Quando Adão cavava e Eva fiava

peça de Helmut von Kügelgen

tradução de Maria Bárbara Trommer e versificação e adaptação de Ruth Salles

PERSONAGENS:
Coro de todos.
Mendigo
Anjo
Adão, com o feixe de lenha
Eva, com a roca, o vinho, o pão, a taça
Onze crianças limpinhas (e mais um berço)
Doze molequinhos
Os restantes com instrumentos (optativo)

(Do coro irão saindo as personagens. Terminando suas falas, os que não tiverem que ficar na frente, voltam a ele. O coro deve cantar junto com Eva e, conforme o caso, falar junto com as personagens)

CORO (canta):
“Louvemos Deus, o Senhor do mundo!
Ele nos criou, Ele nos sustenta.
Devemos nós trabalhar a fundo,
e a beleza do trabalho aumenta
se nós amamos o que fazemos,
pois sem amor nós nada temos.
Com a luz do amor no caminho meu,
clareio a terra e clareio o céu,
e conosco segue São Micael.”

ANJO:
– Louvado seja teu nome, Senhor dos Céus,
Criador da lua, das estrelas e do amoroso sol!
Tu criaste o homem, Senhor,
e o encarregaste
de cuidar de tua obra no mundo!
Ele está um pouco abaixo dos anjos,
e aos seus pés estão as pedras e as flores
e também as vacas que vivem nos pastos
e as aves debaixo do céu
e os peixes no mar.
Que o homem cuide bem de tua obra na terra,
ó Senhor dos Céus!

EVA (fiando ao lado do berço):
-Ó criancinha tão querida,
o vento sopra de corrida,
as folhas secas arrastando
e a poeira levantando.
É o outono, que vai passando.
O paizinho já vem chegando,
vem chegando pelo caminho.
Dorme, dorme, meu filhinho.
(ela canta):
“Filhinho, dorme bem.
Há sono em teu sorriso…
De um jardim eu sei
chamado Paraíso.
Os anjos lá esperam
no eterno lar sem fim.
Duas árvores cresceram
no centro do jardim.
De uma me esqueci,
da outra me lembrei,
pois muito eu sofri
porque a desprezei.
O bem e o mal agora eu sei
– oh fruto doce e azedo! –
Mas com amor me salvarei
do mal deste degredo.
Eu sei de um jardim
com Deus a me esperar.
Vencendo a morte, enfim,
iremos para lá.”
(Eva fica de pé e fala):
– Agora dorme o pobrezinho…
Para o marido e os filhinhos,
já preparei o queijo e o pão.
Vamos fazer a refeição.

ADÃO (entra com passos pesados e um feixe de lenha nas costas):
– Benza Deus, Eva querida.
Que bom é chegar aqui
nesta casinha aquecida.
Eu derrubei o pinheiro
e agora estou com sede
de beber um jarro inteiro!
Onde estão nossos filhinhos?
Chama aqui os marotinhos!

EVA:
– Antes, repõe tuas forças.
Come este pão, bebe o vinho.
Depois chamo os tagarelas,
os barulhentos filhinhos.

ADÃO:
– Não tens uma erva boa
que cure a tagarelice?
Tu os ensinaste a falar…
Falam tanto… Eu bem te disse!

EVA:
– Adão, devemos rezar.

ADÃO e EVA (de mãos postas):
– Agradecemos a comida,
e a bebida agradecemos,
e teu amor, que recebemos,
ó Senhor, que tanto nos deste
lá da alta amplidão celeste.

ADÃO (após começar a comer, pensativo):
– Hoje eu senti, por uns momentos,
como se Deus se aproximasse.

ANJO (aparecendo):
– Eva e Adão, ficai atentos,
porque hoje vereis a face
do Criador. Ele virá.
De mendigo se vestirá. (o anjo sai.)

EVA:
– Este casebre pequenino
será que agrada ao Ser divino?

ADÃO:
– Se como um pobre ele virá…
Um pobre, Eva! Pois então
é grande a sua compaixão.
Em toda forma de homem que há
ele pode se revelar:
como amigo, como inimigo,
velho ou moço, se desejar.

EVA:
– Vamos deixar, naturalmente,
os nossos filhos recebê-lo.
Porém só os inteligentes,
encantadores, bons e belos.
Os que são brutos, os raivosos,
os briguentos e os teimosos,
que vivem metidos na lama,
eu escondo embaixo da cama.

ADÃO:
– É uma boa idéia essa.
Crianças! Vinde aqui depressa!

(Entram doze sujos, fazendo barulho, e onze limpinhos mais sossegados.)

EVA:
– Quietinhos, já, seus barulhentos!
Fiquem atentos um momento! (todos se aquietam)

ADÃO:
– Vai chegar logo um visitante
muito querido e importante.
Recebei-o com devoção
e sem fazer malcriação.

EVA:
– Mas, os que estão sujos de lama,
vão ficar debaixo da cama,
ou então correr para o estábulo.
Lá onde a palha eu armazeno,
metei-vos debaixo do feno!
Tu (aponta um), cobre-te com o couro fino
com que fazemos o calçado.
Tu (aponta outro), fica debaixo da tina
ou escondido no telhado.
Tu (aponta outro), no forno ou dentro do armário.
Tu (aponta outro), sob o linho do vestuário.

