Os três reis

peça de Ruth Salles

baseada no livro “Os Três Reis”, de Jakob Streit.

Desenho de lousa de Eduarda Tomaz, ex-aluna da Escola Municipal Araucária.


PERSONAGENS

Coro que canta
Pai e Filho
Monge velho e Monge moço
Anjo (pode ser também o narrador)
Narrador (pode ser também o anjo)
Reis Baltazar, Melquior e Gaspar
Herodes
Servo
Três sábios
José e Maria (com Jesus nos braços)

 

Cena 1
As visões dos três reis

(Um jovem – pastor ou peregrino – espera a um canto e vê, cheio de alegria, que seu pai vem chegando. Às primeiras falas os dois se abraçam.)

PAI (estende os braços):
– Meu filho!

FILHO:
– Oh!… É meu pai enfim chegando!

PAI:
– E devagar, que os anos já me pesam…

FILHO:
– E então… trazes notícias dos vizinhos?

PAI (sentando-se numa pedra):
– Espera um pouco, dá-me algum descanso.
Conta-me tu, primeiro, o que soubeste
daquele reino próximo onde foste.

FILHO (solene):
– Meu pai, o rei Melquior também partiu.

PAI (com espanto):
– Também partiu?!

FILHO (continuando):
– Dizem que teve um sonho
com uma estrela, e na noite seguinte
a mesma estrela apareceu no fundo
da taça de ouro que ele contemplava,
ao meditar nas guerras que reinavam
em seu país. E a estrela, nessa taça,
iluminava uma visão sagrada: (devagar)
brilhava uma criança dentro dela!

PAI (pensativo):
– Visão estranha, filho…

FILHO:
– E mais, meu pai:
A criança disse ao rei,
numa voz bem clara e bela,
que se ele seguisse a estrela
acharia a paz na terra.
O rei, sozinho na sala,
olhou por sua janela:
na noite escura brilhava
a criança em sua estrela.
Pôs-se o rei a viajar,
seguindo a estrela dourada.
Para a sagrada criança
como presente levava
sua taça de ouro raro
onde ela se revelara.

PAI:
– Em tudo isso, filho, há um tal mistério…
Pois também chego de um país vizinho,
porém mais longe. Ali reina Gaspar.
E, em meio à maior seca que já houve,
o último fio d’água que restou
foi no poço do rei, em seu castelo.
O rei desesperava! E, nessa noite,
só conseguiu dormir de madrugada,
e teve um sonho cheio de presságios.

FILHO:
– Também um sonho, pai?

PAI:
– Também.

FILHO:
– Que estranho…

PAI:
– Sonhou que se curvava no poço do castelo,
a ver se lá embaixo ainda havia água.
E de repente inclina-se e quase cai ao fundo,
mas prende as mãos num ramo de mirra e está seguro.
Assim se salva. E vê no fundo um rastro d’água,
e na água uma estrela que tudo iluminava.
Na estrela, uma criança duas flores mostrava:
um lírio e uma rosa. O rei maravilhava-se!
Mas eis que a estrela some, e então o rastro d’água
sobe de lá do fundo, sobe inundando tudo!

FILHO (pensativo):
– Uma estrela também…

PAI:
– E uma criança. (continua a narrativa)
Viu o rei que, levemente,
de manhã já chuviscava.
Logo chovia em torrentes,
e os poços transbordavam.
Sai o rei louvando o tempo,
e a chuva se derramava.
E então, à beira do rio,
vê refletir-se nas águas
uma estrela que cintila
no meio do céu nublado.
Uma voz dela descia,
que só para o rei falava,
e diz que da água da vida
nasce a criança sonhada.
E mais: que o rei a veria
seguindo a luz que raiava
daquela estrela divina.
O rei ao castelo volta
e chega ao poço inundado.
Dos pés de mirra já corta
os grãozinhos perfumados.
Cortou-os como lembrança
do sonho que ele sonhara.
À desejada criança
como presente os levava.

