Pigmaleão

peça de Bernard Shaw

adaptação de Ruth Salles
baseada na tradução e adaptação de Miroel Silveira (anos 40)

NOTA

George Bernard Shaw (1856-1950) foi um importante escritor irlandês, que lutou pelos direitos das mulheres e contra a exploração das classes trabalhadoras. Foi jornalista, ensaísta, romancista e dramaturgo. Em 1925 lhe foi concedido o Prêmio Nobel de Literatura, que ele queria recusar, por não gostar de honrarias públicas. Sua esposa, contudo, conseguiu que ele o aceitasse como homenagem à sua terra, Irlanda. A quantia, porém, ele rejeitou, pedindo que fosse empregada para financiar a tradução de livros suecos para o inglês.

Duas grandes peças de Bernard Shaw foram “Santa Joana” (sobre Joana D’Arc) e Pigmaleão. A palavra Pigmaleão provém de uma figura da mitologia, um homem que não apreciava mulher alguma e que esculpiu uma como ele a concebia. Apaixonando-se por ela, conseguiu dar-lhe vida. A peça de Shaw é a história de um especialista em fonética que descobre uma florista ambulante, quase mendiga, cujo palavreado consta de muitas gírias. Num desafio a si próprio e a um amigo, decide transformá-la numa dama de alta classe. Em “Pigmaleão”, também foi baseado o conhecido filme “My Fair Lady”.

Sendo a peça muito longa para um 8º ano, procurei condensá-la um pouco, e aumentar a quantidade de personagens por causa do número de alunos da classe. Também as gírias precisaram ser modernizadas, pois as duas adaptações existentes foram feitas nos anos 40 e 60. Miroel Silveira fez a peça se passar no Rio. Já Millor Fernandes deixou-a passar-se na Inglaterra mesmo. Quanto ao texto, baseei-me no de Miroel Silveira. Este mostra perceber diferentes modos de falar de diferentes bairros do Rio. Preferi não situar a peça em lugar especial e falar nas diferenças do falar do nordeste, do gaúcho, do mineiro e do capixaba. O nordestino, o gaúcho e o mineiro, assim como uma imigrante italiana (ou um imigrante), só aparecem no Primeiro Ato. Os que provêm do Espírito Santo continuam na peça. Daí seus variados termos, como “deu ruim”, “é massa”, “palha”, “calçado”, “enxugador”, “café sem doce”, “pocar fora”, “injuriada”, “gastura”, “qual é”. Também aparece depois um caipira com sua linguagem da roça.

Fiz a letra para uma música a ser cantada no fim da peça, a melodia podendo ser criada pelo(a) professor(a) de música.

Ruth Salles

 

PERSONAGENS

Henrique Mascarenhas – foneticista
Hilda Mascarenhas, sua irmã
Hortênsia Mascarenhas, sua outra irmã
Dona Cândida, sua governante
Joanita Mascarenhas, sua mãe
Dalva, criada de sua mãe
Maria, copeira de sua mãe

Dona Marieta Rivadavia
Clara Rivadavia, sua filha
José Rivadavia, seu filho

Coronel Guimarães
Elisoana Garapa (Elisa)
Eliseu Garapa, seu pai

Porteiro do teatro
Primeiro Passante que se abriga da chuva
Segundo Passante que se abriga da chuva
Mulher que se abriga da chuva
Os que dançam
Os que cantam.

 

PRIMEIRO ATO

Porta de um teatro, à noite. Cai uma chuva torrencial de verão. De vários pontos, psius e assobios chamam taxis. Transeuntes correm, procurando abrigar-se sob a marquise do teatro. Entre as pessoas ali refugiadas estão uma mulher e sua filha, além de uma jovem vendedora de flores, meio mendiga, e o porteiro do teatro. Todos estão olhando a chuva, menos um homem que está de um lado, mas perto da plateia, tomando notas num caderninho.

CLARA RIVADAVIA: – Estou gelada, mãe! Onde será que o José foi parar? Já faz uns 20 minutos que saiu em busca de taxi!

DONA MARIETA RIVADAVIA: – Não faz tanto tempo, Clara, mas bem que ele já podia ter voltado.

