Thor no Baluarte dos Gigantes

peça de Ruth Salles

Esta peça, engraçada e divertida, foi criada a partir de uma narrativa da mitologia germânica.¹

PERSONAGENS:
Thor
As duas cabras Range-dentes e Afia-dentes
Loki
O campônio
Sua mulher
Seu filho Tialfi
O gigante Vastidão
O rei dos gigantes
Outros gigantes, que falam junto com o coro dos deuses
Coro dos deuses
O gigante Cospe-fogo
O pajem Engenhoso
A velha Anos-afora
A gata-serpente

 

CORO DOS DEUSES (canta):
“Foi há tanto, tanto tempo
– oh, quanto tempo faz! –
Thor partiu com seu martelo
e Loki logo atrás.
Duas cabras vão na viagem
– Range-dentes e Afia-dentes –
a puxar a carruagem.”

CORO DOS DEUSES (fala, enquanto as cenas se passam):
– Na pousada de um campônio,
todos tinham muita fome…
Thor matou as cabras então,
separou as peles no chão
e assou a carne no caldeirão.
Mas pediu muito cuidado
para os ossos não serem quebrados.
Com a pele e os ossos – todos veriam! –
as duas cabras reviveriam!
Olhem o filho do campônio!
Quebrou um osso e comeu o tutano! Oh,
oh, oh! (bis)
De manhã,Thor levantou,
seu martelo ele girou:
pele e ossos foi ajuntando,
vão as cabras acordando,
porém uma está mancando.
O campônio, ajoelhado,
pediu perdão ao deus zangado
e emprestou o filho culpado
para seguir como seu criado;
E das cabras promete cuidar
até Thor…… retornar.”

THOR:
– Que mato fechado… Onde vamos parar?

LOKI:
– Estou muito cansado. Preciso descansar.

TIALFI:
– Um casulo gigante! É uma cama já pronta.

THOR:
– Pois durmam sossegados,
que eu tomo conta.

CORO DOS DEUSES:
– A noite é sem lua e, na escuridão,
a terra estremece, com raio e trovão.
(barulho)
Balança o casulo e revira no chão. (Loki e Tialfi rebolam de um lado para o outro)
É um gigante roncando, dormindo ali perto.
Thor pega o martelo, e os três já despertam.

THOR:
– Quem é você, homenzarrão?

GIGANTE:
– Eu sou o gigante Vastidão.
E que faz aqui o deus Thor dos Ases
se abrigando na minha luva?
Saiam daí e venham comigo.
Eu posso ser um bom amigo.
Quem quer me seguir
tem de dar uma corrida.
Mas ajudo levando o saco de comida.

TIALFI (depois de andarem e correrem):
– A noite está caindo. Eu quero descansar.

LOKI:
– Pois eu estou com fome. Preciso jantar.

GIGANTE VASTIDÃO:
– Pois eu vou dormir debaixo do carvalho.
Jantem sossegados, que eu não atrapalho.

(Thor tenta abrir o saco de mantimentos e não consegue desfazer o nó. Atira o martelo no gigante, pois este dera o nó no saco.)

GIGANTE VASTIDÃO (acorda, espantado):
– Ué! Parece que uma folha do carvalho
caiu na minha cabeça ao se soltar do galho.
(torna a dormir)

(Thor joga de novo o martelo com mais força)

GIGANTE VASTIDÃO (acorda espantado):
– Que é isso?
Não para de cair coisa desses galhos.
Raspou pela minha cabeça
uma bolota de carvalho. (dorme de novo)

(Thor novamente atira o martelo ao ouvir o ronco do gigante)

GIGANTE VASTIDÃO (erguendo-se):
– Nessa árvore deve haver algum ninho.
Senti bater em mim um ovo de passarinho.

(Thor e os outros demonstram seu espanto com três “Ohs!”)

THOR (para os outros dois):
– Esse Vastidão não sentiu nada!
E eu não errei nenhuma pancada!

GIGANTE VASTIDÃO:
– Que é que vocês estão cochichando?
É o meu tamanho que está assustando?
Pois no castelo de Utgard,
que não fica distante,
vocês vão ver o que é gente gigante.
Pequenos como são,
não se façam de orgulhosos,
senão esses gigantes ficam furiosos!
Vocês deviam voltar para casa agora,
mas se querem visitar o rei de Utgard
então sigam para leste,
porque eu vou embora. (Segue em outra direção)

(Eles andam um pouco e encontram o rei de Utgard sentado em seu trono)

REI:
– Oh, você é Thor dos Ases,
se não estou enganado.
Mas… é bem menor
do que eu havia pensado…
Vamos ver se os três são valentes. E então!
Aqui só entra quem vencer a competição!

LOKI (que estava atrás dos outros se adianta):
– Eu como mais depressa
que qualquer pessoa.
Competir nesse assunto é uma coisa à toa.

