Dois pajens tiveram de trazer um suporte de ouro com uma argola pendurada, e um deles pousou o passarinho naquele aro dourado. E, apesar de ser bem simples, sem cores vivas, seu canto era tão maravilhoso, que ninguém conseguiu falar mal dele.

As damas de honra ficaram escutando, encantadas, o Imperador pôs as mãos no peito, comovido, e a princesa sentou-se numa poltrona sem dizer nada e prestando a maior atenção.

– Superbe! Charmant! – disseram as damas de honra, pois todas falavam francês, cada uma pior que a outra.

Com isso, elas queriam dizer que o canto do passarinho era magnífico e fascinante. A linda voz do rouxinol ressoou por todo o castelo, de modo que foram aparecendo mais e mais ouvintes: o mestre-de-cerimônias e os ministros, o camareiro do Imperador e a criada de quarto da princesa.

– Como esse passarinho me faz lembrar a caixinha de música da saudosa Imperatriz! – disse um velho ministro – Ah! O tom é o mesmo, e a maneira de cantar também!

– Tem razão – disse o Imperador, chorando como uma criança, pois começou a pensar em sua boa esposa, que havia morrido há poucos anos.

De repente, a princesa disse:

– Tenho a impressão de que esse passarinho canta como se estivesse vivo. Não me digam que é um passarinho de verdade!

O Imperador indagou dos mensageiros que tinham trazido os dois presentes, e eles responderam:

– Sim, é um passarinho de verdade.

– Então, podem soltá-lo – disse a princesa, e não deixou que o príncipe viesse ao palácio.

Os servos tiveram de abrir a janela e deixar o passarinho sair voando.

As damas de honra ainda comentaram:

– Deve ser muito sem educação esse príncipe, para mandar de presente uma rosa de verdade e um passarinho vivo.

Apesar de tudo, o príncipe não desanimou. Pintou o rosto de marrom, afundou o chapéu na cabeça até a testa e foi bater à porta do castelo. E aconteceu que quem abriu foi o próprio Imperador; o príncipe tirou o chapéu e disse:

– Bom dia, senhor Imperador! Seria possível arranjar para mim um trabalho no castelo?

– Pois é – respondeu o Imperador – tanta gente vem pedir emprego aqui… Mas eu não sei se temos alguma coisa para você fazer. Vou pensar… Ah, espere um pouco! Lembrei que preciso de alguém para tomar conta dos porcos, pois nossos porcos são muitos.

E assim o príncipe arranjou um emprego de guardador imperial de porcos. Deram-lhe um quartinho miserável ao lado do chiqueiro, e lá ele teve de morar; mas durante o dia todo ele trabalhou e, ao anoitecer, tinha feito uma panelinha com alegres guizos pendurados em volta; e, assim que a panelinha fervia, os guizos tocavam a antiga melodia:

“Oh, meu Agostinho, (“O du lieber Augustin,
perdeste tudinho!” alles ist hin!”)

Mas a panelinha sabia fazer uma porção de outras coisas, pois não era uma panela comum. Só de pôr o dedo na fumaça que saía dela, a gente ficava sabendo que comida estava sendo preparada em todos os fogões da cidade. Na casa do alfaiate imperial, ia-se comer linguiça no espeto; a mulher do caçador da corte estava assando uma perdiz, que seu marido tinha reservado para eles depois da última caçada; na casa do sapateiro, as batatas pulavam dentro d’água, e na casa do professor da escola, por ser dia de aniversário, uma galinha estava sendo ensopada. E – vejam só! – o mendigo, que todos os dias pedia esmola no castelo, tinha até um suculento pedaço de carne em sua sopa e mingau de aveia para a sobremesa. Pois é, a panelinha era bem diferente da rosa de verdade e do rouxinol vivo. Então, certo dia, quando a princesa estava por acaso passeando ali perto com todas as suas damas de honra, ouviu a música dos guizos e parou toda contente; é que ela também sabia tocar “Oh, meu Agostinho”. Aliás, era a única música que ela sabia tocar, e assim mesmo com um dedo só.

– Essa é a cantiga que eu toco! – disse ela – Deve ser bem educado esse guardador de porcos. Vá falar com ele e pergunte quanto custa esse instrumento que eu quero tanto comprar.

Então, uma das damas de honra teve de ir até o chiqueiro, mas precisou calçar tamancos, pois o lugar era muito cheio de lama.

– Quanto você quer pela panelinha? – perguntou a dama de honra, tampando o nariz e pisando na ponta dos pés.

– Quero dez beijos da princesa – respondeu o jovem guardador de porcos.

– Deus me livre! – disse a dama de honra, e quase desmaiou com aquela exigência.

– Por menos eu não vendo. Afinal ela não é uma panela comum – replicou o guardador de porcos.

A dama de honra foi até onde as outras estavam, e a princesa perguntou:

– Que foi que ele disse?

