O que contam sobre São Micael os camponeses da Normandia

Lenda francesa de uma coleção de Nora Stein

traduzida do espanhol por Ruth Salles

Há muito tempo, São Micael e o Diabo eram quase vizinhos e, numa noite de inverno, estando ambos sentados lado a lado, aborreceram-se um com o outro. Satanás vangloriou-se, dizendo que seu poder era ilimitado, e São Micael por sua vez replicou, dizendo que somente Deus era Todo-poderoso.

– Bom, então que Deus te ajude a construir um castelo – disse o Diabo – pois também eu vou fazer um; veremos qual dos dois será o mais belo.

São Micael concordou; e o Diabo logo mandou um grupo de diabinhos buscar por toda parte grandes blocos de granito. Feito isso, começaram a trabalhar, e bem depressa construíram um formidável castelo numa ilha exposta aos embates das ondas do mar e açoitada por tormentas. Os diabinhos arrastaram quantidades imensas de blocos, de modo que logo se levantou sobre o mar todo um maciço montanhoso de granito. O Diabo se sentiu muito orgulhoso de sua obra. São Micael, por sua vez, não se empenhou tanto: de gelo cristalino, ergueu na praia uns muros transparentes, com ousadas torres adornadas de graciosas colunas. Esse castelo, radiante de luz, emitiu um brilho diamantino a grande distância, e seu resplendor deixou na sombra as áridas massas de granito. O orgulhoso Diabo teve de admitir que se dava por vencido e retirou-se cabisbaixo; a inveja, porém, não o deixou dormir. Quando já não podia mais suportar sua derrota, perguntou a São Micael se não podiam trocar de castelos, e este concordou.

Contudo, ao chegar o verão, o palácio do Diabo derreteu-se sob os raios quentes do sol, ao passo que o castelo de São Micael existe ainda até hoje e se chama Monte Saint-Michel.

O Diabo não teve outro jeito senão morar numa simples choça à beira-mar; tinha, porém, campos férteis, pastos bem irrigados, algumas lombas cobertas de árvores altas e verdes vales. São Micael, por sua vez, tinha somente umas dunas de areia e, se não fosse por suas orações diárias, teria morrido de fome. Depois de alguns anos de muita carência, São Micael se cansou dessa situação, procurou pelo Diabo e lhe disse:

– Quero fazer-te uma oferta; entrega-me todos os teus campos, e eu vou trabalhar neles o melhor que puder.

Depois, repartiremos a colheita!

O Diabo achou a ideia boa, e São Micael ainda disse:

– Não quero que depois te queixes de mim; escolhe tu mesmo o que vais preferir: o que cresce em cima da terra ou o que cresce em baixo.

O Diabo, sem pensar muito, exclamou:

– O que cresce em cima!

– De acordo! – disse São Micael.

Seis meses depois, no imenso território do Diabo não se viam senão culturas de beterrabas, cenouras e cebolas. Satanás não colheu nada; queixou-se amargamente e quis revogar o contrato. Quanto a São Micael, havia-se afeiçoado à agricultura e não aceitou a revogação. Satanás então disse:

– Está bem, contanto que neste ano eu possa levar tudo o que amadurecer debaixo da terra.

Micael concordou, e o Diabo, todo contente, mal podia esperar pelas abundantes colheitas.

Chegou a primavera, época em que todos os campos estavam semeados de trigo, aveia e cevada. O Diabo, ao se dar conta de ter perdido de novo, ficou rubro como um caranguejo, de tanta raiva. No momento em que ia agarrar São Micael, este lhe deu tão tremendo golpe no ombro que, como uma bala, ele foi lançado aos espaços distantes da terra. Ele se levantou e olhou o fatídico monte: ali havia Alguém mais forte que ele, a quem ele em seguida entregou seus campos, pastos e bosques, procurando seu reino em outra parte.

 

 

***