REI:
– Está bem.Tragam a manjedoura logo.
E que venha o gigante Cospe-fogo.
Há bastante carne aí. Podem começar,
um de cada ponta, até terminar.

LOKI:
– Estou pronto. Isso é fácil demais!

COSPE-FOGO:
– Coma mais depressa quem for capaz!

(Os dois comem e terminam juntos no meio da manjedoura.)

REI (enquanto Loki se afasta, desanimado):
– Vejam só. Loki perdeu nesta brincadeira,
pois Cospe-fogo comeu até a madeira!
(apontando para Tialfi):
– E você? Que é que sabe
fazer mais depressa?

TIALFI:
– Venço qualquer corrida.
Quando se começa?

REI:
– Meu pajem, o Engenhoso,
é quem vai correr.
Só quero ver quem vai vencer!

(Na corrida, Engenhoso vence longe. Tialfi se afasta, aborrecido)

REI:
– Thor, e você, que é que sabe fazer?

THOR:
– Mais depressa que todos, eu sei beber!

REI:
– Pois tragam meu chifre cheio até a boca.
Se, com três goles, você o esvaziar,
será o vencedor, pode acreditar! (depois que Thor tenta o primeiro gole):
Por enquanto o chifre está cheio.
Vamos,Thor, não tenha receio! (depois que Thor tenta o segundo gole):
Você parece que já está cansado,
mas o chifre está pouco esvaziado. (depois que Thor tenta o terceiro gole):
Você bebeu que não foi brincadeira. (ao ver Thor sem fôlego e tonto)
Já está até tonto com a bebedeira.

THOR (ofegante):
– Eu bebi bastante, mas a água não baixou.
Algum truque você preparou.

REI:
– Não fiz nenhum truque, mas faço um trato:
ali no chão está deitada a minha gata;
tente levantá-la nas quatro patas!

(Após muito esforço, Thor só consegue que ela solte do chão uma pata.)

REI:
– Hum…Thor dos Ases, você é mesmo
uma criatura muito pequena.
Eu até estou com um pouco de pena.

THOR (valentão):
– Pode ser que eu seja pequeno, amigo.
Mas, que venha alguém lutar comigo!

REI:
– Você não deve enfrentar meus gigantes,
mas deixo-o lutar com a velha ali adiante.
Ela se chama Anos-afora.
Vamos, lute com ela agora!

CORO DOS DEUSES (enquanto a cena se passa):
– Olhem a velha de andar vacilante.
Um sopro de vento a empurra para diante.
Thor, entretanto, não pode empurrá-la,
nem sequer consegue afastá-la!
De tão zangado,Thor ficou vermelho.
E por fim, olhem só, caiu de joelhos!

REI:
– Basta,Thor dos Ases, não fique aborrecido,
vocês não poderiam mesmo ter vencido.
Mas, não pisem mais no meu castelo.
E agora o segredo eu lhe revelo.
Eu sou aquele que estava na mata.
Você quase nos leva à destruição.
Suas marteladas, você não sabe,
mas abriram na montanha três fundos vales.

CORO DOS DEUSES (junto com o Rei):
– Loki competiu com Cospe-fogo,
e, na verdade, esse gigante
é o fogaréu chamejante,
que tudo devora,
até a madeira da manjedoura.
Tialfi apostou uma corrida
com o gigante Engenhoso e foi vencido.
Pois esse gigante é o meu pensamento,
que corre por tudo num momento.
Quanto ao chifre em que você bebeu,
tem a ponta metida no oceano fundo
que guarda as águas do mundo.
Mas você bebeu tanto que a maré baixou.
É que para o mar você não olhou.
Minha gata é a própria Serpente de Midgard,
que em torno da terra está enrolada.
Se a cauda se soltasse, seria um perigo.
Seria o fim do mundo, meu amigo.
E eu ainda não lhe disse,
mas a velha Anos-afora
é a própria velhice
que vence a todos quando chega a hora.

THOR, LOKI E TIALFI:
– Então, adeus para sempre, ó rei! (quem fala é Tialfi)
– Seus truques não mais enfrentarei. (quem fala é Loki)
– Pois eu giro o meu martelo,
e no mesmo instante… (quem fala é Thor)
(os Três vendo que os gigantes sumiram de maneira mágica):
– Oh-oh-oh…! Desapareceram os gigantes!

CORO DOS GIGANTES (canta):
“Foi há tanto, tanto tempo
– oh quanto tempo faz! –
Thor voltou com seu martelo
e Loki logo atrás.
Suas cabras vão na viagem
– Range-dentes e Afia-dentes –
a puxar a carruagem.”

*1: STURLASON, Snorre. Edda em prosa: textos da mitologia nórdica. Rio de Janeiro: Numen, 1993

 

 

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