CLARA RIVADAVIA: – Ele não tem é expediente, mãe!

PORTEIRO: – Uai, pensei que ia dar uma estiada, mas que nada, sô. O jeito é não arredar daqui até esse trem passar. Se eu tivesse um tiquim de café, dava procês.

HENRIQUE MASCARENHAS (o homem que toma notas, diz logo): – Esse já vi que é mineiro.

PRIMEIRO PASSANTE (nem fecha o guarda-chuva, pois a chuva é de vento, e se abriga ali): – Barbaridadê! A troco de quê tanta água? Ah, se eu tivesse aqui meu bagual, saía com ele no galopê, como eu fazia lá na querência, tchê!

HENRIQUE MASCARENHAS: – Esse é gaúcho (e anota rápido).

SEGUNDO PASSANTE: – Pois se achegue, hôme. Ara, fique apérreado, não! (ouve-se o trovão) Aqui relampeia abéstado. Bem que eu queria minha manta, peitoral e joelheira de couro e montar também no meu quartau, tal como eu corria atrás do boi quando ele desembéstava.

HENRIQUE MASCARENHAS: – Esse é do nordeste (e anota rápido).

JOSÉ RIVADAVIA (chega todo molhado): – Nada de taxi, Mamãe. Deu ruim. Meu calçado está encharcado. Ninguém tem um enxugador aí?

HENRIQUE MASCARENHAS (anotando): – Gente do norte do Estado do Rio; ou então são do Espírito Santo.

CLARA RIVADAVIA: – Estou injuriada. Não boto fé em você! Nem pra trazer um taxi! Que gastura!

JOSÉ RIVADAVIA: – Não seja palha, irmã. Eu vou de novo!

(Sai correndo na chuva e esbarra na florista, que estava num canto, e suas flores caem na poça d’água.)

ELISA GARAPA (a florista): – Divagar cum a loça, seu Zé. Num enxerga, não?

JOSÉ RIVADAVIA (fala e sai correndo): – Desculpe, garota, foi sem querer!

MULHER QUE SE ABRIGA DA CHUVA: – Ma che succede con esta poverella?

HENRIQUE MASCARENHAS (anotando): – Imigrante italiana.

CORONEL GUIMARÃES (se abriga da chuva e fala com a florista): – Que foi que houve?

ELISA GARAPA: – Foi aquele Zé, que me deu um trompaço e depois deu no pé. Logo hoje que num ranquei prata de ninguém.

CORONEL GUIMARÃES: – Eu ajudo a pegar tudo, menina.

ELISA GARAPA: – Brigado, moço. Num carece.

DONA MARIETA: – Como você sabe que meu filho se chama José?

ELISA: – Num sei, não. É que a gente chama Zé, ou Mané, qualquer cara que aparece. Mas a madama entra com algum pra me ajudá no prijuízo?

CLARA: – Era só o que faltava!

DONA MARIETA: – Clara, isso é comigo! Menina, não tenho trocado, só tenho uma nota de vinte.

ELISA: – Mico-leão eu troco. Ói aí, madama. (Dá o troco)

CLARA: – Só isso?

DONA MARIETA: – Está bem assim.

ELISA: – É dez real tudo, moça. Num tô quereno trolá ninguém. Certo, madama? A senhora sempre faz ponto por aqui? (volta-se para o Coronel Guimarães): – E o senhor, general, não me compra umas frozinha?

PORTEIRO: – Tome tento, guria. Ali tem um sujeito tomando nota de tudo o que a gente está dizendo.

(Todos se voltam para Henrique Mascarenhas.)

ELISA (assustada): – Ué! E daí? Eu pago licença pra vendê flor na rua. Eu sô moça dereita. Sô di família.

HENRIQUE (vê que todo mundo se volta para ele e reclama.): – Ora essa! Quem você pensa que eu sou, sua cretina?

ELISA: – Ai, general, não deixe o tira me pôr em cana. Eu sô moça dereita, sô di família.

CORONEL GUIMARÃES: – Calma, ele não é tira. (para Henrique): – Se não é indiscrição, o senhor está anotando o jeito das pessoas falarem, não é?

