Um Violinista no Telhado

peça de Scholen Aleichen

adaptação para teatro de Joseph Stein
Parte cantada:
letra de Sheldon Harnick
música de Jerry Bock

tradução e adaptação para o português de Ruth Salles

 

PERSONAGENS

Tevye, o leiteiro (lê-se Tévia).
Golda, sua esposa.
Tzeitel, Hodel (lê-se Hôdal), Chava (lê-se Rava), Shprintze, Bielke, suas filhas.
Yente, a casamenteira.
Motel, o alfaiate (lê-se Mótel).
Perchik, o estudante.
Lazar Wolf, o açougueiro (lê-se Lêizar).
Mordcha, o estalajadeiro.
Rabbi, o rabino.
Mendel, seu filho.
Avram, o livreiro.
Nachum, o mendigo.
Yussel, o chapeleiro.
O padeiro e o peixeiro.
Sacha e outros rapazes russos.
Chefe de Polícia e guardas.
Fyedka (lê-se Fiêdka).
Pais de Model.
O Violinista.
Povo.
Mulheres do boato: Rifka, Shandel (mãe de Motel), Mirala.
Primeiro homem.
Segundo homem.
Dois meninos adolescentes.

CENAS

Local: Anatevka, pequena aldeia russa.
Época: 1905, nas vésperas da revolução russa.

 

PRIMEIRO ATO

Prólogo.
Cena 1. Cozinha da casa de Tevye.
Cena 2. Do lado de fora da casa de Tevye.
Cena 3. Dentro da casa de Tevye.
Cena 4. Estalagem.
Cena 5. Rua diante da estalagem.
Cena 6. Bancos fora da casa de Tevye.
Cena 7. Rua da aldeia e loja do alfaiate Motel.
Cena 8. Parte do terreno de Tevye.
Cena 9. Terreno de Tevye.

SEGUNDO ATO

Prólogo.
Cena 1. Do lado de fora da casa de Tevye.
Cena 2. Rua da aldeia.
Cena 3. Do lado de fora da estação do trem.
Cena 4. Rua da aldeia.
Cena 5. Loja do alfaiate Motel.
Cena 6. Em algum lugar nos arredores da aldeia.
Cena 7. Celeiro.
Cena 8. Do lado de fora da casa de Tevye.
Epílogo.

 

PRIMEIRO  ATOPRIMEIRO  ATO

Prólogo

TEVYE (falando para o público): – Um violinista no telhado. Parece loucura, não? Mas, em nossa pequena aldeia de Anatevka, pode-se dizer que cada um de nós é um violinista no telhado, tentando tocar uma música simples e alegre sem perder o equilíbrio e quebrar o pescoço. Não é fácil. Tu podes perguntar por que ficamos lá em cima se é tão perigoso. Pois ficamos porque Anatevka é nosso lar… E como mantemos o equilíbrio? A isso respondo com uma palavra: tradição.
TODOS (cantam): “Tradição, tradição…tradição, tradição, tradição… tradição.”
TEVYE: – Foi por causa de nossas tradições que conseguimos manter o equilíbrio por muitos, muitos anos. Aqui em Anatevka temos tradições para tudo: para comer, dormir, vestir. Se perguntares como foi que isso começou, vou logo dizendo que não sei. É uma tradição e pronto. Por causa de nossas tradições, todos nós sabemos quem somos e o que Deus espera de cada um.

