Teatro para jovens de 12 a 13 anos – orientações pedagógicas

O jovem entre os 12 e 13 anos

Por Cristina Maria Brigagão Abalos, Dora Regina Zorzetto Garcia e Vilma Lúcia Furtado Paschoa.

Por volta dos 12 anos de idade, o jovem entra num período de profundas transformações, tanto no nível físico, quanto emocional e intelectual. No nível físico, a pré-puberdade tem início, caracterizando-se pela gradativa perda da harmonia corporal; os movimentos começam a se tornar angulosos e estabanados, os membros alongam-se e, ao mesmo tempo, uma grande energia e vitalidade manifestam-se, especialmente nos meninos, que precisam se livrar do excesso de forças, seja em esportes mais dinâmicos, seja em confrontos corporais entre eles ou com meninos mais velhos. A diferença entre meninos e meninas cresce cada vez mais. O comportamento das meninas oscila principalmente devido a vivências sentimentais e emocionais.

Ao mesmo tempo, começa a surgir no jovem uma vontade de conquistar o mundo, uma certa vivência do próprio poder,o que dá origem a projetos mirabolantes e irrealizáveis.

Há uma grande curiosidade em saber como tudo funciona, de onde tudo surge, quais os princípios gerais que regem a Terra e o que nela existe, e é nessa idade que se busca compreender a partir da razão, da lógica.

Como lidar com todas estas transformações simultâneas?

A tarefa do educador é conduzir o jovem para a autonomia de julgamento, torná-lo capaz de julgar a realidade, para não ficar indefeso e sujeito a toda espécie de influências exteriores.

É preciso cuidar para que os julgamentos não sejam precipitados, enrijecendo os conceitos em desenvolvimento e levando muitas vezes a distorções e preconceitos. Por isso, sugere-se que as descrições e apresentações dos assuntos sejam sempre muito ricas, amplas, vivas, incluindo as experiências pessoais dos alunos e ativando reflexões através de perguntas abertas. Só depois de uma retrospectiva feita no dia seguinte, com acréscimo de novos aspectos derivados da abordagem do dia anterior, é que se dá espaço para que surjam ponderações baseadas nas leis de causa e efeito. Isto proporcionará o desenvolvimento do raciocínio lógico antes das conclusões e a conquista de uma maneira de pensar viva e flexível.

É só a partir dos 12 anos que os jovens estão maduros para a compreensão, por um lado, da atuação do homem no mundo físico com sua dinâmica e mecânica, e, por outro, das relações históricas e dos impulsos que as desenvolvem, do vir a ser social. Tais impulsos são aquecidos pelos sentimentos e condensados por histórias de vida, biografias de homens que viveram os acontecimentos caracterizados. Sugere-se que o estudo de um período histórico seja feito através da vivência de personagens da época, com o que o aluno facilmente se identifica e que desperta nele a possibilidade de admiração, o que já não é tão fácil de satisfazer nesta idade.

O estudo através de uma biografia não se restringe à simples narração da vida de alguém, mas à construção de uma imagem ampla desse ser, de forma que ele viva no interior dos jovens e o mundo seja visto a partir de sua visão. Podem-se contrapor figuras tão diferentes como Pompeu e César no estudo de Roma. Sem fazer uso de julgamentos, sugere-se caracterizar as culturas com descrições detalhadas. No ensino de História, podem ser integradas as outras matérias.

Sugere-se também que os fenômenos físicos sejam descritos e que sejam feitas experiências.

No âmbito emocional, os sentimentos tornam-se mais exacerbados, turbulentos, muitas vezes fora de controle. Tudo o que foi exercitado e desenvolvido anteriormente em termos de ordem e organização parece cair por terra. Muitos fogem de responsabilidades, relutam em crescer ou se contrapõem aos adultos, querendo enfrentá-los, desafiá-los. O lazer e os contatos sociais tornam-se mais importantes que qualquer outra coisa, e sentir que pertencem a um grupo é fundamental para eles.

Os estados emocionais descontrolados exigem uma profunda compreensão por parte do educador. É necessário ter calma, isenção de julgamento e leveza para lidar com as situações que se apresentam no dia-a-dia. Também é necessária uma boa dose de humor para que tudo se resolva com uma disposição positiva. A cooperação e a interação entre os professores que lidam com a mesma classe são fundamentais.

O jovem procura, no adulto, coerência, orientação e ajuda baseadas no conhecimento do mundo real. No entanto, o adulto deve saber dosar as explicações. Os próprios alunos vão Demonstrando até onde conseguem chegar. Isto significa que o diálogo deve ser uma constante nas aulas, e o principal material de trabalho do professor é o que o aluno apresenta como fruto de suas percepções, observações e reflexões. O professor ordena tudo isto e possibilita um avanço no conteúdo de estudo.

