Quando um muro uniu as pessoas

A história da pintura do muro da escola EMEI Dr. José Calumby Filho

por Maria Aparecidado Nascimento Dias

Maria Aparecida Calumbi em tupi guarani é o nome de uma planta e é também a junção de leite materno. E se a gente está numa escola de Educação Infantil, então, está tudo certo.

Quando a escola ficou pronta para começar a se estruturar, quando o prédio ficou pronto, começamos a ter uma preocupação com o muro, porque quando deu a primeira alisada no cimento, já apareceu uma coisa lá escrita. Eu disse: “Ai, meu Deus do Céu, quando pintar aquilo ali de branco, bonitinho, vai ser um convite a vir essas inscrições que a gente não gosta”. Pensamos assim: Quem será que fez isso? Então, pedimos a uma pessoa do grupo para descobrir quem era aquele que pichou, porque queríamos convidá-lo para vir pintar com a gente.

Descobrimos e levantou-se a ponta da toalha de um mundo de jovens que vivem muito sofridos socialmente e que tem um grande potencial artístico e volitivo de pintar o mundo do jeito deles. Acabou que a gente chegou num projeto na vara de justiça da família. Esses meninos tinham algumas questões e estavam sendo orientados, aconselhados pela juíza. Então, chamamos a juíza também e se formou um grupo. A Secretaria de Educação tinha um projeto de grafitismo, que era um projeto educativo para saber quem são esses meninos, como é que eles estão na escola.

Enfim, esse grupo foi aumentando. Tinha o desejo dos professores que estavam em formação e que iam assumir a escola, tinha a Secretaria de Educação com esse projeto que buscava esses meninos envolvidos com essa forma de pintura não autorizada, a juíza e o Instituto Micael. A gente começou a pensar no que fazer para estar todo mundo junto. E a escola, de fato, começou ali, no muro. E o muro foi que ensinou a gente. O muro uniu as pessoas. O muro não separou.

Foi construído um projeto patrocinado pelo Senac, representado pelo professor Elias. E aí, se juntou todo mundo: o professor Elias Santos, que é um excelente artista de obras grandes, que trouxe alunos dele da Universidade Tiradentes, o professor Américo, da Universidade Federal de Sergipe, que também trouxe seus alunos, os professores que iam assumir a escola, e que trouxeram suas famílias, quem foi do Instituto Micael também levou suas famílias, a juíza, e todos do projeto grafitismo da Secretaria de Educação. Nisso, juntou um número de mais ou menos trinta e cinco pessoas para o primeiro dia.

Só que antes do primeiro dia de prática lá, nos reunimos durante três dias no Instituto Micael pra gente se conhecer. E esses meninos foram convidados e vieram, com a orientação da juíza, e foi muito bom.

No primeiro dia, queríamos contar a eles o que é que a gente queria no muro. A gente queria trazer uma imagem que a criança pequena quando chegasse, dissesse: “Aqui é a minha escola! Oh, que coisa linda! Tem aquilo, tem aquilo outro!”, e a criança se encantasse. Que já fôssemos preparando o ambiente, uma atmosfera no lugar, de imagens para essa criança. Aí, contamos para eles como era a imagem que a gente, como professora, via de uma criança pequena. O primeiro dia foi só briga, porque é muito delicado você entrar assim na arte do outro, na capacidade dele. E ninguém estava entrando, jamais para mandar, jamais para pedir alguma coisa. A gente estava dizendo qual era o nosso desejo. E para eles, nós os estávamos chamando para virem fazer à luz do dia, junto com todo mundo, usando as mãos da gente como ferramenta para ajudá-los a pintar, porque no total eram duzentos e dez metros lineares de muro. Então, se você fizer o cálculo aí, que eu não sei a altura, por aí você vê. E que a gente não usasse a cor preta. Dissemos que para uma criança pequena era muito doloroso ver imagens de tragédias humanas, porque de verdade, ela já vive um pouco isso, então, devemos trazer para ela um outro mundo mais imaginativo da primeira infância.