PARTE CANTADA

TEVYE E OUTROS PAIS:
“Quem dia e noite luta pela vida, paga a comida, reza as orações?
É o chefe da casa e só ele tem a última palavra.”
TODOS:
“O papai, o papai… Tradição! O papai, o papai… Tradição!”
GOLDA E OUTRAS MÃES:
“E quem sabe bem formar o nosso lar, com muita paz, um lar de amor?
Quem da casa cuida e cria os filhos bem,
dá tempo ao pai de ler a santa lei?”
TODOS:
“A mamãe, a mamãe… Tradição! A mamãe, a mamãe… Tradição!”
FILHOS:
“Aos três entrei na escola e aos dez fui trabalhar.
Trataram noiva para mim. Será bonita?”
TODOS:
“Os filhos, os filhos… Tradição! Os filhos, os filhos… Tradição!”
FILHAS:
“A quem a mãe ensina costura e cozinha,
e ensina a receber o marido que o pai quer?”
TODOS:
“As filhas, são as filhas… Tradição! As filhas, são as filhas… Tradição!”

(Em seguida, todos cantam suas partes num quarteto. Depois vem a dança com o coro cantando “dai, dai, dai…”.)

 

PARTE FALADA

TEVYE: – E aqui em nossa pequena aldeia temos sempre alguns tipos bem especiais. Por exemplo, Yente, a casamenteira…

YENTE (atravessando a cena): – Avram! Avram! tenho uma noiva perfeita para teu filho. Uma menina ma-ra-vi-lhosa!

TEVYE: – E temos Nahum, o mendigo.

(Entram Nahum e Lazar.)

NAHUM: – Esmola para um pobre, Lazar Wolf, esmola para um pobre…

LAZAR: – Aqui está um kopek para ti, Nahum.

NAHUM: – Um só? Na semana passada tu me deste dois.

LAZAR: – Tive uma péssima semana.

NAHUM: – Então, se tua semana é ruim, sou eu que sofro?

TEVYE: – E o mais importante de todos: nosso querido rabino.

MENDEL (entrando com Rabbi): – Rabbi, posso fazer-te uma pergunta?

RABBI: – Sim, meu filho.

MENDEL: – Existe alguma bênção apropriada para o Czar?

RABBI: – Uma bênção para o Czar? É claro. Que Deus abençoe e conserve o Czar… bem longe de nós!

TEVYE: – Também há outra gente em nossa aldeia. Muita gente.

(O sacerdote ortodoxo, o chefe de polícia e outros russos passam acenando uns para os outros.)

TEVYE: – Sua Excelência o chefe de polícia, Sua Reverendíssima o Senhor Padre Ortodoxo, o Ilustríssimo… muitos outros. Nós não os incomodamos, e eles também até que não nos incomodam… E vivemos em perfeita paz. Se bem que um dia alguém vendeu um cavalo e entregou uma mula, mas isso já foi resolvido e reina a harmonia.

(Dois homens passam, discutindo.)

PRIMEIRO HOMEM: – Era um cavalo.

SEGUNDO HOMEM: – Era uma mula.
CORO: – Cavalo! Mula! Cavalo! Mula! Cavalo! Mula!
(canta): “Tradição! Tradição! Tradição! Tradição!”

TEVYE (mandando fazer silêncio): – Tradição. Sem nossas tradições, nossas vidas seriam tão instáveis como… como um violinista no telhado!

 

 

Cena 1

Cozinha da casa de Tevye. Golda, Tzeitel e Hodel estão fazendo preparativos para o Sabá. Shprintze e Bielke entram carregando lenha.

 

SHPRINTZEL: – Mamãe, onde pomos a lenha?

GOLDA: – Na minha cabeça! Claro que é no fogão, menina tonta… Onde está Chava?

HODEL: – No estábulo, ordenhando as vacas.

BIELKE: – A que horas o Papai vem?

GOLDA: – Já está chegando a hora do Sabá, e ele nem se preocupa. O dia inteiro no alto de sua carroça como um príncipe.

TZEITEL: – Mamãe, tu bem sabes que o Papai trabalha pra valer.

GOLDA: – Seu cavalo trabalha mais ainda!… E não precisas defender teu pai para mim. Eu o conheço há muito mais tempo… Ele às vezes me deixava doida… Shprintze, traz mais batatas.

(Chava entra carregando uma cesta. Traz um livro debaixo do avental.)