HENRIQUE: – Isso mesmo. Sou especialista em fonética e em lexicologia. Por isso distingo os modos de falar de sul a norte. A linguagem muda daqui pra ali. E como estou sempre estudando o assunto, anoto o que as pessoas dizem.

ELISA: – Pois devia é tê vergonha e não se metê na vida da gente, tá ligado?

HENRIQUE: – Cale a boca! Quem fala tão errado como você não devia abrir a boca!

ELISA: – Vôte! (quando ela fala, Henrique anota e repete a palavra)

HENRIQUE (ao coronel): – O senhor está vendo essa garota, com essa linguagem vil, que a mantém na lama? Pois bem. Em seis meses, eu seria capaz de apresentar essa casca-grossa numa recepção qualquer da alta sociedade. Digo mais: ela até poderia arranjar um emprego de vendedora numa loja elegante. Dedico-me a um trabalho realmente científico de fonética.

(Elisa, que estava abaixada catando as flores, ergue a cabeça e presta atenção no que ouve.)

CORONEL: – Pois eu também estudo dialetos de Portugal e das colônias!

HENRIQUE (entusiasmado): – Não diga! Então talvez conheça o coronel Guimarães, aquele que descobriu a verdadeira pronúncia do sânscrito!

CORONEL: – Pois o coronel Guimarães sou eu! E o senhor, quem é?

HENRIQUE: – Henrique Mascarenhas, descobridor do “alfabeto universal Mascarenhas”.

CORONEL (entusiasmado): – Pois saiba que vim de Portugal especialmente para conhecê-lo.

HENRIQUE: – E eu queria ir a Lisboa para vê-lo! Aqui está meu cartão. Venha ver-me amanhã!

ELISA (ao coronel): – Me compre uma frozinha, general. Não tenho grana pra pagar a condução.

HENRIQUE: – Mentirosa! Agora mesmo tinha troco para uma nota de vinte! (pensa um pouco). Em todo caso, toma aí de presente (dá uma nota de dez).

ELISA (contente): – Valeu, tio!

PORTEIRO: – Olhem! A chuva passou!

ELISA: – Bora pegar o busão, gente!

(José chega, sem taxi, e todos se dispersam, apressados).

 

 

SEGUNDO ATO

Casa do professor Henrique Mascarenhas, muito confortavelmente mobiliada. Na mesa onde trabalha há um aparelho de som e um gravador. O coronel Guimarães está sentado diante da mesa, sobre a qual há muitas pastas.

HENRIQUE (fechando a última pasta): – Bem, acho que já lhe mostrei tudo.

CORONEL: – Estou simplesmente deslumbrado. Eu, que sabia distinguir vinte e quatro sons de vogais, sinto-me arrasado diante dos seus cento e trinta sons!

HENRIQUE: – Ah, isso se aprende com a prática, mas… (soa a campainha da porta)

DONA CÂNDIDA (chegando na sala): – Com licença, Professor Henrique, mas suas irmãs estão aí.

HENRIQUE (pondo as mãos na cabeça): – A essa hora?

(As irmãs entram, uma traz um prato envolto num guardanapo.)

HILDA e HORTÊNSIA: – Bom dia, Henrique! (abraçam-no)

HENRIQUE: – Ahn? Ah! Bom dia. (ao ver que elas olham o coronel) Este aqui é meu amigo o coronel Guimarães.

HORTÊNSIA (cumprimenta): – Prazer.

HILDA (cumprimenta): – Como está o senhor?

CORONEL: – Muito prazer, senhoritas!

HENRIQUE: – O que vocês vieram fazer aqui numa hora tão imprópria? Estamos conversando sobre trabalho.

HILDA: – Viemos trazer uma torta que a Mamãe fez para você, mas se você já está nos enxotando, levamos de volta.

HENRIQUE: – Uma torta? Não, não, fiquem um pouco. (soa de novo a campainha)

DONA CÂNDIDA (aparece de novo): – Professor, está aí uma moça querendo falar com o senhor.

HENRIQUE: – Uma moça? O que ela quer?

