São Cristóvão

peça de Ruth Salles

Peça baseada na lenda tal como foi narrada no livro A Luz do Sol, de Caroline von Heydebrand9. O gigante Cristóvão quer servir o senhor mais poderoso do mundo e sai à sua procura. Primeiro encontra um rei… Música em escala pentatônica.

PERSONAGENS:
Coro A, Coro B, São Cristóvão, Rei, Soldado, Diabo, Eremita, Anjo, pessoas que Cristóvão ajuda a passar o rio, Menino.

TODOS (entram cantando):
“Oh, que rio caudaloso
devo atravessar!
Não há ponte sobre ele.
Como vou passar?
São Cristóvão, São Cristóvão,
venha me levar!”

CORO A (fala, enquanto São Cristóvão vai caminhando):
– Era uma vez um bom gigante.
Era tão grande a criatura
que tinha oito metros de altura.
De rosto alegre, saiu andando
e pelo mundo ia pensando:

CRISTÓVÃO:
– O mundo todo vou percorrer,
a perguntar, a procurar
qual o senhor com mais poder.

REI (surge na sua frente):
– Neste país, sou o Rei!
Tenho sob meu poder
muita terra, muita gente!

CRISTÓVÃO:
– Então só posso querer
servir o Rei fielmente.

REI:
– Um gigante a meu serviço?
Fico bem feliz com isso!

CORO B (enquanto Cristóvão trabalha com a enxada):
– O gigante trabalhou,
e assim o tempo passou.

SOLDADO (entra correndo):
– Meu rei, bem junto ao portão
houve uma briga terrível
que consegui apartar.
Porém quase que me acabo
nessa briga dos diabos!

REI (faz o sinal da cruz):
– Cruz credo, meu bom soldado!

CRISTÓVÃO:
– Majestade, que quer dizer
esse gesto todo cruzado
que o senhor acaba de fazer?

REI:
– Sempre que o nome do diabo
diante de mim é pronunciado,
eu me benzo com esse sinal,
e o diabo não me faz mal.
Ele foge. E só assim
não terá poder sobre mim.

CRISTÓVÃO:
– Então a força que o diabo tem
é maior que a força do Rei?!
Se ele é tão forte e poderoso,
com certeza o encontrarei.
Eu quero servir a quem tem
um poder maior que o do Rei. (O rei sai.)

CORO A (enquanto Cristóvão vai andando):
– E o gigante caminhava
à procura do Maligno,
e viu uma cavalgada.
Um cavaleiro terrível
de seu cavalo saltou
e dele se aproximou.

DIABO (aparecendo):
– Você procura por quem?

CRISTÓVÃO:
– Procuro pelo diabo,
que tem poder comprovado.

DIABO:
– Sou eu. Não há quem me aguente!
Eu domino muita gente!

CRISTÓVÃO:
– Então eu só posso querer
servir o diabo fielmente.

CORO B (enquanto os dois caminham):
– O diabo e o gigante
vão seguindo pela estrada,
mas na curva logo adiante
havia uma cruz fincada.

CRISTÓVÃO (vendo que o diabo se desvia da cruz):
– Por que o senhor se desvia
do caminho que seguia?

DIABO:
– É que fico apavorado
vendo o símbolo da cruz
onde Cristo foi pregado.

CRISTÓVÃO:
– Ah, senhor, então é isto?
Vendo o símbolo de Cristo,
o diabo tem que fugir?
Se Cristo tem mais poder,
então só posso querer
a esse Cristo servir. (O diabo sai correndo.)

CORO A (enquanto Cristóvão caminha):
– O gigante andou, andou,
até que um dia encontrou
um eremita bondoso.
E ele ensinou que Cristo
era um senhor poderoso,
e rei de tudo que existe.

EREMITA (aparece e fala com Cristóvão):
– Quem quiser servir a Cristo
deve rezar e jejuar.

CRISTÓVÃO:
– Eu não posso jejuar
e nem sei como rezar.
Mas, senhor, deve existir
outro modo de servir.

EREMITA (aponta o rio):
– Pois bem, nesse rio fundo
não há nem prancha, nem ponte.
Mas você, sendo um gigante,
pondo as pessoas ao ombro,
pode, com força e coragem,
levá-las à outra margem.

CRISTÓVÃO:
– Farei isso com amor
por Cristo Nosso Senhor.

ANJO (aparece e abençoa Cristóvão):
– A um trabalho bem pesado
você agora se entrega.
E eu o batizo de Óforo,
pois Óforo quer dizer (solenemente)
aquele que carrega. (O anjo sai.)

CORO B (enquanto Cristóvão vai carregando umas três pessoas):
– Óforo à beira d’água
muita gente carregava
de um lado ao outro lado,
apoiado em seu cajado.
Certa noite… bem cansado…
foi dormir, mas de repente
ouviu ao longe um chamado.

MENINO:
– Óforo! Óforo!
CORO B (enquanto a cena se passa):
– Ele depressa atendeu.
Porém, não vendo ninguém,
foi se novo se deitar.
E, pela segunda vez,
ouviu uma voz chamar.

MENINO:
– Óforo! Óforo!

CORO A (enquanto a cena se passa):
– Ele depressa atendeu.
Porém, não vendo ninguém,
foi de novo se deitar.
E, pela terceira vez,
ouviu uma voz chamar.

MENINO:
– Óforo! Óforo!

CORO B (enquanto a cena se passa):
– Óforo correu e olhou
e finalmente encontrou
um menino que o chamava.
Ele o levantou nos ombros
e, apoiado em seu cajado,
entrou no rio agitado.

CORO A (enquanto a cena se passa):
– A água subiu, subiu,
e Óforo continuava.
E pouco a pouco sentiu
como o menino pesava.
Bem no meio da corrente
pensou que já se afogava.
A água subia sempre,
e o menino mais pesava.

CRISTÓVÃO:
– Ai, menino, você pesa
como se fosse de chumbo,
como se eu levasse ao ombro
o próprio peso do mundo.

MENINO:
– Você leva mais que o mundo.
Leva Aquele que o criou.
Mergulhe n’água, mergulhe,
pois sou seu Rei e seu Deus,
Jesus Cristo, seu Senhor. (Força-o para baixo e fala solenemente)
Eu o batizo em nome do Pai,
do Filho e do Espírito Santo.
Antes seu nome era Óforo.
Mas, tendo me carregado,
seu nome agora é Cristóforo.
Você plante seu cajado
dentro da terra, bem fundo.
Assim será revelado
o meu poder absoluto.
Pois amanhã seu cajado
dará flor e dará fruto. (O menino sai.)

CORO B (enquanto Cristóvão planta o cajado, vai dormir e depois se levanta):
– Cristóforo obedeceu…
E assim que a noite passou…
o milagre aconteceu.
E então, com muito amor, (Cristóvão se ajoelha)
Cristóforo agradeceu
a Cristo Nosso Senhor
o dom que lhe concedeu.
(Todos cantam de novo a canção do início.)

 

 

Fim