Sumé

peça de Ruth Salles

A peça baseia-se no mito tamoio tal como foi narrado por Olavo Bilac¹ na coleção “Tesouro da Juventude”. Sumé seria o caraíba, o homem branco que vem do mar ensinar o índio – que vivia de caça e pesca – a plantar para comer. O nome Sumé – segundo estudiosos – deriva de Tomé. Em algumas cidades do interior do Brasil, a banana de São Tomé é chamada banana de Sumé. Há mesmo lendas que falam de uma vinda de São Tomé ao Brasil. A canção dos índios é em escala pentatônica, por ser mais próxima à escala usada pelos indígenas do Brasil.

PERSONAGENS:
Sumé, tamoios, pajé; plantas, lua, sol, chuva, vento, trovão. O coro é formado por todos, e dele se destacam os que se movimentam em cena ao chegar seu momento.

CORO (canta, enquanto alguns índios se movimentam em cena):
“Os índios tamoios, temidos na guerra,
viviam na terra diante do mar,
caçando nas matas, pescando nas águas,
nas leves canoas, nas ondas do mar.”

TAMOIO 1 (enquanto Sumé, que estava ajoelhado, levanta-se como quem vem surgindo das águas):
– Tamoio vê homem branco sair do mar!

TAMOIO 2:
– É um caraíba de longas barbas brancas!

TAMOIO 3:
– Os pés do homem branco andam sobre as águas!

CORO:
– As ondas se acalmam, as feras se amansam para o Grão Caraíba passar…

SUMÉ (pondo a mão no peito e depois apontando para o céu):
– Eu sou Sumé.Tupã me enviou.

TAMOIOS (pondo as mãos no peito):
– Nós, tamoios, filhos de Tamandaré.

TAMOIO 4:
– Tamandaré, o de alma grande, salvou-se das grandes águas.

SUMÉ:
– Das grandes águas?

TAMOIO 5:
– Sim, Caraíba. Tupã criou os homens, e os homens foram maus.

TAMOIO 1:
– Então Tupã ordenou às águas que crescessem e cobrissem tudo.

CORO (erguendo os braços):
– Os trovões abriram o céu, e caiu a chuva grande.

(O trovão, a chuva e o vento se movimentam em cena.)

TAMOIO 2:
– Então Tamandaré guardou seus filhos na canoa, e eles se salvaram.

TAMOIO 3:
– Deles saiu o tamoio, índio guerreiro.

TAMOIO 4 (ouve-se um tambor):
– Tamoio não tem medo dos tambores de guerra.

TAMOIO 5 (ouve-se um trovão):
– Mas respeita os trovões do céu, grande voz sagrada de Tupã.

SUMÉ:
– Índios tamoios, valentes na guerra, abasteçam suas cabanas de caça e pesca e sigam-me.
Ensinarei a todos como plantar, para que a terra sustente o homem.

TAMOIOS:
– O sol é a mãe do dia e da noite; a lua é a mãe dos bichos e das plantas.

PAJÉ:
– Mas a terra… a terra é nua e ingrata e só nos dá espinhos.

SUMÉ:
– Irmãos tamoios, a terra é a grande mãe generosa.
Basta amá-la, afagá-la, suando sobre ela, e logo ela nos dará toda sorte de bens.

CORO (canta, enquanto os tamoios seguem Sumé, que lança sementes):
“Nas matas espessas, as cobras silvavam,
as onças uivavam nas matas espessas.
Mas Santo Sumé sementes lançava,
e todos cantavam seguindo Sumé.”

SUMÉ:
– Revolvam bem a terra,
para que o ar, o sol e a chuva possam passar por ela.

(Os índios se inclinam e fazem gestos de revolver a terra. Sumé olha para o céu, ergue os braços e chama)

SUMÉ:
– Atraia as águas, Lua Nova,
para que mais tarde sobre os campos chova!