DONA CÂNDIDA: – Disse que o senhor vai ficar muito contente quando souber o que ela veio fazer aqui.

HENRIQUE: – Ora, por que será? A pronúncia dela é interessante?

DONA CÂNDIDA: – Uma coisa horrível, Professor.

HENRIQUE (ao coronel): – Vamos conhecê-la, não acha? Quem sabe gravamos alguma coisa! (a dona Cândida): – Mande entrar.

(A florista Elisa entra com solenidade, em roupas domingueiras, com um chapéu de palha com uma pena azul, outra amarela e outra vermelha. O coronel se comove diante do aspecto da mocinha.)

HENRIQUE: – Ora, ora! Mas é a florista de ontem! Não me serve de nada. Já anotei o que havia de mais interessante em sua fala. (à menina): – Pode ir indo. Não preciso de você.

HORTÊNSIA: – Mano! Isso é maneira de tratar uma moça? Pelo menos nos apresente a ela.

HENRIQUE: – Vá lá! Essas são minhas irmãs Hilda e Hortênsia, e este é o coronel Guimarães. Pronto. Pode ir andando.

ELISA: – O senhor está é zoando de mim, mas meu dinheiro vale tanto quanto o seu.

HENRIQUE: – Seu dinheiro? Mas para quê?

ELISA: – Eu ouvi ontem o senhor dizê que podia me transformá. Queria trabalhá numa loja de vendê flor, mas ninguém me aceita porque num falo dereito. Mas eu pago.

HENRIQUE: – Quanto?

ELISA: – Ah, falou em prata a conversa muda, né? Se o sinhô fosse um cara inducado me convidava pra sentá.

HENRIQUE (ao coronel): – Que acha, coronel Guimarães? Faço-a sentar ou jogo essa cafajeste pela janela afora?

ELISA (assustada): – Não quero que me chamem dessas coisa. Eu sô di família.

HILDA: – Henrique, como é que você trata a menina desse jeito? Que horror!

HENRIQUE: – Essa coisa?

HORTÊNSIA: – Coisa? Então mulher pra você é coisa, é objeto? (a Hilda): – Vamos embora, Hilda, que esse nosso irmão não tem jeito mesmo.

HILDA: – Machista!

HENRIQUE: – Ei, ei! Mas deixem a torta!

HILDA (sai junto com Hortênsia): – Você já tem torta demais na sua linguagem!

HENRIQUE (enfezado, grita com Elisa): – Sente-se!

(Elisa recua, assustada, mas não se senta.)

CORONEL GUIMARÃES (gentilmente a Elisa): – Tenha a bondade de se sentar.

ELISA (senta-se e olha com gratidão para o coronel): – Obrigada, seu general.

HENRIQUE (mais calmo): – Diga seu nome!

ELISA: – Meu nome, mesmo, nos papel, é Elisoana.

HENRIQUE: – Elisoquê?

ELISA: – Me chamam de Elisa, mas meu pai é Eliseu e minha mãe Joana e quiseram juntar os nomes. Sou Elisoana Garapa.

HENRIQUE: – Miséria de nome!

ELISA: – Não pode caçoá do meu nome, não. E os nome do senhô e de suas irmãs? Seus pais quiseram que os três começasse com a letra Agá, pensa que eu não ouvi? Henrique, Hilda e Hortênsia, pronto!

HENRIQUE: – Cale a boca, menina malcriada.

ELISA: – Eu? Malcriada? Hum…

HENRIQUE: – E quanto você pensa pagar por aula?

ELISA: – Cinco real, e já é muito.

HENRIQUE: – Sóó?

ELISA (quase chorando) – Orra, meu, ocê pensa que eu sou granfa?

CORONEL: – Professor, estou interessado no assunto. Se o senhor conseguir prepará-la para aquela recepção na Embaixada, eu vou proclamá-lo o primeiro professor do mundo! (a Elisa): Não se preocupe, Elisa, eu pago essas aulas.

ELISA: – Muito obrigada, general. O sinhô é um parça às dereita.

HENRIQUE: – Está bem. (Chama a governante): – Dona Cândida! (ela entra) Dê um banho nessa guria, bem esfregado!

