Rosa Branca e Rosa Vermelha

conto dos Irmãos Grimm

tradução de Renate Kaufmann
revisão de Ruth Salles

Uma pobre viúva morava numa pequena choupana isolada. Na frente da choupana havia um jardim com duas roseiras. Uma dava rosas brancas, e a outra, rosas vermelhas. A viúva tinha duas filhas, que se pareciam com as roseiras: uma se chamava Rosa Branca, e a outra, Rosa Vermelha. Ambas eram tão dóceis e boas, tão trabalhadeiras e pacientes, que seria difícil haver irmãs iguais no mundo.

Rosa Branca era mais quietinha e meiga que Rosa Vermelha. Rosa Vermelha gostava de saltar pelos prados e pelos campos em volta, de apanhar flores e ovos de passarinhos; Rosa Branca, porém, preferia ficar com sua mãe, ajudando-a nos trabalhos de casa ou lendo para ela, quando não havia o que fazer. As duas meninas gostavam tanto uma da outra que, quando saíam juntas iam sempre de mãos dadas.

Rosa Branca dizia:

– Jamais nos separaremos.

E Rosa-Vermelha respondia:

– Nunca, enquanto vivermos.

E a mãe acrescentava:

– O que uma tiver deve repartir com a outra.

Muitas vezes elas andavam sozinhas pelo bosque, colhendo frutinhas silvestres, mas nenhum animal lhes causava dano. A lebre vinha comer uma folha de couve de suas mãos; a corça pastava a seu lado, o cervo saltava alegre em volta delas, e os passarinhos ficavam pousados nos galhos e cantavam, como só eles sabiam cantar. Nada de mal lhes acontecia; se elas se demoravam no bosque e a noite caía, as duas se deitavam juntinhas sobre a relva e dormiam até a manhã seguinte, e a mãe sabia e não se preocupava.

Certa vez, quando elas dormiram no bosque e acordaram com o nascer do sol, viram uma linda criança com uma roupinha branca e luminosa sentada a seu lado. A criança se levantou, olhou para as duas com carinho e, sem dizer nada, sumiu no mato.

Quando as meninas olharam em volta, viram que tinham dormido bem perto de um precipício e que, se tivessem dado mais dois passos na escuridão, teriam caído.

Sua mãe lhes disse que devia ter sido o anjo que toma conta das boas crianças.

Rosa Branca e Rosa Vermelha mantinham a choupana da mãe tão limpa que dava gosto de ver. No verão, Rosa Vermelha cuidava da casa e, antes que a mãe acordasse, punha diante de sua cama um ramo de flores, onde havia sempre uma rosa de cada roseira. No inverno, Rosa Branca acendia o fogo e pendurava o caldeirão no gancho sobre as chamas. O caldeirão era de cobre, mas brilhava como ouro, de tão polido.

Ao anoitecer, quando a neve caía, a mãe dizia:

– Rosa Branca, vá passar o ferrolho na porta.

E as três se sentavam junto à lareira, a mãe punha os óculos e lia um livro grande, e as meninas, enquanto ouviam, fiavam. A seu lado, no chão, se deitava um cordeirinho, e atrás dele ficava uma pombinha pousada num poleiro, com a cabeça metida entre as asas.

Numa noite em que as três estavam assim reunidas, alguém bateu na porta como se quisesse entrar.

A mãe disse:

– Rosa Vermelha, abra depressa a porta. Pode ser um viajante em busca de abrigo.

Rosa Vermelha abriu o ferrolho, pensando que era um pobre homem, mas não era, era um urso, que meteu sua grande cabeça preta na fresta da porta. Rosa Vermelha deu um grito e saltou para trás; o cordeirinho começou a balir, a pombinha bateu as asas e Rosa Branca se escondeu atrás da cama da mãe. O urso, porém, começou a falar e disse:

– Não tenham medo. Eu não lhes farei mal algum. Estou meio congelado e queria me esquentar um pouco aqui com vocês.

– Meu pobre urso – disse a mãe – deite-se perto do fogo e tome cuidado para não queimar seu pelo.

E ela chamou:

– Rosa Branca e Rosa Vermelha, venham para cá. O urso não lhes fará mal, ele é bom.

Então elas chegaram perto, e o cordeirinho e a pombinha também se aproximaram aos poucos e não tinham medo dele.

O urso disse:

– Meninas, tirem um pouco da neve que está no meu pelo.