O jovem agora também é bastante receptivo a acordos e negociações, o que é um precioso recurso no relacionamento com o adulto.Isto o ajudará a se ir libertando da autoridade dos mais velhos e a desenvolver o respeito pela autoridade das leis. É importante manter, no início de cada dia de aula, uma atividade rítmica, a fim de que os alunos, como classe, sejam harmonizados e preparados para o conteúdo que se seguirá. Para compor esta atividade, sugerem-se recitações referentes às antigas civilizações que estão sendo estudadas. Tais recitações, exercitadas com regularidade em anos anteriores, não devem deixar de acontecer, ainda que o jovem agora sinta um pouco mais de vergonha. A vivência de estilos e métricas, a ampliação do vocabulário, o cultivo da fala e de uma linguagem culta, são algumas das vantagens desta prática. Podem ser realizadas muitas atividades artísticas que expressem o conteúdo abordado: modelagem, desenhos, pinturas e dramatizações são bastante aconselháveis, não como meras ilustrações do ensino, mas como forma de aprofundar as vivências e de ligar o aluno ao tema de estudo. As dramatizações são especialmente adequadas, para que o jovem, através de um personagem, tenha a oportunidade de expressar sentimentos que se tornam cada vez mais fortes, contraditórios e absorventes a partir de então. As diferentes vivências exercitam uma certa flexibilidade, que pode estar ameaçada neste momento de vida.

Os jovens podem desenvolver com entusiasmo tanto uma peça histórica, realística, quanto um conto de fadas para ser apresentado para crianças menores. Estão mais amadurecidos, e o representar começa a adquirir aspecto muito mais artístico, apesar de não perder a importância pedagógica e formativa do ser humano. Por isto mesmo, desenvolver um tema para ser apresentado para crianças menores faz com que o jovem saia de si mesmo e se doe, exercitando a generosidade.

Outra experiência que o jovem pode obter através do teatro, e que será importante para a vida, é a vivência de um processo de montagem que pode durar semanas e exigir dedicação e esforço. O jovem atualmente tende a ser imediatista, a querer tudo pronto e chegar ao fim de alguma coisa o mais depressa possível, seja do jeito que for. A montagem de uma peça teatral com todos os seus elementos, além de ser um trabalho coletivo que desenvolve a noção de grupo, cooperação e respeito pelo outro, proporciona um mergulho no tema escolhido, que passa a ser desenvolvido em vários âmbitos e aspectos. Isto requer um trabalho de construção gradativo e persistente, que treina a força de vontade de cada um.

Existem alguns recursos dos quais se pode lançar mão, a fim de que o jovem se sinta menos exposto e consiga realizar seu trabalho com maior espontaneidade, como o teatro de sombras e a utilização de máscaras.

O teatro, por ser um trabalho em conjunto, proporciona ao jovem o sentimento, tão importante para ele neste momento, de pertencer a um grupo mas com responsabilidade, pois cada um tem sua parte a executar para que o todo se forme.

 

O TEATRO ENTRE OS 12 EOS 13 ANOS

A força de realização, inerente a todo ser humano, se intensifica na puberdade. É responsabilidade do adulto direcioná-la para que ela leve ao desenvolvimento de valores e à consciência de um papel a desempenhar no mundo. Acreditamos serem estes os princípios que devam nortear a escolha de uma peça para esta idade.

A prática cuidadosa da recitação, assim como o teatro, pode harmonizar e clarear a vida emocional instável do jovem, portanto a escolha da peça também deverá ser sensível a estas demandas.

A peça “A Chama Sagrada”, baseada numa lenda cristã medieval, traz uma forte simbologia que dispensa qualquer fala moralizante. A transformação de Raniero, isto é, a superação do orgulho e da vaidade – “Com toda a cautela, Raniero protege a chama da vela. Mas cresce em seu peito o fogo do orgulho por seus grandes feitos” – não se dá pela razão, pelo intelecto, e sim pela ação no mundo, pelo desempenho de uma tarefa. – “Minha chama não pode se apagar jamais.” – A redenção de Raniero se deu através da ação movida pela força do coração. Raniero, como qualquer jovem, sentia-se insuperável, mas forças maiores, as contingências da vida abrandaram seus ímpetos – “Com mil raios! Com isto eu não contava! Contra o vento minha força não vale nada. Terei de cavalgar bem mais lentamente.” – A chama sagrada que a todo momento se mostrava como um estorvo, é ela mesma que o salvará – “Se eu tivesse chegado como cavaleiro, não seria hospedado pela estalajadeira. Se alguém me chamasse de pobre antigamente, eu o liquidaria imediatamente. Bendita ajuda… É estranho como tudo muda…”.