(Assim que os sujinhos somem, ouvem-se batidas na porta. Entra o mendigo.)

ADÃO:
– Senhor e Pai, queiras entrar!
Bem-vindo sejas a este lar!

EVA:
– Louvemos Deus, o Criador,
que nos sustenta com amor.
Deveis saudá-lo, meus filhinhos!

1ª CRIANÇA (oferecendo o pão):
– Veio da terra o nosso pão.
Nós te damos de coração.

2ª CRIANÇA (oferecendo a taça com vinho):
– Este vinho o sol adoçou.
É a bebida que te dou.

MENDIGO:
– Eu agradeço o pão e o vinho
dos grandes e dos pequeninos.
A casa é limpa e bem cuidada,
filhos amáveis… Isso agrada.
Vou a todos abençoar
e do futuro vos falar. (vai pondo a mão em cada criança)
Como rei serás coroado.
Tu serás um bispo da paz.
Tu, cavaleiro nobre e honrado,
os teus homens conduzirás.
Tu, a ciência vais ampliar.
Tu, a doença vais curar.
Serás artista. E tu, cantor.
Tu, poeta. E tu, magistrado.
E tu, juiz de bom valor.
Tu, escrivão conceituado.
E tu, no berço aí dormindo,
um professor do bom ensino.

EVA:
– Agradecemos teus cuidados
com nossos filhos bem amados.
Mas… e as crianças escondidas?
O que será de suas vidas?

MENDIGO:
– Tu as escondeste de alguém
que pode ver tudo tão bem…
Pensaste que fui enganado?

ADÃO:
– Também achei que isso era errado…

EVA:
– Foi por amor que os escondemos,
para que não fizessem danos,
mas com eles nos preocupamos.
MENDIGO:
– Pois vejamos todos que temos!

ADÃO:
– Vinde, meninos e meninas!
Saí do estábulo e das tinas!

EVA:
– Saí do forno e do telhado!
Vinde e ficai do nosso lado!
Saí debaixo desse linho
e desse couro, meus filhinhos!

ADÃO (pondo, com dificuldade, as crianças em fila.):
– Cumprimentai amavelmente
este Senhor na vossa frente.
Há muito que ele vos conhece.

MENDIGO:
– Como são rudes e levados!
Minha imagem neles parece
algo encoberto e deturpado.
Eu darei a estes meninos
um trabalho compensador,
que freie a força do destino,
que dê esperança e dê fervor.

CRIANÇAS:
– Nós gostamos muito da terra,
das maravilhas que ela encerra.

MENDIGO (pondo a mão na cabeça de cada um):
– Tu os campos cultivarás.
Tu, como esposa dedicada,
junto ao fogão cozinharás.
Tu farás serviço pesado.
E tu, o ferro forjarás.
Tu serás boa costureira.
Tu serás um pastor de ovelhas
e de gado. Tu vais copiar
o que os sábios queiram ditar.
Tu hás de ser um marinheiro
ou pescador. E tu, padeiro.
Quanto a ti, hás de obedecer
ao senhor com os teus filhinhos.
Serás soldado de teu rei.
E tu serás um sapateiro.

EVA:
– Ah, és injusto, meu Senhor!
Fazes um pobre, o outro rico,
um o servo, o outro o senhor.
É assim então que divides
as bênçãos que tens para dar
à crianças de um mesmo lar?

ADÃO:
– E não foi nisso que pensaste
quando os moleques separaste?

MENDIGO:
– Eva, no reino celestial,
eu amo a todos por igual.
Porém na terra é diferente.
Cada homem tem um destino:
um é grande, outro pequenino.
A justiça é o meu reinado.
Lá todos vós, postos à frente
do juiz, sereis igualados.
Porém, ao trabalhar aqui,
deveis agir com alegria,
sempre dando o melhor de si,
agradecendo a seu irmão
a sua ajuda todo dia.
Que cada um faça o que sabe,
assim como a cabeça e o pé,
o estômago e a mão ligeira
fazem aquilo que lhes cabe,
para servir ao corpo inteiro.
Um pensa, um manda, um obedece,
um corre, um julga, um canta, um tece.
um pinta, o outro escreve versos.
São trabalhos os mais diversos
que, quando feitos com amor,
ficam mais belos, têm valor.
Sem amor, o nosso caminho,
fica pobre, pequenininho.

EVA:
– Ah, tu sabes o que é melhor…
Vamos, crianças, preparemos
uma festa para o Senhor.
As lanternas acenderemos.
Ide com elas caminhar.

ADÃO:
– Como um mendigo, Deus chegou
e a cada um ele ofertou
a graça de uma profissão,
e assim todos servirão.
(ao público):
– Ó tu, e tu, e todos vós!
Vigiai assim como nós
este pequenino clarão.
Ele é o amor no coração!

(As lanternas são acesas, e todos saem cantando a canção do iníci0)

 

 

 

 

FIM