Elas foram buscar a vassoura e o varreram muito bem. Ele se estendeu junto do fogo e grunhiu satisfeito e sossegado. Em pouco tempo, elas se acostumaram com ele e fizeram mil travessuras com o desajeitado hóspede. Puxavam seu pelo, punham os pezinhos em suas costas, rolavam-no de um lado para o outro, ou batiam nele com uma varinha de avelaneira. E, quando ele grunhia, elas riam. O urso se submetia a tudo de boa vontade. Só quando elas exageravam é que ele dizia:

– Cuidado com a minha vida, crianças!

E dizia ainda:

– Rosinhas, Rosinhas, é bom parar,

ou ao seu noivo irão matar.

Ao chegar a hora de todos se acomodarem para dormir, a mãe disse ao urso:

– Você pode ficar, em nome de Deus, deitado perto da lareira; assim estará protegido do frio e do mau tempo.

Assim que amanheceu, as meninas lhe abriram a porta, e ele, trotando na neve, entrou no bosque. Daí por diante, o urso vinha toda noite à mesma hora, deitava-se perto da lareira e deixava que as crianças se divertissem com ele o quanto quisessem; e elas se acostumaram tanto com ele que não passavam o ferrolho na porta enquanto seu amigo, o urso preto, não chegasse.

Quando chegou a primavera, e tudo estava verde lá fora, o urso disse certa manhã a Rosa Branca:

– Agora, preciso ir embora e não posso voltar até o fim do verão.

Rosa Branca perguntou:

– Aonde você vai, querido urso?

– Preciso ir ao bosque e proteger meu tesouro dos maus anões. No inverno, quando a terra está congelada, eles ficam lá em baixo, em suas tocas, e não conseguem sair, mas agora, que o sol derreteu a neve e aqueceu a terra, eles abrem caminho e sobem para fora, indo em busca do que possam roubar. O que cai em suas mãos e vai parar dentro de suas tocas, não volta facilmente à luz do dia.

Rosa Branca ficou muito triste com a despedida. Ao abrir a porta para o urso, este, ao sair, enganchou o pelo no ferrolho e perdeu um pedacinho dele. Rosa Branca teve a impressão de ter visto um brilho dourado, mas não teve certeza. O urso se afastou depressa e logo desapareceu entre as árvores.

Algum tempo depois, a mãe mandou as filhas irem ao bosque juntar lenha miúda. As meninas encontraram lá uma grande árvore caída e, junto ao tronco, alguma coisa pulava para lá e para cá no meio da relva, mas as duas não conseguiram distinguir o que era. Chegando mais perto, viram que era um anão com cara enrugada de velho e uma barba comprida, branca como a neve. A ponta da barba estava presa numa fenda da árvore. O anão pulava como um cãozinho preso por uma corda, sem saber como se soltar. Cravando nas meninas uns olhos vermelhos e flamejantes, gritou:

– Por que vocês ficam aí paradas? Não podem me ajudar?

– Que é que você andou fazendo, homenzinho? perguntou Rosa Vermelha.

O anão respondeu:

– Sua boba curiosa! Eu quis partir o tronco, para ter lenha miúda na cozinha. A lenha grande logo queima o pouco de comida que gente como nós necessita. Não somos, como vocês, pessoas grosseiras e insaciáveis que engolem quantidades enormes. Eu tinha já metido a cunha na árvore, e tudo ia correr bem. Mas a danada da madeira era lisa demais e saltou quando eu menos esperava. Nem pude puxar a tempo minha linda barba branca. Ela ficou presa, e não posso sair daqui. E vocês ainda riem, suas bobas? Cruzes, como vocês são feias!

As meninas se esforçaram o mais que puderam, mas não houve jeito de soltarem a barba; estava muito presa.

– Vou buscar mais gente – sugeriu Rosa Vermelha.

O anão resmungou:

– Estão loucas? Buscar mais gente! Para mim, vocês duas já são demais. Não têm ideia melhor?

– Não fique impaciente. Vou dar um jeito. – disse Rosa Branca.

E, tirando a tesourinha do bolso, cortou a ponta da barba. Assim que o anão se viu solto, agarrou um saco cheio de ouro que estava metido entre as raízes da árvore e, puxando-o, murmurou consigo mesmo:

– Raios as partam. Que grosseiras! Cortarem desse jeito minha linda barba!

Pôs o saco às costas e saiu andando, sem nem olhar para as duas meninas.

Algum tempo depois, Rosa Branca e Rosa Vermelha tiveram vontade de comer peixe e saíram então para pescar. Chegando perto do rio, avistaram uma coisa parecida com um gafanhoto grande, que pulava parecendo querer atirar-se na água. Aproximaram-se, correndo, e viram que era o anão.

Rosa Vermelha perguntou:

– Aonde você vai? Pretende mergulhar no rio?

O anão gritou:

– Não sou tão imbecil. Você não vê que o danado do peixe está me arrastando?