(A lua e o vento passam, dando uma volta. As plantas, que estavam deitadas, começam a se erguer, agitando os dedos das mãos, depois esticando os braços e se erguendo)

CORO:
– Os pés das sementes já se espicham para o fundo da terra…
Seu corpo já se levanta para a luz…
Seus braços já se agitam sob o vento e a chuva…

(A chuva e o vento dão voltas rápidas, depois o sol dá uma volta vagarosa.)

CORO:
– Seus frutos já amadurecem ao calor do sol!

CORO (canta, enquanto os tamoios voltam pelo mesmo caminho, seguindo Sumé e colhendo os frutos da terra):
“Depois do trabalho, a mão do tamoio
já colhe os frutos maduros que achava.
Tamoio jamais viu tanta riqueza
que a Mãe-Natureza agora lhe dava.”

SUMÉ:
– Meus irmãos, aí estão os presentes da terra. Alimentem-se deles!

TAMOIO 1:
– Os celeiros estão cheios!

TAMOIO 2:
– O céu e o mar são mais belos aos olhos do tamoio, porque o tamoio está alegre.

TAMOIO 3:
– Graças a Sumé, filho querido de Tupã.

(Os tamoios dançam em volta de Sumé, depois o Coro canta.)

CORO (canta):
“Agora tamoio escuta conselhos
do Grão Caraíba, que sabe segredos.
Que venham os filhos de Tamandaré
ouvir os conselhos do sábio Sumé.”

(O Pajé se destaca, no outro extremo da cena, e bate com sua vara no chão. Depois que ele fala, os tamoios vão concordando aos poucos com ele e indo para o seu lado.)

PAJÉ:
– Pajé de tamoio fala! A alma do povo é forte.
Povo tamoio venceu sozinho sempre.
Povo de tamoio não precisa de conselho.
Não precisa obedecer caraíba Sumé.
Povo tamoio obedece Pajé.

TAMOIO 1:
– Sim… A alma do povo é forte…

TAMOIO 2:
– Sim… Povo tamoio venceu sozinho sempre…

TAMOIO 3:
– Sim… Povo tamoio não precisa de conselho…

TAMOIO 4:
– Sim… Tamoio não precisa obedecer caraíba Sumé…

TAMOIO 5:
– Sim… Povo tamoio obedece Pajé!

(Os tamoios pegam os arcos e fazem o movimento de quem atira flechas, um de cada vez. A cada flechada, Sumé faz um gesto de quem arranca de si a flecha e, sorrindo sempre, vai-se afastando de costas.)

TAMOIO 1:
– As flechas não ferem!

TAMOIO 2:
– A mata se afasta!

TAMOIO 3:
– É o grande Sumé que sobe nas águas!

TAMOIO 4:
– Vai longe… tão longe…

TAMOIO 5:
– Sumiu no horizonte…

TODOS:
– Tupã nos castiga!
Tirou dos tamoios o Grão Caraíba…

(Todos cantam um demorado “Huuummm”, como se estivessem pensando.)

TAMOIO 1:
– Mas nossos celeiros estão cheios!

TAMOIO 2:
– Aprendemos a afagar, a cavar e a amar a terra.

TAMOIO 3: – A Mãe-Terra nos dá seus frutos.

TAMOIO 4:
– Tamoio é forte… e quer ser alegre!

CORO:
– Ó Tupã, que criou os homens,
os filhos de Tamandaré
escutaram as palavras de Pajé
e perderam o conselho de Sumé.
(Os tamoios erguem os braços)
– Venha, Sumé, enviado de Tupã!
Tamoio, filho de Tamandaré,
espera a volta do sábio Sumé!

TODOS (cantam e vão aos poucos saindo):
“Os índios tamoios, temidos na guerra,
viviam na terra diante do mar,
caçando nas matas, pescando nas águas,
nas leves canoas nas ondas do mar.
Nas matas espessas, as cobras silvavam,
as ondas uivavam nas matas espessas.
Mas Santo Sumé sementes lançava,
e todos cantavam seguindo Sumé.”

*1: BILAC, Olavo. Sumé:Tesouro da Juventude. São Paulo: Gráfica Editora Brasileira Ltda., 1958.

 

 

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