GOLDA: – Chava, terminaste a ordenha?

CHAVA: – Sim, Mamãe. (Ela deixa cair o livro.)

GOLDA: – Estavas lendo de novo? Por que uma menina tem de ler? Isso te dará um marido melhor? Passa-me esse livro, vamos! (Chava o entrega.)

SHPRINTZE (entrando com uma cesta de batatas): – Mamãe, Yente vem vindo.

HODEL: – Quem sabe ela arrumou finalmente um noivo para ti, Tzeitel.

GOLDA: – Que os anjos digam Amém.

TZEITEL: – Por que ela tem de vir logo agora, quase na hora do Sabá?

GOLDA: – Todas fora daqui! Quero conversar com Yente sozinha.

BIELKE (puxando Shprintze pela mão): – Podemos brincar lá fora?

GOLDA: – Sim, sim. E logo!

TZEITEL: – Mas, Mamãe, os homens que ela arranja… O último era muito velho e completamente careca.

GOLDA: – Uma moça pobre e sem dote não pode ser tão exigente. Se queres cabelo, casa-te com um macaco.

TZEITEL: – Afinal de contas, Mamãe, eu ainda não completei vinte anos e…

GOLDA (enxotando-a): – Xô, xô! Para dentro, vamos!

(Tzeitel vai para os fundos da casa, enquanto Yente entra apoiada na bengala.)

YENTE: – Golda, querida! Tenho novidades! E tuas filhas, aquelas jóias, onde estão? Lá fora, não é? Vou arranjar um noivo para cada uma, podes deixar! Só que tu não deves ser tão exigente. … Mesmo o pior marido – que Deus não permita – é melhor que marido nenhum. E eu sei disso melhor que ninguém. Eu, uma pobre viúva, sem ninguém com quem conversar. Isso não é vida. Mesmo meu marido, que não foi lá grande coisa, era melhor que nada.

MOTEL (espiando pela porta): – Tzeitel está em casa?

GOLDA: – Está ocupada. Volta mais tarde.

MOTEL: – Eu queria contar a ela uma coisa.

GOLDA: – Mais tarde.

TZEITEL (aparecendo): – Oh, Motel, bem que eu reconheci tua voz.

GOLDA: – Vai terminar o que estavas fazendo. (a Motel): – Mais tarde, já disse.

MOTEL (saindo): – Está bem.

YENTE: – Que é que esse alfaiatezinho tão pobre quer com Tzeitel?

GOLDA: – São amigos de infância. Gostam de conversar, de brincar. Não passam de crianças…

YENTE: – É dessas crianças que vêm outras crianças. (com olhar suspeitoso e depois sonhador) Ah, crianças são uma bênção em nossa velhice. Bem, Golda, preciso preparar a mesa para o Sabá. Foi um prazer conversar contigo, mas já vou indo. (Começa a sair.)

GOLDA: – Mas tu disseste que tinhas novidades para mim…

YENTE: – Ah, é, estou perdendo a cabeça. Qualquer dia ela cai do pescoço, um cavalo dá-lhe um chute na lama, e adeus Yente. Sim, a novidade. É sobre Lazar Wolf, o açougueiro. Um homem bom, distinto. E bem de vida, tu sabes. Mas muito sozinho, coitado. Resumindo: de todas as moças da aldeia, ele escolheu Tzeitel…

GOLDA: – A minha Tzeitel?

YENTE: – Não, a Tzeitel do Czar! É claro que é a tua Tzeitel!

GOLDA: – Hum… Mas Tevye quer um homem letrado. Ele não gosta de Lazar.

YENTE: – Pois não digas nada a ele e manda-o conversar com Lazar, que vai dar um jeito de convencê-lo. E não precisas me agradecer, pois além do presentinho que Lazar vai me dar, gosto de fazer as pessoas felizes. De modo que adeus, Golda. (Ela sai pela porta.)