No segundo dia tudo se acalmou. Fixamos um papel craft bem comprido na parede do auditório e ensaiamos como se fosse o muro. Cada qual tinha o seu espaço. E qual era a imagem? Que a gente contemplasse situações da vida cotidiana, crianças cadeirantes, com necessidades especiais, todos os tipos de cor, todo tipo de cabelo, porque é todo mundo diferente e é todo mundo igual. Então, a gente foi num domingo. Fizemos uma faxina lá no barracão da obra e o transformamos, tiramos tudo o que era da obra, com a ajuda do senhor Gal, que era o mestre. Fizemos ali como se fosse um grande atelier para guardarmos todo o material artístico e também servir de local para a gente comer. Pintamos lá sem água. Quando a gente queria água, tinha que dar uma volta enorme. Imagine pintar uma parede como uma aquarela! Cada qual recebeu o seu quadro no muro, o seu espaço e o combinado no planejamento era que cada um usasse o elemento artístico, a cor, e que um desenho entrasse no desenho do outro, sem invadir, respeitando, mas que mostrasse que todo mundo estava unido.

Aconteceu em três domingos. No primeiro, juntou gente da comunidade também. Daí, veio um homem muito, muito, muito bêbado, e falou: “Eu quero trazer o caderno do meu filho aqui para mostrar como ele desenha bem.” A gente disse a ele: “Não traga o caderno do seu filho. Traga o filho, chame ele para pintar.” Aí, o menino veio e pintou com a gente. E não sei mais quantas outras crianças, porque dali a pouco aparecia um e dizia: “Eu posso botar um verso?” “Eu posso desenhar uma coisa?” E acabou que o professor Elias colocava o papel no chão e marcava: “Você vai desenhar aqui!” E aí o menino ia e desenhava. E assim se repetiu e em três domingos de muita coragem e de muita alegria. O muro ficou lindo! Está lá pintado e não está sujo até hoje. Uma família nos presenteou com um jardim. Plantou flores num canto, ao pé do muro. E está lá.

E a gente viu que esses meninos, os grafiteiros, são geniais! Tinha um que pegava o celular, com uma foto no celular, ia lá no muro e desenhava a imagem bem grande, como a de uma criança que a gente passa e parece que a imagem nos acompanha com os olhos. A gente também ficou feliz de conviver com eles no espaço da legalidade, com um material bom e uma grande parceria. O muro uniu todo mundo. E a aula começou ali. Ali a aula começou de fato, naquele lugar e para aquelas pessoas.

Rubens – E faz quanto tempo isso?

Maria Aparecida – Três anos. O que está esmaecido é do Sol. Eu fiz um desenho e achei difícil fazer essa ampliação tão grande. Daí, chamei o grafiteiro, que foi lá e me ajudou. E todo mundo fez. No meu espaço Paulo, Júlia e eu que pintamos. E os grandes parceiros, depois que consolidava a parceria, a gente falava: “Agora, faça um desenho também. O que você gostaria que uma criança pequena visse quando ela fosse para a escola?” Então, a imagem da juíza está lá. É a imagem de uma criança com os braços abertos e um passarinho na cabeça. Está bem na esquina, inclusive foi uma criança que serviu de modelo.

Rubens – Uma linda história! É um caso de exemplaridade de como vocês entraram numa comunidade como essa com uma imagem completamente diferente.

Maria Aparecida – Exatamente. Educativa. Primeiro, respeito aos grafiteiros, que são jovens que procuram uma oportunidade. Eles têm uma genialidade artística muito, muito, muito especial, que a gente com essa vida toda intelectual fica se batendo para criar uma imagem, um desenho. E eles chegam e já fazem. Ao mesmo tempo dá uma pena muito grande, pois eles vivem uma vida paralela. Eles deviam ter uma oportunidade para esses talentos. Depois até o Senac fez algumas coisas para apoiá-los depois do projeto. Foi muito bacana. Eu tenho muita gratidão a todas as pessoas. No primeiro dia foi uma média de trinta e cinco pessoas que foram lá no sol. No último dia, o “dono do bairro” foi lá dizer quem é que mandava ali. Respondemos a ele: “A gente só é professor aqui. Se o senhor tiver criança, venha, mande a criança, porque professor é o que a gente é. A gente não está aqui para atrapalhar nada de ninguém.” Essa é a vida real. Esse é o papel da escola numa comunidade. Não pode chegar de fora com leis e com medo. Foi isso que a gente aprendeu lá. E para mim, o começo da escola foi ali.

 

 

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