A mesma força que impulsiona o jovem a feitos heroicos e altruístas, também pode levá-lo à destruição. Ele se vê sozinho, atormentado pela eterna dialética entre o Bem e o Mal, expressos na peça por anjo e demônios – “Não tinhas, porém, uma vela na mão (anjo); Joga fora a vela! (1º demônio); Mata-os à pancada! (2º demônio)”. É Raniero quem tem de decidir, mais ninguém – “Com mil raios! Só agora percebo a situação. É na chama que tenho que pensar primeiro.”

Apesar dos alunos serem maiores, costuma-se contar a história da peça escolhida antes da introdução do texto. Assim os conteúdos e as imagens chegam aos alunos pelo sentimento, realizando a intenção primordial que é de harmonizá-los e sensibilizá-los. Só depois é dado o texto para as diversas leituras. Em cada uma delas pode-se salientar um aspecto a ser observado: a história em si, o desenvolvimento de cada personagem, o ambiente da peça, as diferentes cenas etc.

Trabalha-se também o resgate da linguagem formal, onde o vocabulário é mais elaborado, os diálogos são mais longos, as entrelinhas ganham relevância.

Após uma primeira familiarização com o texto, é possível dar início ao trabalho de laboratório: escolhe-se uma determinada cena e pede-se aos alunos que a representem, em grupos, ora com um tom melancólico, ora com um tom heroico ou irônico. Tais experiências ajudam a despertar para a intenção e para o significado mais profundo, pois o significado vai além do sentido das palavras. As diferentes propostas são apresentadas e comentadas, buscando o consenso sobre a mais adequada. Segue-se trabalhando no aperfeiçoamento da interpretação escolhida. Desta forma, a expressão das personagens resulta de um reconhecimento, de uma vivência interna, e não é imposta pelo professor.

A composição do figurino pode seguir a mesma linha de experimentação, isto é, os alunos, individualmente ou em grupos, fazem pesquisas sobre as roupas da época e complementam com sugestões que advenham das experiências de laboratório. Eles então apresentam desenhos como propostas de figurino.

Na peça “A Chama Sagrada”, pode-se trabalhar nestas duas direções: as personagens humanas usariam trajes medievais, caracterizando a condição de cada uma delas, especialmente através dos tecidos utilizados: cetins e veludos para nobres e cavaleiros, tecidos mais rústicos para as personagens do povo. As outras personagens, Anjo da Luz, demônios e vento personificado, podem fugir da caracterização convencional, ganhando uma configuração mais sugestiva com panos, cores, máscaras etc.

O coro pode estar vestido com túnicas marrons, trazendo a ideia de um corpo só.

Todo o trabalho com o figurino ganha destaque na composição do cenário e na movimentação cênica.

Esta peça favorece a montagem de planos: Francesca, colocada num canto do palco, num plano um pouco acima daquele em que ocorrem as cenas, num ambiente mais recolhido; o Anjo da Luz ocupa o plano mais elevado, enquanto os demônios estariam num plano inferior, embora algumas vezes se aproximem de Raniero e até mesmo se dirijam ao Anjo. No plano intermediário acontece a trama.

O coro caminha pelo palco em bloco como uma procissão durante suas falas, expressando sua onisciência sobre os acontecimentos passados e sobre a história que agora se desenrola.

Grandes tecidos pendurados e amarrados em diferentes direções formando pregas e volumes constituem um bom recurso para criar e separar ambientes.

Nesta idade os alunos já são capazes de contribuir para a composição cênica, pintando em tecido, papelão ou compensado partes do cenário como casas, árvores, portas, janelas etc.

Um jogo de luzes pode complementar e valorizar o cenário.

Além do canto e da música instrumental próprias da época, os alunos também podem se encarregar da sonoplastia.

Como se pode ver, este é um trabalho que exige bastante, e a parceria com os professores de áreas afins, como Artes, Música e Dança, é fundamental.

Na distribuição dos papéis, o professor pode escolher mais de um aluno para ser Raniero, ou para ser Francesca, ou mesmo o Bobo. Eles se intercalam durante a peça ou atuam no palco ao mesmo tempo.

Agora a peça está montada. O mais importante já aconteceu: o processo. É principalmente nele que os alunos aprendem e amadurecem. A apresentação é a expressão concreta de um longo e árduo trabalho de grupo, vencendo desafios e cumprindo metas.

 

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