TZEITEL (entrando): – Mamãe, que é que ela queria?

GOLDA: – Na hora certa eu te conto. Acaba de lavar o chão.

(Golda sai. Entram, vindo dos fundos, Hodel e Chava com balde e pano de chão.)

HODEL: – Será que Yente arranjou-te um noivo?

TZEITEL: – Não estou com pressa desses arranjos.

CHAVA: – A não ser que ela arranje Motel, o alfaiate…

TZEITEL: – Pára com essa conversa.

HODEL: – Mas, Tzeitel, tu és a mais velha. Ela tem que te arranjar um noivo, antes de arranjar um para mim.

CHAVA: – E depois um para mim.

TZEITEL: – Ora, Yente, Yente…

HODEL: – Yente, sim. Os jovens não podem decidir essas coisas…

CHAVA: – Ela pode arranjar um noivo maravilhoso…

HODEL: – Interessante…

CHAVA: – Bem de vida…

HODEL: – Importante…

 

PARTE CANTADA:

HODEL:
“Yente, ô Yente, me traz um rapaz, forte e capaz, belo rapaz…
Yente, ô Yente me traz por favor um grande, um grande amor!”
CHAVA:
“Yente, ô Yente, já tenho meu véu. Traz o meu bem com seu anel…
Um lindo anel que vou logo mostrar, que todas vão invejar!”
HODEL:
“Papai quer homem letrado.”
CHAVA:
“Mamãe, rico talvez como um rei…”
AS DUAS:
“Por mim, bem, não ligo tanto, contanto que me queira muito bem!
Yente, ô Yente me traz um rapaz forte e capaz, belo rapaz.
Noite após noite sozinha assim, eu quero um amor para mim.”
TZEITEL (imitando Yente, com um lenço na cabeça):
“Hodel, oh Hodel, teu noivo eu já tratei.
É belo, porém, sessenta e dois aninhos ele tem, o teu bem! ‘Stá bem?
Bem, serás feliz com ele e, se não for assim,
o que tu vais viver… não sei dizer!
Chava, oh Chava, teu noivo eu consegui.
É belo, porém, tão gordo que não caberá aqui, o teu bem! ‘Stá bem?
Bem… De gênio furioso, em ti irá bater,
mas só lhe vem a fúria se não beber…
Tu sonhavas com um rei?”
CHAVA:
“Isso é tudo que eu sei.”
TZEITEL:
“Quem não tem um tesouro ou berço de ouro,
se achar alguém, ‘stá bem!”
CHAVA:
“Yente, ô Yente, sou jovem demais. Quero pensar… Vou esperar…”
HODEL:
“Não entendi que casar é assim um mal ou um bem pra mim!”
AS DUAS:
“Ô Yente, vê para mim, por favor, um noivo cheio de amor.
Não é que eu queira muito…”
AS TRÊS:
“Estamos é com pavor!
Yente, ô Yente, não quero o rapaz, acho que é cedo demais…
Quem mexe em brasa se pode queimar. O véu e o anel vão esperar.
O meu amor, seja quem for, um dia irá chegar!”

 

 

Cena 2

Do lado de fora da casa de Tevye. Tevye aparece puxando a carroça. Ele pára e senta na beira da carroça, falando com Deus.

 

TEVYE (andando, cansado): – Hoje sou um cavalo… Bom Deus, tinhas de fazer meu pobre cavalo velho perder a ferradura logo quando o Sabá está chegando? Isso não foi nada bom… Tu escolheste a mim, Tevye… me abençoaste com cinco filhas e uma vida de pobreza. Mas, que tens contra meu cavalo? Às vezes eu acho que, quando as coisas estão muito sossegadas aí em cima, dizes para Ti mesmo: “Vejamos, que brincadeira vou fazer com meu amigo Tevye?”