FILHO:
– Coisas estranhas sucedem
por onde nós dois andamos…

PAI:
– E semelhantes àquelas
deste reino onde moramos…

MONGE MOÇO (chegando junto com um monge velho):
– Ó de lá!

FILHO (ao pai):
– Vem alguém.

PAI (aos monges):
– Sede bem-vindos!
Vós quem sois?

MONGE VELHO:
– Somos monges, de bem longe,
das montanhas de leste, onde moramos.
Procuramos o rei. Rei Baltazar.

FILHO:
– Ele partiu.

MONGE MOÇO:
– O rei?

FILHO:
– Sim, dirigiu-se
para oeste.

MONGE VELHO:
– Notícia inesperada…
Podeis dizer por que?

PAI:
– Sim, meus senhores.
O nosso rei teve um estranho sonho.
Sonhou que uma criança luminosa
dizia: “Quando me vires na estrela
a Hora estará próxima.” E depois,
na outra noite, o rei subiu ao templo
e viu que a tudo perfumava o incenso.
Nas trevas do céu
uma luz brilhava.
E ao rei pareceu
que o templo aumentava.
Ouvindo uma voz,
o rei Baltazar
à fonte de luz
ergueu o olhar.
Oh, céus! Jamais vira
estrela tão bela…
Uma criancinha,
reluzindo nela,
ao rei se reclina
e põe-se a falar:
“A Hora aproxima-se,
ó rei Baltazar!”
O rei, apressado,
correu ao castelo;
e seguiu viagem
no rumo da estrela.
Levava à criança
um vaso de incenso,
apenas lembrança
do aroma do templo.
Ia longe a estrela
clareando os montes…
O rei, atrás dela,
sumiu no horizonte!

MONGE VELHO:
– Tais palavras estranhas me conturbam…
Que diremos ao rei de nosso reino?

MONGE MOÇO:
– E dos reinos vizinhos, há notícias?

FILHO:
– Sim, amigos. Mas, vamos. Caminhemos.
Há muito a vos contar, desses dois reinos. (Saem os quatro.)

 

Cena 2
Canção para a chegada dos três reis

(Esta cena é uma preparação para a seguinte, que será a cena dos reis na névoa do monte Gólgota. O coro pode entrar em cortejo ao som das notas introdutórias. Terminado o canto, os cantores se retiram.)

CORO (canta):
“Sobre campos, sobre desertos,
viajavam os nobres reis.
Por seus diferentes trajetos,
chegarão a Jerusalém.
Aproximam-se mais agora
até chegarem tão perto…
Na descida do monte Gólgota
hão de se encontrar por certo.
Mas o monte estava coberto
de tão triste e densa neblina,
que estão longe, embora perto,
uns dos outros na descida,
que estão longe, embora perto,
uns dos outros na descida.”

 

Cena 3
Os três reis na névoa do monte Gólgota

(Um rei vem descendo pela esquerda, outro pela direita, outro pelo meio. Nenhum vê o outro. O narrador ou anjo passa pela frente, fala e se retira.)

ANJO:
– Que sombra é esta, em forma de névoa,
que sempre vem e envolve o monte Gólgota?
Tudo é mais triste e se enterra em densa treva…

BALTAZAR:
– A solidão parece que cresce e toma forma de tristeza
neste lado por onde desço do monte imerso em névoa densa.
É triste estar nas trevas…
Nem vejo a luz da estrela,
nem posso prosseguir sem vê-la.

MELQUIOR:
– Deste lado por onde desço do monte,
não vejo nada, o que deveria,
por estar Jerusalém aqui defronte.
Nem mesmo vejo a estrela.
Só, nesta névoa escura
e triste
e fria.
Aqui paro.
E esperarei o dia.

GASPAR:
– Neste lado do monte por onde desço,
que névoa espessa… que solidão opressa, que silêncio intenso…
Será uma fonte de tristeza este monte em trevas? Penso
Que convém parar. Esperar que o dia vença a névoa.

(Sentam-se à espera do dia.)

 

Cena 4
O encontro dos três reis

(Os três se levantam devagar.)