– Eu nem posso contar – respondeu ela.

– Pois então fale aqui no meu ouvido!

Quando a princesa ficou sabendo o que o guardador de porcos queria, disse:

– Que sem-vergonha! Que sujeito malcriado! – e foi embora dali.

Mas, foi só andar um pouco, que os guizos tocaram:

“Oh, meu Agostinho,
perdeste tudinho!”

– Olhem – disse a princesa – voltem lá e perguntem se ele aceita dez beijos de minhas damas de honra.

– Muito obrigado – respondeu o guardador de porcos – Quero dez beijos da princesa ou nada de panelinha.

– Está muito chato esse vai e vem! – disse a princesa – Vocês todas fiquem então em volta de mim, para que ninguém veja.

Assim, as damas de honra fizeram uma roda esticando as pontas dos vestidos, e o guardador de porcos ganhou dez beijos, e a princesa recebeu a panelinha.

Foi uma alegria, que só vendo! O dia inteiro a panela ferveu; e elas agora sabiam o que estava sendo cozinhado em todos os fogões da cidade, tanto na casa do camareiro como na casa do sapateiro ou do alfaiate. As damas de honra dançavam e batiam palmas, dizendo:

– Sabemos quem vai comer sopa doce e omelete e quem vai ganhar mingau e carne assada. Que coisa mais interessante!

– Interessantíssima! – exclamou a mestre-sala.

– É, mas guardem segredo, pois eu sou a filha do Imperador.

– Pode deixar, pode deixar! – disseram todas.

O guardador de porcos, isto é, o príncipe – só que ninguém sabia que ele era o príncipe – não deixava passar um dia sem fazer alguma coisa, e dessa vez ele fez uma matraca. E era só girar a matraca que ela tocava todas as valsas e polcas do mundo.

– Que maravilha! – exclamou a princesa quando passou por perto – Nunca ouvi música mais linda. Ouçam, vá uma até o chiqueiro e pergunte ao guardador de porcos quanto custa esse instrumento: só que beijos eu não dou mais!

– Ele quer, em troca, cem beijos da princesa – disse a dama de honra que tinha ido lá perguntar.

– Acho que ele ficou maluco! – retrucou a princesa, saindo dali.

Entretanto, depois de andar um pouco, parou.

– Em nome da arte, é preciso fazer alguma coisa. Afinal, eu sou a filha do Imperador! Diga que vou dar dez beijos, como da outra vez. O resto ele pode receber de minhas damas de honra.

– Ah, mas nós não temos vontade nenhuma de fazer isso! – disseram as damas de honra.

– Que enjoamento de vocês! – reclamou a princesa – Pois se eu posso beijar, vocês também podem. Além disso, é de mim que vocês recebem alimento e salário!

Assim, querendo ou não, as damas de honra foram de novo ao chiqueiro.

– Cem beijos da princesa – respondeu o guardador de porcos – senão cada um fica com o que é seu!

– Então, ponham-se todas na minha frente – disse ela.

As damas de honra obedeceram, e o guardador de porcos ganhou os beijos da princesa.

– Mas que ajuntamento é aquele lá no chiqueiro? – perguntou o Imperador, que tinha saído para o terraço.

Ele esfregou os olhos e pôs os óculos.

-É… São as damas de honra que fazem esse barulho todo; preciso ir ver o que está acontecendo!

E… zás-trás… lá foi ele bastante afobado.

Assim que chegou mais perto, começou a andar bem devagarinho. As damas de honra estavam tão ocupadas contando os beijos, para que fosse um negócio honesto, que nem repararam no Imperador.

– Que é isso? – exclamou ele, ao ver a princesa e o guardador de porcos se beijando.

Já haviam sido trocados oitenta e seis beijos, quando o Imperador começou a dar sapatadas na cabeça dos dois.

– Fora daqui! – gritou ele, furioso.

E a princesa e o guardador de porcos foram expulsos do reino. Do lado de fora, a princesa ficou chorando, o guardador de porcos reclamando, enquanto o maior temporal começou a cair.

– Ai, ai! Coitada de mim! – gemia a princesa – Se ao menos eu tivesse casado com aquele belo príncipe! Ah, como eu sou infeliz!

O guardador de porcos foi então para trás de uma árvore, limpou o rosto tirando dele a tinta marrom, livrou-se dos trapos horríveis que usava e apareceu vestido de príncipe. Estava tão bonito, que a princesa curvou-se, respeitosamente.

– Por você, só sinto desprezo – disse ele – pois não quis um príncipe honesto, não aceitou a rosa nem o rouxinol, mas beijou um guardador de porcos em troca de uns brinquedinhos; agora, você recebeu o que merecia!

Então, o príncipe foi embora para seu reino, e a princesa não pôde fazer outra coisa a não ser cantar:

“Oh, meu Agostinho,
perdeste tudinho!”

 

 

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