GOLDA (surgindo de dentro da casa): – Finalmente chegou meu ganha-pão. Onde foi parar teu cavalo?

TEVYE: – Foi convidado pelo ferreiro a passar o Sabá com ele…

GOLDA: – Anda logo, que o sol não espera, e eu tenho uma coisa para te contar.
(Ela some dentro de casa.)

TEVYE (ainda falando com Deus, olhando para cima e gesticulando): – Oh, Senhor, como eu ia dizendo, não é que eu esteja me queixando. Mas confesso que, apesar de tua ajuda, estou morrendo de fome. Fizeste muita, muita gente pobre. Eu bem sei que não é vergonha ser pobre, mas também não é lá uma grande honra. Então, seria assim tão terrível se eu tivesse uma pequena fortuna?

PARTE CANTADA

TEVYE:
“Se eu fosse rico, (dança)
dague, digue, dague, digue, dague, digue, digue, dem,
todo dia tudo, tudo bem, eu até seria alguém.
Que trabalho leve eu teria todo dia, pois o dia vai e vem,
se eu fosse rico, muito bem, eu seria, sim, seria alguém.
Faria a casa grande, e toda gente olhava sorrindo para mim.
Um bom telhado e chão de madeira, sim.
Ela teria escadaria para subir, outra só para descer,
Ae outra solta, só para se ver.
Teria em meu quintal galinhas, perus e patos e gansos a cantar;
a cidade toda a escutar,
ouvindo um qué qué qué e cocorecó, tal qual a trombeta em Jericó,
dizendo um homem rico mora aqui. (Suspira.)
Se eu fosse rico, (dança)
dague, digue, dague, digue, dague, digue, digue dem,
todo dia tudo, tudo bem, eu até seria alguém.
Que trabalho leve eu teria todo dia, pois o dia vai e vem,
se eu fosse rico, muito bem, eu seria, sim, seria alguém.
Veria minha Golda toda enfeitada como esposa de um rei,
e mandando como já faz tão bem.
Veria Golda sorrindo e tagarelando, oh, como está o meu amor,
a gritar com os servos, que horror!
Veria os homens mais notáveis da cidade a chegar.
Eu daria meu conselho como um sábio a falar.
‘Por favor, Reb Tevye, desculpa, Reb Tevye’,
com problenas de envesgar a qualquer um.
‘Blá blá blá blá blá blá blá blá’
E ninguém faria questão que eu respondesse certo ou não.
Todo rico é sempre um Salomão.
Se eu fosse rico poderia ficar lá na sinagoga a rezar.
Eu ia ler as leis do meu bom Senhor
e com os sábios aprender a Torá sagrada, até saber de cor. (Suspira.)
Para mim seria o bem maior.
Se eu fosse rico (dança)
dague, digue, dague, digue, dague, digue, digue, dem.
Todo dia tudo, tudo bem. Eu até seria alguém.
Que trabalho leve eu teria todo dia, pois o dia vai e vem.
Deus, fizeste a corça e o leão, decidiste que eu seria assim.
Mas um dinheirinho era bom que eu tivesse para mim.”

(Aparecem o estalajadeiro, Mendel, Avram e outros.)

PARTE FALADA

ESTALAJADEIRO: – Ah… Aí está ele! Atrasaste minha encomenda para o Sabá!

TEVYE: – Reb Mordcha, tive um pequeno acidente com meu cavalo.

MENDEL: – Tevye, atrasaste a encomenda do Rabbi.

TEVYE: – Eu sei, Reb Mendel.

AVRAM: – Tevye, atrasaste minha encomenda para o Sabá!

TEVYE: – Notícia mais importante que a epidemia em Odessa.

AVRAM: – Por falar em notícia, há terríveis notícias correndo pelo mundo aí fora.

ESTALAJADEIRO: – Que notícias?