BALTAZAR:
– Foi-se a névoa afinal.
Eis o sol. Nasce o dia.
Oh, vejo dois senhores! (dirige-se aos dois)
– Os senhores seriam…

GASPAR:
– Rei Gaspar.

MELQUIOR:
– Rei Melquior.
E teu nome, senhor?

BALTAZAR:
– Rei Baltazar.

MELQUIOR:
– Estranho…
Nenhum dos dois eu via.

GASPAR:
– Nem eu. Dentro da névoa…

MELQUIOR:
– E tão próximos vínhamos!

BALTAZAR:
– E vínheis em que rumo?

MELQUIOR:
– Eu, no rumo da estrela
que pelo céu caminha.

GASPAR:
– Uma santa criança
nessa estrela haveria?

MELQUIOR:
– Sim. Também a buscavas?

GASPAR:
– Em seu rastro eu seguia.

BALTAZAR:
– Também eu. Mas na névoa
desta noite perdi-a.

MELQUIOR:
– Ó céus, louvado seja
o Deus que nos envia
e que nos une hoje
no descer da colina!
Eis que chegamos todos
ao fim deste caminho,
pois a estrela que some
nos aponta o destino.
Jerusalém nós vemos
e para lá seguimos.
Com Herodes falemos:
quem sabe descobrimos
um rei filho de rei
na criança divina!
(os três saem)

Cena 5
O sonho de Herodes

(O anjo ou narrador passa pela frente, fala e sai, enquanto Herodes vai entrando pela sala do trono.)

ANJO:
– Mas eis que nessa mesma noite Herodes sonhara,
e no sonho uma angústia o envolvera,
tão densa como a névoa sobre os reis no monte.

HERODES:
– Oh!… Eu sonhei que um novo rei
invadia Jerusalém.
E do monte, como avalanche,
seu exército vinha adiante.
Então chamei pelos meus homens,
mas nenhum deles me responde:
sob um véu de cinza, seus rostos;
suas armas, frouxas e foscas;
os seus corpos, paralisados;
os seus pés, no solo chumbados.
Eu jazia no chão, ferido,
e meu exército, vencido.
O novo rei se aproximava
e nenhuma espada empunhava,
mas uma luz resplandecente,
tão fulgurante, que queimava!
Eu bem tentei me levantar,
porém as forças me faltavam.
Um novo rei… Mas quem será
que no sonho se revelava?
Oh, eu sinto um pavor medonho
quando me lembro deste sonho!…
(Herodes pára de andar e senta no trono)

Cena 6
Os três reis diante de Herodes

(Entra o servo na sala do trono. Quando Herodes fala consigo mesmo, deve virar de lado.)

SERVO:
– Majestade, três nobres esperam na ante-sala.

HERODES (fala consigo mesmo, e depois com o servo):
– Oh, que terrível noite…
– E quem serão tais homens?

SERVO:
– São reis de muito longe. Vieram de madrugada.

(Os três são trazidos pelo servo. Inclinam-se diante de Herodes.)

HERODES (fala consigo mesmo, depois com os reis):
– Guardo a arma no manto, para estar preparado…
– Senhores, a que vindes?

MELQUIOR:
– A ver o novo rei.

GASPAR:
– Vimos a sua estrela no oriente.

BALTAZAR:
– E, ao vê-la,
Seguimos atrás dela até Jerusalém.

HERODES (fala consigo mesmo, depois com os reis):
– Falam de um novo rei… É o sonho realizado!
Oh, a crescente angústia que me tem perturbado!
– Senhores, eu nada sei acerca desse rei.
Entretanto, quem sabe possam ser consultados
a respeito os meus sábios, os doutores da lei.

(Faz um gesto para o servo, que vai buscar os sábios.)

1º SÁBIO:
– Uma estrela… e um rei…

2º SÁBIO:
– Aqui? Um novo rei?

3º SÁBIO:
– Não seria o Messias? Pelos livros sagrados,
consta que nasceria algum dia em Belém.

