O príncipe mudo

peça de Maria de Belén Wedeltoft de Giustino

Adaptação de Ruth Salles

Trata da luta dos pais de um príncipe mudo para encontrar sua voz, e da ajuda prestada pelo arcanjo Micael.

PERSONAGENS:
Coro / Rei / Rainha / Príncipe / Sussurro e suas ajudantes / Beltrão (servo do Rei) / Os que formam a montanha dos ecos / Os que formam o dragão chamado Ruído / Arcanjo Micael.


CORO (canta):
“Num país distante e belo,
tinha um rei o seu reinado
e vivia num castelo
todo de musgo forrado.
Foi João um sábio rei
e sobretudo valente;
e a rainha andava sempre
a socorrer toda gente.
Nada, nada lhes faltava.
Ah, mas apesar de tudo,
todos dois se lamentavam
pois o seu filho era mudo.
Veja o príncipe a chegar!
Só que não pode falar…
Quando, quando todos nós
vamos ouvir sua voz?”

REI (passeando pela cena):
– Ah, se a voz de nosso filho
nós pudéssemos ouvir!
Mas, não!
Somente por seu olhar
nós vemos o que ele sente
no coração.

RAINHA (apontando para o príncipe):
– Nem todo o ouro do reino
pode dar-lhe o dom da fala.
Ah, por que, por que será
que sua voz se cala?

SUSSURROS (surgem com véus cinzentos, que se movem rapidamente):
– Sou Sussurro, sssss,
e posso ajudar.
Sei onde é o lugar
onde moram todas
as vozes do mundo!
E a voz de seu filho
eu conheço! Sssss!

REI:
– Você está mesmo
dizendo a verdade?
Pois mostre o caminho!
Tenha piedade!
Eu lhe posso dar
o que desejar.

SUSSURRO:
– Nada quero em troca.
Apenas sei guardar
segredos muito bem.
Ssssss,
e contá-los também!
Ando de boca em boca,
com minhas ajudantes
sempre sussurrantes.
Sou o mexerico,
o falso testemunho,
sou a caçoada.
porém para mim
eu não guardo nada.
Sussurro vai longe,
como um andarilho.
Quem ouvir sem medo
saberá um sssegredo!

RAINHA:
– Ah, como posso achar a voz de meu filho?
Diga, Sussurro, eu lhe imploro.

SUSSURRO:
– O rei deve ir ao vale
dos ecos sonoros
e escolher a montanha
onde o eco de sua voz soe mais vezes.
Quando ela soar exatamente sete vezes,
A montanha se abre e aparece um terrível dragão.
Ele toma conta de uma lira.
É nela que a voz do príncipe está escondida.
Você terá de fazê-la soar,
até seus dedos doerem de tanto tocar.
Só assim seu filho receberá sua voz.
Mas, tome cuidado com o dragão ferozzzzzzz! (sai, sussurrando)

RAINHA:
– Oh, meu querido, você terá de partir então?

REI:
– Sim, agora mesmo! – Beltrão!

BELTRÃO:
– Pronto, Majestade!

REI:
– Prepare meu cavalo prateado!
Quero seu pêlo bem escovado!
Ponha sua sela, dê-lhe água e comida
e traga-o aqui de corrida!

BELTRÃO:
– Sim, Majestade!

(A rainha reza. O rei afaga a cabeça do filho e parte.)

CORO:
– Lá vai o rei cavalgando
no cavalo prateado,
bosques e rios passando
e pântanos alagados.
Valente segue esse homem,
vai o perigo a seu lado.
Sentirá dor, sede e fome,
cruzará o rio a nado,
pelos pântanos adiante
seguirá caminho errado.
Mas, com vontade constante,
seu destino é alcançado.

REI:
– Este é o lugar procurado.
Tem montanhas por todo lado.
Vou experimentar os ecos: Ôôôhhh…

(O eco soa uma vez, três vezes, seis vezes, por fim sete vezes. A montanha se abre. O rei se adianta. Ouve-se um tremendo ruído. Aparece o dragão.)

DRAGÃO RUÍDO:
– Quem invade meus domínios?
Tenho o nome de Ruído!
Não deixo ninguém entrar.
Que veio o rei procurar?
Não sabe que aqui se encerram
todas as vozes que ainda
ninguém escutou na terra?

Até as girafas mudas
têm a sua voz guardada
em caninhas de bambu
ali ao lado encostadas.
Que quer você, rei João,
pisando assim no meu chão?

REI:
– Eu vim aqui procurar
a voz do meu filho amado,
que na lira está guardada.

DRAGÃO RUÍDO:
– É a lira que o rei persegue?
Nem gigantes a conseguem!
A voz do seu filho é bela
e é muito doce de ouvir.
Ela soa em minha lira
para que eu possa dormir.
A voz que guardo na lira
ninguém consegue arrancar
de trás da gruta profunda.
Eu sou o dragão Ruído!
E só eu posso tapar
as vozes belas do mundo.
Vá embora! Ouça o que eu digo!

REI:
– Eu lutarei com o Ruído! (puxa da espada)

CORO:
– O dragão soltou um berro,
e sua espada já desce.
Soa ferro contra ferro,
e até a pedra estremece.
Logo o rei abaixa o braço,
esgotado de cansaço.

(Ruído ri alto)

REI:
– Só com ajuda do céu
pode voltar meu vigor.
Ó arcanjo Micael,
ajude-me, por favor!

CORO (enquanto a cena se passa):
– Vem do céu a luz descendo,
de uma espada resplendente.
É Micael combatendo,
socorrendo o rei valente.

MICAEL (pára diante do Ruído, move em S sua espada, e os ruídos cessam):
– Ruído, você é forte,
mas Silêncio vai vencer!
Que sosseguem seus ruídos,
que atormentam os sentidos!
Você deve retirar-se
e na gruta se esconder!

(Micael faz outro movimento em S de silêncio com a espada. Ruído se encolhe e desaparece.)

CORO:
– O rei então pega a lira
e tange, tange sem medo.
E as canções, como um tesouro,
saem das cordas de ouro.
Com a dor que tem nos dedos,
quase pára de tocar.
Mas continua tocando
e ao castelo vai voltando.
Tocando, já nasce o dia,
tocando, a noite já desce.
Com seus dedos em feridas,
o rei João já padece.
Mas continua a tocar
e ao castelo vai chegando…
Lá vem seu filho a falar!

PRÍNCIPE (corre para o rei):
– Graças a você, meu pai,
eu agora estou falando.
Eu vou cuidar das feridas
de suas mãos tão queridas.

REI (abraça o filho):
– Ao arcanjo Micael
devemos agradecer.
Ele veio lá do céu
e me ajudou a vencer.

CORO (canta a canção do início, mudando só a última quadra; todos cantam junto):
“Num país distante e belo,
tinha um rei o seu reinado
e vivia num castelo
todo de musgo forrado.
Foi João um sábio rei
e sobretudo valente;
e a rainha andava sempre
a socorrer toda gente.
Nada, nada lhes faltava.
Ah, mas apesar de tudo,
todos dois se lamentavam,
pois o seu filho era mudo.
Mas o arcanjo Micael
veio descendo do céu.
Ao bom rei quis ajudar:
eis o seu filho a falar!”

 

 

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