AVRAM: – Numa aldeia chamada Rajanka, todos os judeus foram expulsos, forçados a deixar suas casas…

(Todos olham uns para os outros. O mendigo passa, gesticulando, pedindo)

MENDEL: – Mas, por que?

AVRAM: – Não foi explicado. Talvez o Czar quisesse suas terras… talvez fosse uma epidemia.

ESTALAJADEIRO: – Tomara que o Czar tenha uma epidemia só para ele.

TODOS: – Amém!

MENDEL (para Avram): – Por que nunca nos trazes uma notícia boa?

AVRAM: – Foi o que eu li. Era um decreto das autoridades.

ESTALAJADEIRO: – Pois tomara que as autoridades tenham uma coceira em lugares impossíveis de alcançar para coçar.

TODOS: – Amém.

PERCHIK: – Por que estais aí praguejando? Que adianta? Ficais girando em torno do assunto, reclamando e conversando até a morte.

MENDEL: – Êi, tu não és daqui.

PERCHIK: – Sou de Kiev. Estudava na Universidade de lá.

ESTALAJADEIRO: – Foi onde aprendeste a criticar os mais velhos?

PERCHIK: – Foi onde aprendi que há muitas coisas que precisamos saber sobre o mundo lá fora.

TEVYE: – Eles têm razão e tu tens razão.

ESTALAJADEIRO: – Ah, ele tem razão? Muito boa essa. Adeus, Tevye. Bom Sabá.

AVRAM e os outros (cada um levando sua encomenda): – Bom Sabá, Tevye.

MENDEL: – Tevye, a encomenda do Rabbi. Meu queijo.

TEVYE: – É claro. Então Perchik, és um recém-chegado. Como disse Abraão, “sou um estranho em terra estranha”.

MENDEL: – Foi Moisés quem disse isso.

TEVYE: – Perdão. Como disse o rei Davi, “sou lerdo de fala e lerdo de língua”.

MENDEL: – Isso também foi Moisés que disse.

TEVYE: – Para uma pessoa lerda de língua, ele até que falava muito.

MENDEL: – E o queijo?

TEVYE (vendo Perchik olhar esfomeado para o queijo): – Toma um pedaço.

PERCHIK: – Não tenho dinheiro e não sou mendigo.

TEVYE: – Toma. É uma bênção para mim poder dar.

PERCHIK: – Está bem, aceito. (Ele devora o queijo.) Vai chegar o dia em que a riqueza dos ricos vai passar para nós, os pobres.

MENDEL: – E quem vai conseguir esse milagre?

PERCHIK: – Gente, gente comum, como eu.

MENDEL: – Absurdo!

TEVYE: – E enquanto não chegarem esses tempos dourados, Reb Perchik, como vais viver?

PERCHIK: – Dando aulas para crianças. Tu tens filhos?

TEVYE: – Tenho cinco filhas.

PERCHIK: – Meninas também precisam aprender. Meninas são gente.

MENDEL: – Um radical…

PERCHIK: – Gostaria de ensiná-las. Abrir suas cabeças para grandes idéias.

TEVYE: – Sou um homem muito pobre… Comida em troca de aulas? (Perchik concorda com a cabeça.) Está bem. Fica conosco para o Sabá. Não comemos como reis, mas também não passamos fome.

MENDEL: – Bom Sabá!

TEVYE e PERCHIK: – Bom Sabá.

(Mendel se retira. Os outros dois entram na casa.)

 

 

Cena 3

Dentro da casa de Tevye. Tevye e Perchik entram.

 

TEVYE: – Bom Sabá, minhas filhas.

FILHAS (correndo para ele): – Bom Sabá, Papai.

TEVYE: – Filhas, este é Perchik. Perchik estas são minhas filhas. (beijando-as) Esta, esta, esta, esta, esta, es… (quase beija Motel que vem entrando) Este não é meu, Perchik. Este é Motel Kamzoil.

GOLDA (entrando): – Então fizeste o favor de entrar.