ELISA: – Vôte! Não! Eu tô limpinha! (esconde-se atrás do coronel)

DONA CÂNDIDA: – Mas, Professor!

HENRIQUE: – Não quero mas, nem meio mas. E se ela reclamar, dê-lhe uns tapas.

ELISA: – Não! Não! Eu chamo a puliça.

HENRIQUE: – E queime toda a sua roupa e encomende um enxoval para ela na loja da esquina. Vista-a com uma roupa sua, enquanto isso.

CORONEL: – Reflita bem, Professor Mascarenhas.

DONA CÂNDIDA: – É, reflita, Professor. O senhor não pode ficar pisando assim em todo mundo.

HENRIQUE (falando manso): – Meu caro coronel, eu não quero pisar em ninguém. Quero transformar essa garota, ajudá-la a assumir uma nova posição na vida. Para isso, ela ficará morando aqui.

DONA CÂNDIDA: – Mas o senhor vai usá-la para trabalhar com ela, e não lhe vai pagar nada?

HENRIQUE: – Aqui ela terá de tudo: roupa, alimento… e se eu lhe der dinheiro, ela vai gastar em bebida.

ELISA: – Ei! Segura essa marimba aí! Nunca ninguém num me viu de porre, sacô?

DONA CÂNDIDA: – Vamos, Elisa. Eu cuido de você direitinho. (saem)

CORONEL: – Mas, Professor, acha de bom tom ela ficar morando aqui conosco?

HENRIQUE: – Com as melhores intenções. Mesmo porquê, não quero nada com mulheres. São um horror! Cheias de ciúmes e exigências. Se o homem quer ir para o norte, a mulher quer ir para o sul, e fica um puxando o outro, como se brincassem de cabo de guerra. Sou solteirão, e solteirão ficarei até a morte.

CORONEL (muito sério): – Mas já que estou envolvido no caso, sinto-me responsável pela moça. Que não seja tirada nenhuma vantagem de sua situação de dependência.

HENRIQUE: – Dessa coisa? Ora, para mim ela será sagrada. Todas as minhas alunas são como se fossem de madeira, e eu também viro um homem de madeira, pode deixar. (voltam os dois para a mesa de trabalho e olham as pastas.)

DONA CÂNDIDA (entra após alguns instantes): – Pronto, Professor, só que agora eu quero falar com o senhor.

HENRIQUE: – Que foi?

DONA CÂNDIDA: – Quero que o senhor tome cuidado com a linguagem que vai usar junto da moça.

HENRIQUE: – Claro! Mas eu zelo sempre pelo que digo!

DONA CÂNDIDA: – Nem sempre. Com qualquer coisa o senhor fica desbocado.

HENRIQUE: – Está bem. Só isso?

DONA CÂNDIDA: – Não só. Tem também que dar exemplo em maneiras e não descer descalço nem de pijama para tomar café.

HENRIQUE: – Ora essa! Certo. Mas meu pijama, aliás, está cheirando a benzina.

DONA CÂNDIDA: – Pois é, mas se o senhor não usar o pijama como guardanapo…

(Torna a soar a campainha. Dona Cândida sai para abrir a porta.)

DONA CÂNDIDA: – Está aí um carroceiro querendo falar com o senhor. Diz que é o pai da moça.

HENRIQUE: – Pois mande entrar esse patife. (Dona Cândida sai.)

CORONEL: – Ele pode não ser um patife, Professor.

HENRIQUE: – Claro que é.

DONA CÂNDIDA (entra e faz entrar o carroceiro): – Entre, seu Garapa!

GARAPA: – Professô Henrique?

HENRIQUE: – Sou eu. E o senhor quem é?

GARAPA (inclina-se um pouco): – Eliseu Garapa, seu criado. Vim tratá de um causo munto importante.

HENRIQUE (ao coronel): – Esse vem da roça mesmo, Coronel. (a Garapa): – Pois fale.

GARAPA: – Quero sabê si minha fia tá aqui!

HENRIQUE: – Que bom que o senhor tem sentimentos paternais. Ela está aqui, sim, e o senhor pode levá-la imediatamente.