HERODES (fala com os reis, depois consigo mesmo):
– Então, ide até lá! Procurai o menino
e, quando o encontrardes, vinde falar comigo!
Também vou venerar um ser assim divino.
– Também o vou matar, se já tiver nascido.

(Os três reis saem.)

Cena 7
Os reis encontram a divina criança

(Na entrada da casa de José. O coro canta de lado. Os três reis vêm chegando. Maria tem o bebê no colo.)

CORO (canta):
“Eis que ressurge a estrela assim que saem os reis.
E vai seguindo e luzindo e conduzindo os três.
Diante de um lar humilde, a estrela se detém.
O espanto está gravado no rosto dos que a veem.”

BALTAZAR:
– Neste humilde lar,
sem vela ou candeia,
há luz a raiar
que tudo clareia!

MELQUIOR:
– Clareia mostrando,
na palha deitado,
o menino santo,
e os pais a seu lado.

GASPAR:
– Entremos. Olhemos
a paz desta cena
tão rica, tão plena,
tão pobre e serena.

MELQUIOR:
– Que a paz desta hora
perdure em nós três.
Pois vemos agora
o divino rei!

 

Cena 8
Os reis oferecem os presentes

BALTAZAR:
– Sagrada criança, trago-te incenso,
do mesmo que era queimado diante do velho templo.
Seu perfume subia ao céu mostrando o caminho a todos.
Mostra-nos, ó Criança, o caminho novo!

MELQUIOR:
– Aceita o ouro desta taça onde beberam reis!
Seu brilho os iluminava.
Agora,
que a tua luz ilumine o ouro!

GASPAR:
– Aceita os grãos de mirra, menino da estrela!
São os grãos da planta que havia ao lado do poço real,
onde restou a última água da grande seca.
Em ti recomeça,
agora,
a fluir a fonte da vida eterna!

(Tocar o tema do início da cena. Os reis contemplam a criança, depois saem.)

 

Cena 9
A partida dos reis

(Os três reis caminham, conversando.)

BALTAZAR:
– Quando a mão eu estendia
com a dádiva amorosa,
minha alma apreendia
verdades misteriosas…

MELQUIOR:
– Assim também foi comigo.

GASPAR:
– O mesmo também eu digo.

(Os três param para descansar,)

MELQUIOR:
– A noite chega. Amigos, descansemos.
De manhã cedo iremos a Herodes
dar a boa notícia do que vimos.
(eles dormem, vem chegando o anjo)

ANJO:
– Senhores!

GASPAR:
– Quanta luz em plena treva! (acorda os outros)

BALTAZAR:
– É um anjo!!!

ANJO:
– Acordai, nobres senhores!

MELQUIOR:
– Ouçamos o que o anjo nos revela!

ANJO:
– Vossa partida é urgente, nobres reis!
Que volte cada um à sua terra.

MELQUIOR:
– No entanto, deveríamos ainda
levar a boa nova ao rei Herodes.

ANJO:
– Não!! A Herodes, não! Herodes trama
contra o menino. Nada lhe direis!
(o anjo sai de costas)

GASPAR (ergue as mãos ao céu):
– Estamos prontos, Senhor,
para cumprir essa ordem
pelo anjo revelada.

BALTAZAR:
– Adeus, ó estrela sagrada!

MELQUIOR:
– Adeus, ó divina estrela!

BALTAZAR:
– Montemos nossos camelos!

GASPAR:
– Depressa irá escondê-los
uma nuvem de poeira!

MELQUIOR:
– Que venha rápido o vento
varrer o rastro na areia! (saem)

 

Cena 10
E dizem os livros…

ANJO:
– Voltando cada um à sua terra, assim partiram os reis.
E dizem os livros antigos
que anunciaram a todo o povo a boa nova de Belém.
E depois, então,
extasiados para sempre pelo brilho de sua estrela
e irmanados em santo amor pela criança que viram nela,
foram viver em plena alegria
e paz
e unção
no mais alto e mais oculto monte da serra.

 

 

F I M