TEVYE: – Esta também é minha. Golda, este é Perchik, de Kiev. Ele é professor. (para Shprintze e Bielke) – Quereis ter aulas com ele?

PERCHIK: – E sou mesmo um bom professor… Um professor excelente.

HODEL: – Ouvi dizer que o Rabbi que se gaba de si mesmo tem uma congregação de um só fiel.

PERCHIK: – Tua filha tem uma língua afiada e engraçada.

TEVYE: – A graça ela herdou de mim. Diz a Escritura Sagrada…

GOLDA: – A Escritura espera. Trata de ir lavar as mãos.

TEVYE: – E a língua ela herdou de sua mãe.

(Tevye começa a rezar em voz baixa.)

GOLDA: – Tevye, tenho um recado…

TEVYE: – Shhh… Não vês que estou rezando? (Reza.)

GOLDA: – Lazar Wolf quer ver-te. Disse que é importante. Depois do Sabá…

TEVYE: – Não tenho nada para conversar com esse açougueiro. (Reza.) Se ele pensa em comprar minha vaca leiteira nova (reza…) pode ir tirando essa idéia da cabeça. (Reza…)

GOLDA: – Não sejas tonto. É um recado importante. Vai lá falar com ele.

TEVYE: – Está bem. Depois do Sabá.
(Ele e Golda saem, ele ainda rezando. As meninas arrumam a mesa.)

TZEITEL: – Motel, Yente esteve aqui. Se ela arranja um noivo para mim, vai ser tarde demais para nós.

MOTEL: – Eu vi Yente com tua mãe. Mas não te preocupes. Achei alguém que quer vender sua máquina de costura usada, e em poucas semanas economizo o suficiente para comprá-la, e aí teu pai vai ter boa impressão de mim.

TZEITEL: – Mas, Motel, poucas semanas é muito tempo. Tens de me pedir em casamento hoje mesmo a meu pai.

MOTEL: – Mas vou causar péssima impressão: um pobre alfaiate, sem máquina de costura…

TZEITEL: – E eu não sou mais que a filha de um pobre leiteiro. Fala com meu pai!

TEVYE (entrando): – Onde está todo mundo? Já é tarde.

MOTEL: – Reb Tevye…

TEVYE: – Sim, meu filho, que foi?

MOTEL (tentando criar coragem): – Reb Tevye…

TEVYE: – Sim, Motel, que foi? Fala!

MOTEL: – Bom Sabá, RebTevye. (Tzeitel fica desapontada.)

TEVYE: – Bom Sabá a todos. Filhos, todos em torno da mesa!

(A família, Motel e Perchik se reúnem em volta da mesa. Golda acende o castiçal. Ela reza em voz baixa.)

 

PARTE CANTADA

GOLDA e TEVYE (há um coro por trás cantando em “hum…”):
“Que o Senhor vos guarde e defenda, sempre vos proteja do mal.
Que em Israel o vosso nome seja luz.”
“Com o amor de Esther e de Ruth, ides merecer só louvor.
Que vos dê coragem o Senhor, o Protetor… Hum…………..”
TEVYE e CORO:
“Longa vida conceda a vós…”
GOLDA:
“… ouça nossa prece do Sabá por vós!”
GOLDA e CORO:
“Sede boas esposas e mães!”
TEVYE:
“Deus vos dê maridos amorosos, bons!”
MULHERES e GOLDA, HOMENS e TEVYE:
“Que o Senhor vos guarde e defenda, que Ele vos preserve da dor.
Dá-lhes, ó Senhor… ”
HOMENS e TEVYE:
“… a paz e muito amor…”
MULHERES e GOLDA:
“… a paz também!”
TODOS ELES:
“Escuta nossa prece! Amém.”

 

(continua)

 

Havendo interesse em representar a peça, enviaremos o texto completo em PDF. A escola deve solicitar pelo email: institutoruthsalles@gmail.com
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