GARAPA (assustado): – Ahn?!

HENRIQUE: – Ou pensa que vou sustentar sua filha?

GARAPA: – Eu sube que o sinhô ensina as pessoa a falá dereito e vai ensiná ela. A fia é minha. Eu empresto ela, e qual é a minha parte nessa confa?

HENRIQUE: – Então o senhor Garapa quer é me extorquir dinheiro. Eu chamo a polícia.

GARAPA: – Mas, por um acauso eu pedi argum dinhero?

CORONEL: – Modere sua linguagem, Professor! (a Garapa): – Como soube que sua filha estava aqui?

GARAPA: – Foi pelo moleque que ela mandou pra buscá as coisinha dela. Eu sube lá no buteco.

HENRIQUE: – Ah, no boteco, tomando umas e outras, não é?

GARAPA: – Que tem isso? Buteco é clube de pobre, seu moço. E eu precisei dá um dinheirão pru mode o moleque me dá as coisa que eu truxe na carroça. Mas fique o sinhô no lugá de um pai, e me diga o que eu podia pensá.

HENRIQUE: – Então você veio salvá-la? Pois pode levá-la já!

GARAPA: – Quem tá quereno levá ela? Eu disse que tava? Eu num quero estragá a carrera da minina, o sinhô num me entendeu? Eu só quero meus dereito de pai; eu empresto minha fia pra servi di aluna pru sinhô e num arrecebo nada? Diga: que qui é cem real pru sinhô?

CORONEL: – Senhor Garapa, as intenções do Professor Mascarenhas são inteiramente honestas.

GARAPA: – Se eu desconfiasse que num era, num pedia cem, pedia duzentos.

HENRIQUE (ao coronel): – No fundo, vejo uma certa justiça primitiva nele, coronel.

CORONEL: – Mas será que é correto dar dinheiro a esse homem?

GARAPA: – Num diga isso, coroné. Eu sô pobre. Quando quero alguma coisa mió, vem sempre arguém dizê: isso num é pru teu bico. E eu preciso me adiverti. Às veiz preciso de musga, ou de um arrasta pé lá na gafiera.

HENRIQUE (ao coronel): – Coronel, se resolvêssemos ensinar esse homem durante três meses, ele poderia dar um notável ministro, um político!

GARAPA: – Muito gardecido, mas num quero. Esse pessoar leva uma vida de cachorro. A mió situação é a minha, de um pobre num necessitado. A gente véve de verdade.

HENRIQUE: – Tem razão. Vou lhe dar quinhentos reais, em vez de cem!

GARAPA: – Tá doido? A muié é capaz de querê inconomizá. Eu só quero me adiverti um poquinho.

HENRIQUE: – Então tome aí seus cem reais.

GARAPA: – Gardecido, seu moço! Inté otra veiz.

(Vai sair mas esbarra em Elisa, que está tão diferente e bem penteada, que ele não a reconhece.)

GARAPA: – Descurpe, moça!

ELISA: – Que é isso, velho? Tá boiando? Sou eu, Elisa!

GARAPA: – Né possíve. Virge Santa!

ELISA: – Pai! Se tu visse como é fácil tomá banho aqui. Tem torneira de água fria, de água quente, escova, sabonete… Por isso que as granfa andam cheirosa!

GARAPA: – Eu já tô saindo, fia. Se acomporte. (a Henrique): – Se o sinhô quisé miorá ela, carece de lhe dar às veiz umas tapona. Inté, minha gente. Eu vorto pra vê ela quarqué dia. (ele sai)

DONA CÂNDIDA: – Elisa, chegaram as roupas. Venha experimentar.

ELISA (saindo com ela): – Beleza!

HENRIQUE (ao coronel): – Coronel Guimarães, que trabalho duro nos espera!

CORONEL: – Hum… Nem é bom pensar.

 

(continua)

 

Havendo interesse em representar a peça, enviaremos o texto completo em PDF. A escola deve solicitar pelo email: institutoruthsalles@gmail.com
Favor informar no pedido o nome da instituição, endereço completo, dados para contato e nome do responsável pelo trabalho.