O homenzinho estava pescando, mas, por azar, o vento embaraçou sua barba na linha; foi então que um peixe grande mordeu a isca, e o anão era muito fraco para puxá-lo. Em vez disso, era a força do peixe que arrastava o anãozinho para a água. É verdade que ele se agarrava no capim e nos bambus, mas isso pouco lhe adiantava. Era obrigado a seguir os movimentos do peixe, correndo o perigo de ser puxado para dentro do rio. As meninas chegaram a tempo. Seguraram-no com firmeza e tentaram soltar sua barba, mas foi em vão; barba e linha estavam fortemente emaranhadas uma na outra. Não houve outro jeito senão recorrer de novo à tesoura e cortar mais um pedacinho da barba. Quando o anão viu isso, gritou:

– Estúpidas! Que costume é esse que vocês têm de estragar o rosto de uma pessoa? Não foi bastante terem cortado no outro dia a ponta de minha barba, e agora tiram o mais belo pedaço dela? Assim, nem posso me apresentar diante de minha gente. Tomara que vocês tenham de caminhar muito e percam a sola dos sapatos!

E, depois de apanhar um saco com pérolas que estava entre os caniços, foi embora sem dizer mais nada e desapareceu atrás de uma pedra.

Passaram-se mais uns dias, e a mãe mandou as duas irmãzinhas irem à cidade para comprar linha, agulhas e fitas. O caminho passava por um descampado, onde havia enormes rochas espalhadas aqui e ali. Nisto, elas avistaram uma ave grande que, voando em círculos, descia cada vez mais, até que pousou bem perto das meninas, junto de uma das pedras. Em seguida, ouviu-se um grito de aflição. As irmãs correram para lá e, horrorizadas, viram que a águia tinha agarrado seu velho conhecido, o anão, e ia levá-lo pelos ares. Elas logo seguraram o homenzinho com todas as suas forças e tanto lutaram com a águia que ela soltou sua presa.

Já refeito do susto, o anão gritou com voz estridente:

– Não podiam ter sido mais delicadas? Tanto puxaram meu belo casaquinho que ele ficou todo rasgado e esburacado. Umas imprestáveis e desajeitadas, é o que vocês são!

E, apanhando um saco com pedras preciosas, meteu-se em sua toca debaixo das pedras. As meninas, acostumadas com sua ingratidão, seguiram seu caminho e fizeram as compras na cidade. De volta para casa, ao passarem de novo pelo descampado surpreenderam o anão espalhando, num lugar limpo, o conteúdo do saco, certo de que àquela hora tardia ninguém ia passar por ali. O sol poente lançava seus raios sobre as pedras brilhantes, e estas cintilavam tão lindamente e em tantas cores, que as meninas pararam para contemplá-las.

O rosto acinzentado do anão ficou vermelho de raiva, e ele gritou:

– Por que vocês estão aí paradas, de boca aberta?

E já ia continuar com seus desaforos quando se ouviu um grunhido forte, e um urso preto apareceu, saindo do bosque. Aterrorizado, o anão deu um pulo, mas o urso o alcançou antes que ele se metesse em seu esconderijo. O anão suplicou, muito aflito:

– Querido senhor urso, poupe minha vida, que eu lhe darei todo o meu tesouro, olhe só estas lindas pedras preciosas que estão no chão! Não me mate! De que lhe serve um sujeitinho tão fraco e pequeno como eu? Seus dentes nem me sentiriam. Essas duas meninas aí, gordas como pombinhas novas, são mais gostosas para você. Coma-as, em nome de Deus!

O urso não deu importância àquelas palavras e, com uma única patada, derrubou a malvada criatura, que não se mexeu mais.

As meninas saíram correndo, mas o urso as chamou:

– Rosa Branca, Rosa Vermelha, não tenham medo, esperem que eu vou com vocês.

Elas reconheceram a voz e pararam; de repente, quando ele chegou perto, sua pele de urso caiu, e apareceu diante das duas um belo jovem vestindo um traje dourado.

– Eu sou um filho de rei – disse ele – e este perverso anão me havia enfeitiçado, roubando meus tesouros e condenando-me a vagar pelo bosque sob o aspecto de um urso selvagem. Só quando ele morresse eu me poderia libertar. Agora ele recebeu seu castigo merecido.

Rosa Branca se casou com o filho de rei, e Rosa Vermelha com seu irmão. Eles repartiram o grande tesouro que o anão havia acumulado em sua toca. A velha mãe ainda viveu muitos anos, tranquila e feliz junto das filhas. Levou consigo as duas roseiras, plantou-as diante de sua janela, e elas continuam dando, todo ano, as mais belas rosas, brancas e vermelhas.

 

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